água disciplinada


[Pinturas e Platibandas, Anna Mariani, 1987]

Se um dos trabalhos da arquitectura será o disciplinar do curso da água, a invenção é, depois, tornar bela, aprazível aos olhos, a violência dessa dominação. Se o não fosse, o belo sem a mecânica funcionalista, seríamos engenheiros hidráulicos.

entrevista a Anna Mariani

deriva


No desconhecimento, todas as ruas afiguram-se o limite da cidade. Como construir escolher andar guiado pela cartografia da ignorância ou do medo? Qual a conveniência da memória, dos factos, das recordações?




Sou o homem-bomba voluntário, sem paraíso prometido, para explodir de vez esta soma de vozes, hierarquizada em intervalos (oitavas, quartas, terças), com o único eco, bum, da minha solidão - vocês ouvem seu ruído espantoso? o deslocamento de ar? os carros incendiados, os pedaços de carne humana, o sangue no asfalto, nas paredes? Outra solidão se vingará.

[Homem-bomba in O Mau Vidraceiro, Nuno Ramos, 2010]

outro do outro do outro


[Espaço na Entrelinhas, Fred Sandback]

Da solidez das coisas precárias, dos passos em volta do meio das coisas, da descoberta da margem onde ninguém me espera.
[foi matéria da exaltação dos espelhos (em que nos vimos) matemáticos loucos escandalosamente iguais nos reflexos, então, inexplicáveis]

no alto de santa catarina (a ver navios)


O ouro brasileiro não modificaria, porém, certas estruturas e atrasos resultantes da conjuntura local. Em Portugal, tudo quanto exigisse maior técnica era importado, uma vez que sua manufatura era pouco desenvolvida. No início do século XIII comprou-se até roupa velha, não obstante a indignação da Câmara de Lisboa, que reagia dizendo que as casacas, camisas e lençóis poderiam ter pertencido a tísicos e leprosos. A cidade de Lisboa estava inundada por produtos do exterior e a voga, que começara com as elites, chegava inclusive aos gostos populares. Os portugueses buscavam mais e mais viver e se vestir à europeia, costume que não levava a um incremento imediato nas técnicas de produção. Isto é, o mercantilismo, política económica que visava manter uma balança superavitária, estava longe de ser uma realidade em terras lusas.
O dinheiro fácil tampouco alterava os costumes.





[A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, Lilia Moritz Schwarcz, 2002]

south american caffee


[Cidade, Rio de Janeiro]

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa.

George Steiner, A Ideia de Europa


É a cartografia da perplexidade que não se encontra na Cidade. O café, ainda antes do encontro marcado, o espaço e o tempo fora do mundo da rua – ainda que nas esplanadas de Paris ou na Pç. das Flores em Lisboa – arredado do movimento fundamental, em frente, das calçadas desajeitadas da Cidade. Pedra portuguesa arrancada ou toscamente executada, lajes de betão poroso partidas, outras refeitas, granito escuro duro perene talhado da idade jovem da política velha do país, não importa o desalinho do caminho, importa caminhar. Andar em frente imperativo da condição do fazer.
E se a hipótese de Steinar é viável, se foi no confronto sobre as mesas do café que cresceu a política a arte a filosofia, da vita contemplativa de Hannah Arendt aqui o salto é alto para a veloz e voraz vita activa imperativa. Fazer uma cidade, construir um país, erguer uma identidade, esforço exigente que permite um instante de descanso, um frugal alimento, em pé, no botequim, essa invenção do português que saiu, uma esquina trabalhada de um qualquer edifício. Ou então a pausa que resta do cotidiano duro e cansado.

E disto, talvez seja um excesso a aproximação ao que desconheço pelo contorno em negativo do que conheço.

reconciliação:




[Catedral do Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer, 1979]

Do interior encontrar as perguntas certas do exterior. E talvez a necessidade de outro continente na necessidade de impor as certas perguntas.
Uma outra nova origem das coisas, debaixo dos mesmos olhos velhos.
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento

interiores


Sérgio Rodrigues

um lugar no mundo#4

ii.


1

ó neste autocarro, um continente, amar-te
eternamente. quero dizer: viajar
é ser penetrado pelo sempre presente
sentimento das coisas
precocemente duradouras.
assim o teu nome, e os teus olhos
de precário vidro,
e os botões de camisa esvoaçando.
logo a cidade nos alcança. agora
mergulhados em árvores no meio
de um continente
envelhecemos.


