clean-modernista-brasileiro-redivivo#3

[Casa Mirindaba, StudioMK27 - Márcio Kogan]
Não terão, com certeza, qualquer relevância as atribuições da imprensa marketeira àquilo que a arquitectura vai produzindo. De equívocos está o mercado cheio. Koolhaas bem o sabe, melhor o faz, e propõe que a própria ideia de mercado, ou antes, a ideia de uma sociedade de fluxos mercantis, da economia à cultura, da finança à arte, seja a própria ideia da arquitectura. Não a ideologia, isso seria ser cínico, e Koolhaas não o é. Mas retomando, por exemplo, o trabalho de Márcio Kogan mais de perto, talvez ele tenha apreendido a lógica Koolhaas e a use na manipulação de um imaginário modernista que povoa a burguesia e alta burguesia paulista.
Se o resultado é a forma destituída de valor - pode-se dizer, semiótico, sem qualquer adesão a alguma leitura da realidade, se essa mesma realidade a achamos hoje informe, constituída de fluidez e do movimento que fragmenta o sujeito em acasos e derivas – ela, a forma, (e aqui uso forma decorrente de um discurso da arquitectura, que não é o da arte, com explicitou Matta-Clark), a forma de Márcio Kogan é herdeira directa da forma modernista brasileira, na sua aparência mas, justamente, destituída de qualquer qualidade intrínseca que a constituísse, como, digamos, o funcionalismo.
Talvez a minha confusão seja essa mesmo, a da leitura de um espaço liso, que anuncia o movimento fluido e informe, o nomadismo, no dizer deleuziano, sobreposto ao sedentarismo e a legibilidade da geometria dura da forma, o espaço estria. O que não deixa de ser uma forma de inteligência. Perante o cliente, o mercado, e os impasses que, paradoxalmente, transportamos nesta dita hiper-modernidade.
clean-modernista-brasileiro-redivivo#2

[Residência no City Boaçava, MMBB, 2005]
Mas há um lamentável equívoco, outro, neste transporte do modernismo glorioso do Brasil JK para os dias de hoje. Ainda que se desenhem por aí paralelas entre Lula e Getúlio Vargas, ambos coincidentes na demagogia na verdade, o mesmo, entre a década de desenvolvimento do Brasil moderno e a realidade hediorna, é pura manipulação ideológica e intelectual.
O furto ideológico aparece aqui como colagem, demagógica e marketeira, da actual produção arquitectónica brasileira – a mediatizada, evidentemente – à era em que, de facto, a arquitectura brasileira seria a vanguarda dessoutra vanguarda modernista. Mas não quero parecer cínico.
clean-modernista-brasileiro-redivivo(*)(**)

[Casa Pacaembú, StudioMK27 - Márcio Kogan, 2006]
Percorrer o catálogo da nova arquitectura brasileira suscita-me a dúvida: é o desejo de liberdade o tema com que se constrói esta arquitectura ou a abundância de espaço permite ao corpo ser num lugar de possibilidade ilimitada e incontrolada?
A ilusão, aparência sem experiência, é a de espaços resolvidos apenas pela escala e pela frieza geométrica artificiosa; a domesticidade que se alarga ao território, abre-se à natureza, um luxo que se torna mensurável pela quantidade de espaço aberto e de que se dispõe; uma correlativa ou compensadora, exagerada profusão de ‘materiais’ e ‘texturas’, paradoxalmente utilizados como intangíveis fronteiras dentro de cada compartimento.
É um desejo ou um desperdício equívoco?
*Expressão achada numa reportagem sobre Márcio Kogan.
**Redivivo: palavra que empreende um regresso a Herberto Helder, via José Tolentino Mendonça, reencontrada no Rio de Janeiro.
dark night of the soul*
[Steps, David Lynch]
via Ana Fay
Os passos, a fantasia, a memória, a passagem dos sentidos ao espírito, para o entendimento, no corpo.
*Dark Night of the Soul ou La noche oscura.
blue in green: labirinto da saudade
Rua do Século, Lisboa
Jazz, jazz, gostava muito de passear à noite por Lisboa, a ouvir jazz.
Manuel Graça Dias in Alice
cidade sitiada

[Claricidade: A cidade segundo Clarice, Bia Albernaz, 2008]
Olhar para o chão: talvez a via única da vida, agora, seja desaprender.
horário político

