um lugar no mundo#3

Rasurar o mapa e mergulhar na multidão. Cidade, City, Downtown, Baixa, Rio de Janeiro, Londres, Nova Iorque, Lisboa. Interpela-nos a multiplicidade, sei-o clichet, mas é a diversidade. Wall Street funde-se confunde-se com a main street, as lojas da 5ª Avenida com as da Almirante Reis, Luanda e o Golfo da Guiné – via Salvador e a História contada em português – com as tribos da floresta impenetrável. E falou-se sábado à noite dessa possibilidade única, e Histórica, de um reconhecimento do mundo, em português, pela miscigenação: cada um é um, no seu estatuto ontológico, dito nomeado em português do verbo ser e do estar, e por ser e por estar se uma hipótese provável e possível para uma nova filosofia pós-heideggeriana?


Rasurar o mapa do conhecimento, todas as possibilidades são maiores no não conhecer: um edifício baptizado Oscar Niemeyer que, com certeza, se o souber, o abjurará, no seu monumentalismo para-fascista, longe do desejo imenso da liberdade da elegante e infinita curva niemeyriana; Le Corbusier aqui, daqui, detestava a Baía da Guanabara, como detestava Manhattan, como não contava com o indivíduo e a sua irrazoabilidade, na infinita utopia cartesiana – Le Corbusier terá saído de 30 dias daqui a pensar noutra techné que não a da razão; Oscar Niemeyer emulado em brise-soleil repetitivos e burocráticos, como perplexidade diante do estatuto da obra arquitectónica na era da reprodução técnica; calcário importado no embasamento do clube dos empresário, a ostentação do poder sobre o solo antigo de granito; homens graves de fato vincado e gravata italiana, a calcular o optimismo do Brasil BRIC, um mulato de terno tropicalmente aprumado, descamisados cobertos de camisolas do Flamengo, mulheres bonitas e tristes; a boca do metro dentro de um mercado de produtos hip-hop, tanto quanto uma t-shirt do Barcelona FC ao som ruidoso de Beyoncé; edifícios do capitalismo concreto, monumentais monólitos na era i’m a whore Phillip Johnson Sony Building, igrejas coloniais, blibliotecas reais – D. João VI fez embarcar os livros e o prazer e a loucura; viadutos barreira amplificadores do ruído ensurdecedor das máquinas portuárias.

Rasurar o mapa é nem sequer desejar ter mapa. Um passo em frente, outro errado, da larga Av. Presidente Vargas – um ditador adorado? – ao lado a favela. Rasurar o mapa é o melhor. E construir um caminho como os construtores das favelas: recolher reconhecer roubar a matéria e as sobras das cidades e da vida, sem projecto, logo sem um tempo de um fim.

Rasurar o mapa: vibração distorção.

intimidade


[Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Lúcio Costa, 1956/1968]

Reconhecer a dócil curva da intimidade sob o pesado betão silencioso e optimista da modernidade.

FÁBRICA DO POEMA

In memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitectura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa
palavra por palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das
britas
e leite de pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por
fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do
vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera
sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos
moucos, assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas,
oxímoros sumido no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o
recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até à escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
que a palavra "recalcado" é uma
expressão
por demais definida, de sintomatologia
cerrada:
assim numa operação de supressão
mágica      vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão chave é:
sob que máscara retornará?


(Algaravias)

[ FÁBRICA DO POEMA, Wally Salomão]

um lugar no mundo#2

i.
The world is NOT flat: talvez não tenha Friedman conhecimento de outras hipóteses de mundo que não o da linearidade veloz das trocas que convergem aos milhões de ecrans globais. O morro, por exemplo, antítese da hipótese planificada/planificadora de desígnio ilusoriamente previsto.
O mundo plano, a recusa das categorias da precariedade, do improviso, do imprevisto, do inusitado, poderá até servir como crítica às alcatifas esterilizadas dos escritórios multinacionais de Nova Iorque, aos armazéns estandardizados de Paris, aos franchisings assépticos de Lisboa, não contemplará a insubmissão com que o outro mundo, fora da rede e de outro plano com outro desígnio que não apenas o da rede. Outro mundo, insubmisso e tumultuoso, além da linearidade que se nos apresenta como um paradoxo de Zenão, ou da previsível instabilidade quieta da rede.
Por uma técnica do bem-estar (material), o mundo plano recusa o alarme e a surpresa e abraça a obediência, compromete-se num traiçoeiro desvio moral que oblitera a condição do viver e do não viver, do continuar vivo e do não continuar vivo, como não decisões que recusam forçar o movimento das coisas reais.

ii.
Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem.

[Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares]


E se essa técnica outra da construção for o amontoar das formas e dos recursos naturais e técnicos e humanos, por uma lei que os políticos e os planeadores e os urbanistas e os arquitectos desconhecem, sem outra lógica de a da necessidade, da recolha violenta do que sobra desses elementos anteriores, de um desejo de comunidade?
Altar e sabedoria não dita, não escrita proscrita da condição precária que é a dos homens, das construções e das cidades.

iii.

[Café Benfica, R. Siqueira Campos, Copacabana, Rio de Janeiro]

A liberdade como técnica da reorganização do mundo terá o preço necessário de uma re-conquista do real rua a rua porta a porta. Erros, recuos, dúvidas no endereço das coisas dos outros, equívocas direcções, cruzamentos indecididos, mapas imprimidos massificados que nos não servem ao nosso desconhecimento, uma esquina do mundo abre ao espanto. O mundo novo, um mundo novo, depois de despidos que somos do cinismo das coisas (re)conhecidas, será uma capacidade já esquecida de interpelar a História.
É possível que a insurreição da novidade seja uma outra re-significação do que antes, à mercê de frágeis e intangíveis construções mentais, fosse o pasto de uma realidade irreal, provavelmente constituída de pedaços de desejo e de música. E talvez seja possível que a razão que nos cabe seja a tentação da construção de uma História que ultrapasse a da natureza sem história que apenas se repete: uma tentativa histórica de encontrar ruas novas desconhecidas escolhidas decididas a partir de coordenadas frágeis e, sempre, outra vez, de desejo.
Como um estado de infantil surpresa, outro olhar novo quando olhamos para o que todos olham, o suficiente à reordenação do mundo.

um lugar no mundo


[R. São Clemente com a R. Dona Mariana, Rio de Janeiro]

Não é a húbris da The Economist, é antes disso a mistura: da natureza insubmissa com as construções; as escalas múltiplas dessas construções, que reverberam os contrastes maciços da geografia; os sucedâneos gloriosamente falhados de um Niemeyer omnipresente; o cheiro de florestas dentro da cidade; eras de esplendor na pequena moradia de um bairro de moradias e edifícios à la carte (de Atenas) e ilusões de um neo-brutalismo britânico na marca de algum concreto mais cru; tudo em ‘vias de’, longe do remanso aparentemente tranquilo com que o capitalismo hard coisificou, igualitarizou, plastificou, turistificou as nossas cidades da velha Europa.
Ainda não é a cidade. Uma esquina, apenas.

do sul e outros hemisférios


sem lenço e sem documento

poética do espaço


[A Dispensa, Manuel Caeiro]


- Era uma casa – como direi? – absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.


[Minha cabeça estremece com todo o esquecimento, Herberto Hélder]

estado real


[Público, 23.06.2010]

Como Sibila soprava as palavras da adivinhação, enreda-se-nos a newspeak ao pequeno-almoço. E se o mundo começa, todos os dias, com o jornal, pela novilíngua ele aparece, todos os dias, um pouco mais distorcido. Uma desconfiança que se instala pela lei da traição das palavras, lentamente uma espécie de despudor do poder. Uma máquina de erguer deuses, ídolos fugazes, e neles se fundar um admirável mundo novo sem qualquer adesão à realidade. Com a evidente contradição de ser este o paradoxo que vai, todos os dias, construindo uma outra realidade. Como um re-arranjo da semântica, um ajuste quotidiano dos nomes, uma escrita inefável que só no e do caos é possível ter percepção. Mas como se tudo, a realidade, o mundo, estivessem minuciosamente organizados.
O suplemento do imobiliário. A construção gramatical das coisas da construídas e por momentos ao abrigo da lei antiga da oferta e da procura, que dessa realidade, da oferta e da procura, se deveria fundar e é a mais refinada evidência da dissolução de qualquer laço entre a realidade e a lei da oferta e da procura. Não interessam aqui tanto os números que com suposta objectividade se conta o mundo. Interessa mais a produção de uma linguagem, técnica e especializada, eventualmente, que suporta um discurso aberrante sobre a construção, as cidades e sobre a arquitectura.
Como o privilégio desta linguagem remete para a pretensa exemplaridade e singularidade e objectividade de cada palavra, o próprio nome de um qualquer arquitecto anuncia-se como uma visão – meço as palavras – hipócrita do mundo. Porque não é de facto um mundo que é proposto mas apenas uma aparência, uma construção proveniente da novilíngua do suplemento de imobiliário, em que arquitectura quer dizer a escolha de um status, em que arquitecto quer mais dizer um sociólogo fazedor de classes, em que cidades quer dizer uma redução do mundo à troca e tráfico de coisas.
Interessa averiguar esta redução radical daquilo que os nomes transportam; (apenas) o dinheiro torna-nos tão pobres.