4

português quando chega compra garrafa,
compra e vende garrafa, logo
abre um barzinho no Rio.
o Brasil é uma coisa
genital.
só há aviador por aqui.
conhece mundo, sabe avaliar
plantação de pimenta,
seu merecimento é grande.
japonês todo em carro.
português quando chega,
já sabe de comércio
e de navio.


[Visitação, António Franco Alexandre]

recolhes e esqueces e
derivas por
entre acasos (inventados)
que desconheces
sem antes sem
depois
um desígnio instituído instantâneo
que te designa
completa voraz
incompletude
(sem antes sem depois)
dissidente das coisas a que pertences

uma aprendizagem


[Rua do Catete, Rio de Janeiro]

Aprender. Esperar.
Aprender um país, esperar uma cidade, desejar uma mulher, aprender um nome, aprender a esperar. Aprender a rezar a cada passo trocado falhado.
Olhar a mulher cansada bêbada farta de esperar a esperar um nome que não regressa. Um nome que se despenha do alto do morro, um nome que se recolhe pelas ruas da cidade, um nome que se vai juntando nas mãos como fizeram os construtores inadvertidos do alto da montanha. Pedaço de nome roubado, pedaço de nome recolhido, pedaço de nome encontrado, pedaço de nome indeciso, pedaço de nome indecidido.
Construtores ou arquitectos? Construir como rezar, são os arquitectos da urgência dos elementos. E é tão pouco o necessário à necessidade: um pedaço de pano, uma mão-cheia de cimento, uns poucos tijolos: as mãos.
Lóri apartada da cidade na cidade aprendia a esperar. Lóri à sombra do Jardim Botânico esperava Ulisses que aprendia o poema e a filosofia e a esperança que não sabia.
Do alto, construtores arquitectos esqueciam o esperar enquanto as suas mãos aprendiam o conhecimento dos tijolos sobrepostos em desenho impensado, o não-desenhado bastante ao abrigo.
Construtores não-arquitectos encarregues da protecção da noite e da vigilância aos elementos, trabalhadores incansáveis das mãos imprevidentes, inventores do nada quase suficiente.
Precários, primitivos, atentos aos restos cá de baixo, operários das sobras, oficiais das sombras, outras formas construídas achadas sem um tempo para o fim. Dentro da recomposição inesperada, dissidentes de um projecto sem prazo estipulado.
Ulisses rasgou os poemas quando colidiu com o corpo de Lóri.

um lugar no mundo#3

Rasurar o mapa e mergulhar na multidão. Cidade, City, Downtown, Baixa, Rio de Janeiro, Londres, Nova Iorque, Lisboa. Interpela-nos a multiplicidade, sei-o clichet, mas é a diversidade. Wall Street funde-se confunde-se com a main street, as lojas da 5ª Avenida com as da Almirante Reis, Luanda e o Golfo da Guiné – via Salvador e a História contada em português – com as tribos da floresta impenetrável. E falou-se sábado à noite dessa possibilidade única, e Histórica, de um reconhecimento do mundo, em português, pela miscigenação: cada um é um, no seu estatuto ontológico, dito nomeado em português do verbo ser e do estar, e por ser e por estar se uma hipótese provável e possível para uma nova filosofia pós-heideggeriana?


Rasurar o mapa do conhecimento, todas as possibilidades são maiores no não conhecer: um edifício baptizado Oscar Niemeyer que, com certeza, se o souber, o abjurará, no seu monumentalismo para-fascista, longe do desejo imenso da liberdade da elegante e infinita curva niemeyriana; Le Corbusier aqui, daqui, detestava a Baía da Guanabara, como detestava Manhattan, como não contava com o indivíduo e a sua irrazoabilidade, na infinita utopia cartesiana – Le Corbusier terá saído de 30 dias daqui a pensar noutra techné que não a da razão; Oscar Niemeyer emulado em brise-soleil repetitivos e burocráticos, como perplexidade diante do estatuto da obra arquitectónica na era da reprodução técnica; calcário importado no embasamento do clube dos empresário, a ostentação do poder sobre o solo antigo de granito; homens graves de fato vincado e gravata italiana, a calcular o optimismo do Brasil BRIC, um mulato de terno tropicalmente aprumado, descamisados cobertos de camisolas do Flamengo, mulheres bonitas e tristes; a boca do metro dentro de um mercado de produtos hip-hop, tanto quanto uma t-shirt do Barcelona FC ao som ruidoso de Beyoncé; edifícios do capitalismo concreto, monumentais monólitos na era i’m a whore Phillip Johnson Sony Building, igrejas coloniais, blibliotecas reais – D. João VI fez embarcar os livros e o prazer e a loucura; viadutos barreira amplificadores do ruído ensurdecedor das máquinas portuárias.

