lagoa


A casa que um arquiteto projeta para ele mesmo em geral pode ser considerada uma manifestação das suas aspirações, uma espécie de testemunha, um confissão dos seus pecados, uma halografia em que não se pode apenas examinar o texto visível, mas graficamente delinear os motivos secretos do texto e as raízes profundas da inspiração do poeta.


Oscar Niemeyer in Architectural Review, 1954






[Casa da Lagoa, Oscar Niemeyer, Rua Carvalho de Azevedo,  Rio de Janeiro, 1942]

street life


[Rua do Jardim Botânico, Rio de Janeiro]

Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo.*


[Brasilia, René Burri]


No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
(ele não fez de pedra
nossas casas:
faz de asa).

No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida.

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular).

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com a matéria dura:
o ferro o cimento a fome
de humana arquitetura.

Nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do ovo.
-Oscar nos ensina
que a beleza é leve.


[Lição de arquitetura - para Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar]


*Clarice Lispector

mil sambas


[Blame it on Lisa, The Simpsons, 2002]


O estereótipo tem a vantagem de não exigir esforço ao pensamento. Numa sociedade em que a imagem têm um poder estrutural, com vantagem, rapidez e facilidade, se faz uso do estereótipo potenciado pelo poder da circulação infinita das imagens. A profusão de equívocos vai adquirindo substância de realidade.
O cinema, como produtor de sentido das relações espaciais, usa as relações intrínsecas entre o espaço e a sociedade, a paisagem e a identidade, ressignificando estas ideias, até com alcance geopolítico, dada a circulação das imagens. O Rio de Janeiro, por exemplo, como ícone, adquire o sentido genérico da brasilidade esvaziando-a na singularização do Cristo Redentor ou do Pão de Açúcar, da exuberância carnavalesca ou na sexualidade descontrolada.



O episódio dos Simpsons Blame it on Lisa faz uso da irradiação do clichet como ponto de vista de uma família de classe média americana. E nesse sentido pode ser a crítica ao estereótipo, que é o conhecimento, o ponto de vista, dessa família face a uma realidade concreta. Mas é tanto equívoco esse olhar na medida proporcional do erro que propaga. Tanto quando o incidente diplomático que à época quase gerou.

Cidade Maravilhosa cheia de cantos mil
Cidade Maravilhosa coração do meu Brasil
Cidade Maravilhosa cheia de cantos mil
Cidade Maravilhosa coração do meu Brasil
Berço do samba e das lindas canções
que vivem na alma da gente
és o altar dos nossos corações
que cantam alegremente
Jardim florido de amor e saudade
terra que a todos seduz
que Deus te cubra de felicidade
ninho de sonho e de luz

[Cidade Maravilhosa, André Filho, Aurora Miranda, 1935]


A obras de urbanização tuteladas por Pereira Passos no início do séc. XX, com vista a higienização da cidade e erradicação das favelas que já existiam, que toma como modelo a iluminada Paris da belle-epóque, introduz no imaginário popular a designação de Cidade Maravilhosa, por contraponto à cidade da morte assolada pelas epidemias. Simbolicamente paralela ao painel monumental que anuncia uma nova urbanização em Los Angeles – Hollywood – a expressão Cidade Maravilhosa adquire contornos de mantra de alcance internacional.
Desde o início do cinema que o Rio de Janeiro se torna uma poderosa fonte de iconografia e fantasia. Ideias e narrativas sobre o espaço que contradizem a própria realidade. James Bond aterra no Rio no Concord e a explosão da sexualidade, Ingrid Bergman e Cary Grant que se beijam numa varanda sobre Copacabana e a natureza da paisagem, Carmen Miranda e o exotismo tropical.


