is chicago, is not chicago*


[Chicago, Adam Broomberg & Oliver Chanarin]





E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


[À Espera dos Bárbaros, Konstantinos Kavafis]



Podem as origens das cidades se sustentarem em teorias diversas, até mesmo antagónicas, mas aceita-se, de comum acordo, que essas diferentes origens ultrapassam o estrito reduto de um funcionalismo reduzido à necessidade. Ao desejo de viver próximo do próximo e receptivo ao estrangeiro não assistirá apenas uma mera razão prática e utilitária que seja de modo a erguer cidades. Evidentemente que o comércio é uma razão determinante para que possamos aportar nalgumas cidades do mundo – escrevo isto de Lisboa – e quem diz o comércio diz a possibilidade da extinção, por satisfação, de insondáveis desejos humanos, do amor aos utensílios e artefactos. Sendo certo que a teoria proporciona divertidas elaborações a partir da visão materialista, ou mineralista, no dizer de de Landa, radicar a apesar de tudo pacífica convivialidade entre estranhos que as cidades proporcionam nos fluidos dinâmicos da matéria (sic.) é, historicamente, uma possibilidade apenas ao alcance de quem viva nesta era do cinismo. Ainda que encontremos razões para concordar com de Landa. E talvez essas razões decorram, justamente, por atravessarmos a era do cinismo.
Chicago. Não a Chicago heróica que se levanta mais alta que o vento do Michigan. Chicago, a cidade inventada no meio do deserto do Negev, pelos árabes, com a finalidade de treinar as tropas árabes na guerra contra os israelitas. Chicago a reprodução espacial de Ramallah, criteriosamente coberta de areia e cuidadosamente grafitada, como o campo de refugiados de Jenin.
E aqui, nesta estória inventada, é onde se atravessa a História, como um palco onde se representam as cidades e a História, e as tragédias de um conflito antigo. Teatro de guerra, dizem, como técnica arquitectónica de destruição da própria arquitectura. Mas esta Chicago não a vejo tanto como representação mas mais como expressão. Uma tragédia em que a representação e o palco da representação são o dizer em si mesmo do que ali é. Mesmo que o nome, Chicago, o seja pelos buracos de balas pintados nas paredes como homenagem a Al Capone. A vida, a arquitectura, como ensaio da História.
Dir-me-ão, a arquitectura suporta sempre uma ideia. Evidentemente. Serviu, serve, servirá, sempre, um qualquer programa político e de reordenamento social. Temos até, na nossa casa europeia, cicatrizes ainda vivas do serviço a causas inumanas e opressoras da escala do corpo. Mas estas cicatrizes no deserto, literais, são o próprio corpo.

Noutra ferida, ou noutro instante da mesma dor do ódio, cresce, no meio dos destroços e do metal torcido pelo fogo, uma pequena esperança.


*Is Chicago, is not Chicago, Soul Coughing.
A man
drives a plane
into the
Chrysler building



[anterior ao 11 de Setembro]



para o António

natureza das coisas




Primeiro Acto
SOLNESS (empurra a cadeira para mais perto e senta-se) Falando a sério, porque é que veio cá? Na realidade veio aqui fazer o quê?
HILDE Oh, em primeiro lugar quero andar por aí a ver tudo o que o que o Senhor construiu.
SOLNESS Então vai ter muito que andar.
HILDE Pois é, eu sei que construiu muitíssimo.
SOLNESS Pois construí. Sobretudo nos últimos anos.
HILDE Muitas torres de igreja? Altíssimas, também?
SOLNESS Não, agora já não construo torres de igreja. E igrejas também não, aliás.
HILDE Então agora constrói o quê?
SOLNESS Casas para pessoas.
HILDE (pensativa) Não podia construir também assim… assim uma pequena torre nas casas?
SOLNESS (intrigado) Que quer dizer com isso?
HILDE Quero dizer uma coisa que aponte para o alto, assim livre, pelo ar dentro. Com um cata-vento tão alto que até dê tonturas.
SOLNESS (pensa um pouco) É muito estranho que me diga isso. Porque é precisamente isso o que eu mais queria fazer.
HILDE (impaciente) Mas então porque é que não faz?
SOLNESS (abana a cabeça) Não, porque as pessoas não querem.
HILDE Imaginem… não querem!

Segundo Acto
SOLNESS E agora nunca mais construo nada assim, nunca mais! Nem igrejas, nem torres de igreja!
HILDE (acena com a cabeça lentamente) Só casas em que as pessoas possam morar.
SOLNESS Casas para as pessoas, Hilde.
HILDE Mas casas com torres altas, que terminam em agulha.
SOLNESS Sim, de preferência. (Num tom mais leve:) Pois, está a ver, como eu disse, esse incêndio fez-me levantar voo.
Como construtor, claro.
HILDE O senhor não se diz arquitecto, como os outros, porquê?
SOLNESS Não tenho instrução que chegue. O que eu sei, na maior parte, aprendi e descobri por mim próprio.
HILDE Mas mesmo assim levantou voo, Construtor Solness.
SOLNESS Graças ao incêndio, sim. Dividi o jardim quase todo em talhões para construir vivendas. E pude lá construir exactamente como eu queria. Tudo me correu lindamente.
HILDE (olha interrogativamente para ele) O senhor decerto é um homem muito feliz. Tal como está na vida.
SOLNESS Feliz? A Menina também diz isso? Como os outros todos.
HILDE Sim, acho que deve ser.
[...]
SOLNESS (continua a fitá-la) Quando lhe contei isto do incêndio… hum…
HILDE Sim?
SOLNESS Não lhe ocorreu nenhuma ideia em especial?
HILDE (reflecte em vão) Não. E que ideia seria essa?
SOLNESS (em voz baixa, marcando bem as palavras) Foi única e simplesmente só depois desse incêndio, e graças a ele, que fiquei em condições de poder construir casas para as pessoas. Casas bonitas, confortáveis, cheias de luz, nas quais o pai e a mãe e a criançada toda pudessem viver seguros e sentir como é bom viver neste mundo. E, acima de tudo, serem uns para os outros, tanto nas coisas grandes como nas pequenas.
HILDE (entusiasmada) Sim, e então não é para si uma enorme felicidade poder construir assim essas maravilhosas casas?
SOLNESS O preço, Hilde. O preço terrível que tive de pagar para o conseguir!
HILDE Mas não será possível superar isso?
SOLNESS Não. Porque para conseguir construir as casas para os outros tive de renunciar, de renunciar para sempre, a ter uma casa para mim. Quer dizer, uma casa para a criançada. E para o pai e a mãe também.
HILDE (cuidadosa) Mas teve mesmo? Para sempre, como diz?
SOLNESS (acena com a cabeça, lentamente) Foi o preço da felicidade, de que me fala essa gente. (Respira pesadamente:) Essa felicidade… hum… essa felicidade não foi nada barata, Hilde.
[…]
SOLNESS Nunca reparou, Hilde, que o impossível como que nos seduz e chama por nós?

Terceiro Acto
HILDE Que quer dizer com isso?
SOLNESS (olha para ela desanimado) Isso de construir casas para as pessoas não vale cinco cêntimos, HIlde.
HILDE E diz isso agora?
SOLNESS Sim, porque agora sei. As pessoas não precisam dessas casas para serem felizes. E eu também não precisaria de uma casa assim. Se tivesse alguma. (Com um riso tranquilo e amargo:) Sabe, é este o meu balanço completo, tanto quanto posso ver para trás. Na realidade, nada construído. E também nada sacrificado para poder construir qualquer coisa. Nada, nada de nada.
HILDE E de agora em diante não quer construir nada de novo?
SOLNESS (vivamente) Ah, sim, é agora mesmo que quero começar!
HILDE O quê? O quê? Diga-me!
SOLNESS A única coisa em que a felicidade humana se pode alojar – isso é o que eu quero construir agora.
HILDE (olha fixamente para ele) Construtor, agora está a referir-se aos nossos castelos no ar?
SOLNESS Os castelos no ar, exactamente.



[O Construtor Solness, Henrik Ibsen]

uma flecha no coração da noite


[A Torre de Babel, Pieter Bruegel, c. 1563]


[A Torre de Babel, Pieter Bruegel, c. 1563]


ALINE SOLNESS (interrompendo, queixosa) Tu podes construir absolutamente tudo o que quiseres neste mundo, Halvard, mas para mim não hás-de conseguir construir nunca, outra vez, uma verdadeira casa.

[O Construtor Solness, Henrik Ibsen]


Platão concebe o encontro com a beleza como aquele abalo emotivo salutar que faz o homem sair de si mesmo, que o ‘arrebata’. O homem, diz Platão, perdeu a perfeição da Origem que para ele fora concebida. Daí que, agora não pare de demandar a forma primigénia que o há-de restabelecer. A recordação e a saudade incitam-no a essa demanda, ao mesmo tempo que a beleza o arranca do contentamento com o quotidiano. Esta beleza fá-lo sofrer.

[Ferido Pela Seta do Belo, Joseph Ratzinger]


Por mais solicitações que a modernidade e a contemporaneidade, a História, tenham imposto à arquitectura, reconheço-lhe como tarefa primeira o abrigo. E talvez essa pretensão do abrigo seja, no fim de contas, um regresso a um estado inicial de que apenas tenhamos vaga e difusa memória. Um abrigo que subsista no inconsciente colectivo, para usar a descoberta de Jung que articula todas as possíveis invenções culturais da humanidade, e que, ao fim de contas, muito primária e originariamente, poderia servir de modelo às regras que se impõem à construção das casas e das cidades. Uma espécie da cópia do ideal platónico.
Como se aos arquitectos coubesse, pela História, uma repetição dos gestos ocultos de deus no instante da criação, é uma pretensão que não raras vezes se revela na arquitectura e nos arquitectos. Há exemplos recentes disso, no modernismo mais ortodoxo e canónico – evidentemente que não me referirei a Le Corbusier, nem mesmo à suposta cristalização do cânone na Ville Savoye – ou, exemplo hediorno, o Armani Hotel no Dubai, com totalitarização tecnológica – numa presunção triunfalista da técnica – de todo o horizonte em que o humano, de corpo, olhos, língua, mãos, ouvidos, poderá alcançar.
À loucura humana já não basta o abrigo. O conforto de uma casa bonita onde se regressa ao final do dia, um pedaço de espaço para descansar o corpo. À loucura exige-se o domínio total do limite como se este não fosse da ordem e a ordem do real. 360° à roda do corpo que nos propõem esquecer a nossa condição de simples mortais.
Não fosse esta loucura equívoca, estética e ética, não teria sido ela o motivo de muito do sangue derramado pelos séculos.

urbi et orbi

Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.

Bento XVI, esta manhã, no CCB.




adenda:
Bento XVI, Pessoa e a fome de beleza, José Tolentino Mendonça

Presenças Reais, Pedro Mexia

arquitectura e poder: v império


Benedictus XVI, Praça do Comércio, Terça-feira, 11 de Maio de 2010

trend(y)


[Lote 4, São Mateus, Terceira, 2007]

Há poucos minutos informado que terão sido as casas de São Mateus inventariadas pela Secretaria Regional da Cultura para classificação.
Isto é capaz de ter alguma coisa que se lhe diga, quando o autor é capaz de dizer que haveria que refazer algum do espaço e das relações internas de algumas das casas.

trend


Lote 4, São Mateus, Terceira, 2007, foto Ana Janeiro

Mais recentes, as moradias unifamiliares da chamada Urbanização da Quinta do Pombal, em São Mateus, surgem como uma série de construções de expressão e formas desiguais, explorando alguma vocação de “arquitectura à moda”, exibindo alguns exemplos de irreverente desenho, com sentido quase experimental das formas, e com uso de tons cromáticos intensos, conjugando o branco e o vermelho (com várias habitações em acabamentos em 2007).


[José Manuel Fernandes in Arquitectura Contemporânea nos Açores, José Manuel Fernandes, Ana Janeiro, 2009]


É naturalmente escasso o entendimento da forma apenas por uma imagem que decorra da forma. A forma não se reduzirá à aparência, por mais sedutora que seja, mas implicará, decerto, uma galáxia de factos, uns mais ou menos dizíveis, outros explícitos ou explicitados, que se juntarão, na invenção, de modo hipoteticamente novo. Moda?, experimentalismo? Talvez, se isso for uma proposta de re-iniciação do conhecimento (meu) e uma tentativa (minha) – naturalmente que em compromisso com o cliente etc., etc., etc. – de entendimento e reordenação original - para o arquitecto, para o cliente, para o lugar, para as necessidade, para o desejo – desse entendimento do real. E perdoe-se-me a presunção ou o narcisismo. Ou ao cliente.
Em todo o caso, sabemo-lo, a moda poderá muito bem ser uma ferramenta plausível para o entendimento do curso das coisas. Mas também isto é capaz de já ter passado de moda.

presença

O que aqui se denomina “reflexão” não se refere a um sentir qualquer, mas sim àquele pensamento, no qual toca e oscila o relacionamento do homem com isso que é, com o real. À medida que o homem se relaciona com o real, ele o representa desde o ponto de vista, segundo o qual ele é, como ele poderia e como ele deveria ser – em suma: ele representa o real no tocante ao seu ser. Este re-presentar é o pensamento.

Quem é o Zaratustra de Nietzsche?
, Martin Heidegger in Ensaios e Conferências


We've got no future, we've got no past
Here today, built to last


West End Girls
, Pet Shop Boys


Se da literalidade de Construir Habitar Pensar ressoa uma ligeira desadequação à época, creio sobrarem pistas, no texto, para uma possibilidade ética – e técnica – para a arquitectura. Nada de original aqui afirmo. O ensaio encima uma genealogia que vai longa e uma tutela teórica a textos fundamentais. Se quisermos, fez detonar o que se poderia catalogar de metodologia fenomenológica à abordagem do projecto. Ela própria responsável pela revisão do cânone moderno.
Desta fractura latente teria o filósofo clara evidência. Da contemplação das extáticas montanhas e o labor incansável sobre a lava incandescente da linguagem eram-lhe sageza, e pensamento, para o entendimento de que nem só das verdades perenes suportaria a vida – individual e social – e o despacho dos assuntos humanos. Como uma pequena luz, no alto da montanha, o entendimento de que a sua própria re-presentação e pensamento sobre o real o afastava dos outros homens por lhes estar vedado, como ao próprio estaria, o absoluto recolhimento na contemplação das questões perenes.
Tal como Zaratustra, Heidegger odiava as cidades. E talvez por lhes assinalar uma existência decorrente apenas da necessidade prática, recusou-se a pensá-las, pensando apenas o habitar como necessidade primeira, antes, como localização, situação, do humano e do pensamento no Mundo – sendo o mundo já a Terra trabalhada pelas mãos humanas. Um retorno, portanto, a proposta heideggariana do habitar, às formas essenciais, impassíveis, rotinadas e ritmadas pelo compasso da natureza como antítese da experiência da cidade.
Ser-se cosmopolita ou provinciano – provincial – pode ser uma maneira de posicionamento, uma tomada de posição em frente à montanha. Mas esta leitura maniqueísta do texto só fará sentido se se omitir que o próprio texto é uma crítica à própria casa camponesa. Na sua desadequação às necessidades da modernidade, na impossibilidade de fazer desabar do céu o paraíso perdido no meio da Floresta Negra ou da planície alentejana, na verificação da imposição quase natural, diria, do humano como ser gregário. Torna-se por isso a crítica cosmopolita-radical, sustentada no valores estritos do racionalismo e do funcionalismo, vaga e ociosa. Sendo até uma outra forma de provincianismo.
Não se trata de uma disputa cosmopolitismo versus provincianismo. Apenas de encontrar no desejo e na necessidade também da época uma possibilidade de construí-la de acordo com o que é. Nem paraísos perdidos nem a veleidade futurista, sempre promessas catastróficas. É capaz de ser um legado do anos 80 – se lhe excluirmos o hedonismo radical e a cocaína.

[Fondation Cartier, Jean Nouvel, 1994]

caminhos de floresta: montanha da morte


Digne Meller-Marcovicz, 1968

Árnica, alegria nos olhos, o
gole do poço com a
estrela-cubo no topo,

na
Cabana,

escrito no livro
- de quem o nome revelado
antes do meu? –
neste livro
a linha sobre
uma esperança, hoje,
de quem medita
um nome do coração,

húmus da floresta, nunca aplanado,
orquídeas e orquídeas, unicamente,

rudeza, mais tarde, caminho a fazer-se,
evidente,

ele que nos conduz, o homem,
ele mesmo ouve,

meio-
tronco pisado-
na floresta alta,

humidade,
muito.



[Todtnauberg, Paul Celan, 1967, versão jac]

juntar árvores


[Parque do Buçaco#711, Gabriela Albergaria, 2007]

Às vezes os problemas arquitectónicos são problemas religiosos e vice-versa.
Gonçalo M. Tavares, Capela do Rato, 05.05.2010

Por hipótese, ser tarefa da arquitectura tornar visível o que ainda não é. E se é do espaço que falamos quando falamos da arquitectura, é um trabalho sobre o invisível dentro do invisível. Evidentemente, há a matéria anterior. A dos lugares, das intenções, dos desejos, das possibilidades. E por isso será a arquitectura essa tecnê: técnica, que às tantas o escritor trocou por tecnologia. Ser também uma tecnologia da construção é condição – e regresso sempre, todos os dias, a Construir Habitar Pensar, ao esforço do homem que habitava uma cabana Floresta Negra, da desocultação das coisas que desvela a continuidade, a contiguidade, a sobreposição, a aposição do construir com o habitar - e esse acto contínuo, lento, rigoroso, amoroso, como possibilidade do conhecimento do real.
A agricultura, mais que o jardim, a cultura da criação do alimento, a organização a que se procede da natureza, do território, da paisagem, dos lugares, num gesto de necessidade e ligação à Terra – depois, Mundo – como juntar dois ramos de árvores derrubadas.

Outra hipótese, a da tecnologia, da instrumentalização do conhecimento, nos conduza ao excessivo ruído desta época. Como nessa igreja na cidade do México, cheia de orações electrónicas, descarnadas, frias como o metal que as anuncia.
E a hipótese é ser dessa colisão impensada do exterior - veloz, velocíssimo, feroz, despido de memória e construído de necessidade ou distracção – com o interior – moroso. Porque é também a igreja um lugar que a tecnologia ergueu. A partir da técnica da respiração das coisas.

E depois propuseram-me, no regresso, que talvez essa respiração, esse ritmo único e primitivo das coisas, hoje só se encontre nas ruínas.

insania#3


[Fahrenheit 451, François Truffaut, 1966]


Presumivelmente que Truffaut não tivesse outra hipótese para onde tocar fogo aos livros. Onde tudo tenderia para a homogeneização, a perda da memória, a impossibilidade da infância, numa utopia descarnada – não por acaso uma sociedade impedida do desejo e do sexo – o território do real acertado, num indício de que a distopia totalitária não nos é tão distante quanto a anestesia que a sociedade liberal tenderá a impor poderá fazer crer, é a arquitectura da tabula rasa: a do esquecimento, a da religião da razão científica imparável, a do pressuposto de um fim redimido do Homem. Poderia ser uma tautologia, não estivéssemos em 1966 e o moderno, exangue, tinha há pouco implodido em contradições internas e na emergência do indivíduo fora de qualquer quadro normativo que se lhe sobrepusesse. Depois foi Maio, em 68.
O que pensamos quando pensamos em distopia?: a transparência despudorada e totalitária do vidro - onde tudo é obsceno porque dentro de cena - [Nós, Zamiatine]; no infinito indiferenciado vazio [THX1138, G. Lucas], nos dispositivos de vigilância electrónicos e de linguagem [1984, Orwell]; na ciência como critério moral [Admirável Mundo Novo, Huxley]? Penso agora que eram isto sementes que o pressuposto modernista transportava.
Em Bradbury nada faria supor a decisão de Truffaut por uma arquitectura que poucos anos antes transportava, também, o fogo: o da superação moral da humanidade. Como os livros, a arquitectura também arde. Sobram a memória e os caminhos da floresta.

insania#2


[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]

Creio não estar errado ao dizer que terá sido Baudrillard quem terá dito que com Aconteceu no Oeste Sergio Leone terá dado início à pós-modernidade no cinema. Seriam as colagens e as citações do western, género, à data, exausto, após Ford e Peckinpah.
E se em Antonioni era o ennui e o mal de vivre moderno, em Wenders, citando Antonioni, regressa-se à cidade, antes, à possibilidade das cidades.
Ainda que errantes, porventura escapistas, são paisagens, lugares urbanos, cidades dos homens, cheias de mal e de bem, onde Alice procura uma morada e os anjos desejam cair: como quando Wenders não teve pudor em ir buscar Travis ao deserto - onde procura com loucura o momento e o lugar exacto da sua origem – e o leva à cidade para lhe devolver um pouco de tranquilidade e de amor.

insania


[The Searchers, Monument Valley, John Ford, 1956]

Pode haver um motivo para que, no cinema, quando um lugar torna personagem, haja a predisposição ao tráfico da razão pela loucura: estórias lentas em que os homens se vão afundando na natureza; narrativas onde a arquitectura é ausente ou rarefeita e a pouca que resta é incapaz de amparar a razão humana da enormidade da paisagem.
E aqui sobrevém à arquitectura a sua tragédia: não salva. Um artefacto humano que serve de abrigo e de algum consolo, apenas.

on ne peut montrer le chemin à celui qui ne sait où aller*



Uma fronteira que não tem nada do outro lado.

Esperar é um modo de especular, de fixar, no horizonte, um ponto onde quem espera se pode inscrever, ou, mais rigorosamente num gerúndio, inscrevendo. Esperar, como o amante espera a amada, o ladrão a noite, o soldado a guerra, é a permanente vigília que não se permita à distracção das coisas abaixo do horizonte. É ter miragens, alegorias abstractas do que se espera. É desesperar na memória que se vai elidindo daquilo que se vislumbrou, fugaz, outrora.

Pedras… Areia… Pó…
Subsistir nessa memória é ficar à mercê do lugar onde se permanece. Na memória da amante, da noite, do inimigo: uma fortaleza que se corrói um pouco mais a cada noite que passa – quando no dia se deseja a noite. É permanecer no deserto. Nada, para além dos olhos, do sono, do tédio. Da loucura.

Uma fronteira é uma fronteira.

Drogo, enviado a Bastiana, é, como todos os outros, lenta e inexoravelmente atraído à espera, vaga, de alcançar um dia um tártaro, o inimigo. Bastiana, o posto último do império guarda do deserto e a névoa da areia tocada pelo vento.
Bastiana [Bam, Irão] é a torre e o labirinto: a vigia ao deserto e a loucura da espera. Uma guerra iminente e o labirinto interior, sombrio, onde o oficial, jovem, aprende a morte. Porventura apenas se sustém e estrutura pelos rígidos e rituais códigos militares, no meio de nada, de um inimigo que o deserto torna impossível.
Na geopolítica da solidão, ganha a loucura. A guerra é a esperança última de que a distância e a espera, a vida, adquira um sentido.

Uma estrada? No deserto?
Quem poderá ser? E que utilidade teria?

Por hipótese não é Drogo, nem o tédio, nem a loucura, nem o inimigo ausente: será a fortaleza. A imensa muralha, escrita na areia, do que, misteriosamente, sempre permanecerá. E a resignação, uma arquitectura da solidão, e às vezes a alegria. Encontrar abrigo numa cidadela que permita um breve descanso para, depois, mais uma jornada no deserto. E outra a seguir.

[O Deserto dos Tártaros, Valerio Zurlini, 1976]



*Antoine de Saint-Exupéry

outras cabanas


[Man in a Shed, NIck Drake, 1969]

a grande fadiga


[Le Cabanon, Le Corbusier]

J’ai un château sur la Côte d’Azur, qui a 3,66 mètres par 3,66 mètres.

Le Corbusier






[Die Hüette, Martin Heidegger]

Estar desperto no fogo da noite.

Martin Heidegger


Não digo que seja ironia, mas certamente haverá alguma razão na recolha de dois espíritos tão diversos, opostos, a lugares e a formas do habitar essencialmente - e essencialistas - semelhantes.
O cansaço?, um, do que se queria ser, outro, do que se queria ter sido.
A fadiga?, de utopias do futuro, de utopias do passado.

como estrelar um ovo numa villa do cinquecento?


[La Ragazza con la Valigia, Valerio Zurlini, 1960]

Onde há estrada, há uma casa no fim: o road movie é apenas um lapso de tempo, um entre, por mais definitivo e infindável. A viagem, como condição de permanência, é um lugar de condenação e de impossibilidade.
A arquitectura pretenderá a compreensão do seu tempo para nele intervir. A casa, um canto, o nosso bocado no mundo onde exercemos soberania – e a política da casa diverge da da polis - que se constitui na primeira realidade indentitária e relacional entre nós e o mundo. E a História. E uma casa, como uma possibilidade elementar de nos fixar - paradoxalmente numa fixação móvel - num horizonte histórico seja, talvez, uma ideia que vamos esquecendo. Talvez.
Talvez a trivialização e a banalização do quotidiano, a desritualização da vida de todos os dias, traga à memória um certo esquecimento, um remanso do viver. Tudo se torna liso, os dias sucedem-se iguais, fabricados à medida de cada um. Não é bom, nem mau, é o que é, e provavelmente é aqui, neste espaço que cada um se concede, que melhor se poderá fazer uso da liberdade individual que será, também, apesar de tudo, uma das conquistas da modernidade.
E talvez por isso, ao percorrer as villas de Palladio tenha sempre experimentado o sabor de alguma inutilidade daquela arquitectura, confundido na irremediável ignorância dum funcionalismo dissimulado e totalitário. Na imponderada contingência da nossa época, qualquer uma dessas villas parecer-nos-á tão vaga quanto a nossa incapacidade para as habitar.
Como estrelar um ovo numa villa do cinquecento?, ou namorar?, ou ouvir música?, ou dormir? Como suportaria uma dessas casas todas as necessidades e comodidades da modernidade?

Apenas até ter visto a Claudia Cardinale, de roupão, a descer a escadaria da Villa Tedeschi.

dusting crops where there ain't no crops

Até pode ser uma ilustração do que divide o Novo do Velho Mundo: Roger O. Thornhill, ignorante quanto ao que consigo se sucede, toma, resoluto, a decisão de nesse momento não ser mais objecto dos caprichos do real, mas ser ele o fazedor do real; Aida Zepponi, sem o saber, perdida, aflita por satisfazer uma necessidade básica, puro instinto da sobrevivência, numa estrada secundária a caminho de Parma.
Cabe em Cary Grant, numa encruzilhada da Garces Highway, no espaço rarefeito, desprovido de símbolos e significados, mergulhar no great wide open que a nós, europeus antigos e sem acesso a um espaço novo, imersos em paisagens carregada de memória e significados, incapazes de um movimento espontâneo ou resoluto, está vedado.
E aflição da Claudia Cardinale que me recorda aquela frase do Manuel Vicente: «o campo é um sítio onde eu paro para mijar entre duas cidades».

Não quero ser peremptório para poder dizer que a única possibilidade da construção do sentido, ou do real, ou de organização nova das coisas, se poderá empreender apenas em espaço vazio. Muito pelo contrário, até. E até porque o resultado de tabula rasa é manifesta e tragicamente conhecido.

a vida e a morte das pequenas cidades americanas*


[The Last Picture Show, Peter Bogdanovich, 1971]


*depois de Jane Jacobs.

a little lost*


[North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959]



[La Ragazza con la Valigia, Valerio Zurlini, 1960]


*Arthur Russell

ruínas?


Campus da Justiça, Lisboa

desaparecimento(s)


[Ruínas, Manuel Mozos, 2010]



joão amaro correia disse...
tudo muito bem, mas algo me deixa perplexo, no filme. e confesso que essa perplexidade assumiu contornos mais tangíveis nos planos dos bairros dos pescadores, na trafaria, acho, e naqueles bairros disformes ou informais ou outrora ilegais da fonte da telha. a saber: não é de ruína que falamos, o título é enganador, não é dessa experiência crítica do tempo a tratar a matéria, é a memória?, provavelmente. e aqui a memória é a de um portugal que não existe, claro, mas, regresso a essas duas sequências particularmente, um portugal ainda contemporâneo, que alguém, no caso o realizador, não acha que deva ter espaço para existir.

de resto, imagens belíssimas, evidentemente. e talvez, se se quisesse ter aguçado um pouco mais a dor, ter-se esticado ao limite o tempo de cada plano?


Susana Viegas disse...
é uma boa ideia, não sei se o Mozos queria criticar de algum modo negativamente esse tipo de ocupação - mas esses bairros de pescadores na fonte da telha mostram que as ruínas não são apenas os sítios abandonados mas as actividades, os hábitos ou projectos que deixaram de ser actuais. aqueles bairros não terão nunca ruas ou avenidas como uma cidade tem. mesmo que não estejam abandonados, as ruínas são um processo lento já engrenado.



joão amaro correia disse...
justamente. mas a questão que coloco é: 'as ruínas não são apenas os sítios abandonados mas as actividades, os hábitos ou projectos que deixaram de ser actuais' à luz de quê e de quem?
eu terei uma resposta e, concedo, demasiado cínica, que por pudor aqui a omitirei.
até porque tocas num ponto sensível: 'aqueles bairros não terão nunca ruas ou avenidas como uma cidade tem'. quem nos diz que aquela gente, aqueles indivíduos, aquela comunidade, deseja viver segundo um modelo 'urbano' que a realidade portuguesa conhece?
(e esta é uma crítica extensível aos programas polis e sucedâneos que são fundamentados a partir de um modelo urbano aos quais porei as minhas dúvidas quanto ao seu reconhecimento pelas populações/comunidades).


Susana Viegas disse...
eu não queria entrar por aí apesar de o ter pensado - não creio que o modelo urbano e organizado deva imperar tanto mais que eu vejo muita criatividade vivencial por exemplo na escolha dos materiais, nos azulejos, nas conchas da chamada arquitectura popular. há de facto um grande interesse nesses espaços (já agora, pensemos na passagem nos filmes do Pedro Costa, das Fontaínhas para um novo bairro social..)questões políticas? ou culturais?


joão amaro correia disse...
claro que essas partes que escapam à 'normalização' - e talvez o termo mais apropriado seja racionalização - urbana são ricas. quanto mais não seja pela diversidade e pela invenção e subversão com que se excluem ao gosto dominante que é traduzido em modelos mais ou menos assépticos, mais ou menos indiferenciados, de «cidade».
e refiro o trabalho antigo do graça dias à volta da «casa do emigrante».
(curiosamente já se trabalha no fenómeno da 'casa do emigrante' que já é ruína: as primeiras gerações ou desapareceram ou não mais regressaram e as terceiras gerações já não estabelecem relação com a origem da família. tive nota disso há poucos dias a propósito de um documentário que penso será brevemente exibido.)

o estado da arte


[Dance and Music Center, The Hague, Zaha Hadid, 2010]


Se é definição da actual condição o excesso - imagens, velocidade, informação, realidade – a bulimia informativa submerge-nos, incautos, na dormência da percepção, no torpor da sensação, da aesthesis. [cf. Neil Leach].
A sonolência histórica, a ansiedade, medo, do futuro, a crise do presente: a fantasia deixou de ser um lugar da especulação de uma possibilidade do futuro – seja o futuro aquilo que hoje está ao nosso alcance produzir. E o futuro, excluído de ilusão, digo esperança, vai alimentado o presente destituído de qualquer significado que não seja o do imediato, o do prazer sem outro retorno que a satisfação dos desejos mais ou menos frívolos que se vão alimentando viciosamente.
Não será moralismo – falso ou verdadeiro – pensar que a culturalização absoluta de tudo, sobretudo das imagens, das mais díspares proveniências e dos mais distintos significados, poderá estar na origem de respostas tão iguais, semelhantes, de tantos – reconhecidos – à mesma questão. Iguais, semelhantes e, provavelmente, indiferentes.

traços#2


[Ruínas, Manuel Mozos, 2010]


Se se pensar a ruína menos como um espectáculo e mais como uma experiência, então o filme será ainda menos preciso.
Se a ruína for o legado da ausência das coisas, assumirá a ruína a sua função primeira, de nos ensinar a «experiência da perda». E quer-me parecer que o filme é mais sobre o desaparecimento - de um certo país, ou da ideia de uma certa ideia de país – do que sobre a ausência ou a perda.
A violência do futuro, imponderável, tornado presente e que em Ruínas é ele próprio, o presente, inexorável desaparecimento.

a arquitectura não será televisionada*


[Edifício de Habitação Multifamiliar, Rua Rodrigo da Fonseca, Lisboa]

Há sempre qualquer coisa de inquietante quando um arquitecto decide que uma construção nova terá de se expor através de uma linguagem que se furta ao tempo presente, à época, a épocas do dito miesiano.
Se é a crise o mote, será a crise maior que a económica, a cultural, que legitima este permanente recuo do que se vive, em busca de um refúgio, de uma protecção que ao mesmo tempo sirva de equilíbrio entre as exigências de «gosto» da procura – coisa sempre acrobática esta de se pretender saber o gosto das massas – e a necessidade de retorno rápido do investimento.
Pode ser uma atitude reaccionária. Que só possa ter lugar numa sociedade, com dizem, neo-liberal, de hiper-individualismo egoísta. Admitamos. Ainda assim, será sempre uma sociedade preferível a outra em que a beleza se emita por decreto.


*Gil-Scott Heron

cinema


Cinema S. Jorge, Fernando Silva, Lisboa, 1950

traços


[Ruínas, Manuel Mozos, 2010]


Não será dos problemas menores que o filme nos levanta, o do seu próprio nome. Ruínas, uma crítica à memória?, tão só imagens de declínio de um país antigo e afastado?
Restos de casas que tocam de perto a morte, soterradas pela espectacularização das imagens?

vontade de poder, ano 50


Brasília

[...]

Te encontro em Sampa
De onde mal se vê
Quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa
É quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova
Parece fogo, parece
Parece paz, parece paz
[...]
Eu não espero pelo dia
Em que todos
Os homens concordem
Apenas sei de diversas
Harmonias bonitas
Possíveis sem juízo final

[Fora da Ordem, Caetano Veloso, 1992]


É da vontade e da solidão derrubar árvores e erguer cidades. Ainda do tempo em que os homens acreditavam nos homens, no tempo em que os homens acreditavam no Homem, e se inventavam cidades da mais pura fantasia da razão. E do poder. O poder que tende a não se bastar nos limites do fraco entendimento humano.
Ou Freud ou Nietzsche ou Darwin ou Marx ou Le Corbusier. Tudo ruiu. Por eles, com eles, depois deles, tudo ruiu.
E talvez seja melhor assim. Um pouco mais (de) humano.


Esse imenso, desmedido amor
Vai além de seja o que for
Passa mais além do
Céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha
Música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura do coração


[Na Linha do Equador, Djavan]

a organização colectiva de construções individuais#2


Luísa Figueira, Jornal Nacional TVI, 11.01.2010

António Costa Amaral
um texto corporativista a chamar outro gajo de corporativista, isso está bonito
4 hours ago


Correr o risco de se ser apelidado corporativista é isso mesmo, um risco. Irrelevante, que seja. Seja da era cínica em que nos movemos, qualquer palavra, qualquer afirmação, a defesa ou ataque a qualquer coisa, será sempre o tópico de uma qualquer agenda. E não descuro o interesse por que o humano se move, mas é insólito ser acusado de corporativista quando se persegue uma ideia de desmantelamento do corpo de classe: sejamos rigorosos, ainda é a que motiva o grosso das estruturas profissionais do país, provavelmente em pesada herança cultural, pobre, do anterior regime.
E a recusa dessa ideia interesseira da corporação, que servirá apenas a ideia de uma sociedade do ressentimento – prova-o o texto de Santo – não é a recusa de deveres e direitos a que cada um estará sujeito pelo contrato social.
O que deixa qualquer um perplexo no texto de Santo - arquitecto ou liberal ou indivíduo com um módico de urbanidade - é, justamente, alimentar-se de uma ideia obscurantista e mesquinha do trabalho do arquitecto, sem qualquer adesão à realidade, sem o mínimo entendimento da História das duas disciplinas, sem a mais vaga noção cultural do que é a intervenção do arquitecto, o arcaísmo em que pensa a relação do arquitecto com os engenheiros das diferentes especialidades – Santo omite o paisagismo como disciplina que converge também em projecto, por que será?
Ao isolar a arquitectura do mundo, e sobretudo da construção, Santo dá voz à famosa e idiota anedota que reduz o trabalho do arquitecto e da arquitectura a mero fachadismo. A arquitectura não é uma técnica de edificar, nem é decoração de fachadas, nem um recurso radicalmente subjectivista a contrario do que será o pretenso, também radical, objectivismo e precisão da engenharia. A arquitectura é, também, um esforço colectivo, resultado de múltiplas vontades e saberes. Talvez seja isto que Santo ainda possa entender.

Quanto ao protagonismo corporativista, não me acusem: proponho a dissolução da Ordem dos Arquitectos.

a fragilidade do caos#2

Ou como inventar um pouco de espaço no som e na História e na geografia acidentada do tempo e da Terra, compartimentos onde possamos inventar a nossa própria história.
Resolvido o problema de Poincaré.

a organização colectiva de construções individuais

Temos, assim, uma visão de que os edifícios são o projecto de arquitectura e o resto é secundário, ignorando que o dono de obra poderá não escolher a estética como único critério, tendo mesmo a obrigação de seleccionar projectos segundo outros critérios.
[…]
Sei que é uma alteração profunda aos métodos que têm sido seguidos nos últimos anos, mas é tempo de acabar com a ditadura da estética, que parece ser, na lógica da arquitectura, o único critério para escolher os projectos, relegando para plano secundário os primeiros responsáveis pela segurança das construções e pela satisfação de um elevado número de exigências técnicas de interesse público.
[…]
Se, por absurdo, a Ordem dos Engenheiros reclamasse a aplicação, aos projectos de engenharia, dos princípios que a Ordem dos Arquitectos defende, também teríamos concursos públicos para contratar projectos de estruturas, segundo critérios de segurança contra os sismos, seguindo-se a selecção dos melhores projectos em eficiência energética, redes de instalações eléctricas e de comunicações, acústica e outras importantes áreas de engenharia.


Fernando Santo, Ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros in Publico, 12.04.2010


foto


Da contra-argumentação processual já o Tiago Mota Saraiva se encarregou, com justiça e clareza. Acresço apenas o pequeno incómodo de ler as declarações de um ex-responsável pela Ordem dos Engenheiros usar de um desprezo tão leviano como irresponsável, tanto para o ofício de que faz profissão, como, gravíssimo, a própria qualidade da democracia, sobre a transparência dos métodos de contratação pública.
Retirado de qualquer leitura corporativista, que decerto Santo também não partilhará, subsiste uma ideia de arquitectura, da utilidade da arquitectura, da necessidade da arquitectura, do propalado papel social da arquitectura.
Além de decadente, pior, parece-nos inculta e ignorante. E isto é tão mais grave quanto se tratam de declarações de alguém que se bateu para que aos engenheiros pudessem ser assacados actos próprios e – exclusivos – da profissão do arquitecto. Ou talvez por isso, não surja surpresa.
A incultura revela-a o desprezo que Santo faz da arquitectura,como actividade implicada directamente com a qualidade de vida dos indivíduos, nas cidades e na paisagem, ao isolar a actividade do arquitecto sobrepondo-a à do engenheiro, das diversas engenharias. E esta é uma incultura que releva daquilo que tem sido a prática corrente dos últimos 36 anos. Se outro exemplo não existisse, temos um primeiro-ministro, engenheiro técnico civil, que usou do expediente permitido pelo famoso 73/73 para ele próprio «assinar» alguns projectos de arquitectura.
Se o arquitecto se confronta , e duramente, com a visibilidade física do produto do seu trabalho, num equilíbrio precário entre a sua vontade e as consequências do mesmo sobre a sociedade e o quotidiano dos indivíduos, - a arte social? – Santo omite que sejam essas atribuições do engenheiro. Talvez o catastrófico estado da nossa paisagem se avolume, sendo que é de escassa responsabilidade da arquitectura o estado da arte do território e das cidades portuguesas.


[Ordem dos Engenheiros, Aires Mateus & Associados]

Ao expôr os seus argumentos, num pressuroso liberalismo a la carte de interesse interesseiro, quando apela à vontade individual do promotor, Santo escorrega na armadilha do mais egoista corporativismo, quando ele mesmo se propõe negligenciar o que é do domínio da arquitectura e o que é do domínio da engenharia, na gula de assambarcar encomendas e trabalho numa época em que as mesmas escasseiam. O exercício é simples: ridicularizando o que é da arquitectura – a «estética», no seu texto – atribuindo-lhe meras competências decorativas, Santo recolhe para a engenharia a seriedade de coisas tão graves como a manutenção da sobrevivência: o imperativo da segurança. Ao brincar, com certeza involuntariamente, com esse horizonte da mortalidade, Santo coloca a engenharia na vanguarda da sobrevivência da espécie, num twist freudiano, que colhe sempre e atrai vastas audiências. E aqui talvez esqueça Santo que, justamente, a arquitectura é uma profissão que há uns poucos de anos alguém a teorizou como de firmitas, utilitas e venustas.

A lógica de Santo até parece ser interessante não fossem os factos uma irremdiável prova da ignorância de Santo. Um exemplo: o que são – ou eram – os programas Polis senão o consumir de milhões de euros do erário público a consertar o que foi estragado nas últimas três ou quatro décadas nas nossas cidades? Dinheiro que não temos para coser aquilo que a ânsia especulativa, quer do estado quer de privados, construiu ao longo de décadas de incúria.
Nas linhas assinadas por Santo são omitidos séculos de História de uma profissão, o respeito dos arquitectos, o amor pelas cidades, o interesse comum, por troca de uma contingente e egoista demagogia de apelo à classe.
Paradigmático.
Imperdoável.

a fragilidade do caos



Sprawling on the fringes of the city
In geometric order
An insulated border
In-between the bright lights
And the far unlit unknown


Growing up it all seems so one-sided
Opinions all provided
The future pre-decided
Detached and subdivided
In the mass production zone



[Subdivisions, Susanna & The Magical Orchestra, 2009]



Um aparente acidente sonoro por um incidente da vontade. Ainda penso que a música de Morten Qvenild e Susanna Karolina Wallumroed trata do espaço. De qualquer coisa que, do silêncio, seria improvável. Que não é suposto existir. Mas que, breve, em breve, regressa ao silêncio, entre o infinitamente grande e ínfimo invisível. Uma topografia da improbabilidade.
Um pouco como as cidades. Frágeis e imponderáveis.

tudo o que é único separou-se


[ó, Nuno Ramos, 2010]

alguma coisa está fora da Ordem*


[Alfragide]


Muito se têm questionado os arquitectos sobre a actividade da Ordem que os representa. Mais ou menos solitárias, estas reflexões surgem periodicamente na imprensa coincidentes com momentos relevantes da vida social, económica e cultural da nossa comunidade. Sugerem-nos e confirmam-nos estas ocasiões o íntimo e inelutável vínculo da arquitectura com a sociedade em que actua. Daqui, ser a arquitectura uma actividade de alcance social. Daqui, ser o trabalho do arquitecto, mesmo que voluntariamente refugiado na mais profunda solidão, representativo dos movimentos sócio-culturais que atravessam o nosso país.
Mas estar em sociedade não significará ser refém dela. Creio, aliás, que é também da essência da arquitectura um olhar crítico sobre os múltiplos domínios em que age. Da economia ao ambiente, das paisagens às geografias humanas, do território e das cidades ao íntimo gesto doméstico, da história e da tradição ao quotidiano, numa dança permanente entre escalas, tipos e saberes, que confluirão, consciente e inconscientemente, no projecto de arquitectura. É desta instabilidade entre o real e o especulativo que a arquitectura poderá ser operativa, justamente como pensamento sobre real, como actividade cultural.
Vem isto a propósito da divulgação pública do estudo do Prof. Augusto Mateus. E seria profícuo pensar a intervenção da Ordem dos Arquitectos, naquilo que está consagrado na alínea a do Artigo 3º dos seus estatutos -«contribuir para a defesa e promoção da arquitectura e zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de arquitecto» - a partir deste estudo encomendado pelo Ministério da Cultura.
O campo de intervenção do arquitecto, que se tem alargado nos últimos anos, não deixa, naturalmente, de estar ligado à indústria da construção. É pela construção que a arquitectura torna sensível o que antes é uma ideia; é pela construção que a arquitectura regressa e opera no mundo; é pela construção que o trabalho do arquitecto ganha especial relevância, no encontro com o trabalho dos outros de quem depende o erguer da arquitectura.
Numa economia em que o grosso do investimento é dedicado à construção, aproximadamente 50%, em que este sector é responsável por 10% do emprego e com um peso de cerca de 5% no PIB, os números trazidos à luz pelo estudo do Prof. Mateus suscitam alguma perplexidade. No sector cultural, segundo o mesmo trabalho, a arquitectura representa 0,6% do emprego e 0,7% do valor acrescentado bruto. Porque entendemos que o património da OA deverá ser a defesa da arquitectura e não dos arquitectos, achamos surpreendente o silêncio a que a mesma se remete face a estes números. Ou talvez seja este silêncio ruidoso consequência da inoperância da OA para além dos limites da gestão burocrática do dia-a-dia.
À visibilidade que têm adquirido alguns nomes da arquitectura portuguesa não tem correspondido o necessário esforço da estrutura da OA em aproximar-se dos reais problemas que afectam a prática profissional: dos sub-humanos recibos verdes, campo fértil de mão-de-obra barata para grande parte dos escritórios, à titubeante reacção – quando deveria ter sido acção – relativamente às adjudicações directas da Parque Escolar. Há todo um campo de acção em que a actuação da OA tem sido, no mínimo, omissa ou insuficiente.
O ensimesmamento da OA não pode ser justificado pelo pouco domínio do público do discurso disciplinar, numa espécie de ciclo fechado e cada vez mais diminuto, que resulta na quase irrelevância da OA na sociedade. Mais uma vez a frieza dos números pode deixar-nos atónitos: somos mais de 16.000 arquitectos, membros da OA, sem que esta seja capaz de produzir um discurso público e social pouco mais que vago e indiferente.
Indiferença de dois sentidos: se a OA é relapsa em ler os sinais da sociedade, é ela própria incapaz de produzir sinais que identifiquem a arquitectura como uma actividade essencial ao ordenamento do território, à adequação das múltiplas actividades e funções humanas ao bem escasso e precioso da paisagem, à importância cultural e vantagem económica do trabalho do (e com) o arquitecto em qualquer escala da construção.
Com certeza muitas das respostas a estas questões necessitarão de reflexão profunda e grande parte delas radicarão na estrutural crise que o país atravessa, mas o mutismo por que se tem pautado a OA nem dá resposta à sua missão de defesa e divulgação da arquitectura e muito menos dá expressão àquilo que, em primeira análise, a fez constituir-se, ser uma organização de valor social.
Porque só há um princípio a que a realidade está condenada, que será o que queiramos que seja, pode ser que um dia os arquitectos queiram uma realidade diferente.



*Caetano Veloso

um recuo do mundo


[Lote 12, Angra do Heroísmo, 2008]

Sendo que o inverso é também da arquitectura: nomear, como significar, é trabalho do construir.

a memória, a história, o esquecimento*


[Habitação Multifamiliar, Ourém, 2003-2005]


A ruína, que é a realidade arquitectónica exposta aos elementos, ao tempo, a pedra que se expõe na sua decrepitude, a ruína da presença e do presente. Ícones e fantasmas, imaginação e imagens, trabalho do futuro na devastação do presente, as casas e as cidades se transfiguram na incerteza. Possivelmente mais certa que a ideia de progresso, que já abandonámos, resta a ideia da ausência que lentamente se aproxima do fim da esperança.
E talvez a ruína seja o instrumento crítico mais preciso: a aparição do que, inelutavelmente, não se poderá esquecer. Como se as coisas se desligassem de si e do presente em favor do destino. Um espectáculo daquilo que já não é mais.

Caberá ao arquitecto reconhecer que a construção em que se empenha, as ligações que propõe, a realidade que inventa – que é ela própria uma outra realidade imprevista ao tempo da construção – não o é sem o território que lhe dá um nome. E que o seu trabalho não é mais que um sopro destinado ao esquecimento.



*Paul Ricoeur

saecula seculorum


[El Cielo Gira, Mercedes Álvarez, 2004]


Cega, a acção da memória pela mão, antecipa a visão das coisas mediadas pelo desenho. Um contorno, um rasto na página, um risco pista, um imagem ainda e já ruína. Uma da inscrição, uma entidade difusa, uma identidade vinculada às oscilações do tempo. E do espaço.
«E porque ficamos com tantas memórias?» Ruínas físicas numa paisagem que se eleva sobre as cidades que se escondem. Submersas, debaixo da terra e das memórias também já elididas, apenas reminiscências escavadas ao ritmo lento das estações.
Um sopro: lembrarmo-nos de qualquer coisa é lembrarmo-nos de nós mesmos? O curso da história, a memória com relação ao passado e como possibilidade de conduzir a lembrança. Pensar, filmar, a ruína como um tropismo da memória. Quando o mundo, as coisas, no seu definhar lento, subsistem pela memória que também definhará logo após a liquidação da lembrança. Morrer. Morrer duas vezes. Morrer várias vezes até a lembrança se extinguir na Terra. Um outro encontro do lugar das coisas com o tempo.
A passagem, a aparição mnemónica da lembrança, no instante de uma vida logo perecerá. Sobrarão as casas, lentas, e elas soçobrarão ao abandono. O intervalo, o entre, ainda não a representação de uma coisa ausente, mas a imagem como lembrança. Que se sucedem umas às outras.




Até que «de repente, uma noite, as igrejas ruíram todas juntas».
É esta a memória, imprevisível, das ruínas da tua passagem.

aprendendo com a estrada nacional


[A Rua da Estrada, Álvaro Domingues, 2010]

Um guia para os perplexos.

da recepção social e da representação cultural da figura do arquitecto em portugal nos últimos vinte e sete anos


[Origens, RTP, 1983]



[Mar de Paixão, TVI, 2010]


E lembrando a repercussão pública da divulgação dos vídeos caseiros do arquitecto Taveira, no apogeu da ideologia do sucesso de um Portugal moderno e europeu - representado nos reflexos glossy do Centro Comercial Amoreiras - em finais de 80 e inícios de 90, e o contributo do mesmo para a atracção e representação glamourosa - e equívoca - da profissão e da figura do arquitecto como modelo social. Da televisão. E do sucesso.

Mas, parafraseando Gil Scott-Heron, a arquitectura não será televisionada.

da riqueza e da pobreza das nações

Quem sabe, é a corporate architecture a que melhor guarda o arquitecto, preterido nesse desígnio da auto-representação do esplendor da corporação?, escusando-o de tornar visível, pela arquitectura, qualquer tipo de contradição social. A marca, a corporação, é uma entidade social totalitária, ou que o deseja sê-lo. Uma arquitectura do detalhe será a que melhor faz representar o desejo totalitário, globalitário.
Mesmo quando a marca se ergue a partir dessoutra marca, a do arquitecto, aqui chamado apenas para legitimar um design da aparência. Uma ideologia da emergência da imagem, destituída de qualquer outro símbolo que a auto-referencialidade, a auto-exclamação, o anúncio de um poder.
Demasiado pobre.

E depois há as reproduções atávicas. E feias. E num contexto, diria, equívoco, compósito de junkspace e de zonning anacrónico.
Ainda mais pobre.

[Edifício Atlantis, autor desconhecido]

disrupção

Uma teleologia da harmonia: continuidade.

este lugar não será mais o mesmo sem ti#2


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


Da ruína e construção, ainda no tráfico do corpo, são as cicatrizes, as fendas abertas na cidade. Qualquer intervenção no corpo, a cirurgia, é a violência da vontade – ou necessidade, não discuto – contra a carne. E daqui às metáforas e a uma linguagem cirúrgica para falar de cidades?
A imposição moderna é uma imposição higienista . E a contradição é evidente, nas imagens, da vontade da política e da arquitectura, contra o chão mais antigo que a incisão funcionalista. O cartaz da utopia arquitectónica, um bairro novo, aberto e plantado de palmeiras, financiado pelo «fundo de coesão» da União Europeia, sobre as ossadas dos romanos encontradas nos primeiros movimentos das máquinas: «uma limpeza étnica», como alguém em passagem diz.
Pode ser um filme sobre exílio: daqueles que na sua cidade ficam sem o seu lugar.

o elogio da sombra


[Kowloon Walled City, Hong Kong]

Esta penumbra é lenta e não dói
Jorge Luís Borges


Caminhamos e circulamos não cessamos de voltar: o risco da contemplação onde arquitectura e espaço tendem a tornar-se sinónimos é um alargamento excessivo da ideia de arquitectura até nos dissolvermos numa coreografia extensa, ao ponto de acabarmos por perceber a arquitectura em tudo; o risco de fazer transbordar a arquitectura de um conceito até se chegar à ideia totalizante, apesar de sedutora, da arquitectura como uma tecnologia do ser. Um muro instaura um espaço, um chão e um tecto e a luz a perscrutar organizam a arquitectura. E a luz e os homens encarregar-se-ão de inventar uma arquitectura sem arquitectos e cidades confundidas com o próprio espaço que ocupam.
Então o tempo tomará as pedras pela mão: imperfeitas, impermanentes, incompletas.


adenda: a Nancy dormiu em Chungking Mansions.

este lugar não será mais o mesmo sem ti


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


À arquitectura como corpo, ideia avançada pela História, reconhecer-se-á a necessidade da estruturação desse corpo. Cimento, ligamentos, películas, ossos, pilares, polietileno extrudido, organização das partes, aparência da beleza e ocultação do, genericamente, funcional – já um dia considerado o belo -, orgânica mecânica do erguer da arquitectura. Uma construção, uma disposição no tempo, uma vontade sobre a matéria-mundo.
Também uma cidade, como corpo, necessitará, porventura mais urgentemente, da disposição voluntária dos homens sobre a matéria. Ruas e casas, organizados na democracia do mercado segundo os critérios hediornos, urgentes, que, muitas das vezes, fazem subsistir a circunstância sobre a estrutura. Será do domínio da contingência a construção. O erguer das casas e organizá-las nas cidades.
A construção da arquitectura, um processo físico, um sistema de experiências mentais, que se prolonga no tempo e no lugar que antes da realidade prometida em projecto – a ilusão do arquitecto – provoca e desperta uma outra realidade. Porventura ainda caótica, desorganizada. Quase tão repelente quanto as entranhas do corpo a céu aberta, as entranhas de um edifício em construção. Apenas amadas por uns quantos, um mestre de obras feliz na resignação com que já se habituou a que o arquitecto lhe esconda o labor das mãos por paredes e revestimentos como a carne à volta da alma.
As metáforas talvez sejam infinitas, uma maneira imperfeita de dizer o que não se conseguirá, mas talvez como o cimento, uma fibra, José Luís Guarin filme as partes da sociedade, uma pequena sociedade, um bairro, as ligações e as disrupções, a vida, como, por metáfora, se constrói uma arquitectura. E de como ela é no meio das outras arquitecturas.

cataguases


[Residência de Francisco Peixoto, Óscar Niemeyer, 1940-1942]


Modernismo iluminista: quando a indústria se fez rodear pelas vanguardas e inventou uma cidade.

via António

riscar o chão


[Beacon Events, Merce Cunningham Dance Company, 2008]


Aproxima-se o arquitecto do coreógrafo pela escrita no chão. Agrimensores da primeira experiência do espaço, a experiência do corpo. Desenhar os gestos, riscar a areia.
Era Merce Cunningham quem dançou como habitou.

distúrbio de pânico


[OUTrial House, KWK PROMES, Polónia, 2005/2007]


Reserva insondável do projecto de arquitectura será crer-se o arquitecto como um apóstolo do futuro. Porque um projecto de arquitectura é um projecto tecnológico, dos meio e da expressão do fazer. Uma prescrição de possibilidades pela matéria, organizada pela «chosa mentale», intuitiva e inventiva e imaginária, da qual, na possibilidade desse possível fazer-se real, terá, necessariamente, consequências físicas na organização até do gesto mais íntimo de cada um. Um projecto de arquitectura é também um projecto político. Um projecto sem lugar ainda que não no espaço mental do arquitecto que, naturalmente, na loucura utópica tratará das possibilidades que a matéria e os recursos técnicos lhe oferecerão. Equilíbrio precário entre o desejo e o real.
Ainda que o belo como motivação, é pouco evidente hoje, nos discursos por aí anunciados, o desejo da beleza pela arquitectura. Ou antes, a beleza como palavra proibida num discurso tecno-científico, árido, a modo de se auto-legitimar. E já não nos parece clara uma ideia óbvia de beleza. Nem de como construí-la.
Moda da crise - moda como outra qualquer que mais logo se desfará num pouco de abundância que nos retome - sustentabilidade, auto-sustentabilidade, ecologia, green, tornam-se num estéril manifesto de uma ambição desmedida do presente debaixo do manto diáfano da sobrevivência futura. A vitória do populismo e da demagogia, muito bem comercializada em renders e representações de pedaços perdidos do paraíso que apenas se encontrarão, presumo e não quero ser catastrofista, nos discos rígidos dos hedonistas – hediornistas? - enfarpelados de futuristas.
Assim se vão plantando arbustos por tudo o que é cobertura, green roof assinalando uma preocupação com os amanhãs que hoje nos prometem um canto desafinado. Uma espécie de sobre-pós-hiper-modernismo, que, a custo da sobrevivência aflita, faz tábua rasa do passado, História, Técnica, Gestos, em honra da nova narrativa da salvação da humanidade: a ecologia. Uma narrativa política que, por eclipsar o passado, comprometida com uma promessa irreal de futuro, por se alimentar de meios indiscriminados e inadaptadas às diversas cirtcunstâncias, será ainda mais honerosa, consumirá ainda mais recursos. Uma arquitectura que disfarça a tensão do presente debaixo do tecto relvado que nem o mais inumano modernista alguma vez sonhou.
A vertigem do presente talvez seja não mais que o trauma do futuro.

excesso e crise#2


[Rien ne va Plus, Architecture in times of crisis ]


Des-.
Hiper-.
Desorientação. Desterritorialização. Desestruturação. Desilusão. Dessocialização.
Hipercapitalismo. Hiperindividualismo. Hipertécnica. Hiperconsumismo. Hiperperfomatividade. Hiperconcorrência.

Sem distanciamento possível ao tempo do agora ressumamo-nos à condição de adiantar prefixos aos nomes da modernidade. Incompleta?, inacabada?, ou já outro mundo?
Ou a sedução permanente do presente, a tensão do prazer no instante imediato, sobre o eclipse das teleologias modernas, propõe-nos construir arquitecturas sem território, como zapping impensado. Ou arquitecturas de espaço impensado – físico ou virtual?; se esta dialéctica ainda é verdadeira?. E, ainda que a arquitectura seja, tenha sido, sempre global, na recusa de uma ideia limitativamente funcional, é a sedução irremediável, o estímulo permanente, a imposição mercantil a que se submete, um dever do projecto?
Ou mais livres como nunca, mais sós como nunca antes, desamparados mas permanentemente ligados, a questão de território e das solidões multiplicadas na abundância do supermercado infinito, levanta-se como a questão do abrigo íntimo, onde o corpo deixou de ser a âncora do real, e da cidade, que poderá não ser mais que uma rede tentacular, partilha anónima de solidões individuais, de identidades enclausuradas inaptas a povoar o mistério das passages e incapazes de uma decisão sobre a polis.
Com as estruturas fixas do modernismo redentor extenuadas, trabalhamos a partir da subjectividade excrescente, da hipertrofia individual, da reconfiguração ansiosa e instável da esfera íntima e social. Que possibilidade para uma arquitectura real? Violentamente do real.
Já nada é evidente.


adenda: «O que está a acontecer é a profanização espalhada pelas cidades. Subjectividades cada vez mais esvaziadas, formatadas, pré-fabricadas, etc...», José Gil

os redondos*


Entra-se num pátio anguloso e percebe-se que aquela parcela de edifício se contorceu para tornear a árvore. É ali, naquela sala da Faculdade de Arquitectura da UEM, em Maputo, que vai estar Pancho Guedes a conversar com quem veio para o ouvir. A sala encheu e até se improvisaram outras filas.
“Os redondos. Hoje vamos falar dos redondos.” Magro, hirto, de voz ténue e olhar brilhante. Segura o microfone de forma distraída e vai-se entusiasmando com o que mostra.
É evidente a relação entre os projectos do arquitecto e a construção local. A palhota central rodeada de outras onde se instalam visitas, família ou outras dependências da casa. Esta organização é transposta para os projectos de residências familiares que Pancho idealizou, e muitos realizou, acrescentada de varandas, muros, zonas de estacionamento, torres e outros pormenores.
Fluem desenhos feitos à mão, axonometrias, alçados, esquiços, maquetas. E histórias sobre as construções, as encomendas, as famílias, as funções, os amigos. Um desfiar também de advertências, de considerações, explicações. Confessa o seu prazer de inventar, de desenhar, de erguer maqueta, e de retornar e redesenhar, repintar, refazer…. Revela o cansaço da construção e o estorvo de terminar, de entregar.
Na sequência de imagens aparece um quadro. Uma pintura de Malagantana. Por fim o desenho do Centro Cultural de Matalane onde convivem os redondos de Pancho com os quadrados de Forjaz.
Malagantana levanta-se, e no seu andar lento e arredondado, sobe o estrado e fala da intimidade. Da impossibilidade da sua arte sem o arquitecto, da impossibilidade da arquitectura sem a arte.



Elisa Santos


*a pedido e a propósito de uma aula de Pancho Guedes na Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
fotografia, Mauro Pinto

amarcord


[Lote 4, Angra do Heroísmo, 2008]


Amarcord, foi o nome que o cliente lhe deu.

paredes zig-zag


[apartamento apê, Rio de Janeiro, 2010]


E num pequeno apartamento, zig-zag, mar largo, em frente ao Posto 8, entre Ipanema e Copacabana, em modo singelo de Marx, o primo, e da curva tropical, por puro capricho do arquitecto?

excesso e crise


[For The Love Of God, Damien Hirst, 2009]

A arquitectura será certamente um território de inscrição da diferença cultural. Torná-la porém refém do pêndulo das modas críticas será restringi-la naquilo que seja a sua essencialidade e na sua operatividade sobre o real. Dizer que nos últimos vinte anos o que de maior monta sucedeu no cerne disciplinar tenha sido a feminilização será excessivo, ainda que dizê-lo seja relevante. Mas talvez essa maior relevância releve do domínio cultural, mais largo, que do estritamente disciplinar.
Colocar a arquitectura no contexto interdisciplinar, referi-la de acordo com as mais pertinentes grelhas críticas, será também uma forma de, na sua produção e prática, explorar a competência crítica da própria arquitectura e torná-la pertinente à luz da realidade. Contudo, em vinte anos de aceleração veloz e travagem brusca, creio que seria justamente este o tema: o excesso e a crise.
Vinte anos de artificiosos formalismos - falo do mainstream e creio que o texto de Figueira também fala do mainstream - via o incremento da velocidade de circulação das imagens, com o beneplácito de uma crítica cada vez mais deslumbrada e a-crítica, e uma produção cada vez mais ensimesmada no desejo de forma que, somos arquitectos, não será outro desejo que o mesmo de Narciso e depois, o agora, na crise e na catástrofe, em que a crítica e a prática se dividem, inseguras e inquietas, nas respostas sobre a necessidade da profissão do arquitecto. Vinte anos de um estilo individual, individualista, excessivo, sobre os escombros de um estilo internacional, o cinismo sobre o fim do optimismo, ainda que, naturalmente, um movimento anterior a 1990. A década de noventa e o paroximo do optimismo vertiginoso, um fim da História e o triunfo da vontade capitalista em estruturas cada vez maiores e assépticas (e a democracia não conta). A História reaberta debaixo do sangue e do colapso bárbaro das Twin Towers. O estancar abrupto dos fluxos de capitais e a emergência de questões e de latitudes que não se comprazem nem se adequam às estruturas – arquitectónicas e mentais – do Ocidente em queda. Por aí, por aí.
Ainda para mais, e isto não é de somenos, os centros de produção teórica e prática já não serão os que reconhecemos nos nossos anos de formação.

ficção científica

Apenas construímos aquilo conhecemos.

a posição do missionário



Admito que seja da usura do nome ou até das lentes cínicas com nos vamos defendendo por aí. Tomar a razão da arquitectura pelo seu próprio desejo. E pelo desejo do arquitecto que deseja a arquitectura para sua individual salvação.
Não existem fontes funcionalistas para a arquitectura, ou desconfiamos delas. Recusámos a ideia estreita do progresso social erguido pelo betão aço vidro. A profecia modernista jaz nos escombros de Pruitt-Igoe. O higienismo e a eficácia e a propagação da luz de uma civilização internacional deixaram de ser a motivação, soçobraram às infinitas latitudes individuais, órfãos de uma Ilustração que hoje se reveste na promessa fascista de uma vida eterna e asséptica – com menos encargos para os Estados e mais dividendos para a indústria da «saúde». Da História já nos lembramos pouco e só o fazemos por um punhado de imagens sinapses na rede. O social é o terminal, num o ecran infinitamente portátil.
E isto tudo são pretextos.
Romantismo maior será o de ainda, hoje, afirmar-se como da arquitectura isto tudo que lhe reconhecemos, pela História e pela Teoria. E agora, depois do séc.XX, quase tudo nos parece perecível, falível, insatisfatório, redundante. Que foram as promessas da História, ou prescrições que a necessidade do século foi destacando a cada tempo. Que foram, sem o sabermos, pretextos que abriram caminho para que hoje se possa afirmar a arquitectura como objecto único da vontade.
E isto tudo são pretextos.
Se tudo são pretextos, tudo é-o na realidade. Um princípio da realidade: trabalhar com a realidade será a única maneira de trabalhar para a realidade, se o desejo é o de a transformar e alargar. E acreditando que a arquitectura é também uma maneira do conhecimento, uma via para a compreensão das coisas, um jeito da representação do real, uma profecia do futuro e uma voz do passado, é ir acreditando que através dela o arquitecto, o homem, um dia a si próprio poderá chegar a compreender-se. E a redenção, já não a colectiva, que a redenção é sempre no murmúrio do coração, sabemos, pela arquitectura, não mais que uma maneira de procurar, de cavar, na liberdade.

O resto não era romantismo. Talvez apenas ingenuidade e uma anacrónica crença – muito moderna – como tendo a arquitectura a missão redentora e a civilização dos povos como fim último.

Há o perigo de cada um deixado à sua loucura. É um risco. Mas é para isso que servem as cidades. Se servirem para alguma coisa, tornar todas as loucuras em acordo.


para o Pedro

ilusão


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]


Escapar à beleza das imagens que nos escapam em Fata Morgana é a tentativa seguinte. Pungentes, na contemplação do deserto e das cidades, pujantes, no que de inexplicável e maior foge ao entendimento. E talvez o deserto seja a contemplação mais verdadeira de nós mesmos. Diante do infinito, a consciência clara da nossa finitude. É essa consciência que nos convoca ao rigor dos limites.
Fata Morgana, a ilusão óptica, da térmica, o fio limite do horizonte, ou a ilusão do limite. O céu que se com-funde com a terra, ao longe. A natureza do limite, a ilusão da sua manifestação, a miragem do conhecimento da origem ou finalidade ou realidade.
Depois o homem – feito e refeito pelos deuses. Variações narrativas mitológicas da mesma imperfeição humana, corrupta e que corrompe a Terra. Depois a fome, a guerra, as cidades, os destroços humanos que os humanos destroçam. A distopia são destroços no deserto.
Depois uma promessa, o milagre e a abundância. Uma miragem a partir dos despojos do deserto do real.