para uma crítica ao regionalismo crítico


Se não podes mudar o lugar, muda a arquitectura.

Architecture & Design Film Festival

Buildings on the Big Screen, Martin Filler

jungle fever


[Fitzcarraldo, Werner Herzog, 1982]


The jungle is obscene. Everything about it is sinful, for which reason the sin does not stand out as sin.

The Jungle is Obscene, Werner Herzog

henry's dream

Provavelmente um dos conceitos mais plásticos com que se pensa o mundo será o conceito de natureza. Porque sujeito à evolução do conhecimento que, pela ciência, se vai adquirindo do mundo, é a natureza, a representação da natureza, a exacta medida desse conhecimento. Os artefactos da civilização contrastam com a natureza, na invenção romântica da natureza, deles extraindo, os românticos, leituras morais, de uma luta entre o bem e o mal, declinando metáforas da dominação das forças da natureza pela vontade humana. O maior artefacto da civilização será a cidade. E é a cidade a evidência do confronto mítico do homem contra a natureza, inscrito na irreprimível lei da sobrevivência. Não se trata de extrair do fracasso de Fordlandia um exemplo da incapacidade humana diante da força da natureza incontrolável, combate tão antigo quanto a expulsão do paraíso, nem, tão pouco, da invenção dessa morada paradisíaca na Terra. Se a natureza se revela na potência precisa com que ocupa o vazio, Fordlandia é o espaço impreciso em que a arquitectura e a paisagem se denunciam.
A iniciativa de Henry Ford, a invenção de uma cidade americana no meio da floresta, pouco terá de poética. O símbolo da verticalidade produtiva do método Ford, do taylorismo totalitário que se ocupasse não apenas do controlo do homem mas também da natureza, seria um éden estruturado a partir do american way of life ao qual todos os indivíduos poderiam aceder. Como o mundo de Norman Rockwell dentro da Amazónia, o bem-estar americano de alcance universal.
A imitação de uma cidade americana, na sua estrutura arquitectónica e social - ruas largas equipadas com hidrantes, shingle-houses com água quente, frigorífico e todo o tipo de comodidades do modelo industrial americano, cinema (desenvolvido por Thomas Edison, amigo de Ford), department stors e serviços comunitários organizados em torno da ideia da eficácia produtiva – do controlo social como ideia do progresso, tangível e ao alcance de qualquer indivíduo em qualquer contexto e condição.
Evidentemente que são múltiplas as linhas de leitura desta experiência: o fracasso económico da verticalização e concentração da produção; o equívoco social de obrigar populações nativas a dançarem jazz ao sábado à noite, a alimentarem-se de sopas Campbel’s, a possuírem frigoríficos na cozinha, o índio como um all american boy; a ruína do idealismo arrogante e totalitário da era da máquina como proposta única da existência individual e colectiva; a dissolução de um sonho, trágico, do positivismo individualista.
Em tudo as consequências ruinosas desta experiência remetem para um outro fracasso, o do urbanismo modernista, ainda que este sustentado em pressupostos ideológicos opostos.
Há uma poética, admita-se, nesta ruína de uma utopia na selva. Ou esta poética, da construção desta ruína, seja o único legado possível de qualquer utopia assim que revela a sua verdadeira natureza: o desprezo pelo Homem.

brasília

Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas de digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri,um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos; eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. – Esperei pela noite, noite veio, percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse, eu seria vista. O que me apavora é: é vista por quem? – Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construções com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete nos jornais. – Aqui eu tenho medo. – Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Mamãe, está bonito ver você de pé com esse capote branco voando (É que morri, meu filho). – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria pra onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. – Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. – Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... – Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. – É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la.


Brasília, Clarice Lispector

[Brasília, René Burri]

lagoa#2



[Hospital da Lagoa, Oscar Niemeyer, 1958]

lagoa


A casa que um arquiteto projeta para ele mesmo em geral pode ser considerada uma manifestação das suas aspirações, uma espécie de testemunha, um confissão dos seus pecados, uma halografia em que não se pode apenas examinar o texto visível, mas graficamente delinear os motivos secretos do texto e as raízes profundas da inspiração do poeta.