[Contingente, Adriana Varejão, 2000 ]
A política cultural brasileira
Em Março deste ano, na abertura da II Conferência Nacional sobre Cultura que reuniu em Brasília cerca de três mil pessoas entre investigadores, professores universitários e centenas de delegados do Ministério da Cultura do Brasil (MinC), o presidente Lula da Silva marcou dois pontos altos no seu discurso. O primeiro foi dar a informação de que o orçamento do Ministério da Cultura para o ano corrente seria de 1 por cento do Orçamento Geral do Estado brasileiro, o que corresponde a 2,2 mil milhões de reais (quase 954 milhões de euros). É o maior orçamento da história deste ministério, inigualável em termos percentuais, quer em relação a outros países da América Latina, quer em relação à Europa ocidental. O outro ponto alto foi o anúncio de que, caso a candidata do PT, Dilma Rousseff, vencesse as eleições de amanhã, era certo que o orçamento para a cultura em 2011 subiria para 1,5 por cento do Orçamento Geral do Estado. Parte deste aumento dever-se-ia ao facto de o Governo brasileiro ter decidido que uma das cinco áreas de investimento a privilegiar com os recursos do pré-sal (exploração dos novos poços de petróleo) seria a da cultura.
É um facto que já estávamos em campanha eleitoral, razão para também estarem presentes nessa conferência a própria candidata e o ministro da Cultura, Juca Ferreira, mas o MinC confirma estes valores, embora também se afirme que até ao mês de Setembro a taxa de execução não tinha ultrapassado os 60 por cento.
Como e em que se traduz este orçamento? Corresponde a cerca de 0,7 por cento das receitas totais dos impostos da União. A este orçamento do Estado haverá que acrescentar cerca de 61,2 milhões de reais (26,5 milhões de euros), dinheiro proveniente da Petrobras, empresa petrolífera brasileira que funciona como um ministério paralelo e cujas verbas são doadas ao abrigo da Lei Rouanet (a lei do mecenato), cujo tecto este ano pode chegar aos dois mil milhões de reais (867 milhões de euros).
A estas verbas devem ainda ser acrescentadas as verbas para a Cultura de cada estado e de cada prefeitura (município), que são bastante desiguais e razão de alguns desequilíbrios de produção e difusão cultural. O Brasil, é sabido, vive um momento invulgar de crescimento económico e de protagonismo internacional que se reflecte em todos os sectores das actividades sociais. As actividades culturais e as artes também reflectem este momento histórico. Para tanto há que reconhecer o papel de uma sociedade civil dinâmica e criativa, da emergência de um mercado das artes nacional, que no eixo São Paulo-Rio-Belo Horizonte estimula uma produção continuada, e que os mesmos protagonismos e visibilidade têm repercussões na internacionalização desta criação, bem como na diplomacia cultural.
Boom no mercado das artes
Na semana da abertura da 29ª Bienal das Artes de São Paulo (começou a 25 de Setembro e termina a 12 de Dezembro), a imprensa anunciava que o mercado da arte vive um boom tal que se previa que nessa mesma semana 250 milhões de reais (108 milhões de euros) entrassem no Brasil através do mercado das artes visuais.
Novas galerias surgem a todo o momento. No início da década eram 50 no eixo principal Rio-São Paulo, hoje são 90. A música popular brasileira é escutada em todo o mundo: da China a Portugal; o cinema brasileiro está presente em festivais e em salas europeias e sul-americanas, bem como no próprio Brasil, onde hoje já vai sendo possível ver documentários em sessões da tarde nos cinemas do Rio e de São Paulo, apesar de ainda haver problemas de distribuição. Há festivais de teatro, de dança, de literatura - a FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) é uma referência mundial na área dos livros e da literatura; a moda e o design brasileiros são hoje exemplares para a moda e o design europeu e norte-americano; os artistas brasileiros são expostos nos museus londrinos, franceses, nova-iorquinos, as suas obras atingem valores recorde nos leilões de arte contemporânea. É de facto um momento singular para a cultura artística brasileira.
Como é que isto acontece? Pelo momento económico fortíssimo cuja crise, aliás, não afectou a economia brasileira. E no que diz respeito à diplomacia cultural e à criação interna, pelo estatuto positivo que a cultura ganhou nos governos do presidente Lula. Para tanto foi fulcral que o músico e cantor Gilberto Gil tivesse assumido a pasta da Cultura. Com Gilberto Gil - que não é do PT mas sim do Partido Verde e que já tinha experiência governativa em Salvador - a cultura ganhou uma dimensão simbólica fulcral no quotidiano das pessoas, ao mesmo tempo que ganhava peso político e orçamento. Muitas vezes criticado pela lentidão e pela complexa agenda de músico no activo e ministro, Gil conseguiu, contudo, impor a cultura como uma prática humana e social reconhecida pelo sector político e social, estruturou o Ministério da Cultura, criou legislação conforme às necessidades de uma política cultural programática, incluiu a cultura digital como prática artística reconhecida pelo MinC . Esteve atento às práticas culturais populares, fossem elas originárias dos subúrbios, do Nordeste ou dos índios. A cultura passou a ser tema de debate normal entre os brasileiros. Tendo deixado o ministério em 2008 sucedeu-lhe Juca Ferreira, que já trabalhava com Gil desde 2003.
