tristes trópicos


Av. Epitácio Pessoa, 2480, Rio de Janeiro

linha vermelha


Linha Vermelha

A cidade, o corpo, nos músculos, nas artérias, nos bairros, no sangue, no latejar da veia prestes a rebentar. É contraditória a sobreposição de cidades no mesmo lugar. A cidade natural rasgada pela espinha da cidade artificial [Christopher Alexander]. E se a cidade orgânica, se vai justapondo e construindo pela medida do tempo da urgência, a via inventada para trafegabilidade, acessibilidade, abre a carne de onde explode o sangue.
A intensidade da luz crepuscular azul vermelho laranja amarelo verde fluorescente, pontos, fragmentos, mosaicos improvisados tijolos adaptados desmaiados que se estendem pelo território linear da auto-estrada. Non-Lieux, trágica ironia: a via como lugar de terror de violência do medo da morte?

A cidade natural que come a cidade artificial que expele a carne. Vive dela, vomita-a. A cidade artificial que se socorre da velocidade, dos olhos fechados irracionais, para fugir do pânico e da natureza humana onde cresce. O veloz movimento com que a cidade artificial se escapa pela via é arrebatado pela velocidade com que a cidade natural explode implode cresce desloca territorializa desterritorializa sem cessar. O projecto contra o não-projecto. [Descartes contra Deleuze contra o corpo.] O tempo fixo no desenho contra a invenção i-desenhável que se desdobra pelo tempo e necessidade. Le Corbusier é um cadáver às mãos dos traficantes sem outro prazer que o do instante e do sangue.

Há uma luta dura que tudo faz exceder sem nunca nada fazer sobrar. Tão severa como uma memória nova que se não quer transportar.

visconde pirajá, 572




Seul et parfois même accompagné
(...)
D'aphrodites et de Salomés.

expansão


[Edifício Verde Mar - arquitecto Artacho Jurado, Hans Gunter Flieg, 1958]


[Mercedes-Benz do Brasil - show room arquitecto Henry Maluf, Hans Gunter Flieg, 1960]

Notícias da expansão de um país, como Julius Shulman nos trouxe o moderno via California lifestyle.

psicoTRÓPICOS


[Estética da ginga - A arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica, Paola Berenstein Jacques, 2007]

Pode até ser romântica, sentimental, esta proposta de pensar a favela, a arquitectura da favela e a sua relação com a cidade de baixo, a partir dos movimentos do samba e da dança, no movimento contorcionado que ocorre quando se percorre a favela. A aproximação à obra de Hélio Oiticica como construção de uma teoria arquitectónica, a partir dos acontecimentos [cf. Deleuze/Guatari e o acontecimento como o que faz actuar o pensamento] do abrigo fragmento, favela labirinto, cidade rizoma, e como construção de um pensamento e de um conceito da cidade que escapa aos códigos binários do que é ou não é arquitectura, do que é ou não é cidade, sugere, antes de tudo a riqueza do mundo que foge do cânone erudito das arquitecturas e das formas cultas com que se pensa a arquitectura e as cidades. (Ou o cânone da especulação.)
A ordem é pensar e procurar pensável o imprevisto, o rasgo da necessidade e da urgência, a recolha dos materiais incoerentes, a precariedade, a heterotopia do arquitecto, o objecto anti-projecto.



[Arquitetura kitsch: suburbana e rural, Dinah Guimaraens, Lauro Cavalcanti, 1979]

Ocorreu-me o trabalho de Manuel Graça Dias à volta da casa do emigrante, o encontro com Arquitetura Kitsh. Há pelo menos a coincidência de trazer ao domínio da arte e da arquitectura o papel que a cultura de massas joga na construção do real. Que, sabemos, é mais vasto que a teoria e o desenho do arquitecto:  o desejo.

história contra-factual


Le Corbusier


Ministério da Educação e Cultura, Le Corbusier






[Ministério da Educação e Cultura, Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1929]

São por demais conhecidas as consequências das cinco semanas passadas por Le Corbusier, em 1929, no Rio de Janeiro. Mais que à cidade, evidentemente, foi o próprio modernismo corbusiano que sofreu uma inflexão. Talvez não tivesse havido Notre Dame de Ronchamp sem o Rio de Janeiro, atrevo-me. E talvez não tivesse existido Niemeyer (e Lúcio Costa, ou ao contrário) se estas cinco semanas em 1929 não tivessem acontecido. E talvez o resto da História conhecida fosse outro.Talvez.

cotidiano#7


[Parece que sim, Waltércio Caldas, 2010]

Seria solto do corpo então se se confirmassem alguns rumores da filosofia e se alguma da arte não se apresentasse na sua falência. Uma rua ou uma cidade ou o mundo não é sem o que no tempo se foi inscrevendo na carne do corpo. Ainda que ele próprio seja falência diante do que se desconhece. Derivar, à luz de um corpo e de uma cidade, seria uma hipótese de liberdade dentro daquilo que se conhece.
A suspensão é impossível, apesar de tudo, dentro do que se não conhece. A psicogeografia responde apenas pelo desejo do que se conhece. É irremediavelmente irrelevante no território que se estende ainda i-nomeado.