Oscar Niemeyer in Architectural Review, 1954






[Casa da Lagoa, Oscar Niemeyer, Rua Carvalho de Azevedo,  Rio de Janeiro, 1942]

street life


[Rua do Jardim Botânico, Rio de Janeiro]

Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo.*


[Brasilia, René Burri]


No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
(ele não fez de pedra
nossas casas:
faz de asa).

No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida.

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular).

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com a matéria dura:
o ferro o cimento a fome
de humana arquitetura.

Nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do ovo.
-Oscar nos ensina
que a beleza é leve.


[Lição de arquitetura - para Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar]


*Clarice Lispector

mil sambas


[Blame it on Lisa, The Simpsons, 2002]


O estereótipo tem a vantagem de não exigir esforço ao pensamento. Numa sociedade em que a imagem têm um poder estrutural, com vantagem, rapidez e facilidade, se faz uso do estereótipo potenciado pelo poder da circulação infinita das imagens. A profusão de equívocos vai adquirindo substância de realidade.
O cinema, como produtor de sentido das relações espaciais, usa as relações intrínsecas entre o espaço e a sociedade, a paisagem e a identidade, ressignificando estas ideias, até com alcance geopolítico, dada a circulação das imagens. O Rio de Janeiro, por exemplo, como ícone, adquire o sentido genérico da brasilidade esvaziando-a na singularização do Cristo Redentor ou do Pão de Açúcar, da exuberância carnavalesca ou na sexualidade descontrolada.



O episódio dos Simpsons Blame it on Lisa faz uso da irradiação do clichet como ponto de vista de uma família de classe média americana. E nesse sentido pode ser a crítica ao estereótipo, que é o conhecimento, o ponto de vista, dessa família face a uma realidade concreta. Mas é tanto equívoco esse olhar na medida proporcional do erro que propaga. Tanto quando o incidente diplomático que à época quase gerou.

Cidade Maravilhosa cheia de cantos mil
Cidade Maravilhosa coração do meu Brasil
Cidade Maravilhosa cheia de cantos mil
Cidade Maravilhosa coração do meu Brasil
Berço do samba e das lindas canções
que vivem na alma da gente
és o altar dos nossos corações
que cantam alegremente
Jardim florido de amor e saudade
terra que a todos seduz
que Deus te cubra de felicidade
ninho de sonho e de luz

[Cidade Maravilhosa, André Filho, Aurora Miranda, 1935]


A obras de urbanização tuteladas por Pereira Passos no início do séc. XX, com vista a higienização da cidade e erradicação das favelas que já existiam, que toma como modelo a iluminada Paris da belle-epóque, introduz no imaginário popular a designação de Cidade Maravilhosa, por contraponto à cidade da morte assolada pelas epidemias. Simbolicamente paralela ao painel monumental que anuncia uma nova urbanização em Los Angeles – Hollywood – a expressão Cidade Maravilhosa adquire contornos de mantra de alcance internacional.
Desde o início do cinema que o Rio de Janeiro se torna uma poderosa fonte de iconografia e fantasia. Ideias e narrativas sobre o espaço que contradizem a própria realidade. James Bond aterra no Rio no Concord e a explosão da sexualidade, Ingrid Bergman e Cary Grant que se beijam numa varanda sobre Copacabana e a natureza da paisagem, Carmen Miranda e o exotismo tropical.