Rasurar o mapa é nem sequer desejar ter mapa. Um passo em frente, outro errado, da larga Av. Presidente Vargas – um ditador adorado? – ao lado a favela. Rasurar o mapa é o melhor. E construir um caminho como os construtores das favelas: recolher reconhecer roubar a matéria e as sobras das cidades e da vida, sem projecto, logo sem um tempo de um fim.

Rasurar o mapa: vibração distorção.

intimidade


[Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Lúcio Costa, 1956/1968]

Reconhecer a dócil curva da intimidade sob o pesado betão silencioso e optimista da modernidade.

FÁBRICA DO POEMA

In memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitectura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa
palavra por palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das
britas
e leite de pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por
fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do
vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera
sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos
moucos, assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas,
oxímoros sumido no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o
recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até à escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
que a palavra "recalcado" é uma
expressão
por demais definida, de sintomatologia
cerrada:
assim numa operação de supressão
mágica      vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão chave é:
sob que máscara retornará?


(Algaravias)

[ FÁBRICA DO POEMA, Wally Salomão]

um lugar no mundo#2

i.
The world is NOT flat: talvez não tenha Friedman conhecimento de outras hipóteses de mundo que não o da linearidade veloz das trocas que convergem aos milhões de ecrans globais. O morro, por exemplo, antítese da hipótese planificada/planificadora de desígnio ilusoriamente previsto.
O mundo plano, a recusa das categorias da precariedade, do improviso, do imprevisto, do inusitado, poderá até servir como crítica às alcatifas esterilizadas dos escritórios multinacionais de Nova Iorque, aos armazéns estandardizados de Paris, aos franchisings assépticos de Lisboa, não contemplará a insubmissão com que o outro mundo, fora da rede e de outro plano com outro desígnio que não apenas o da rede. Outro mundo, insubmisso e tumultuoso, além da linearidade que se nos apresenta como um paradoxo de Zenão, ou da previsível instabilidade quieta da rede.
Por uma técnica do bem-estar (material), o mundo plano recusa o alarme e a surpresa e abraça a obediência, compromete-se num traiçoeiro desvio moral que oblitera a condição do viver e do não viver, do continuar vivo e do não continuar vivo, como não decisões que recusam forçar o movimento das coisas reais.

ii.
Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem.

[Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares]


E se essa técnica outra da construção for o amontoar das formas e dos recursos naturais e técnicos e humanos, por uma lei que os políticos e os planeadores e os urbanistas e os arquitectos desconhecem, sem outra lógica de a da necessidade, da recolha violenta do que sobra desses elementos anteriores, de um desejo de comunidade?
Altar e sabedoria não dita, não escrita proscrita da condição precária que é a dos homens, das construções e das cidades.

iii.

[Café Benfica, R. Siqueira Campos, Copacabana, Rio de Janeiro]

A liberdade como técnica da reorganização do mundo terá o preço necessário de uma re-conquista do real rua a rua porta a porta. Erros, recuos, dúvidas no endereço das coisas dos outros, equívocas direcções, cruzamentos indecididos, mapas imprimidos massificados que nos não servem ao nosso desconhecimento, uma esquina do mundo abre ao espanto. O mundo novo, um mundo novo, depois de despidos que somos do cinismo das coisas (re)conhecidas, será uma capacidade já esquecida de interpelar a História.
É possível que a insurreição da novidade seja uma outra re-significação do que antes, à mercê de frágeis e intangíveis construções mentais, fosse o pasto de uma realidade irreal, provavelmente constituída de pedaços de desejo e de música. E talvez seja possível que a razão que nos cabe seja a tentação da construção de uma História que ultrapasse a da natureza sem história que apenas se repete: uma tentativa histórica de encontrar ruas novas desconhecidas escolhidas decididas a partir de coordenadas frágeis e, sempre, outra vez, de desejo.
Como um estado de infantil surpresa, outro olhar novo quando olhamos para o que todos olham, o suficiente à reordenação do mundo.

um lugar no mundo


[R. São Clemente com a R. Dona Mariana, Rio de Janeiro]

Não é a húbris da The Economist, é antes disso a mistura: da natureza insubmissa com as construções; as escalas múltiplas dessas construções, que reverberam os contrastes maciços da geografia; os sucedâneos gloriosamente falhados de um Niemeyer omnipresente; o cheiro de florestas dentro da cidade; eras de esplendor na pequena moradia de um bairro de moradias e edifícios à la carte (de Atenas) e ilusões de um neo-brutalismo britânico na marca de algum concreto mais cru; tudo em ‘vias de’, longe do remanso aparentemente tranquilo com que o capitalismo hard coisificou, igualitarizou, plastificou, turistificou as nossas cidades da velha Europa.
Ainda não é a cidade. Uma esquina, apenas.

do sul e outros hemisférios


sem lenço e sem documento

poética do espaço


[A Dispensa, Manuel Caeiro]


- Era uma casa – como direi? – absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.


[Minha cabeça estremece com todo o esquecimento, Herberto Hélder]

estado real


[Público, 23.06.2010]

Como Sibila soprava as palavras da adivinhação, enreda-se-nos a newspeak ao pequeno-almoço. E se o mundo começa, todos os dias, com o jornal, pela novilíngua ele aparece, todos os dias, um pouco mais distorcido. Uma desconfiança que se instala pela lei da traição das palavras, lentamente uma espécie de despudor do poder. Uma máquina de erguer deuses, ídolos fugazes, e neles se fundar um admirável mundo novo sem qualquer adesão à realidade. Com a evidente contradição de ser este o paradoxo que vai, todos os dias, construindo uma outra realidade. Como um re-arranjo da semântica, um ajuste quotidiano dos nomes, uma escrita inefável que só no e do caos é possível ter percepção. Mas como se tudo, a realidade, o mundo, estivessem minuciosamente organizados.
O suplemento do imobiliário. A construção gramatical das coisas da construídas e por momentos ao abrigo da lei antiga da oferta e da procura, que dessa realidade, da oferta e da procura, se deveria fundar e é a mais refinada evidência da dissolução de qualquer laço entre a realidade e a lei da oferta e da procura. Não interessam aqui tanto os números que com suposta objectividade se conta o mundo. Interessa mais a produção de uma linguagem, técnica e especializada, eventualmente, que suporta um discurso aberrante sobre a construção, as cidades e sobre a arquitectura.
Como o privilégio desta linguagem remete para a pretensa exemplaridade e singularidade e objectividade de cada palavra, o próprio nome de um qualquer arquitecto anuncia-se como uma visão – meço as palavras – hipócrita do mundo. Porque não é de facto um mundo que é proposto mas apenas uma aparência, uma construção proveniente da novilíngua do suplemento de imobiliário, em que arquitectura quer dizer a escolha de um status, em que arquitecto quer mais dizer um sociólogo fazedor de classes, em que cidades quer dizer uma redução do mundo à troca e tráfico de coisas.
Interessa averiguar esta redução radical daquilo que os nomes transportam; (apenas) o dinheiro torna-nos tão pobres.

olhar no escuro

Uma obra crítica ou filosófica, que não se mantenha de alguma maneira numa relação essencial com a criação, está condenada a girar no vazio, do mesmo modo que uma obra de arte ou de poesia, que não contenha em si uma exigência crítica, está destinada ao esquecimento. Mas hoje, separadas em dois sujeitos diferentes, as duas sunan divinas procuram desesperadamente um ponto de encontro, um limiar de indiferença no qual possam reencontrar a sua unidade perdida. E fazem-no trocando os seus papéis, embora estes permaneçam implacavelmente divididos. No momento em que o problema da separação entre poesia e filosofia pela primeira vez surge na consciência, Hölderlin evoca numa carta a Neuffer a filosofia como um «hospital onde o poeta infeliz pode refugiar-se com honra». Hoje o hospital da filosofia fechou as portas e os críticos, transformados em «tutores», tomam sem cautela o lugar dos artistas e simulam a obra da criação que estes deixaram cair, enquanto os artífices, que se tornaram ociosos, se dedicam com zelo a uma obra de redenção na qual já não há obra alguma a salvar. Nos dois casos, criação e salvação já não deixam gravadas uma na outra as marcas do seu obstinado conflito amoroso. Não assinadas e divididas, estendem-se ora uma, ora outra, um espelho no qual não podem reconhecer-se.