O meu pensamento voa
Me leva ao infinito
Vou girando meu compasso
Passo a régua e mudo o traço
Fazendo o Rio ficar mais bonito
Botei tudo abaixo (botei)
Levantei poeira (levantei) (bis)
Dei muita porrada (eu dei)
Taí o Rio que sonhei
O carioca...
Ah!... O carioca está contente
A alegria bailou no ar
Gozando de boa saúde, muda de atitude
O esporte já pode praticar
No jogo de bola (com muito prazer)
O banho de mar (se tornou lazer) (bis)
Fiz brilhar...
Pintei meu Rio com retrato de Paris
Com a cidade iluminada
O carioca tem a noite mais feliz
Mostrando ao mundo a riqueza nacional
Meu Rio agora é Belle Époque tropical
A burguesia me levou ao Teatro Municipal
Berço de boêmios seresteiros
Fervilham os bares do meu Rio de Janeiro
Amanheceu...
Amanheceu, floresceu um novo dia
Vou passear, extravasar minha alegria
De bem com a vida eu tô ô ô ô...
É lindo o meu carnaval
E hoje o Rio se tornou cartão postal
Lá vem a Ilha que vem
Toda gostosa também (bis)
Cantando o Rio, cidade maravilhosa

[Cidade Maravilhosa - Sonho de Pereira Passos, Roberto Szanieck, 1997] 

A profusão das imagens é tão forte quanto são os próprios cariocas (o Zé Carioca como também ele arquetípico modo de se ser do Rio de Janeiro), que se confundem, e à sua história, com esta invenção audiovisual. Tornando-a realidade.
O turismo e a circulação destas imagens são o alimento da representação ‘do outro’ e de próprias auto-representações, via novelas da Globo e filmes como a Cidade de Deus. Só e experiência concreta poderá resolver os equívocos representativos que a produção das imagens e as relações polissémicas que delas resultam entre a cultura, a paisagem e o território. Se o(s) poder(es) não adulterarem simbolicamente as imagens, como preferem fazer na campanha promocional dos Jogos Olímpicos de 2016, através da manipulação e obliteração da realidade.

imitação das cidades




Atrasado, chego a este depoimento do El País, Lisboa, la capital del vacío. Enquanto o vereador Salgado vai enunciando as causas do vazio lisboeta, sem novidade ou notícia, propõe, em remate, um futuro feito de Erasmus. As causas e as implicações desta política são óbvias, ainda que não evidentes.
Se, como assegura o jornalista, apesar da decadência a Lisboa señorial ainda mantém la belleza de la ciudad, esta esperança deve-se não tanto ao cuidado com a construção humana mas mais con sus siete colinas y el río Tajo omnipresente, que sigue siendo un poderoso imán para el visitante extranjero.
A terciarização acelerada, a especulação imobiliária – essa promessa nineties de rentabilidade e segurança – instrumentos jurídicos e fiscais inadequados, políticas erradas e demagógicas na sua retórica mas sustentadas pela maior selvajaria do mercado menos regulado do nosso pobre-tardo-capitalismo-socialista, povoaram Lisboa de espectros. A Baixa entregou-se ao abandono do vazio ao ritmo imposto pelo recuo das sedes sociais das instituições, outrora sólidas, que as ocupavam - restam alguns ministérios, por ironia o poder que tem tido menos relevância na crise que atravessamos. O comércio ressentiu-se, por actos e omissões, ainda para mais quando é duvidosa a vocação da Baixa como área habitacional. Quem diz Baixa diz o eixo que se desenvolve pela Av. da Liberdade, Av. da República, até ao Campo Grande. O afastamento das classes médias do centro da cidade, tanto pelas razões acima aludidas quanto pela promoção de uma cultura do individualismo automobilístico, do deslumbramento pela ‘casa nova’, enformaram a cidade à imagem de um donut: um imenso buraco ao centro.
A proposta Erasmus do vereador Salgado, ou um tipo de políticas fora da contextualização de uma rede de cidades regionais e globais, mais não servirão que paliativos à grave enfermidade que experimentam hoje as cidades. Mais a mais, sendo a condição urbana em Portugal resultante do êxodo rural do pós-guerra e não uma experiência cultural e historicamente consolidada, tornam-se ainda mais frágeis e incompreensíveis este tipo de políticas urbanas. Erasmus, ou capital mundial de congressos, ou a aposta no turismo, tudo hipóteses que pretendem aproximar a cidade de Lisboa aos fluxos globais de capital que têm determinado o crescimento explosivo das cidades e, paradoxalmente, a degradação da condição urbana global.
Os fluxos de capitais são, por definição, predatórios das cidades porque desterritorializados: uma companhia fixa-se em determinada cidade, aluga uns escritórios anónimos numas torres de simbolicamente poderosas e, quando caso disso, deslocalizaliza-se para outra partida do mundo em que a rentabilidade e segurança sejam melhor asseguradas.
O que este tipo de soluções nos diz é apenas da natureza da localização geográfica de Lisboa: bom clima, porta de entrada na Europa, cruzamento intercontinental. Nada nos diz do que poderá ser Lisboa num contexto europeu e global.
Resulta daqui a construção de uma cidade para o passar, não para o estar, menos ainda para o ser. Porque as relações e os vínculos sociais são os que directamente fixam o desenho urbano e, ao mesmo tempo, dessa materialização se desenvolvem, porque a cidade é, por definição da polis democrática, o lugar da emancipação individual sem a sujeição a uma superestrutura ditada pelo poder. O sujeito deste tipo de políticas urbanas é um sujeito nómada, que está na cidade sem estar. A casa deste sujeito reveste-se de um carácter excluído do habitar, cheia de artefactos leves e banalizados.
E, ainda no contexto de perda de poder pela política e de predação do mercado global, geram-se equívocos que danificam inexoravelmente a ordem do que é público e do que é privado. As parcerias público-privadas, mais não serão que o expediente com que o enfraquecido poder político, na ansiedade de realizar agora rendimentos que serão pagos no futuro, cede parcelas do espaço público a entidades privadas através de mecanismos muitas vezes fora da legalidade e, muito menos, da legitimidade democrática, sendo esta a maior e mais nefasta evidência da quebra do vínculo democrático entre o cidadão e o espaço da cidade.
Na era digital a reconfiguração do espaço público e das cidades é um fenómeno global, veloz e em permanente mutação. Só daqui se pode defender a cidade.