O meu pensamento voa
Me leva ao infinito
Vou girando meu compasso
Passo a régua e mudo o traço
Fazendo o Rio ficar mais bonito
Botei tudo abaixo (botei)
Levantei poeira (levantei) (bis)
Dei muita porrada (eu dei)
Taí o Rio que sonhei
O carioca...
Ah!... O carioca está contente
A alegria bailou no ar
Gozando de boa saúde, muda de atitude
O esporte já pode praticar
No jogo de bola (com muito prazer)
O banho de mar (se tornou lazer) (bis)
Fiz brilhar...
Pintei meu Rio com retrato de Paris
Com a cidade iluminada
O carioca tem a noite mais feliz
Mostrando ao mundo a riqueza nacional
Meu Rio agora é Belle Époque tropical
A burguesia me levou ao Teatro Municipal
Berço de boêmios seresteiros
Fervilham os bares do meu Rio de Janeiro
Amanheceu...
Amanheceu, floresceu um novo dia
Vou passear, extravasar minha alegria
De bem com a vida eu tô ô ô ô...
É lindo o meu carnaval
E hoje o Rio se tornou cartão postal
Lá vem a Ilha que vem
Toda gostosa também (bis)
Cantando o Rio, cidade maravilhosa

[Cidade Maravilhosa - Sonho de Pereira Passos, Roberto Szanieck, 1997] 

A profusão das imagens é tão forte quanto são os próprios cariocas (o Zé Carioca como também ele arquetípico modo de se ser do Rio de Janeiro), que se confundem, e à sua história, com esta invenção audiovisual. Tornando-a realidade.
O turismo e a circulação destas imagens são o alimento da representação ‘do outro’ e de próprias auto-representações, via novelas da Globo e filmes como a Cidade de Deus. Só e experiência concreta poderá resolver os equívocos representativos que a produção das imagens e as relações polissémicas que delas resultam entre a cultura, a paisagem e o território. Se o(s) poder(es) não adulterarem simbolicamente as imagens, como preferem fazer na campanha promocional dos Jogos Olímpicos de 2016, através da manipulação e obliteração da realidade.

imitação das cidades




Atrasado, chego a este depoimento do El País, Lisboa, la capital del vacío. Enquanto o vereador Salgado vai enunciando as causas do vazio lisboeta, sem novidade ou notícia, propõe, em remate, um futuro feito de Erasmus. As causas e as implicações desta política são óbvias, ainda que não evidentes.
Se, como assegura o jornalista, apesar da decadência a Lisboa señorial ainda mantém la belleza de la ciudad, esta esperança deve-se não tanto ao cuidado com a construção humana mas mais con sus siete colinas y el río Tajo omnipresente, que sigue siendo un poderoso imán para el visitante extranjero.
A terciarização acelerada, a especulação imobiliária – essa promessa nineties de rentabilidade e segurança – instrumentos jurídicos e fiscais inadequados, políticas erradas e demagógicas na sua retórica mas sustentadas pela maior selvajaria do mercado menos regulado do nosso pobre-tardo-capitalismo-socialista, povoaram Lisboa de espectros. A Baixa entregou-se ao abandono do vazio ao ritmo imposto pelo recuo das sedes sociais das instituições, outrora sólidas, que as ocupavam - restam alguns ministérios, por ironia o poder que tem tido menos relevância na crise que atravessamos. O comércio ressentiu-se, por actos e omissões, ainda para mais quando é duvidosa a vocação da Baixa como área habitacional. Quem diz Baixa diz o eixo que se desenvolve pela Av. da Liberdade, Av. da República, até ao Campo Grande. O afastamento das classes médias do centro da cidade, tanto pelas razões acima aludidas quanto pela promoção de uma cultura do individualismo automobilístico, do deslumbramento pela ‘casa nova’, enformaram a cidade à imagem de um donut: um imenso buraco ao centro.
A proposta Erasmus do vereador Salgado, ou um tipo de políticas fora da contextualização de uma rede de cidades regionais e globais, mais não servirão que paliativos à grave enfermidade que experimentam hoje as cidades. Mais a mais, sendo a condição urbana em Portugal resultante do êxodo rural do pós-guerra e não uma experiência cultural e historicamente consolidada, tornam-se ainda mais frágeis e incompreensíveis este tipo de políticas urbanas. Erasmus, ou capital mundial de congressos, ou a aposta no turismo, tudo hipóteses que pretendem aproximar a cidade de Lisboa aos fluxos globais de capital que têm determinado o crescimento explosivo das cidades e, paradoxalmente, a degradação da condição urbana global.
Os fluxos de capitais são, por definição, predatórios das cidades porque desterritorializados: uma companhia fixa-se em determinada cidade, aluga uns escritórios anónimos numas torres de simbolicamente poderosas e, quando caso disso, deslocalizaliza-se para outra partida do mundo em que a rentabilidade e segurança sejam melhor asseguradas.
O que este tipo de soluções nos diz é apenas da natureza da localização geográfica de Lisboa: bom clima, porta de entrada na Europa, cruzamento intercontinental. Nada nos diz do que poderá ser Lisboa num contexto europeu e global.
Resulta daqui a construção de uma cidade para o passar, não para o estar, menos ainda para o ser. Porque as relações e os vínculos sociais são os que directamente fixam o desenho urbano e, ao mesmo tempo, dessa materialização se desenvolvem, porque a cidade é, por definição da polis democrática, o lugar da emancipação individual sem a sujeição a uma superestrutura ditada pelo poder. O sujeito deste tipo de políticas urbanas é um sujeito nómada, que está na cidade sem estar. A casa deste sujeito reveste-se de um carácter excluído do habitar, cheia de artefactos leves e banalizados.
E, ainda no contexto de perda de poder pela política e de predação do mercado global, geram-se equívocos que danificam inexoravelmente a ordem do que é público e do que é privado. As parcerias público-privadas, mais não serão que o expediente com que o enfraquecido poder político, na ansiedade de realizar agora rendimentos que serão pagos no futuro, cede parcelas do espaço público a entidades privadas através de mecanismos muitas vezes fora da legalidade e, muito menos, da legitimidade democrática, sendo esta a maior e mais nefasta evidência da quebra do vínculo democrático entre o cidadão e o espaço da cidade.
Na era digital a reconfiguração do espaço público e das cidades é um fenómeno global, veloz e em permanente mutação. Só daqui se pode defender a cidade.