rua do mundo#2


Provavelmente o moderno, e essa disciplina que inventa, o urbanismo, convoca a ideia de disciplinar o mundo. Labirinto, desejo, sombra, recato, são hipóteses excluídas do empreendimento racionalista. Uma cidade na América nasce já moderna. E a tentação totalitária da razão é contradita pela geografia insubmissa ao desígnio humano.
É necessário o tempo e o uso, a atenção dos arquitectos construtores, para verificação do espaço que cada indivíduo para si reivindica na cidade. Atender às marcas na relva.

rua do mundo



A liberdade é a possibilidade do isolamento. [Fernando Pessoa] É pesada possibilidade: acto contínuo, perdido perder-se, é entrar nela a cada passo um pouco mais. E só aí, numa rua de sombra e de água, poder depois encontrar o outro. O amor?

respigador


[Verme, Nuno Ramos, 2010]

Muitas caipirinhas depois, dentro do táxi, sou avisado que ia em sentido contrário. Vinha caminhando por uma praia que me pareceu sem fim, um túnel ocre amarelo gasto abafado intoxicado deserto, a agora, também perigoso, o mar era só um rumor ruidoso e o casario parecia-me desorganizado, tanto quanto o mundo pode parecer organizado a quem não tem horas nem posição no mundo, e até a verticalidade parece difícil, e aquilo poderia até ser uma favela, pela sobreposição caótica das luzes.
Sem lenço sem documento sem conhecimento, o mapa é a noite que passa e o álcool e a cidade que nasce de todas essas imensas escuridões.
Malcolm Lowry de segunda, respigador dos excessos de um bar aberto, construo a cidade, construo-me, em aproximações ao que existe. A perda é condição da liberdade: guardar a solidão como honra e glória da descoberta do que se não conhece. Os limites, guardam-se para os assuntos do dia, para o desencontro das coisas que se acham na noite. Que existem.

cotidiano#6


de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado

sangrado
de sangue a sangue



[Haroldo Campos]

cotidiano#5


O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre



[João Cabral de Melo Neto]

cotidiano#4


Ao andar pelas ruas,
te vejo
em todos os lugares.




[Pelas Ruas, António Cícero]

cotidiano#3


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



[A Lucidez Perigosa, Clarice Lispector]

cotidiano#2


Aquele que aproxima os que sempre estarão
distantes e desunidos
e separa os que pareceriam
para sempre unidos e semelhantes
enxuga meus olhos
no alto da noite de mil direções.
Encostada a seu peito,
contemplo desfigurada
o negro curso da vida
como, um dia,
do alto de uma fortaleza
vi a solidão das pedras milenares
que desciam por suas arruinadas vertentes.




[Aquele que Aproxima os que Sempre Estarão, Cecília Meireles]

cotidiano


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego



Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado


[Construção, Chico Buarque]

água disciplinada


[Pinturas e Platibandas, Anna Mariani, 1987]

Se um dos trabalhos da arquitectura será o disciplinar do curso da água, a invenção é, depois, tornar bela, aprazível aos olhos, a violência dessa dominação. Se o não fosse, o belo sem a mecânica funcionalista, seríamos engenheiros hidráulicos.

entrevista a Anna Mariani

deriva


No desconhecimento, todas as ruas afiguram-se o limite da cidade. Como construir escolher andar guiado pela cartografia da ignorância ou do medo? Qual a conveniência da memória, dos factos, das recordações?




Sou o homem-bomba voluntário, sem paraíso prometido, para explodir de vez esta soma de vozes, hierarquizada em intervalos (oitavas, quartas, terças), com o único eco, bum, da minha solidão - vocês ouvem seu ruído espantoso? o deslocamento de ar? os carros incendiados, os pedaços de carne humana, o sangue no asfalto, nas paredes? Outra solidão se vingará.

[Homem-bomba in O Mau Vidraceiro, Nuno Ramos, 2010]

outro do outro do outro


[Espaço na Entrelinhas, Fred Sandback]

Da solidez das coisas precárias, dos passos em volta do meio das coisas, da descoberta da margem onde ninguém me espera.
[foi matéria da exaltação dos espelhos (em que nos vimos) matemáticos loucos escandalosamente iguais nos reflexos, então, inexplicáveis]

no alto de santa catarina (a ver navios)


O ouro brasileiro não modificaria, porém, certas estruturas e atrasos resultantes da conjuntura local. Em Portugal, tudo quanto exigisse maior técnica era importado, uma vez que sua manufatura era pouco desenvolvida. No início do século XIII comprou-se até roupa velha, não obstante a indignação da Câmara de Lisboa, que reagia dizendo que as casacas, camisas e lençóis poderiam ter pertencido a tísicos e leprosos. A cidade de Lisboa estava inundada por produtos do exterior e a voga, que começara com as elites, chegava inclusive aos gostos populares. Os portugueses buscavam mais e mais viver e se vestir à europeia, costume que não levava a um incremento imediato nas técnicas de produção. Isto é, o mercantilismo, política económica que visava manter uma balança superavitária, estava longe de ser uma realidade em terras lusas.
O dinheiro fácil tampouco alterava os costumes.





[A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, Lilia Moritz Schwarcz, 2002]