cadernos do subterrâneo


Zezão


A experiência urbana, como experiência cultural, não sobrevive apenas pelos monumentos que se vão erguendo e que pontuam o território físico e simbólico da cidade. A memória, o registo dessa experiência, prolonga-se através da relação íntima do cidadão com o lugar que este ocupa, quer na comunidade, polis, quer na cidade, urb.
O grafiti como expressão comunitária do diálogo do cidadão com a cidade, desdobra-se tanto em elemento de linguagem, de comunicação, quanto de debate com os elementos físicos e culturais constitutivos da cidade.
A atribuição ao espanto diante do fenómeno da vida e da morte a origem da arte, pelas pinturas rupestres em cavernas resguardadas dos humanos e acessíveis aos espíritos, e o vínculo à cidade por parte do cidadão através da apropriação do espaço, são traços do trabalho de Zezão.
A São Paulo subterrânea ou das ruínas, das galerias de esgotos e drenagens vedadas ao quotidiano, da decrepitude das infra-estrutura. Sem que seja labirinto de batalha ideológico ou frívola estetização da ruína e da obsolescência, apenas a feerie urbana.
Uma outra vida das coisas, um outro território de nomes e sombras.

da sedução


[Casa das Canoas, Oscar Niemeyer, 1953]


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.




[A Mulher e a Casa, João Cabral de Melo Neto]

da vida de Le Corbusier


Le Corbusier


A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.




[Fábula de um arquitecto, João Cabral de Melo Neto]