cadernos do subterrâneo


Zezão


A experiência urbana, como experiência cultural, não sobrevive apenas pelos monumentos que se vão erguendo e que pontuam o território físico e simbólico da cidade. A memória, o registo dessa experiência, prolonga-se através da relação íntima do cidadão com o lugar que este ocupa, quer na comunidade, polis, quer na cidade, urb.
O grafiti como expressão comunitária do diálogo do cidadão com a cidade, desdobra-se tanto em elemento de linguagem, de comunicação, quanto de debate com os elementos físicos e culturais constitutivos da cidade.
A atribuição ao espanto diante do fenómeno da vida e da morte a origem da arte, pelas pinturas rupestres em cavernas resguardadas dos humanos e acessíveis aos espíritos, e o vínculo à cidade por parte do cidadão através da apropriação do espaço, são traços do trabalho de Zezão.
A São Paulo subterrânea ou das ruínas, das galerias de esgotos e drenagens vedadas ao quotidiano, da decrepitude das infra-estrutura. Sem que seja labirinto de batalha ideológico ou frívola estetização da ruína e da obsolescência, apenas a feerie urbana.
Uma outra vida das coisas, um outro território de nomes e sombras.

da sedução


[Casa das Canoas, Oscar Niemeyer, 1953]


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.




[A Mulher e a Casa, João Cabral de Melo Neto]

da vida de Le Corbusier


Le Corbusier


A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.




[Fábula de um arquitecto, João Cabral de Melo Neto]