Quem é Juca Ferreira? Um sociólogo - João Luiz Silva Ferreira - com uma carreira política que começou em 1968 como presidente dos estudantes do ensino secundário; foi duas vezes vereador em Salvador e é um político pragmático dotado de uma capacidade oratória excelente. Juca Ferreira, não tendo a aura do seu antecessor, continuou a sua política cultural e entretanto conseguiu reforçar o orçamento do MinC, reestruturar o Funarte (fundo nacional de arte responsável pelo apoio às artes), criou alguns sistemas de fiscalização dos subsídios e, mais recentemente, tornou realidade o desejado Instituto Brasileiro de Museus e colocou em discussão no congresso para aperfeiçoamento a Lei Rouanet (a já referida lei do mecenato) e a Lei dos Direitos de Autor, que pretende rever, considerando a complexidade introduzida pelo digital.
Ideias simples, mas eficazes
Um dos aspectos que mais tem consolidado a ideia de um ministério programático é um conjunto de iniciativas relativamente simples no formato, mas até ao momento bastante eficazes no que diz respeito à vontade de incentivar a diversidade cultural e de estimular a produção artística em todo o país. Trata-se da criação de estruturas elementares de fruição cultural e de difusão da mesma. Os mais populares são os Pontos de Cultura. São hoje cerca de 3800 dispersos por todo o país e compõem um mosaico de diferentes formas de expressão: teatro, dança, audiovisual, música, circo e cultura popular (mamulengo, folguedos, artesanatos, hip-hop, capoeira, maracatu, congado, folia de reis e bumba-meu-boi entre outras).
Os Pontos de Cultura desenvolvem distintas actividades: cineclubes, rádios comunitárias, espaços multimedia, mercados alternativos, centros de empreendedorismo, museus, bibliotecas, centros culturais, espaços culturais e de preservação do património histórico, núcleos de memória e centros de cultura digital. Nos últimos seis anos, no total, foram investidos pelo MinC cerca de 500 milhões (217 milhões de euros) em Pontos de Cultura de todo o Brasil. Depois há ainda 514 Pontos de Leitura que funcionam como pequenas bibliotecas em espaços de frequência popular (hospitais e centros de assistência social, por exemplo) e 281 Pontinhos de Cultura onde se desenvolvem acções para as crianças. Há também um forte investimento no audiovisual, que agora tem um fundo próprio, e um Observatório de Informação de Indicadores Culturais a funcionar em permanência. E uma das singularidades foi a criação do Vale Cultura - um vale mensal de 50 reais (quase 22 euros) que é dado às famílias cujo rendimento mensal não ultrapasse cinco salários mínimos (o salário mínimo é de 510 reais) -, uma medida de subsídio aos públicos.
Algumas destas iniciativas de pendor fortemente popular pretendem, segundo o ministro, colmatar aquilo que são as grandes diferenças existentes no Brasil relativamente ao acesso à cultura. Segundo dados fornecidos pelo próprio ministério, apenas 13 por cento dos brasileiros vão pelo menos uma vez ao cinema por ano, 92 por cento nunca entraram num museu, mais de 90 por cento dos municípios não têm sala de cinema, teatro, museus, centros culturais, 93,4 por cento dos brasileiros nunca viram uma exposição de arte. Esta assimetria tem justificado uma política cultural muito vocacionada para uma dimensão mais popular do acesso à cultura a que não é alheio o facto de o Governo ter uma matriz que se configura com o Partido dos Trabalhadores e de raiz sindicalista. Alguns sectores da cultura mais urbana e mais internacionalista têm reivindicado apoios mais estruturantes para áreas como a dança, o teatro, as músicas urbanas e a internacionalização cujos primeiros apoios começaram a ser legislados. Os trabalhadores da cultura e intelectuais reclamam ainda uma reforma da administração do MinC, que acusam de ser excessivamente burocrática e pouco ágil, o que não facilita a aplicação de instrumentos culturais tão importantes.
Na véspera da eleição do novo Presidente da República, que ao que tudo indica será Dilma Rousseff, existem grandes expectativas por parte da comunidade artística e das redes populares entretanto criadas. Porque se é um facto que nunca como até ao presente um governo brasileiro tinha atribuído um tão grande protagonismo ao Ministério da Cultura - o que fez com que primeiro Gilberto Gil e agora Juca Ferreira tenham ganho um tão grande peso no executivo e simultaneamente tenham adquirido um estatuto de figuras fundamentais para a reeleição do PT e do seu candidato -, o que vai fazer o PT, caso ganhe, agora que muitos outros partidos da futura coligação reivindicam esse ministério? E o que vai acontecer a esta figura singular, a este baiano de brinco na orelha direita que é o ministro da Cultura, Juca Ferreira, hoje uma das estrelas do Governo Lula? É um debate que está a acontecer paralelamente a uma das mais conseguidas bienais da história de São Paulo.
António Pinto Ribeiro, Público, 2.10.2010
minhocão