super regionalismo crítico



Poderá o anti-regionalismo-crítico incorrer num equívoco, paradoxal, diria, ao afirmar-se, assim, sem peias, como sói dizer-se, que a crítica ao lugar é externa à própria arquitectura. Percebo a generosidade, ou melhor, o desejo. Recentrar a disciplina, nesta época centrífuga, às matérias que lhe são, perdão, ontologicamente constitutivas. Que matérias, que categorias, serão essas de exclusiva interpretação pela arquitectura?
O paradoxo residirá na própria compreensão (crítica) do que será esse genius loci, ou esse lugar, que, via regionalismo crítico, se expõe como matéria a partir da qual a arquitectura se poderá inventar. Porque ao invés desse lugar ser um fardo de palha a ruminar, palha seca, pesada, já enformada, cristalizada, para alimento bovino, pode ser que se compreenda o lugar à luz dos movimentos que se vão cruzando em cada lugar. Lentos, os arcaicos, velozes, os contemporâneos.
A ideia de um lugar fixado no consciente ou inconsciente, um lugar mítico, serve e se serve de um uso ideologicamente atávico e arcaico e medroso e mesquinho da compreensão do mundo e da arquitectura. E é uma construção mental tão mais equívoca quanto a natureza dos lugares é da ordem do movimento e do cruzamento, da apreensão do outro e da aculturação do diverso, da apropriação do desconhecido e da reinvenção pragmática do conhecido.
É bonita e generosa, claro, essa ideia de uma arquitectura que nos sirva em Lisboa ou no Rio de Janeiro, em Paris (noTexas), ou em Teerão. O homem e as suas circunstâncias: sendo que as suas circunstâncias serão, justamente, diversas e múltiplas e em permanente desdobramento na sua colisão com o mundo. A reinvenção da culinária italiana depois de Marco Polo, a Batalha depois de Charters, o manuelino depois de Vasco da Gama, Lúcio Costa depois de Le Corbusier, Siza Vieira depois dos brasileiros. E sejamos unânimes, a arquitectura sempre foi um fenómeno global: vive das trocas e dos encontros, do entendimento e do desentendimento, da liguagem, ou dialecto, do outro.

Um exemplo:
da periferia portuguesa, resguardada por uma barragem ideológica, ainda assim se chegou ao modernismo, a um tardo-modernismo. Depois do Inquérito de 48, depois do esforço de Távora, e que se lança ao mundo quando o mundo se lançava já no pós-modernismo. E pelo meio, o repertório brasileiro do Estilo Internacional que é avidamente acolhido pelos arquitectos portugueses via Brazil Builds (1943). É justamente este catálogo da exposição em Nova Iorque que sugere aos portugueses uma via de acesso à modernidade. E aqui, precisamente neste e a partir deste volume, que fixa a via tropicalista da modernidade, que se percebe a incorporação de elementos da tradição colonial, formal e ideologicamente, reinventados a partir do modernismo corbusiano.
Lúcio Costa, ingenuamente, sustentava essa tradição colonial (uma ética construtiva, princípios tectónicos), como o princípio de uma identidade local por oposição ao ecletismo importado beaux-arts que dominava o princípio do séc. XX brasileiro. Tese discutível, talvez, e que talvez diga mais de Lúcio Costa, entre o balanço da modernidade e a herança da tradição, que propriamente dos vínculos entre o vernáculo brasileiro e o vernáculo português. Mas, no meio de muita ignorância, por fé vamos crer nesse laço, e daí resultará que ao acederem a Brazil Builds, os arquitectos portugueses acederam a uma vida da modernidade que de forma inesperada corresponderia à sua própria tradição, resgatada do regionalismo ideológico imposto pelo regime de então. A tese é a de Ana Vaz Milheiro (A construção do Brasil: Relações com a Cultura Arquitectónica Portuguesa).

Ou de como o regionalismo-crítico pode ser o resgate dos movimentos culturais ocultados pelo tempo e pelos usos, a re-descoberta do significado das coisas, a re-significação das coisas, sem ser necessariamente atávico ou reaccionário, por oposição a um mítico, também ele, internacionalismo arquitectónico. E se há matéria que seja constitutiva da arquitectura é precisamente a cultural.

naturalmente que é um discurso um tanto romântico



Paulo Mendes da Rocha, futebol, muita construção, alguma arquitectura e um milagre.

clean-modernista-brasileiro-redivivo#3


[Casa Mirindaba, StudioMK27 - Márcio Kogan]