super regionalismo crítico



Poderá o anti-regionalismo-crítico incorrer num equívoco, paradoxal, diria, ao afirmar-se, assim, sem peias, como sói dizer-se, que a crítica ao lugar é externa à própria arquitectura. Percebo a generosidade, ou melhor, o desejo. Recentrar a disciplina, nesta época centrífuga, às matérias que lhe são, perdão, ontologicamente constitutivas. Que matérias, que categorias, serão essas de exclusiva interpretação pela arquitectura?
O paradoxo residirá na própria compreensão (crítica) do que será esse genius loci, ou esse lugar, que, via regionalismo crítico, se expõe como matéria a partir da qual a arquitectura se poderá inventar. Porque ao invés desse lugar ser um fardo de palha a ruminar, palha seca, pesada, já enformada, cristalizada, para alimento bovino, pode ser que se compreenda o lugar à luz dos movimentos que se vão cruzando em cada lugar. Lentos, os arcaicos, velozes, os contemporâneos.
A ideia de um lugar fixado no consciente ou inconsciente, um lugar mítico, serve e se serve de um uso ideologicamente atávico e arcaico e medroso e mesquinho da compreensão do mundo e da arquitectura. E é uma construção mental tão mais equívoca quanto a natureza dos lugares é da ordem do movimento e do cruzamento, da apreensão do outro e da aculturação do diverso, da apropriação do desconhecido e da reinvenção pragmática do conhecido.
É bonita e generosa, claro, essa ideia de uma arquitectura que nos sirva em Lisboa ou no Rio de Janeiro, em Paris (noTexas), ou em Teerão. O homem e as suas circunstâncias: sendo que as suas circunstâncias serão, justamente, diversas e múltiplas e em permanente desdobramento na sua colisão com o mundo. A reinvenção da culinária italiana depois de Marco Polo, a Batalha depois de Charters, o manuelino depois de Vasco da Gama, Lúcio Costa depois de Le Corbusier, Siza Vieira depois dos brasileiros. E sejamos unânimes, a arquitectura sempre foi um fenómeno global: vive das trocas e dos encontros, do entendimento e do desentendimento, da liguagem, ou dialecto, do outro.

Um exemplo:
da periferia portuguesa, resguardada por uma barragem ideológica, ainda assim se chegou ao modernismo, a um tardo-modernismo. Depois do Inquérito de 48, depois do esforço de Távora, e que se lança ao mundo quando o mundo se lançava já no pós-modernismo. E pelo meio, o repertório brasileiro do Estilo Internacional que é avidamente acolhido pelos arquitectos portugueses via Brazil Builds (1943). É justamente este catálogo da exposição em Nova Iorque que sugere aos portugueses uma via de acesso à modernidade. E aqui, precisamente neste e a partir deste volume, que fixa a via tropicalista da modernidade, que se percebe a incorporação de elementos da tradição colonial, formal e ideologicamente, reinventados a partir do modernismo corbusiano.
Lúcio Costa, ingenuamente, sustentava essa tradição colonial (uma ética construtiva, princípios tectónicos), como o princípio de uma identidade local por oposição ao ecletismo importado beaux-arts que dominava o princípio do séc. XX brasileiro. Tese discutível, talvez, e que talvez diga mais de Lúcio Costa, entre o balanço da modernidade e a herança da tradição, que propriamente dos vínculos entre o vernáculo brasileiro e o vernáculo português. Mas, no meio de muita ignorância, por fé vamos crer nesse laço, e daí resultará que ao acederem a Brazil Builds, os arquitectos portugueses acederam a uma vida da modernidade que de forma inesperada corresponderia à sua própria tradição, resgatada do regionalismo ideológico imposto pelo regime de então. A tese é a de Ana Vaz Milheiro (A construção do Brasil: Relações com a Cultura Arquitectónica Portuguesa).

Ou de como o regionalismo-crítico pode ser o resgate dos movimentos culturais ocultados pelo tempo e pelos usos, a re-descoberta do significado das coisas, a re-significação das coisas, sem ser necessariamente atávico ou reaccionário, por oposição a um mítico, também ele, internacionalismo arquitectónico. E se há matéria que seja constitutiva da arquitectura é precisamente a cultural.

naturalmente que é um discurso um tanto romântico



Paulo Mendes da Rocha, futebol, muita construção, alguma arquitectura e um milagre.

clean-modernista-brasileiro-redivivo#3


[Casa Mirindaba, StudioMK27 - Márcio Kogan]