A palavra abre o mundo como a arquitectura escava a realidade, inventam e abrem, ambas, uma outra realidade (realidade outra). A transformação da realidade é também a transformação da língua. Daí que o modernismo tenha sido, também, uma época de manifestos, de textos, de discursos, de palavras, que atendiam, lado a lado com a matéria que construía numa nova invenção. Numa nova sociedade. Um novo homem.
O timbre autoritário é evidente: a ideologia comandava a realização humana, comandada por uma elite que rasuraria a História – o Anjo catastrófico?; optimista na transformação individual lançada a partir do topo da escala do poder político e cultural.
Mas a invenção humana ultrapassa o projecto e o desenho e os fins das coisas. As palavras voltam para reorganizar a realidade quando o conhecimento das coisas é confrontado com o novo. Além de reorganizar, nomear é uma forma de apropriação do objecto nomeado. O novo, o espanto do novo, sujeito e objecto das escalas múltiplas em que as coisas se tornam visíveis. O Minhocão, por exemplo. Burocraticamente pensado como Conjunto Habitacional Marquês de São Vicente, rapidamente foi apropriado pela comunidade como Minhocão.
Eduardo Affonso Reidy será um dos melhores exemplos de uma outra apropriação de um outro discurso. A penetração do modernismo faz pela via do desejo da transformação rápida, urgente, de uma sociedade onde os desequilíbrios eram – são – em si uma violência, onde a História curta dessa sociedade impunha – impõe – a mudança como motivo político sem cessação aparente.
Naturalmente corbusiano nos princípios, estende a sua intervenção num território ao qual o arquitecto suíço não saberia responder: uma geografia, uma geografia social e humana, muito para além das capacidades e possibilidades do dogma modernista.
A topografia, a escala, a técnica da construção, constituíram, através de Reidy, uma via para a introdução e desenvolvimento do cânone modernista numa sociedade em que a transformação, mais que uma evidência necessária, era uma urgência material.
E o Minhocão, que se desenrola, impávido, elegante, altivo, tranquilamente assente na massa granítica adoçada pela exuberância vegetal. Dono da colina, apropriado pela comunidade, o Minhocão, também ele furado por outro verme anelídeo oligoqueta, que fura a pedra e nos conduz à Barra.