Não terão, com certeza, qualquer relevância as atribuições da imprensa marketeira àquilo que a arquitectura vai produzindo. De equívocos está o mercado cheio. Koolhaas bem o sabe, melhor o faz, e propõe que a própria ideia de mercado, ou antes, a ideia de uma sociedade de fluxos mercantis, da economia à cultura, da finança à arte, seja a própria ideia da arquitectura. Não a ideologia, isso seria ser cínico, e Koolhaas não o é. Mas retomando, por exemplo, o trabalho de Márcio Kogan mais de perto, talvez ele tenha apreendido a lógica Koolhaas e a use na manipulação de um imaginário modernista que povoa a burguesia e alta burguesia paulista.
Se o resultado é a forma destituída de valor - pode-se dizer, semiótico, sem qualquer adesão a alguma leitura da realidade, se essa mesma realidade a achamos hoje informe, constituída de fluidez e do movimento que fragmenta o sujeito em acasos e derivas – ela, a forma, (e aqui uso forma decorrente de um discurso da arquitectura, que não é o da arte, com explicitou Matta-Clark), a forma de Márcio Kogan é herdeira directa da forma modernista brasileira, na sua aparência mas, justamente, destituída de qualquer qualidade intrínseca que a constituísse, como, digamos, o funcionalismo.
Talvez a minha confusão seja essa mesmo, a da leitura de um espaço liso, que anuncia o movimento fluido e informe, o nomadismo, no dizer deleuziano, sobreposto ao sedentarismo e a legibilidade da geometria dura da forma, o espaço estria. O que não deixa de ser uma forma de inteligência. Perante o cliente, o mercado, e os impasses que, paradoxalmente, transportamos nesta dita hiper-modernidade.

clean-modernista-brasileiro-redivivo#2


[Residência no City Boaçava, MMBB, 2005]

Mas há um lamentável equívoco, outro, neste transporte do modernismo glorioso do Brasil JK para os dias de hoje. Ainda que se desenhem por aí paralelas entre Lula e Getúlio Vargas, ambos coincidentes na demagogia na verdade, o mesmo, entre a década de desenvolvimento do Brasil moderno e a realidade hediorna, é pura manipulação ideológica e intelectual.
O furto ideológico aparece aqui como colagem, demagógica e marketeira, da actual produção arquitectónica brasileira – a mediatizada, evidentemente – à era em que, de facto, a arquitectura brasileira seria a vanguarda dessoutra vanguarda modernista. Mas não quero parecer cínico.

clean-modernista-brasileiro-redivivo(*)(**)


[Casa Pacaembú, StudioMK27 - Márcio Kogan, 2006]

Percorrer o catálogo da nova arquitectura brasileira suscita-me a dúvida: é o desejo de liberdade o tema com que se constrói esta arquitectura ou a abundância de espaço permite ao corpo ser num lugar de possibilidade ilimitada e incontrolada?
A ilusão, aparência sem experiência, é a de espaços resolvidos apenas pela escala e pela frieza geométrica artificiosa; a domesticidade que se alarga ao território, abre-se à natureza, um luxo que se torna mensurável pela quantidade de espaço aberto e de que se dispõe; uma correlativa ou compensadora, exagerada profusão de ‘materiais’ e ‘texturas’, paradoxalmente utilizados como intangíveis fronteiras dentro de cada compartimento.
É um desejo ou um desperdício equívoco?




*Expressão achada numa reportagem sobre Márcio Kogan.

**Redivivo: palavra que empreende um regresso a Herberto Helder, via José Tolentino Mendonça, reencontrada no Rio de Janeiro.

dark night of the soul*


[Steps, David Lynch]
via Ana Fay



Os passos, a fantasia, a memória, a passagem dos sentidos ao espírito, para o entendimento, no corpo.



*Dark Night of the Soul ou La noche oscura.

blue in green: labirinto da saudade



Rua do Século, Lisboa


Jazz, jazz, gostava muito de passear à noite por Lisboa, a ouvir jazz.

Manuel Graça Dias in Alice

cidade sitiada


[Claricidade: A cidade segundo Clarice, Bia Albernaz, 2008]

Olhar para o chão: talvez a via única da vida, agora, seja desaprender.

horário político


[Contingente, Adriana Varejão, 2000 ]


A política cultural brasileira

Em Março deste ano, na abertura da II Conferência Nacional sobre Cultura que reuniu em Brasília cerca de três mil pessoas entre investigadores, professores universitários e centenas de delegados do Ministério da Cultura do Brasil (MinC), o presidente Lula da Silva marcou dois pontos altos no seu discurso. O primeiro foi dar a informação de que o orçamento do Ministério da Cultura para o ano corrente seria de 1 por cento do Orçamento Geral do Estado brasileiro, o que corresponde a 2,2 mil milhões de reais (quase 954 milhões de euros). É o maior orçamento da história deste ministério, inigualável em termos percentuais, quer em relação a outros países da América Latina, quer em relação à Europa ocidental. O outro ponto alto foi o anúncio de que, caso a candidata do PT, Dilma Rousseff, vencesse as eleições de amanhã, era certo que o orçamento para a cultura em 2011 subiria para 1,5 por cento do Orçamento Geral do Estado. Parte deste aumento dever-se-ia ao facto de o Governo brasileiro ter decidido que uma das cinco áreas de investimento a privilegiar com os recursos do pré-sal (exploração dos novos poços de petróleo) seria a da cultura.