olhar no escuro

Uma obra crítica ou filosófica, que não se mantenha de alguma maneira numa relação essencial com a criação, está condenada a girar no vazio, do mesmo modo que uma obra de arte ou de poesia, que não contenha em si uma exigência crítica, está destinada ao esquecimento. Mas hoje, separadas em dois sujeitos diferentes, as duas sunan divinas procuram desesperadamente um ponto de encontro, um limiar de indiferença no qual possam reencontrar a sua unidade perdida. E fazem-no trocando os seus papéis, embora estes permaneçam implacavelmente divididos. No momento em que o problema da separação entre poesia e filosofia pela primeira vez surge na consciência, Hölderlin evoca numa carta a Neuffer a filosofia como um «hospital onde o poeta infeliz pode refugiar-se com honra». Hoje o hospital da filosofia fechou as portas e os críticos, transformados em «tutores», tomam sem cautela o lugar dos artistas e simulam a obra da criação que estes deixaram cair, enquanto os artífices, que se tornaram ociosos, se dedicam com zelo a uma obra de redenção na qual já não há obra alguma a salvar. Nos dois casos, criação e salvação já não deixam gravadas uma na outra as marcas do seu obstinado conflito amoroso. Não assinadas e divididas, estendem-se ora uma, ora outra, um espelho no qual não podem reconhecer-se.

[Criação e Salvação, Giorgio Agamben]


Admito a proposta de Agamben, em Criação e Salvação, como uma possibilidade - ainda que desencantada mas ainda em busca de uma luz no meio da escuridão, que para o autor é meio da contemporaneidade - para a necessidade ou pertinência do exercício crítico.
Partindo da tradição exegética dos textos sagrados – da tradição judaica, islâmica e cristã – atribui-se à figura do profeta e do anjo a constituição, o fazer e o desfazer da História. Sendo que em cada uma das duas extremidades da acção divina se encontra a criação e a redenção, à figura do anjo se atribui o fazer, da criação – eventualmente a criação catastrófica, sempre no passado, do Anjo de Benjamin – ao profeta, cabe o dizer e a mediação da criação junto das criaturas. O profeta será esse modo outro de criação pela palavra criadora e incansável e que, em movimento inverso ao da criação, é o que lhe daria o sentido. A inteligência da criação tornada inteligível pela deriva das palavras e que, em certo sentido a tradição rabínica e a islâmica, pelos óbvios motivos da espera em que ainda perseveram, a fazem preceder à própria criação: à acção é necessária uma redenção que a legitime. E é desta luz, humana e frágil, feita carne e som e símbolo, de que decorre a salvação.
O que definirá o estatuto da obra será a resistência à obra-outra do profeta, resistência que insiste no seu «ser-noite», que insiste na opacidade que será o território do profeta.
À modernidade é excluída a profecia como o dizer imperativo da salvação da obra da criação, substituindo-a a filosofia e a crítica; ao anjo da criação sobrevém a poesia, a técnica, a arte. O anjo secularizado, perde a memória dessa relação inextricável em que o poeta era o crítico, e o crítico, agora ressentido, vinga-se em juízos. Como o poeta já não alcançasse salvar a sua obra entrega-se «cegamente à frivolidade do anjo» - e daí a esquizofrenia hediorna desta relação outrora íntima.
A instância do dizer solar sobre os abismos da criação é pois, enredada no acto da criação como «dois rostos de um poder divino» que «coincidem no mesmo ser».

Talvez essa proposição de Kenneth Frampton seja um sintoma desta esquizofrenia ou do nosso esquecimento de um fazer crítico, quando, cínicos, já sabemos que tudo o que é destinado a criar-se é destinado a perder-se. E verifica-se o conhecimento dessa destruição iminente quando as coisas criadas se perdem a um ritmo veloz, nunca antes experimentado pelos homens, atrevo-me a dizer. Recorrer à crítica, ainda que como meio de conhecimento da obra e do mundo, mas como possibilidade de (auto-)entendimentodo do próprio criador pode ser, atrevo-me outra vez, uma resolução arrogante e, tomo uma palavra de Agamben, «frívola». Tal não é decreto da falência da obra, quando esta é apenas meio para a «salvação» do autor. Querer fazê-lo, ao projecto, uma pedra sólida no oceano onde naufragamos é esquecer que o próprio projecto é ele mesmo a viagem desassossegada de tentar responder a questões concretas e objectivas da vida dos homens – uma das quais o desejo, evidentemente – e não apenas à ansiedade do simples homem-criador.