Não terão, com certeza, qualquer relevância as atribuições da imprensa marketeira àquilo que a arquitectura vai produzindo. De equívocos está o mercado cheio. Koolhaas bem o sabe, melhor o faz, e propõe que a própria ideia de mercado, ou antes, a ideia de uma sociedade de fluxos mercantis, da economia à cultura, da finança à arte, seja a própria ideia da arquitectura. Não a ideologia, isso seria ser cínico, e Koolhaas não o é. Mas retomando, por exemplo, o trabalho de Márcio Kogan mais de perto, talvez ele tenha apreendido a lógica Koolhaas e a use na manipulação de um imaginário modernista que povoa a burguesia e alta burguesia paulista.
Se o resultado é a forma destituída de valor - pode-se dizer, semiótico, sem qualquer adesão a alguma leitura da realidade, se essa mesma realidade a achamos hoje informe, constituída de fluidez e do movimento que fragmenta o sujeito em acasos e derivas – ela, a forma, (e aqui uso forma decorrente de um discurso da arquitectura, que não é o da arte, com explicitou Matta-Clark), a forma de Márcio Kogan é herdeira directa da forma modernista brasileira, na sua aparência mas, justamente, destituída de qualquer qualidade intrínseca que a constituísse, como, digamos, o funcionalismo.
Talvez a minha confusão seja essa mesmo, a da leitura de um espaço liso, que anuncia o movimento fluido e informe, o nomadismo, no dizer deleuziano, sobreposto ao sedentarismo e a legibilidade da geometria dura da forma, o espaço estria. O que não deixa de ser uma forma de inteligência. Perante o cliente, o mercado, e os impasses que, paradoxalmente, transportamos nesta dita hiper-modernidade.

clean-modernista-brasileiro-redivivo#2


[Residência no City Boaçava, MMBB, 2005]

Mas há um lamentável equívoco, outro, neste transporte do modernismo glorioso do Brasil JK para os dias de hoje. Ainda que se desenhem por aí paralelas entre Lula e Getúlio Vargas, ambos coincidentes na demagogia na verdade, o mesmo, entre a década de desenvolvimento do Brasil moderno e a realidade hediorna, é pura manipulação ideológica e intelectual.
O furto ideológico aparece aqui como colagem, demagógica e marketeira, da actual produção arquitectónica brasileira – a mediatizada, evidentemente – à era em que, de facto, a arquitectura brasileira seria a vanguarda dessoutra vanguarda modernista. Mas não quero parecer cínico.

clean-modernista-brasileiro-redivivo(*)(**)


[Casa Pacaembú, StudioMK27 - Márcio Kogan, 2006]

Percorrer o catálogo da nova arquitectura brasileira suscita-me a dúvida: é o desejo de liberdade o tema com que se constrói esta arquitectura ou a abundância de espaço permite ao corpo ser num lugar de possibilidade ilimitada e incontrolada?
A ilusão, aparência sem experiência, é a de espaços resolvidos apenas pela escala e pela frieza geométrica artificiosa; a domesticidade que se alarga ao território, abre-se à natureza, um luxo que se torna mensurável pela quantidade de espaço aberto e de que se dispõe; uma correlativa ou compensadora, exagerada profusão de ‘materiais’ e ‘texturas’, paradoxalmente utilizados como intangíveis fronteiras dentro de cada compartimento.
É um desejo ou um desperdício equívoco?




*Expressão achada numa reportagem sobre Márcio Kogan.

**Redivivo: palavra que empreende um regresso a Herberto Helder, via José Tolentino Mendonça, reencontrada no Rio de Janeiro.

dark night of the soul*


[Steps, David Lynch]
via Ana Fay



Os passos, a fantasia, a memória, a passagem dos sentidos ao espírito, para o entendimento, no corpo.



*Dark Night of the Soul ou La noche oscura.

blue in green: labirinto da saudade



Rua do Século, Lisboa


Jazz, jazz, gostava muito de passear à noite por Lisboa, a ouvir jazz.

Manuel Graça Dias in Alice