[Criação e Salvação, Giorgio Agamben]


Admito a proposta de Agamben, em Criação e Salvação, como uma possibilidade - ainda que desencantada mas ainda em busca de uma luz no meio da escuridão, que para o autor é meio da contemporaneidade - para a necessidade ou pertinência do exercício crítico.
Partindo da tradição exegética dos textos sagrados – da tradição judaica, islâmica e cristã – atribui-se à figura do profeta e do anjo a constituição, o fazer e o desfazer da História. Sendo que em cada uma das duas extremidades da acção divina se encontra a criação e a redenção, à figura do anjo se atribui o fazer, da criação – eventualmente a criação catastrófica, sempre no passado, do Anjo de Benjamin – ao profeta, cabe o dizer e a mediação da criação junto das criaturas. O profeta será esse modo outro de criação pela palavra criadora e incansável e que, em movimento inverso ao da criação, é o que lhe daria o sentido. A inteligência da criação tornada inteligível pela deriva das palavras e que, em certo sentido a tradição rabínica e a islâmica, pelos óbvios motivos da espera em que ainda perseveram, a fazem preceder à própria criação: à acção é necessária uma redenção que a legitime. E é desta luz, humana e frágil, feita carne e som e símbolo, de que decorre a salvação.
O que definirá o estatuto da obra será a resistência à obra-outra do profeta, resistência que insiste no seu «ser-noite», que insiste na opacidade que será o território do profeta.
À modernidade é excluída a profecia como o dizer imperativo da salvação da obra da criação, substituindo-a a filosofia e a crítica; ao anjo da criação sobrevém a poesia, a técnica, a arte. O anjo secularizado, perde a memória dessa relação inextricável em que o poeta era o crítico, e o crítico, agora ressentido, vinga-se em juízos. Como o poeta já não alcançasse salvar a sua obra entrega-se «cegamente à frivolidade do anjo» - e daí a esquizofrenia hediorna desta relação outrora íntima.
A instância do dizer solar sobre os abismos da criação é pois, enredada no acto da criação como «dois rostos de um poder divino» que «coincidem no mesmo ser».

Talvez essa proposição de Kenneth Frampton seja um sintoma desta esquizofrenia ou do nosso esquecimento de um fazer crítico, quando, cínicos, já sabemos que tudo o que é destinado a criar-se é destinado a perder-se. E verifica-se o conhecimento dessa destruição iminente quando as coisas criadas se perdem a um ritmo veloz, nunca antes experimentado pelos homens, atrevo-me a dizer. Recorrer à crítica, ainda que como meio de conhecimento da obra e do mundo, mas como possibilidade de (auto-)entendimentodo do próprio criador pode ser, atrevo-me outra vez, uma resolução arrogante e, tomo uma palavra de Agamben, «frívola». Tal não é decreto da falência da obra, quando esta é apenas meio para a «salvação» do autor. Querer fazê-lo, ao projecto, uma pedra sólida no oceano onde naufragamos é esquecer que o próprio projecto é ele mesmo a viagem desassossegada de tentar responder a questões concretas e objectivas da vida dos homens – uma das quais o desejo, evidentemente – e não apenas à ansiedade do simples homem-criador.

[La lutte de Jacob avec l’Ange, Marc Chagall, 1960.1966]

Porque, justamente, autores, e homens para outros homens, somos na Caverna platónica: a pregnância de crítica e de forma, o projecto como lugar onde se quebra a espinha dorsal do tempo na coincidência da História, só depois as nossas irrelevantes, diria, micro-narrativas.
Sem esperança a vida é impossível, sem o outro, estéril. Assim são as obras dos arquitectos.

europa caffe#8


[Alfama, Lisboa]



De que é feito um espectro? De signos, ou melhor, mais precisamente, de marcas, isto é desses signos, nomes cifrados ou monogramas que o tempo risca sobre as coisas. Um espectro traz sempre consigo uma data, e é, assim, um ser intimamente histórico. Por isso as velhas cidades são o lugar eminente das marcas que o flâneur lê como que distraidamente no decorrer das suas derivas e dos seus passeios; por isso as más obras de restauro, que embalam e uniformizam as cidades europeias, apagam as suas marcas, tornam-nas ilegíveis. E por isso as cidades – e de maneira especial Veneza – parecem-se com sonhos. No sonho, com efeito, cada coisa faz sinal àquele que a sonha, cada criatura exibe uma marca, através da qual significa mais do que tudo o que os seus traços, os seus gestos, as suas palavras alguma vez poderiam exprimir. No entanto, também quem tenta obstinadamente interpretar os seus sonhos, está algures convencido de que eles nada querem dizer. Assim na cidade tudo o que aconteceu naquela calçada, naquela praça, naquela rua, naqueles alicerces, naquela rua de lojas, de repente condensa-se e cristaliza numa figura, ao mesmo tempo lábil e exigente, muda e amistosa, intensa e distante. Essa figura é o espectro ou o génio do lugar.


Que devemos nós ao que morreu?




[Da Utilidade e dos Inconvenientes do Viver entre Espectros, Giorgio Agamben]