aumentar







o expediente político no desenho da polis

Se outro indício não houvesse da interrupção, da disrupção, da disjunção, da divisão, da desagregação, da descontinuidade, na política brasileira, ser-nos-ia de muita utilidade ler o skyline do Rio de Janeiro. E ainda que um skyline de características peculiares, pois não é o empreendimento humano que aqui desenha a curva do céu mas antes a potência da natureza que cinge a polis, torna-se evidente que a linha do céu, de interrupções, de disrupções, de disjunções, de divisões, de desagregações, de descontinuidades, resulta directamente da manobra política. Sem o recurso ao conhecimento e à técnica da arquitectura e do urbanismo.
em 1936 Le Corbusier viaja até ao Rio de Janeiro para algumas lições de arquitectura


em voo transatlântico a bordo do Graf Zeppelin. This is the glamorous life there's no time for fooling around.
sobre a adesão da cidade aos princípios do modernismo

[Eat Me: a Gula ou a Luxúria?, Lígia Pape, 1976]
Na época nós todos estávamos convencidos que essa nova arquitetura que estávamos fazendo essa nova abordagem, era uma coisa ligada à renovação social. Parecia que o mundo, a sociedade nova, a arquitetura nova eram coisas gêmeas, uma coisa vinculada à outra.
Lúcio Costa, 1987
from main street to wall street

[IAC Building, Frank Gehry, 2007 + 100 10th Residences, Jean Nouvel, 2010]
Poder-se-á acompanhar o roteiro de Charles Jenks na interpretação do que seja um edifício icónico: um signo que se dilui naquilo que ele próprio representa sem perda do que o torna único; forma que na sua singularidade e diferença é também metafórica do seu entorno (cultural).
O aparato crítico da obra de Oliver Stone detém-se em muitos dos ícones que construíram a cultura americana de massas - e global - do pós-guerra. Não serão, portanto, casuais, aleatórios e inocentes os planos em Wall Street: Money Never Sleeps que sobrevoam em olho de pássaro o IAC Building de Frank Gehry e o vizinho 100 10th Residences de Jean Nouvel.
O que é que a arquitectura se propõe criticar?
estética restritiva

Rua de Santa Luzia, Rio de Janeiro
Falar a mesma língua e não falar a mesma linguagem. Uma primeira perplexidade ao olhar de um estrangeiro indisciplinado releva dos incontáveis contrastes. E se já vínhamos avisados pelo cliché à volta de uma sociedade contrastante mas diversa, os contrastes revelam-se mais subtis e mais lentos. Mas não menos violentos. Por exemplo a(s) arquitectura(s).
As imagens construídas e mitificadas de um modernismo tropical que influenciara o curso da História da disciplina no curso do séc. XX revelam-se cruelmente irreais. Se a cada esquina e em cada quadra se denunciam princípios que tenham decorrido do Vers Une Architecture, os mesmos manifestam-se de modo canhestro, desajeitado, quando não ideologicamente perversamente interpretados. Mas ainda assim, e percebe-se no uso da linguagem corrente na cidade, termos como pilotis ou brise soleil são reconhecidos e usados não apenas por camadas ilustradas na disciplina, mas por classes – o discurso classista é aqui uma evidência - aparentemente menos versadas num discurso disciplinar. Vocábulos iminentemente técnicos, de uso restringido aos arquitectos, são aqui quase vox populi.
Uma primeira tentação e intuição, e no desconhecimento dos factos, é atribuir esta disseminação lexical ao combate público que terá sido o transplante da capitalidade do Rio de Janeiro para Brasília. Ou de como a invenção de uma cidade – talvez ainda não uma cidade, talvez por enquanto um parque temático de negócios e política, que é Brasília – foi anunciada e negociada em espaço público, e de como esse debate fez verter para a linguagem comum termos que à época seriam os da vanguarda disciplinar. Em certo sentido, isto é o concretizar de uma das vias da utopia modernista: a democratização da arquitectura e, radicalizando, a inclusão do cliente – não enquanto indivíduo, mas enquanto classe – no próprio debate do projecto.
Mas se grande parte das arquitecturas são sustentadas por pilotis o que se lhe apõe é a violência dos gradeamentos. O chão solto, livre, solo de todas as possibilidades, proporcionadas pela ideia modernista – devidamente zonada, claro – é violentamente interrompido pelas grades metálicas. E como que para mitigar essa crueldade consequência do terror que vem de cima, da favela, o gradeamento, que se manifesta como se fora o embasamento corrido de todos os edifício de todas as ruas, é executado em grossos perfis de secção circular em alumínio castanho. A liberdade radical outrora sonhada, esmagada às mãos do serralheiro que viu o seu negócio prosperar à sombra da violência e do medo que se foram instalando. A casa é cercada, a rua é sitiada.
O regresso da rua, por contraste com o chão livre e cartesianamente infinito para o qual os edifícios teriam sido pensados, é feito não pela via ideológica e da revisão do cânone da Carta de Atenas, mas pelo corte abrupto e ensanguentado com o mito do bom selvagem que, ironia da história das ideias, terá sido formulado a partir dos primeiros relatos que chegaram à Europa do acolhimento, amabilidade, convivialidade, das civilizações aqui encontradas, em São Sebastião do Rio de Janeiro.