[La lutte de Jacob avec l’Ange, Marc Chagall, 1960.1966]

Porque, justamente, autores, e homens para outros homens, somos na Caverna platónica: a pregnância de crítica e de forma, o projecto como lugar onde se quebra a espinha dorsal do tempo na coincidência da História, só depois as nossas irrelevantes, diria, micro-narrativas.
Sem esperança a vida é impossível, sem o outro, estéril. Assim são as obras dos arquitectos.

europa caffe#8


[Alfama, Lisboa]



De que é feito um espectro? De signos, ou melhor, mais precisamente, de marcas, isto é desses signos, nomes cifrados ou monogramas que o tempo risca sobre as coisas. Um espectro traz sempre consigo uma data, e é, assim, um ser intimamente histórico. Por isso as velhas cidades são o lugar eminente das marcas que o flâneur lê como que distraidamente no decorrer das suas derivas e dos seus passeios; por isso as más obras de restauro, que embalam e uniformizam as cidades europeias, apagam as suas marcas, tornam-nas ilegíveis. E por isso as cidades – e de maneira especial Veneza – parecem-se com sonhos. No sonho, com efeito, cada coisa faz sinal àquele que a sonha, cada criatura exibe uma marca, através da qual significa mais do que tudo o que os seus traços, os seus gestos, as suas palavras alguma vez poderiam exprimir. No entanto, também quem tenta obstinadamente interpretar os seus sonhos, está algures convencido de que eles nada querem dizer. Assim na cidade tudo o que aconteceu naquela calçada, naquela praça, naquela rua, naqueles alicerces, naquela rua de lojas, de repente condensa-se e cristaliza numa figura, ao mesmo tempo lábil e exigente, muda e amistosa, intensa e distante. Essa figura é o espectro ou o génio do lugar.


Que devemos nós ao que morreu?




[Da Utilidade e dos Inconvenientes do Viver entre Espectros, Giorgio Agamben]

modos do não saber


[Le Mépris, Jean-Luc Godard, 1963]



A psicanálise chama recalcamento a um modo de ignorar que produz muitas vezes efeitos nefastos sobre a vida daquele que ignora. Pelo contrário, chamamos bela a uma mulher cujo espírito parece felizmente sem consciência da um segredo do qual o seu corpo está perfeitamente a par. Há, portanto, modos bem sucedidos de ignorarmos e a beleza é um deles.


[O Último Capítulo da História do Mundo, Giorgio Agamben]

uma teoria do viajante


[É Março e é Natal em Ouagadougou, António Pinto Ribeiro, 2010]


O viajante como o que aprende a olhar para o mundo a partir dos lugares que atravessa. Reconhecer que «o mundo é aquilo que nos separa do mundo», caminhar respirar nesse abismo. E depois o regresso e o encontro e a partilha.

fodido não tem vez*



SEQUÊNCIA 87 VELHO PESSIMISTA - MUSEU DE CURITIBA
Lettering:
- Museu Oscar Niemeyer Curitiba 2002.

OSCAR NIEMEYER ON/OFF

Eu sou pessoalmente pessimista. Eu tô na linha dos velhos pessimistas. Eu acho que a vida é um minuto. O ser humano completamente desprezado, nasce e morre. Então o sujeito tem que olhar pro céu e sentir que é pequenino, que tem ser modesto, que nada é importante. A vida é um sopro, um minuto. Então não há razão pra esse ódio todo.

Eu acho que tudo vai desaparecer. O tempo cósmico é muito curto. Me perguntaram outro dia: “o senhor não tem prazer em saber que mais tarde o sujeito vai passar e ver o trabalho que você fez”? Ah, mais tarde o sujeito vai desaparecer também. É a evolução da natureza. Tudo nasce e acaba. O tempo que isso vai perdurar é relativo.

Eu sou otimista que o mundo pode melhorar, mas o ser humano não. Acho que a gente tem que se adaptar ao mundo em que a gente vive. É rir e chorar o tempo todo.