É um facto que já estávamos em campanha eleitoral, razão para também estarem presentes nessa conferência a própria candidata e o ministro da Cultura, Juca Ferreira, mas o MinC confirma estes valores, embora também se afirme que até ao mês de Setembro a taxa de execução não tinha ultrapassado os 60 por cento.

Como e em que se traduz este orçamento? Corresponde a cerca de 0,7 por cento das receitas totais dos impostos da União. A este orçamento do Estado haverá que acrescentar cerca de 61,2 milhões de reais (26,5 milhões de euros), dinheiro proveniente da Petrobras, empresa petrolífera brasileira que funciona como um ministério paralelo e cujas verbas são doadas ao abrigo da Lei Rouanet (a lei do mecenato), cujo tecto este ano pode chegar aos dois mil milhões de reais (867 milhões de euros).

A estas verbas devem ainda ser acrescentadas as verbas para a Cultura de cada estado e de cada prefeitura (município), que são bastante desiguais e razão de alguns desequilíbrios de produção e difusão cultural. O Brasil, é sabido, vive um momento invulgar de crescimento económico e de protagonismo internacional que se reflecte em todos os sectores das actividades sociais. As actividades culturais e as artes também reflectem este momento histórico. Para tanto há que reconhecer o papel de uma sociedade civil dinâmica e criativa, da emergência de um mercado das artes nacional, que no eixo São Paulo-Rio-Belo Horizonte estimula uma produção continuada, e que os mesmos protagonismos e visibilidade têm repercussões na internacionalização desta criação, bem como na diplomacia cultural.

Boom no mercado das artes

Na semana da abertura da 29ª Bienal das Artes de São Paulo (começou a 25 de Setembro e termina a 12 de Dezembro), a imprensa anunciava que o mercado da arte vive um boom tal que se previa que nessa mesma semana 250 milhões de reais (108 milhões de euros) entrassem no Brasil através do mercado das artes visuais.

Novas galerias surgem a todo o momento. No início da década eram 50 no eixo principal Rio-São Paulo, hoje são 90. A música popular brasileira é escutada em todo o mundo: da China a Portugal; o cinema brasileiro está presente em festivais e em salas europeias e sul-americanas, bem como no próprio Brasil, onde hoje já vai sendo possível ver documentários em sessões da tarde nos cinemas do Rio e de São Paulo, apesar de ainda haver problemas de distribuição. Há festivais de teatro, de dança, de literatura - a FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) é uma referência mundial na área dos livros e da literatura; a moda e o design brasileiros são hoje exemplares para a moda e o design europeu e norte-americano; os artistas brasileiros são expostos nos museus londrinos, franceses, nova-iorquinos, as suas obras atingem valores recorde nos leilões de arte contemporânea. É de facto um momento singular para a cultura artística brasileira.

Como é que isto acontece? Pelo momento económico fortíssimo cuja crise, aliás, não afectou a economia brasileira. E no que diz respeito à diplomacia cultural e à criação interna, pelo estatuto positivo que a cultura ganhou nos governos do presidente Lula. Para tanto foi fulcral que o músico e cantor Gilberto Gil tivesse assumido a pasta da Cultura. Com Gilberto Gil - que não é do PT mas sim do Partido Verde e que já tinha experiência governativa em Salvador - a cultura ganhou uma dimensão simbólica fulcral no quotidiano das pessoas, ao mesmo tempo que ganhava peso político e orçamento. Muitas vezes criticado pela lentidão e pela complexa agenda de músico no activo e ministro, Gil conseguiu, contudo, impor a cultura como uma prática humana e social reconhecida pelo sector político e social, estruturou o Ministério da Cultura, criou legislação conforme às necessidades de uma política cultural programática, incluiu a cultura digital como prática artística reconhecida pelo MinC . Esteve atento às práticas culturais populares, fossem elas originárias dos subúrbios, do Nordeste ou dos índios. A cultura passou a ser tema de debate normal entre os brasileiros. Tendo deixado o ministério em 2008 sucedeu-lhe Juca Ferreira, que já trabalhava com Gil desde 2003.