Rua Visconde de Pirajá, Rio de Janeiro
a beleza que existe*

Flanar por Ipanema é um exercício contraditório: à contemplação do desastre arquitectónico – isole-se cada edifíco, objecto, e ter-se-á uma ideia aproximada do que possa ser o provincianismo em arquitectura - à excepção de um ou outro, escassíssimos, exemplares dos gloriosos anos do modernismo desenvolvimentista á la JK.
Pese embora o conjunto sugerir a imagem de uma cidade cosmopolita (e icónica), o cosmopolitismo deste bairro reveste-se de outro carácter que não o do construído. E inscreve-se no corpo de quem passa.
A canção não canta um mito. Celebra a realidade. As belezas naturais excedem largamente as que descreve Jean de Léry no seu relato de 1578. E já não falamos da envergadura granítica dos morros que se erguem a cada direcção do olhar, nem do exuberante coberto vegetal.
E por paradoxo, o Rio de Janeiro jamais será uma cidade feminina. O paradoxo carioca reside numa querela tumultuosa entre aquilo que Le Corbusier acusou em Niemeyer e no seu desenho arquitectónico – a curva sensual elegante e feminina, vertida da geografia, do skyline – e o carácter vigoroso da rocha granítica que sustenta a curva do céu.
E tudo se erotiza. A começar pelo discurso.
*Tom Jobim, Vinicius de Moraes
ipanema do mundo

A minha interferência nas composições alegóricas se conduz às vezes premeditadamente, às vezes consoante às oferecidas circunstâncias. Exercito-me em variáveis ocasiões, solícito em captar as oportunas e já quase expostas alegorias; em alguns painéis faltando apenas que eu me desloque de um lugar a outro, que o meu olhar introduza ou dispense mais um elemento disponível. Portanto, invisto-me no papel de existenciador que se obstina em tornar, no mínimo, frequente, a liberdade da cenografia externa no tocante à criatividade minha, que as envolve. A vida ocular é um passeio aliciante, no decurso do qual, à proporção que existencio o elenco dos atores, de imediato, se a situação o permite, lhe inoculo a significação que têm em minha incomensurável peça. Em muitos ensejos, demoro-me a assimilar o espontâneo do desempenho, mas ressalto que os intérpretes foram nascidos para o advento na existencialidade que lhes propicio, em mim, comigo. Tais efígies, em retábulos que confessam a minha ótica, as registrei ao longo dos livros sobre a ordem fisionômica, designando-os por meio de simples letras, o que expressa, antes de tudo, o significado de havê-las na condição de atores em anonimato, isto é, de vultos em trânsito para o perdimento; anoto-as possuídas da destinação de se extinguirem em mim, comigo, o que representa a extinção absoluta. Facilitada pelo movimento e pela temporalidade – os mais prestimosos auxiliares na elaboração de alegorias – facilitada por agentes tão solícitos, a minha lente mais se vê unificada, em solidão infalível, com as respostas das presenças em relação à ausência a que se dirigem em mim, comigo.
[A Artisticidade do Ser, Evaldo Coutinho, 1987]
a que distância deixaste o coração [interlúdio]

Coisas tão felizes
Entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes:
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?
A voz solitária do homem
Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono
Da verdade do amor
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor
Sobre um improviso de John Coltrane
Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
[Baldios, José Tolentino Mendonça]
Sobre a reedição de um livro. Sobre a amizade. Sobre um homem. Sobre Lisboa. Sobre o que se deixa para trás. Sobre o mar que se estende em frente. Sobre o que se esquece. Sobre o que nunca se esquece. Sobre o que se encontra e rapidamente esquece. Sobre uma cidade velha e uma cidade nova. Sobre o encontro. Sobre o desencontro. Sobre a água. Sobre o pão. Sobre o caminho. Sobre o Tejo que aqui vem dar.
Todos os dias.
herança

[Ministério da Educação e Cultura, Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1929]
- O Capanema será um centro de referência do Brasil no século XX. Um aspecto importante disso tudo é a falta de experiência na conservação dos edifícios modernos brasileiros. A gente está acostumado com os edifícios coloniais, do século XVIII e XIX, mas ainda tem pouca prática com os edifícios modernos. Estamos aprendendo a fazer. Reformar o Capanema é um desafio diferente de uma igreja do século XVIII. Não há essa cultura de preservação, e pretendemos mudar isso a partir de agora - afirma Almeida.
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