SEQUÊNCIA 88 BOM MESMO É MULHER

OSCAR NIEMEYER ON/OFF

O resto é lutar para o mundo ser melhor, a preocupação de uma igualdade, a vida se fazer mais decente para todos. Esse é que deve ser o pensamento de uma pessoa normal. Agora, diante da vida, você olha pro céu e fica espantado. É um universo fantástico que nos humilha e a gente não pode usufruir nada.

A gente fica espantado é com a força da inteligência do ser humano, que nasceu feito um animal qualquer, e hoje pensa, daqui a pouco está andando pelas estrelas, conversando com os outros seres humanos que estão por essas galáxias aí. Mas no fim, a resposta de tudo isso é isso: nasceu, morreu: fudeu-se.

O diretor pergunta para Oscar:
FABIANO OFF
O que dá prazer ao sr hoje?

OSCAR NIEMEYER ON
O importante é mulher né?
O resto é brincadeira.
Acabou a entrevista. Não é isso? Não acham?

ENTRA CARTELA COM FRASE
No final de 2006, aos 99 anos de idade, Oscar Niemeyer casou-se pela segunda vez.

FIM

[A vida é um sopro, Fabiano Maciel, 2007]



*Óscar Niemeyer

the joy is still there


More songs about buildings and food.

sobre a possibilidade de uma crítica de arquitectura para além da relação de um arquitecto-leitor com as obras versadas


[Esplanada dos Ministérios em Construção, Marcel Gautherot, Brasília, 1958]

O lugar do arquitecto óscar niemeyer é cada dia mais no brasil
Óscar niemeyer é ave de arribação veste colorida plumagem dos trópicos
tem grandes asas que excedem a racionada raciocinada superfície da europa
só sabe verdadeiramente voar sobre as ilimitadas areias do maranhão
onde convivem o vento vigorosas mulheres virgens passos de pássaros
onde a norte começa o próprio espaço da imaginação
Óscar niemeyer levanta no solo gretado da europa o seu tronco baixo
esmaga tímidos braços de árvore contra o atarracado pé-direito das nossas salas
desfralda no território do rosto um sorriso baixo e cansado
O arquiarquitecto só deixa que o cubra o tecto sem sombras da beleza
não lhe é possível pensar sem a grandeza há uns nove anos comprimida no brasil
país onde hoje recusa rasgar palácios para albergar talvez organismos de uma nova inquisição
onde actualmente lhe sonegam o espaço exigido por esse traço
nascido de um gesto desaparecido com o movimento das mãos dos artistas do renascimento
só agora finalmente talvez prolongando nas longas arcadas
nas arcadas criadoras de som como as arcadas cheias de inumeráveis escadas
subtilmente subidas às vezes pelas notas libertas dos versos do poeta camilo pessanha
arcadas por exemplo visíveis nos edifícios das edições mondadori de Milão
ou do ministério dos negócios estrangeiros da cidade de argel
O homem de fala medida e breve que faz falar o betão e o fez articular o nome brasília
num céu que outrora apenas cobria um silêncio de selva e sertão
devolve a este velho e revelho continente volvidos já quatro séculos e meio
o vulto nevoento e procriador do navegador pedro álvares cabral
e diz em oxford ou em paris a mesma primeira missa desse dia distante de santa cruz
na mesma voz inocente da palavra paz agora através das cordas vocais da arte
No seu grande atelier dos campos elíseos de paris a palavra que faz
desabrochar a flor de nenúfar de um casino à beira mar da madeira
nascer livre como uma ideia na forma de aldeia a universidade de constantina
tocar essas autênticas teclas de piano que são os ovóides alvéolos das casas para estudantes de oxford
soltar ao vento a fita de vidro e aço que esvoaça no bairro de la villette de paris
descer das verdes vertentes de uma colina de dieppe duas mil variadas habitações
florir no havre uma febril flor ardendo na corola das suas dez pétalas
Nas mãos de niemeyer nasce o silêncio do núcleo central sossegado de certas cidades
que dilatam os dias fortificados e relvados da idade média
cercados agora somente de casas geminadas e blocos de apartamentos abertos em leque
Aquela mão criadora de coisas como a alegria actualmente já não criaria
brasília beleza para privilegiados beleza pela beleza terrenos coutados
paredes sem amplas janelas rasgadas na vida dos deserdados
Niemeyer mudou de nome e chama-se agora somente arquitectura
arte arejada palavra de betão proferida dos telhados mais altos da idade futura