Quem é Juca Ferreira? Um sociólogo - João Luiz Silva Ferreira - com uma carreira política que começou em 1968 como presidente dos estudantes do ensino secundário; foi duas vezes vereador em Salvador e é um político pragmático dotado de uma capacidade oratória excelente. Juca Ferreira, não tendo a aura do seu antecessor, continuou a sua política cultural e entretanto conseguiu reforçar o orçamento do MinC, reestruturar o Funarte (fundo nacional de arte responsável pelo apoio às artes), criou alguns sistemas de fiscalização dos subsídios e, mais recentemente, tornou realidade o desejado Instituto Brasileiro de Museus e colocou em discussão no congresso para aperfeiçoamento a Lei Rouanet (a já referida lei do mecenato) e a Lei dos Direitos de Autor, que pretende rever, considerando a complexidade introduzida pelo digital.

Ideias simples, mas eficazes

Um dos aspectos que mais tem consolidado a ideia de um ministério programático é um conjunto de iniciativas relativamente simples no formato, mas até ao momento bastante eficazes no que diz respeito à vontade de incentivar a diversidade cultural e de estimular a produção artística em todo o país. Trata-se da criação de estruturas elementares de fruição cultural e de difusão da mesma. Os mais populares são os Pontos de Cultura. São hoje cerca de 3800 dispersos por todo o país e compõem um mosaico de diferentes formas de expressão: teatro, dança, audiovisual, música, circo e cultura popular (mamulengo, folguedos, artesanatos, hip-hop, capoeira, maracatu, congado, folia de reis e bumba-meu-boi entre outras).

Os Pontos de Cultura desenvolvem distintas actividades: cineclubes, rádios comunitárias, espaços multimedia, mercados alternativos, centros de empreendedorismo, museus, bibliotecas, centros culturais, espaços culturais e de preservação do património histórico, núcleos de memória e centros de cultura digital. Nos últimos seis anos, no total, foram investidos pelo MinC cerca de 500 milhões (217 milhões de euros) em Pontos de Cultura de todo o Brasil. Depois há ainda 514 Pontos de Leitura que funcionam como pequenas bibliotecas em espaços de frequência popular (hospitais e centros de assistência social, por exemplo) e 281 Pontinhos de Cultura onde se desenvolvem acções para as crianças. Há também um forte investimento no audiovisual, que agora tem um fundo próprio, e um Observatório de Informação de Indicadores Culturais a funcionar em permanência. E uma das singularidades foi a criação do Vale Cultura - um vale mensal de 50 reais (quase 22 euros) que é dado às famílias cujo rendimento mensal não ultrapasse cinco salários mínimos (o salário mínimo é de 510 reais) -, uma medida de subsídio aos públicos.

Algumas destas iniciativas de pendor fortemente popular pretendem, segundo o ministro, colmatar aquilo que são as grandes diferenças existentes no Brasil relativamente ao acesso à cultura. Segundo dados fornecidos pelo próprio ministério, apenas 13 por cento dos brasileiros vão pelo menos uma vez ao cinema por ano, 92 por cento nunca entraram num museu, mais de 90 por cento dos municípios não têm sala de cinema, teatro, museus, centros culturais, 93,4 por cento dos brasileiros nunca viram uma exposição de arte. Esta assimetria tem justificado uma política cultural muito vocacionada para uma dimensão mais popular do acesso à cultura a que não é alheio o facto de o Governo ter uma matriz que se configura com o Partido dos Trabalhadores e de raiz sindicalista. Alguns sectores da cultura mais urbana e mais internacionalista têm reivindicado apoios mais estruturantes para áreas como a dança, o teatro, as músicas urbanas e a internacionalização cujos primeiros apoios começaram a ser legislados. Os trabalhadores da cultura e intelectuais reclamam ainda uma reforma da administração do MinC, que acusam de ser excessivamente burocrática e pouco ágil, o que não facilita a aplicação de instrumentos culturais tão importantes.

Na véspera da eleição do novo Presidente da República, que ao que tudo indica será Dilma Rousseff, existem grandes expectativas por parte da comunidade artística e das redes populares entretanto criadas. Porque se é um facto que nunca como até ao presente um governo brasileiro tinha atribuído um tão grande protagonismo ao Ministério da Cultura - o que fez com que primeiro Gilberto Gil e agora Juca Ferreira tenham ganho um tão grande peso no executivo e simultaneamente tenham adquirido um estatuto de figuras fundamentais para a reeleição do PT e do seu candidato -, o que vai fazer o PT, caso ganhe, agora que muitos outros partidos da futura coligação reivindicam esse ministério? E o que vai acontecer a esta figura singular, a este baiano de brinco na orelha direita que é o ministro da Cultura, Juca Ferreira, hoje uma das estrelas do Governo Lula? É um debate que está a acontecer paralelamente a uma das mais conseguidas bienais da história de São Paulo.


António Pinto Ribeiro, Público, 2.10.2010

minhocão

[Conjunto Habitacional da Gávea, Eduardo Affonso Reidy, 1954]


A palavra abre o mundo como a arquitectura escava a realidade, inventam e abrem, ambas, uma outra realidade (realidade outra). A transformação da realidade é também a transformação da língua. Daí que o modernismo tenha sido, também, uma época de manifestos, de textos, de discursos, de palavras, que atendiam, lado a lado com a matéria que construía numa nova invenção. Numa nova sociedade. Um novo homem.
O timbre autoritário é evidente: a ideologia comandava a realização humana, comandada por uma elite que rasuraria a História – o Anjo catastrófico?; optimista na transformação individual lançada a partir do topo da escala do poder político e cultural.
Mas a invenção humana ultrapassa o projecto e o desenho e os fins das coisas. As palavras voltam para reorganizar a realidade quando o conhecimento das coisas é confrontado com o novo. Além de reorganizar, nomear é uma forma de apropriação do objecto nomeado. O novo, o espanto do novo, sujeito e objecto das escalas múltiplas em que as coisas se tornam visíveis. O Minhocão, por exemplo. Burocraticamente pensado como Conjunto Habitacional Marquês de São Vicente, rapidamente foi apropriado pela comunidade como Minhocão.

Eduardo Affonso Reidy será um dos melhores exemplos de uma outra apropriação de um outro discurso. A penetração do modernismo faz pela via do desejo da transformação rápida, urgente, de uma sociedade onde os desequilíbrios eram – são – em si uma violência, onde a História curta dessa sociedade impunha – impõe – a mudança como motivo político sem cessação aparente.
Naturalmente corbusiano nos princípios, estende a sua intervenção num território ao qual o arquitecto suíço não saberia responder: uma geografia, uma geografia social e humana, muito para além das capacidades e possibilidades do dogma modernista.
A topografia, a escala, a técnica da construção, constituíram, através de Reidy, uma via para a introdução e desenvolvimento do cânone modernista numa sociedade em que a transformação, mais que uma evidência necessária, era uma urgência material.

E o Minhocão, que se desenrola, impávido, elegante, altivo, tranquilamente assente na massa granítica adoçada pela exuberância vegetal. Dono da colina, apropriado pela comunidade, o Minhocão, também ele furado por outro verme anelídeo oligoqueta, que fura a pedra e nos conduz à Barra.


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o expediente político no desenho da polis




Se outro indício não houvesse da interrupção, da disrupção, da disjunção, da divisão, da desagregação, da descontinuidade, na política brasileira, ser-nos-ia de muita utilidade ler o skyline do Rio de Janeiro. E ainda que um skyline de características peculiares, pois não é o empreendimento humano que aqui desenha a curva do céu mas antes a potência da natureza que cinge a polis, torna-se evidente que a linha do céu, de interrupções, de disrupções, de disjunções, de divisões, de desagregações, de descontinuidades, resulta directamente da manobra política. Sem o recurso ao conhecimento e à técnica da arquitectura e do urbanismo.

em 1936 Le Corbusier viaja até ao Rio de Janeiro para algumas lições de arquitectura





em voo transatlântico a bordo do Graf Zeppelin. This is the glamorous life there's no time for fooling around.