[Óscar Niemeyer, Ruy Belo]




[Ibirapuera, Óscar Niemeyer, São Paulo, 1951]


[Casino da Madeira, Óscar Niemeyer, Funchal, 1966]


[Mondadori, Óscar Niemeyer, Milão, 1968]


[Universidade de Constantine, Óscar Niemeyer, Argel, 1969]

interlúdio de verão#3: regresso a casa

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas





[Oh as casas as casas as casas, Ruy Belo]

interlúdio de verão#2: al-ʾIšbūnah

interlúdio de verão*:a Bica é linda


Sommarlek

materiais diversos


[Timberyard Social Housing, O'Donnell + Tuomey, 2009]

Estendo o exercício elegíaco e uso do mesmo entusiasmo desse betão armado des années soixante a umas mais recentes fiadas de tijolo.
Uma questão de rigor. Ou uma questão de escala manuseada com o rigor afiado das arestas de um tijolo. Uma questão de rigor e de economia.
É, digamos, uma hipótese possível para contrariar a histeria e o choque e a loucura que as duas últimas décadas, a custo de muitos milhões, fizeram instalar na produção mediatizada. O avesso do avesso do avesso do avesso em que se foi construindo o roteiro da next big thing, sempre urgente, como êxtase que exigiria outro a seguir. E outro, não haja ressaca.
Mais até do que arquitecturas, até porque muitas destas eram, são, belas, é antes a cultura que lhes subjaz e a partir das quais se erguem, o cerne de que aqui se fala. E longe deste textículo se apresentar com a pretensão de formular uma crítica psico-social de arquitecturas que, imaginemos, coligidas numa cidade imaginária – lembro-me agora de uma capa da El Croquis com uma collage dessas arquitecturas – não seria outra coisa que uma distopia. E isto, esta colagem, em parecendo esdrúxula, é apenas possível porque na origem de cada um desses objectos está, justamente, acho que a palavra será essa, uma ideia de originalidade. Uma originalidade descarnada, desligada, descolada, desgarrada de outro mundo, outra realidade, que não a do narciso com que o arquitecto se mira. Ou talvez isto seja apenas o cepticismo com que olho para trás e para a frente.

[Timberyard Social Housing, O'Donnell + Tuomey, 2009]

Mas, dizia, perece-me uma boa ideia de arquitectura. A possibilidade de uma escala de espaço público sem prejuízo do doméstico – e vice-versa – , a continuidade com o contexto, da forma à matéria da forma, da escala e do carácter urbano, o rigor, precioso, precioso, dessa forma e, atrevo-me, ao respeito a uma tradição ou uma proposta daquele tempo e daquele lugar. Mas também, e sobretudo, o repensar do trivial – diferente do banal no modo como se deposita pelo quotidiano – e deste trivial subsistir, silenciosa, o afastamento de uma originalidade (histriónica) - se é que em arquitectura o original possa ser uma categoria.
Não recuso qualquer possibilidade de ruptura. Haveria até alguma urgência, hoje, em pensar a arquitectura à luz de um possível corte com práticas mais ou menos espectaculares do passado recente – sobretudo quando dessa espectacularidade se quer fazer relevar um comportamento corrente. E se tudo terá o seu tempo e o seu lugar, simbólico e de facto, bastará um pouco desta sensibilidade e, julgo, prazer, para se poder construir um quotidiano senão um pouco melhor, pelo menos mais bonito. Porque a beleza só o é no meio do mundo e nunca quando se pretende objectivamente objectivada.

Depois disto, ainda acho possível infirmar o exercício crítico, ou aquilo que se procura na crítica, como a legitimação e projecção dos insondáveis desígnios da intimidade. Tal, apenas, apenas, na medida em que a construção dessa intimidade, identidade, também o é, ou se faz, no corpo-a-corpo com o outro. Seja obra, seja crítica – e uma obra não é crítica? – é um pedaço de conhecimento, uma proposta de mundo, uma divergência radical com a nossa subjectividade, uma outra luz nunca antes por essa intimidade pensada. Outros materiais com que contar para a construção da realidade.



adenda: Primeiro cingir, só depois lancetar, assim como lançar o cordame ao largo é o trabalho da crítica.

europa caffe#7


[Lewis Glucksman Gallery, O'Donnell + Tuomey, 2004]



Senhores dos planos de urbanização
responsáveis pela paisagem
cuidado com o poeta na cidade
Não há nem pode crescer na rua
árvore mais inútil que a palavra do poeta


[Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo]