a grande fadiga


[Le Cabanon, Le Corbusier]

J’ai un château sur la Côte d’Azur, qui a 3,66 mètres par 3,66 mètres.

Le Corbusier






[Die Hüette, Martin Heidegger]

Estar desperto no fogo da noite.

Martin Heidegger


Não digo que seja ironia, mas certamente haverá alguma razão na recolha de dois espíritos tão diversos, opostos, a lugares e a formas do habitar essencialmente - e essencialistas - semelhantes.
O cansaço?, um, do que se queria ser, outro, do que se queria ter sido.
A fadiga?, de utopias do futuro, de utopias do passado.

como estrelar um ovo numa villa do cinquecento?


[La Ragazza con la Valigia, Valerio Zurlini, 1960]

Onde há estrada, há uma casa no fim: o road movie é apenas um lapso de tempo, um entre, por mais definitivo e infindável. A viagem, como condição de permanência, é um lugar de condenação e de impossibilidade.
A arquitectura pretenderá a compreensão do seu tempo para nele intervir. A casa, um canto, o nosso bocado no mundo onde exercemos soberania – e a política da casa diverge da da polis - que se constitui na primeira realidade indentitária e relacional entre nós e o mundo. E a História. E uma casa, como uma possibilidade elementar de nos fixar - paradoxalmente numa fixação móvel - num horizonte histórico seja, talvez, uma ideia que vamos esquecendo. Talvez.
Talvez a trivialização e a banalização do quotidiano, a desritualização da vida de todos os dias, traga à memória um certo esquecimento, um remanso do viver. Tudo se torna liso, os dias sucedem-se iguais, fabricados à medida de cada um. Não é bom, nem mau, é o que é, e provavelmente é aqui, neste espaço que cada um se concede, que melhor se poderá fazer uso da liberdade individual que será, também, apesar de tudo, uma das conquistas da modernidade.
E talvez por isso, ao percorrer as villas de Palladio tenha sempre experimentado o sabor de alguma inutilidade daquela arquitectura, confundido na irremediável ignorância dum funcionalismo dissimulado e totalitário. Na imponderada contingência da nossa época, qualquer uma dessas villas parecer-nos-á tão vaga quanto a nossa incapacidade para as habitar.
Como estrelar um ovo numa villa do cinquecento?, ou namorar?, ou ouvir música?, ou dormir? Como suportaria uma dessas casas todas as necessidades e comodidades da modernidade?

Apenas até ter visto a Claudia Cardinale, de roupão, a descer a escadaria da Villa Tedeschi.

dusting crops where there ain't no crops

Até pode ser uma ilustração do que divide o Novo do Velho Mundo: Roger O. Thornhill, ignorante quanto ao que consigo se sucede, toma, resoluto, a decisão de nesse momento não ser mais objecto dos caprichos do real, mas ser ele o fazedor do real; Aida Zepponi, sem o saber, perdida, aflita por satisfazer uma necessidade básica, puro instinto da sobrevivência, numa estrada secundária a caminho de Parma.
Cabe em Cary Grant, numa encruzilhada da Garces Highway, no espaço rarefeito, desprovido de símbolos e significados, mergulhar no great wide open que a nós, europeus antigos e sem acesso a um espaço novo, imersos em paisagens carregada de memória e significados, incapazes de um movimento espontâneo ou resoluto, está vedado.
E aflição da Claudia Cardinale que me recorda aquela frase do Manuel Vicente: «o campo é um sítio onde eu paro para mijar entre duas cidades».

Não quero ser peremptório para poder dizer que a única possibilidade da construção do sentido, ou do real, ou de organização nova das coisas, se poderá empreender apenas em espaço vazio. Muito pelo contrário, até. E até porque o resultado de tabula rasa é manifesta e tragicamente conhecido.

a vida e a morte das pequenas cidades americanas*


[The Last Picture Show, Peter Bogdanovich, 1971]


*depois de Jane Jacobs.

a little lost*


[North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959]



[La Ragazza con la Valigia, Valerio Zurlini, 1960]


*Arthur Russell

ruínas?


Campus da Justiça, Lisboa

desaparecimento(s)


[Ruínas, Manuel Mozos, 2010]



joão amaro correia disse...
tudo muito bem, mas algo me deixa perplexo, no filme. e confesso que essa perplexidade assumiu contornos mais tangíveis nos planos dos bairros dos pescadores, na trafaria, acho, e naqueles bairros disformes ou informais ou outrora ilegais da fonte da telha. a saber: não é de ruína que falamos, o título é enganador, não é dessa experiência crítica do tempo a tratar a matéria, é a memória?, provavelmente. e aqui a memória é a de um portugal que não existe, claro, mas, regresso a essas duas sequências particularmente, um portugal ainda contemporâneo, que alguém, no caso o realizador, não acha que deva ter espaço para existir.

de resto, imagens belíssimas, evidentemente. e talvez, se se quisesse ter aguçado um pouco mais a dor, ter-se esticado ao limite o tempo de cada plano?


Susana Viegas disse...
é uma boa ideia, não sei se o Mozos queria criticar de algum modo negativamente esse tipo de ocupação - mas esses bairros de pescadores na fonte da telha mostram que as ruínas não são apenas os sítios abandonados mas as actividades, os hábitos ou projectos que deixaram de ser actuais. aqueles bairros não terão nunca ruas ou avenidas como uma cidade tem. mesmo que não estejam abandonados, as ruínas são um processo lento já engrenado.



joão amaro correia disse...
justamente. mas a questão que coloco é: 'as ruínas não são apenas os sítios abandonados mas as actividades, os hábitos ou projectos que deixaram de ser actuais' à luz de quê e de quem?
eu terei uma resposta e, concedo, demasiado cínica, que por pudor aqui a omitirei.
até porque tocas num ponto sensível: 'aqueles bairros não terão nunca ruas ou avenidas como uma cidade tem'. quem nos diz que aquela gente, aqueles indivíduos, aquela comunidade, deseja viver segundo um modelo 'urbano' que a realidade portuguesa conhece?
(e esta é uma crítica extensível aos programas polis e sucedâneos que são fundamentados a partir de um modelo urbano aos quais porei as minhas dúvidas quanto ao seu reconhecimento pelas populações/comunidades).


Susana Viegas disse...
eu não queria entrar por aí apesar de o ter pensado - não creio que o modelo urbano e organizado deva imperar tanto mais que eu vejo muita criatividade vivencial por exemplo na escolha dos materiais, nos azulejos, nas conchas da chamada arquitectura popular. há de facto um grande interesse nesses espaços (já agora, pensemos na passagem nos filmes do Pedro Costa, das Fontaínhas para um novo bairro social..)questões políticas? ou culturais?


joão amaro correia disse...
claro que essas partes que escapam à 'normalização' - e talvez o termo mais apropriado seja racionalização - urbana são ricas. quanto mais não seja pela diversidade e pela invenção e subversão com que se excluem ao gosto dominante que é traduzido em modelos mais ou menos assépticos, mais ou menos indiferenciados, de «cidade».
e refiro o trabalho antigo do graça dias à volta da «casa do emigrante».
(curiosamente já se trabalha no fenómeno da 'casa do emigrante' que já é ruína: as primeiras gerações ou desapareceram ou não mais regressaram e as terceiras gerações já não estabelecem relação com a origem da família. tive nota disso há poucos dias a propósito de um documentário que penso será brevemente exibido.)

o estado da arte


[Dance and Music Center, The Hague, Zaha Hadid, 2010]


Se é definição da actual condição o excesso - imagens, velocidade, informação, realidade – a bulimia informativa submerge-nos, incautos, na dormência da percepção, no torpor da sensação, da aesthesis. [cf. Neil Leach].
A sonolência histórica, a ansiedade, medo, do futuro, a crise do presente: a fantasia deixou de ser um lugar da especulação de uma possibilidade do futuro – seja o futuro aquilo que hoje está ao nosso alcance produzir. E o futuro, excluído de ilusão, digo esperança, vai alimentado o presente destituído de qualquer significado que não seja o do imediato, o do prazer sem outro retorno que a satisfação dos desejos mais ou menos frívolos que se vão alimentando viciosamente.
Não será moralismo – falso ou verdadeiro – pensar que a culturalização absoluta de tudo, sobretudo das imagens, das mais díspares proveniências e dos mais distintos significados, poderá estar na origem de respostas tão iguais, semelhantes, de tantos – reconhecidos – à mesma questão. Iguais, semelhantes e, provavelmente, indiferentes.

traços#2


[Ruínas, Manuel Mozos, 2010]


Se se pensar a ruína menos como um espectáculo e mais como uma experiência, então o filme será ainda menos preciso.
Se a ruína for o legado da ausência das coisas, assumirá a ruína a sua função primeira, de nos ensinar a «experiência da perda». E quer-me parecer que o filme é mais sobre o desaparecimento - de um certo país, ou da ideia de uma certa ideia de país – do que sobre a ausência ou a perda.
A violência do futuro, imponderável, tornado presente e que em Ruínas é ele próprio, o presente, inexorável desaparecimento.

a arquitectura não será televisionada*


[Edifício de Habitação Multifamiliar, Rua Rodrigo da Fonseca, Lisboa]

Há sempre qualquer coisa de inquietante quando um arquitecto decide que uma construção nova terá de se expor através de uma linguagem que se furta ao tempo presente, à época, a épocas do dito miesiano.
Se é a crise o mote, será a crise maior que a económica, a cultural, que legitima este permanente recuo do que se vive, em busca de um refúgio, de uma protecção que ao mesmo tempo sirva de equilíbrio entre as exigências de «gosto» da procura – coisa sempre acrobática esta de se pretender saber o gosto das massas – e a necessidade de retorno rápido do investimento.
Pode ser uma atitude reaccionária. Que só possa ter lugar numa sociedade, com dizem, neo-liberal, de hiper-individualismo egoísta. Admitamos. Ainda assim, será sempre uma sociedade preferível a outra em que a beleza se emita por decreto.


*Gil-Scott Heron

cinema


Cinema S. Jorge, Fernando Silva, Lisboa, 1950

traços


[Ruínas, Manuel Mozos, 2010]


Não será dos problemas menores que o filme nos levanta, o do seu próprio nome. Ruínas, uma crítica à memória?, tão só imagens de declínio de um país antigo e afastado?
Restos de casas que tocam de perto a morte, soterradas pela espectacularização das imagens?

vontade de poder, ano 50


Brasília

[...]

Te encontro em Sampa
De onde mal se vê
Quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa
É quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova
Parece fogo, parece
Parece paz, parece paz
[...]
Eu não espero pelo dia
Em que todos
Os homens concordem
Apenas sei de diversas
Harmonias bonitas
Possíveis sem juízo final

[Fora da Ordem, Caetano Veloso, 1992]


É da vontade e da solidão derrubar árvores e erguer cidades. Ainda do tempo em que os homens acreditavam nos homens, no tempo em que os homens acreditavam no Homem, e se inventavam cidades da mais pura fantasia da razão. E do poder. O poder que tende a não se bastar nos limites do fraco entendimento humano.
Ou Freud ou Nietzsche ou Darwin ou Marx ou Le Corbusier. Tudo ruiu. Por eles, com eles, depois deles, tudo ruiu.
E talvez seja melhor assim. Um pouco mais (de) humano.


Esse imenso, desmedido amor
Vai além de seja o que for
Passa mais além do
Céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha
Música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura do coração


[Na Linha do Equador, Djavan]

a organização colectiva de construções individuais#2


Luísa Figueira, Jornal Nacional TVI, 11.01.2010

António Costa Amaral
um texto corporativista a chamar outro gajo de corporativista, isso está bonito
4 hours ago


Correr o risco de se ser apelidado corporativista é isso mesmo, um risco. Irrelevante, que seja. Seja da era cínica em que nos movemos, qualquer palavra, qualquer afirmação, a defesa ou ataque a qualquer coisa, será sempre o tópico de uma qualquer agenda. E não descuro o interesse por que o humano se move, mas é insólito ser acusado de corporativista quando se persegue uma ideia de desmantelamento do corpo de classe: sejamos rigorosos, ainda é a que motiva o grosso das estruturas profissionais do país, provavelmente em pesada herança cultural, pobre, do anterior regime.
E a recusa dessa ideia interesseira da corporação, que servirá apenas a ideia de uma sociedade do ressentimento – prova-o o texto de Santo – não é a recusa de deveres e direitos a que cada um estará sujeito pelo contrato social.
O que deixa qualquer um perplexo no texto de Santo - arquitecto ou liberal ou indivíduo com um módico de urbanidade - é, justamente, alimentar-se de uma ideia obscurantista e mesquinha do trabalho do arquitecto, sem qualquer adesão à realidade, sem o mínimo entendimento da História das duas disciplinas, sem a mais vaga noção cultural do que é a intervenção do arquitecto, o arcaísmo em que pensa a relação do arquitecto com os engenheiros das diferentes especialidades – Santo omite o paisagismo como disciplina que converge também em projecto, por que será?
Ao isolar a arquitectura do mundo, e sobretudo da construção, Santo dá voz à famosa e idiota anedota que reduz o trabalho do arquitecto e da arquitectura a mero fachadismo. A arquitectura não é uma técnica de edificar, nem é decoração de fachadas, nem um recurso radicalmente subjectivista a contrario do que será o pretenso, também radical, objectivismo e precisão da engenharia. A arquitectura é, também, um esforço colectivo, resultado de múltiplas vontades e saberes. Talvez seja isto que Santo ainda possa entender.

Quanto ao protagonismo corporativista, não me acusem: proponho a dissolução da Ordem dos Arquitectos.

a fragilidade do caos#2

Ou como inventar um pouco de espaço no som e na História e na geografia acidentada do tempo e da Terra, compartimentos onde possamos inventar a nossa própria história.
Resolvido o problema de Poincaré.

a organização colectiva de construções individuais

Temos, assim, uma visão de que os edifícios são o projecto de arquitectura e o resto é secundário, ignorando que o dono de obra poderá não escolher a estética como único critério, tendo mesmo a obrigação de seleccionar projectos segundo outros critérios.
[…]
Sei que é uma alteração profunda aos métodos que têm sido seguidos nos últimos anos, mas é tempo de acabar com a ditadura da estética, que parece ser, na lógica da arquitectura, o único critério para escolher os projectos, relegando para plano secundário os primeiros responsáveis pela segurança das construções e pela satisfação de um elevado número de exigências técnicas de interesse público.
[…]
Se, por absurdo, a Ordem dos Engenheiros reclamasse a aplicação, aos projectos de engenharia, dos princípios que a Ordem dos Arquitectos defende, também teríamos concursos públicos para contratar projectos de estruturas, segundo critérios de segurança contra os sismos, seguindo-se a selecção dos melhores projectos em eficiência energética, redes de instalações eléctricas e de comunicações, acústica e outras importantes áreas de engenharia.


Fernando Santo, Ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros in Publico, 12.04.2010


foto


Da contra-argumentação processual já o Tiago Mota Saraiva se encarregou, com justiça e clareza. Acresço apenas o pequeno incómodo de ler as declarações de um ex-responsável pela Ordem dos Engenheiros usar de um desprezo tão leviano como irresponsável, tanto para o ofício de que faz profissão, como, gravíssimo, a própria qualidade da democracia, sobre a transparência dos métodos de contratação pública.
Retirado de qualquer leitura corporativista, que decerto Santo também não partilhará, subsiste uma ideia de arquitectura, da utilidade da arquitectura, da necessidade da arquitectura, do propalado papel social da arquitectura.
Além de decadente, pior, parece-nos inculta e ignorante. E isto é tão mais grave quanto se tratam de declarações de alguém que se bateu para que aos engenheiros pudessem ser assacados actos próprios e – exclusivos – da profissão do arquitecto. Ou talvez por isso, não surja surpresa.
A incultura revela-a o desprezo que Santo faz da arquitectura,como actividade implicada directamente com a qualidade de vida dos indivíduos, nas cidades e na paisagem, ao isolar a actividade do arquitecto sobrepondo-a à do engenheiro, das diversas engenharias. E esta é uma incultura que releva daquilo que tem sido a prática corrente dos últimos 36 anos. Se outro exemplo não existisse, temos um primeiro-ministro, engenheiro técnico civil, que usou do expediente permitido pelo famoso 73/73 para ele próprio «assinar» alguns projectos de arquitectura.
Se o arquitecto se confronta , e duramente, com a visibilidade física do produto do seu trabalho, num equilíbrio precário entre a sua vontade e as consequências do mesmo sobre a sociedade e o quotidiano dos indivíduos, - a arte social? – Santo omite que sejam essas atribuições do engenheiro. Talvez o catastrófico estado da nossa paisagem se avolume, sendo que é de escassa responsabilidade da arquitectura o estado da arte do território e das cidades portuguesas.


[Ordem dos Engenheiros, Aires Mateus & Associados]

Ao expôr os seus argumentos, num pressuroso liberalismo a la carte de interesse interesseiro, quando apela à vontade individual do promotor, Santo escorrega na armadilha do mais egoista corporativismo, quando ele mesmo se propõe negligenciar o que é do domínio da arquitectura e o que é do domínio da engenharia, na gula de assambarcar encomendas e trabalho numa época em que as mesmas escasseiam. O exercício é simples: ridicularizando o que é da arquitectura – a «estética», no seu texto – atribuindo-lhe meras competências decorativas, Santo recolhe para a engenharia a seriedade de coisas tão graves como a manutenção da sobrevivência: o imperativo da segurança. Ao brincar, com certeza involuntariamente, com esse horizonte da mortalidade, Santo coloca a engenharia na vanguarda da sobrevivência da espécie, num twist freudiano, que colhe sempre e atrai vastas audiências. E aqui talvez esqueça Santo que, justamente, a arquitectura é uma profissão que há uns poucos de anos alguém a teorizou como de firmitas, utilitas e venustas.

A lógica de Santo até parece ser interessante não fossem os factos uma irremdiável prova da ignorância de Santo. Um exemplo: o que são – ou eram – os programas Polis senão o consumir de milhões de euros do erário público a consertar o que foi estragado nas últimas três ou quatro décadas nas nossas cidades? Dinheiro que não temos para coser aquilo que a ânsia especulativa, quer do estado quer de privados, construiu ao longo de décadas de incúria.
Nas linhas assinadas por Santo são omitidos séculos de História de uma profissão, o respeito dos arquitectos, o amor pelas cidades, o interesse comum, por troca de uma contingente e egoista demagogia de apelo à classe.
Paradigmático.
Imperdoável.

a fragilidade do caos



Sprawling on the fringes of the city
In geometric order
An insulated border
In-between the bright lights
And the far unlit unknown


Growing up it all seems so one-sided
Opinions all provided
The future pre-decided
Detached and subdivided
In the mass production zone



[Subdivisions, Susanna & The Magical Orchestra, 2009]



Um aparente acidente sonoro por um incidente da vontade. Ainda penso que a música de Morten Qvenild e Susanna Karolina Wallumroed trata do espaço. De qualquer coisa que, do silêncio, seria improvável. Que não é suposto existir. Mas que, breve, em breve, regressa ao silêncio, entre o infinitamente grande e ínfimo invisível. Uma topografia da improbabilidade.
Um pouco como as cidades. Frágeis e imponderáveis.

tudo o que é único separou-se


[ó, Nuno Ramos, 2010]

alguma coisa está fora da Ordem*


[Alfragide]


Muito se têm questionado os arquitectos sobre a actividade da Ordem que os representa. Mais ou menos solitárias, estas reflexões surgem periodicamente na imprensa coincidentes com momentos relevantes da vida social, económica e cultural da nossa comunidade. Sugerem-nos e confirmam-nos estas ocasiões o íntimo e inelutável vínculo da arquitectura com a sociedade em que actua. Daqui, ser a arquitectura uma actividade de alcance social. Daqui, ser o trabalho do arquitecto, mesmo que voluntariamente refugiado na mais profunda solidão, representativo dos movimentos sócio-culturais que atravessam o nosso país.
Mas estar em sociedade não significará ser refém dela. Creio, aliás, que é também da essência da arquitectura um olhar crítico sobre os múltiplos domínios em que age. Da economia ao ambiente, das paisagens às geografias humanas, do território e das cidades ao íntimo gesto doméstico, da história e da tradição ao quotidiano, numa dança permanente entre escalas, tipos e saberes, que confluirão, consciente e inconscientemente, no projecto de arquitectura. É desta instabilidade entre o real e o especulativo que a arquitectura poderá ser operativa, justamente como pensamento sobre real, como actividade cultural.
Vem isto a propósito da divulgação pública do estudo do Prof. Augusto Mateus. E seria profícuo pensar a intervenção da Ordem dos Arquitectos, naquilo que está consagrado na alínea a do Artigo 3º dos seus estatutos -«contribuir para a defesa e promoção da arquitectura e zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de arquitecto» - a partir deste estudo encomendado pelo Ministério da Cultura.
O campo de intervenção do arquitecto, que se tem alargado nos últimos anos, não deixa, naturalmente, de estar ligado à indústria da construção. É pela construção que a arquitectura torna sensível o que antes é uma ideia; é pela construção que a arquitectura regressa e opera no mundo; é pela construção que o trabalho do arquitecto ganha especial relevância, no encontro com o trabalho dos outros de quem depende o erguer da arquitectura.
Numa economia em que o grosso do investimento é dedicado à construção, aproximadamente 50%, em que este sector é responsável por 10% do emprego e com um peso de cerca de 5% no PIB, os números trazidos à luz pelo estudo do Prof. Mateus suscitam alguma perplexidade. No sector cultural, segundo o mesmo trabalho, a arquitectura representa 0,6% do emprego e 0,7% do valor acrescentado bruto. Porque entendemos que o património da OA deverá ser a defesa da arquitectura e não dos arquitectos, achamos surpreendente o silêncio a que a mesma se remete face a estes números. Ou talvez seja este silêncio ruidoso consequência da inoperância da OA para além dos limites da gestão burocrática do dia-a-dia.
À visibilidade que têm adquirido alguns nomes da arquitectura portuguesa não tem correspondido o necessário esforço da estrutura da OA em aproximar-se dos reais problemas que afectam a prática profissional: dos sub-humanos recibos verdes, campo fértil de mão-de-obra barata para grande parte dos escritórios, à titubeante reacção – quando deveria ter sido acção – relativamente às adjudicações directas da Parque Escolar. Há todo um campo de acção em que a actuação da OA tem sido, no mínimo, omissa ou insuficiente.
O ensimesmamento da OA não pode ser justificado pelo pouco domínio do público do discurso disciplinar, numa espécie de ciclo fechado e cada vez mais diminuto, que resulta na quase irrelevância da OA na sociedade. Mais uma vez a frieza dos números pode deixar-nos atónitos: somos mais de 16.000 arquitectos, membros da OA, sem que esta seja capaz de produzir um discurso público e social pouco mais que vago e indiferente.
Indiferença de dois sentidos: se a OA é relapsa em ler os sinais da sociedade, é ela própria incapaz de produzir sinais que identifiquem a arquitectura como uma actividade essencial ao ordenamento do território, à adequação das múltiplas actividades e funções humanas ao bem escasso e precioso da paisagem, à importância cultural e vantagem económica do trabalho do (e com) o arquitecto em qualquer escala da construção.
Com certeza muitas das respostas a estas questões necessitarão de reflexão profunda e grande parte delas radicarão na estrutural crise que o país atravessa, mas o mutismo por que se tem pautado a OA nem dá resposta à sua missão de defesa e divulgação da arquitectura e muito menos dá expressão àquilo que, em primeira análise, a fez constituir-se, ser uma organização de valor social.
Porque só há um princípio a que a realidade está condenada, que será o que queiramos que seja, pode ser que um dia os arquitectos queiram uma realidade diferente.



*Caetano Veloso

um recuo do mundo


[Lote 12, Angra do Heroísmo, 2008]

Sendo que o inverso é também da arquitectura: nomear, como significar, é trabalho do construir.

a memória, a história, o esquecimento*


[Habitação Multifamiliar, Ourém, 2003-2005]


A ruína, que é a realidade arquitectónica exposta aos elementos, ao tempo, a pedra que se expõe na sua decrepitude, a ruína da presença e do presente. Ícones e fantasmas, imaginação e imagens, trabalho do futuro na devastação do presente, as casas e as cidades se transfiguram na incerteza. Possivelmente mais certa que a ideia de progresso, que já abandonámos, resta a ideia da ausência que lentamente se aproxima do fim da esperança.
E talvez a ruína seja o instrumento crítico mais preciso: a aparição do que, inelutavelmente, não se poderá esquecer. Como se as coisas se desligassem de si e do presente em favor do destino. Um espectáculo daquilo que já não é mais.

Caberá ao arquitecto reconhecer que a construção em que se empenha, as ligações que propõe, a realidade que inventa – que é ela própria uma outra realidade imprevista ao tempo da construção – não o é sem o território que lhe dá um nome. E que o seu trabalho não é mais que um sopro destinado ao esquecimento.



*Paul Ricoeur

saecula seculorum


[El Cielo Gira, Mercedes Álvarez, 2004]


Cega, a acção da memória pela mão, antecipa a visão das coisas mediadas pelo desenho. Um contorno, um rasto na página, um risco pista, um imagem ainda e já ruína. Uma da inscrição, uma entidade difusa, uma identidade vinculada às oscilações do tempo. E do espaço.
«E porque ficamos com tantas memórias?» Ruínas físicas numa paisagem que se eleva sobre as cidades que se escondem. Submersas, debaixo da terra e das memórias também já elididas, apenas reminiscências escavadas ao ritmo lento das estações.
Um sopro: lembrarmo-nos de qualquer coisa é lembrarmo-nos de nós mesmos? O curso da história, a memória com relação ao passado e como possibilidade de conduzir a lembrança. Pensar, filmar, a ruína como um tropismo da memória. Quando o mundo, as coisas, no seu definhar lento, subsistem pela memória que também definhará logo após a liquidação da lembrança. Morrer. Morrer duas vezes. Morrer várias vezes até a lembrança se extinguir na Terra. Um outro encontro do lugar das coisas com o tempo.
A passagem, a aparição mnemónica da lembrança, no instante de uma vida logo perecerá. Sobrarão as casas, lentas, e elas soçobrarão ao abandono. O intervalo, o entre, ainda não a representação de uma coisa ausente, mas a imagem como lembrança. Que se sucedem umas às outras.




Até que «de repente, uma noite, as igrejas ruíram todas juntas».
É esta a memória, imprevisível, das ruínas da tua passagem.

aprendendo com a estrada nacional


[A Rua da Estrada, Álvaro Domingues, 2010]

Um guia para os perplexos.

da recepção social e da representação cultural da figura do arquitecto em portugal nos últimos vinte e sete anos


[Origens, RTP, 1983]



[Mar de Paixão, TVI, 2010]


E lembrando a repercussão pública da divulgação dos vídeos caseiros do arquitecto Taveira, no apogeu da ideologia do sucesso de um Portugal moderno e europeu - representado nos reflexos glossy do Centro Comercial Amoreiras - em finais de 80 e inícios de 90, e o contributo do mesmo para a atracção e representação glamourosa - e equívoca - da profissão e da figura do arquitecto como modelo social. Da televisão. E do sucesso.

Mas, parafraseando Gil Scott-Heron, a arquitectura não será televisionada.

da riqueza e da pobreza das nações

Quem sabe, é a corporate architecture a que melhor guarda o arquitecto, preterido nesse desígnio da auto-representação do esplendor da corporação?, escusando-o de tornar visível, pela arquitectura, qualquer tipo de contradição social. A marca, a corporação, é uma entidade social totalitária, ou que o deseja sê-lo. Uma arquitectura do detalhe será a que melhor faz representar o desejo totalitário, globalitário.
Mesmo quando a marca se ergue a partir dessoutra marca, a do arquitecto, aqui chamado apenas para legitimar um design da aparência. Uma ideologia da emergência da imagem, destituída de qualquer outro símbolo que a auto-referencialidade, a auto-exclamação, o anúncio de um poder.
Demasiado pobre.

E depois há as reproduções atávicas. E feias. E num contexto, diria, equívoco, compósito de junkspace e de zonning anacrónico.
Ainda mais pobre.

[Edifício Atlantis, autor desconhecido]

disrupção

Uma teleologia da harmonia: continuidade.

este lugar não será mais o mesmo sem ti#2


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


Da ruína e construção, ainda no tráfico do corpo, são as cicatrizes, as fendas abertas na cidade. Qualquer intervenção no corpo, a cirurgia, é a violência da vontade – ou necessidade, não discuto – contra a carne. E daqui às metáforas e a uma linguagem cirúrgica para falar de cidades?
A imposição moderna é uma imposição higienista . E a contradição é evidente, nas imagens, da vontade da política e da arquitectura, contra o chão mais antigo que a incisão funcionalista. O cartaz da utopia arquitectónica, um bairro novo, aberto e plantado de palmeiras, financiado pelo «fundo de coesão» da União Europeia, sobre as ossadas dos romanos encontradas nos primeiros movimentos das máquinas: «uma limpeza étnica», como alguém em passagem diz.
Pode ser um filme sobre exílio: daqueles que na sua cidade ficam sem o seu lugar.

o elogio da sombra


[Kowloon Walled City, Hong Kong]

Esta penumbra é lenta e não dói
Jorge Luís Borges


Caminhamos e circulamos não cessamos de voltar: o risco da contemplação onde arquitectura e espaço tendem a tornar-se sinónimos é um alargamento excessivo da ideia de arquitectura até nos dissolvermos numa coreografia extensa, ao ponto de acabarmos por perceber a arquitectura em tudo; o risco de fazer transbordar a arquitectura de um conceito até se chegar à ideia totalizante, apesar de sedutora, da arquitectura como uma tecnologia do ser. Um muro instaura um espaço, um chão e um tecto e a luz a perscrutar organizam a arquitectura. E a luz e os homens encarregar-se-ão de inventar uma arquitectura sem arquitectos e cidades confundidas com o próprio espaço que ocupam.
Então o tempo tomará as pedras pela mão: imperfeitas, impermanentes, incompletas.


adenda: a Nancy dormiu em Chungking Mansions.

este lugar não será mais o mesmo sem ti


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


À arquitectura como corpo, ideia avançada pela História, reconhecer-se-á a necessidade da estruturação desse corpo. Cimento, ligamentos, películas, ossos, pilares, polietileno extrudido, organização das partes, aparência da beleza e ocultação do, genericamente, funcional – já um dia considerado o belo -, orgânica mecânica do erguer da arquitectura. Uma construção, uma disposição no tempo, uma vontade sobre a matéria-mundo.
Também uma cidade, como corpo, necessitará, porventura mais urgentemente, da disposição voluntária dos homens sobre a matéria. Ruas e casas, organizados na democracia do mercado segundo os critérios hediornos, urgentes, que, muitas das vezes, fazem subsistir a circunstância sobre a estrutura. Será do domínio da contingência a construção. O erguer das casas e organizá-las nas cidades.
A construção da arquitectura, um processo físico, um sistema de experiências mentais, que se prolonga no tempo e no lugar que antes da realidade prometida em projecto – a ilusão do arquitecto – provoca e desperta uma outra realidade. Porventura ainda caótica, desorganizada. Quase tão repelente quanto as entranhas do corpo a céu aberta, as entranhas de um edifício em construção. Apenas amadas por uns quantos, um mestre de obras feliz na resignação com que já se habituou a que o arquitecto lhe esconda o labor das mãos por paredes e revestimentos como a carne à volta da alma.
As metáforas talvez sejam infinitas, uma maneira imperfeita de dizer o que não se conseguirá, mas talvez como o cimento, uma fibra, José Luís Guarin filme as partes da sociedade, uma pequena sociedade, um bairro, as ligações e as disrupções, a vida, como, por metáfora, se constrói uma arquitectura. E de como ela é no meio das outras arquitecturas.

cataguases


[Residência de Francisco Peixoto, Óscar Niemeyer, 1940-1942]


Modernismo iluminista: quando a indústria se fez rodear pelas vanguardas e inventou uma cidade.

via António

riscar o chão


[Beacon Events, Merce Cunningham Dance Company, 2008]


Aproxima-se o arquitecto do coreógrafo pela escrita no chão. Agrimensores da primeira experiência do espaço, a experiência do corpo. Desenhar os gestos, riscar a areia.
Era Merce Cunningham quem dançou como habitou.

distúrbio de pânico


[OUTrial House, KWK PROMES, Polónia, 2005/2007]


Reserva insondável do projecto de arquitectura será crer-se o arquitecto como um apóstolo do futuro. Porque um projecto de arquitectura é um projecto tecnológico, dos meio e da expressão do fazer. Uma prescrição de possibilidades pela matéria, organizada pela «chosa mentale», intuitiva e inventiva e imaginária, da qual, na possibilidade desse possível fazer-se real, terá, necessariamente, consequências físicas na organização até do gesto mais íntimo de cada um. Um projecto de arquitectura é também um projecto político. Um projecto sem lugar ainda que não no espaço mental do arquitecto que, naturalmente, na loucura utópica tratará das possibilidades que a matéria e os recursos técnicos lhe oferecerão. Equilíbrio precário entre o desejo e o real.
Ainda que o belo como motivação, é pouco evidente hoje, nos discursos por aí anunciados, o desejo da beleza pela arquitectura. Ou antes, a beleza como palavra proibida num discurso tecno-científico, árido, a modo de se auto-legitimar. E já não nos parece clara uma ideia óbvia de beleza. Nem de como construí-la.
Moda da crise - moda como outra qualquer que mais logo se desfará num pouco de abundância que nos retome - sustentabilidade, auto-sustentabilidade, ecologia, green, tornam-se num estéril manifesto de uma ambição desmedida do presente debaixo do manto diáfano da sobrevivência futura. A vitória do populismo e da demagogia, muito bem comercializada em renders e representações de pedaços perdidos do paraíso que apenas se encontrarão, presumo e não quero ser catastrofista, nos discos rígidos dos hedonistas – hediornistas? - enfarpelados de futuristas.
Assim se vão plantando arbustos por tudo o que é cobertura, green roof assinalando uma preocupação com os amanhãs que hoje nos prometem um canto desafinado. Uma espécie de sobre-pós-hiper-modernismo, que, a custo da sobrevivência aflita, faz tábua rasa do passado, História, Técnica, Gestos, em honra da nova narrativa da salvação da humanidade: a ecologia. Uma narrativa política que, por eclipsar o passado, comprometida com uma promessa irreal de futuro, por se alimentar de meios indiscriminados e inadaptadas às diversas cirtcunstâncias, será ainda mais honerosa, consumirá ainda mais recursos. Uma arquitectura que disfarça a tensão do presente debaixo do tecto relvado que nem o mais inumano modernista alguma vez sonhou.
A vertigem do presente talvez seja não mais que o trauma do futuro.

excesso e crise#2


[Rien ne va Plus, Architecture in times of crisis ]


Des-.
Hiper-.
Desorientação. Desterritorialização. Desestruturação. Desilusão. Dessocialização.
Hipercapitalismo. Hiperindividualismo. Hipertécnica. Hiperconsumismo. Hiperperfomatividade. Hiperconcorrência.

Sem distanciamento possível ao tempo do agora ressumamo-nos à condição de adiantar prefixos aos nomes da modernidade. Incompleta?, inacabada?, ou já outro mundo?
Ou a sedução permanente do presente, a tensão do prazer no instante imediato, sobre o eclipse das teleologias modernas, propõe-nos construir arquitecturas sem território, como zapping impensado. Ou arquitecturas de espaço impensado – físico ou virtual?; se esta dialéctica ainda é verdadeira?. E, ainda que a arquitectura seja, tenha sido, sempre global, na recusa de uma ideia limitativamente funcional, é a sedução irremediável, o estímulo permanente, a imposição mercantil a que se submete, um dever do projecto?
Ou mais livres como nunca, mais sós como nunca antes, desamparados mas permanentemente ligados, a questão de território e das solidões multiplicadas na abundância do supermercado infinito, levanta-se como a questão do abrigo íntimo, onde o corpo deixou de ser a âncora do real, e da cidade, que poderá não ser mais que uma rede tentacular, partilha anónima de solidões individuais, de identidades enclausuradas inaptas a povoar o mistério das passages e incapazes de uma decisão sobre a polis.
Com as estruturas fixas do modernismo redentor extenuadas, trabalhamos a partir da subjectividade excrescente, da hipertrofia individual, da reconfiguração ansiosa e instável da esfera íntima e social. Que possibilidade para uma arquitectura real? Violentamente do real.
Já nada é evidente.


adenda: «O que está a acontecer é a profanização espalhada pelas cidades. Subjectividades cada vez mais esvaziadas, formatadas, pré-fabricadas, etc...», José Gil

os redondos*


Entra-se num pátio anguloso e percebe-se que aquela parcela de edifício se contorceu para tornear a árvore. É ali, naquela sala da Faculdade de Arquitectura da UEM, em Maputo, que vai estar Pancho Guedes a conversar com quem veio para o ouvir. A sala encheu e até se improvisaram outras filas.
“Os redondos. Hoje vamos falar dos redondos.” Magro, hirto, de voz ténue e olhar brilhante. Segura o microfone de forma distraída e vai-se entusiasmando com o que mostra.
É evidente a relação entre os projectos do arquitecto e a construção local. A palhota central rodeada de outras onde se instalam visitas, família ou outras dependências da casa. Esta organização é transposta para os projectos de residências familiares que Pancho idealizou, e muitos realizou, acrescentada de varandas, muros, zonas de estacionamento, torres e outros pormenores.
Fluem desenhos feitos à mão, axonometrias, alçados, esquiços, maquetas. E histórias sobre as construções, as encomendas, as famílias, as funções, os amigos. Um desfiar também de advertências, de considerações, explicações. Confessa o seu prazer de inventar, de desenhar, de erguer maqueta, e de retornar e redesenhar, repintar, refazer…. Revela o cansaço da construção e o estorvo de terminar, de entregar.
Na sequência de imagens aparece um quadro. Uma pintura de Malagantana. Por fim o desenho do Centro Cultural de Matalane onde convivem os redondos de Pancho com os quadrados de Forjaz.
Malagantana levanta-se, e no seu andar lento e arredondado, sobe o estrado e fala da intimidade. Da impossibilidade da sua arte sem o arquitecto, da impossibilidade da arquitectura sem a arte.



Elisa Santos


*a pedido e a propósito de uma aula de Pancho Guedes na Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
fotografia, Mauro Pinto

amarcord


[Lote 4, Angra do Heroísmo, 2008]


Amarcord, foi o nome que o cliente lhe deu.

paredes zig-zag


[apartamento apê, Rio de Janeiro, 2010]


E num pequeno apartamento, zig-zag, mar largo, em frente ao Posto 8, entre Ipanema e Copacabana, em modo singelo de Marx, o primo, e da curva tropical, por puro capricho do arquitecto?

excesso e crise


[For The Love Of God, Damien Hirst, 2009]

A arquitectura será certamente um território de inscrição da diferença cultural. Torná-la porém refém do pêndulo das modas críticas será restringi-la naquilo que seja a sua essencialidade e na sua operatividade sobre o real. Dizer que nos últimos vinte anos o que de maior monta sucedeu no cerne disciplinar tenha sido a feminilização será excessivo, ainda que dizê-lo seja relevante. Mas talvez essa maior relevância releve do domínio cultural, mais largo, que do estritamente disciplinar.
Colocar a arquitectura no contexto interdisciplinar, referi-la de acordo com as mais pertinentes grelhas críticas, será também uma forma de, na sua produção e prática, explorar a competência crítica da própria arquitectura e torná-la pertinente à luz da realidade. Contudo, em vinte anos de aceleração veloz e travagem brusca, creio que seria justamente este o tema: o excesso e a crise.
Vinte anos de artificiosos formalismos - falo do mainstream e creio que o texto de Figueira também fala do mainstream - via o incremento da velocidade de circulação das imagens, com o beneplácito de uma crítica cada vez mais deslumbrada e a-crítica, e uma produção cada vez mais ensimesmada no desejo de forma que, somos arquitectos, não será outro desejo que o mesmo de Narciso e depois, o agora, na crise e na catástrofe, em que a crítica e a prática se dividem, inseguras e inquietas, nas respostas sobre a necessidade da profissão do arquitecto. Vinte anos de um estilo individual, individualista, excessivo, sobre os escombros de um estilo internacional, o cinismo sobre o fim do optimismo, ainda que, naturalmente, um movimento anterior a 1990. A década de noventa e o paroximo do optimismo vertiginoso, um fim da História e o triunfo da vontade capitalista em estruturas cada vez maiores e assépticas (e a democracia não conta). A História reaberta debaixo do sangue e do colapso bárbaro das Twin Towers. O estancar abrupto dos fluxos de capitais e a emergência de questões e de latitudes que não se comprazem nem se adequam às estruturas – arquitectónicas e mentais – do Ocidente em queda. Por aí, por aí.
Ainda para mais, e isto não é de somenos, os centros de produção teórica e prática já não serão os que reconhecemos nos nossos anos de formação.

ficção científica

Apenas construímos aquilo conhecemos.

a posição do missionário



Admito que seja da usura do nome ou até das lentes cínicas com nos vamos defendendo por aí. Tomar a razão da arquitectura pelo seu próprio desejo. E pelo desejo do arquitecto que deseja a arquitectura para sua individual salvação.
Não existem fontes funcionalistas para a arquitectura, ou desconfiamos delas. Recusámos a ideia estreita do progresso social erguido pelo betão aço vidro. A profecia modernista jaz nos escombros de Pruitt-Igoe. O higienismo e a eficácia e a propagação da luz de uma civilização internacional deixaram de ser a motivação, soçobraram às infinitas latitudes individuais, órfãos de uma Ilustração que hoje se reveste na promessa fascista de uma vida eterna e asséptica – com menos encargos para os Estados e mais dividendos para a indústria da «saúde». Da História já nos lembramos pouco e só o fazemos por um punhado de imagens sinapses na rede. O social é o terminal, num o ecran infinitamente portátil.
E isto tudo são pretextos.
Romantismo maior será o de ainda, hoje, afirmar-se como da arquitectura isto tudo que lhe reconhecemos, pela História e pela Teoria. E agora, depois do séc.XX, quase tudo nos parece perecível, falível, insatisfatório, redundante. Que foram as promessas da História, ou prescrições que a necessidade do século foi destacando a cada tempo. Que foram, sem o sabermos, pretextos que abriram caminho para que hoje se possa afirmar a arquitectura como objecto único da vontade.
E isto tudo são pretextos.
Se tudo são pretextos, tudo é-o na realidade. Um princípio da realidade: trabalhar com a realidade será a única maneira de trabalhar para a realidade, se o desejo é o de a transformar e alargar. E acreditando que a arquitectura é também uma maneira do conhecimento, uma via para a compreensão das coisas, um jeito da representação do real, uma profecia do futuro e uma voz do passado, é ir acreditando que através dela o arquitecto, o homem, um dia a si próprio poderá chegar a compreender-se. E a redenção, já não a colectiva, que a redenção é sempre no murmúrio do coração, sabemos, pela arquitectura, não mais que uma maneira de procurar, de cavar, na liberdade.

O resto não era romantismo. Talvez apenas ingenuidade e uma anacrónica crença – muito moderna – como tendo a arquitectura a missão redentora e a civilização dos povos como fim último.

Há o perigo de cada um deixado à sua loucura. É um risco. Mas é para isso que servem as cidades. Se servirem para alguma coisa, tornar todas as loucuras em acordo.


para o Pedro

ilusão


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]


Escapar à beleza das imagens que nos escapam em Fata Morgana é a tentativa seguinte. Pungentes, na contemplação do deserto e das cidades, pujantes, no que de inexplicável e maior foge ao entendimento. E talvez o deserto seja a contemplação mais verdadeira de nós mesmos. Diante do infinito, a consciência clara da nossa finitude. É essa consciência que nos convoca ao rigor dos limites.
Fata Morgana, a ilusão óptica, da térmica, o fio limite do horizonte, ou a ilusão do limite. O céu que se com-funde com a terra, ao longe. A natureza do limite, a ilusão da sua manifestação, a miragem do conhecimento da origem ou finalidade ou realidade.
Depois o homem – feito e refeito pelos deuses. Variações narrativas mitológicas da mesma imperfeição humana, corrupta e que corrompe a Terra. Depois a fome, a guerra, as cidades, os destroços humanos que os humanos destroçam. A distopia são destroços no deserto.
Depois uma promessa, o milagre e a abundância. Uma miragem a partir dos despojos do deserto do real.

numa esquina, em istambul


[Brukner Apartmanı, İhsan Bilgin 1999]

Não existe talvez condição mais nómada que a do amor. Aquela que se exila no trajecto constante entre o desejo e o desejado. E este pode ser um país. Ou uma casa. O amor, então, como a condição transitiva do encontro.
Uma casa encontro, uma casa passagem, se passagem pode constitui lugar. Ou um lugar constituído por efémeros, mas não menos intensos, pedaços de tempo que a memória carregará pelo futuro. Então os objectos que se juntam desses encontros fortuitos guardam-se. E num assomo de inocência, através deles resgata-se o passado fugaz e a perda.
A maior inocência seja a partilha da obsessão do passado remido na tentação desesperada de o fixar em fixos objectos desse tempo memória no presente. Daí em diante, sempre presente. Sempre perdido.


adenda: Istambul, estranha forma de vida

a natureza mais velha do que os tempos*


[Coração de Gelo, Werner Herzog, 1976] 


Há sempre a paisagem no início. A narrativa de Herzog é esta. A paisagem anterior ao homem. A territorialidade como abismo sensível, plano longo fixo, entre o tangível e o ininteligível. O Homem - a História - como intervalo, suspensão, brevidade entre o Génesis e o Apocalipse.
A paisagem é uma erupção, uma torrente, origem de tudo e ruína de tudo. Brutal, porque primordial e final, território de precipitação contínua pela inocência das coisas. Ou antes, o lugar das coisas antes de lhes tocarmos, como visão exacta e ao mesmo tempo sensível do lugar que lhes cabem no mundo. O sublime, a paisagem colossal, sempre inacessível, na sua completude, à câmara de Herzog. O esforço e empenho e engenho humanos são-no sobre a profundidade de campo de um espaço que isola a humanidade. O território em que humanidade se dissolve em toda a extensão da criação.



*
Mas eis o dia! Esperei-o e o vejo vir,
E do que vi o sagrado é testemunha.
A natureza mais velha do que os tempos
E acima dos deuses do Ocidente e do Oriente,
Desperta num estrépito de armas.
E do Éter até o fundo dos abismos
Segundo firme lei, nascido como outrora, do caos sagrado


sente o entusiasmo.
O criador de tudo renova-se.



[Hyperion, Hölderlin]

esquecimento contínuo


[Movijovem Youth Hostel, Paulo Street + Hugo Guerreiro, Penhas da Saúde]

Há qualquer coisa de histriónico sobre o aparentemente silencioso manto de neve branca. Uma topologia da globalização não implicará, necessariamente, a citação directa às imagens prevalecentes. Até porque as imagens que maior velocidade de circulação adquirem são, regra geral, as que o poder deseja que circulem. Logo aqui, a aventura da citação, ou a citação como método ou instrumento de projecto, prescrever-se-á de maneira cautelosa e muito prudente. Isto, claro, se houver alguma pretensão crítica, (repito: haverá arquitectura que o não seja?). Citar imagens será não mais que imitar outras representações do mundo ou, mais ainda antes disso, a simulação pela arquitectura de um outro modo de representação das coisas, a fotografia – com o consequente equívoco daquilo que e o como uma e outra, arquitectura e fotografia, pretendem.
Terá pouco a ver com uma citação mais profunda que residirá e decorrerá da memória e da permanente volubilidade da(s) memória(s) a cada contexto. A memória que se confronta com a História e, ou, o esquecimento.

tu és aquele que procuras


[Rei Édipo, Artistas Unidos, 2010]

E quando o homem desce da montanha, se perde na floresta, encontra a clareira, inventa as cidades. Abandona os deuses para além das nuvens e o destino que outra força irrazoável lhe impõe e reconhece-se como ser de vontade. Querer. Saber ou não saber, a primeira questão. A vontade do homem responde. O desejo é encontrar-se a si mesmo, enquanto se procura um indício de verdade.
E encontram-se os múltiplos e diversos desejos e vontades na cidade. Édipo, o rei que volta a cidade, a decisão da cidade, o destino comum e os destinos individuais, para o exterior do palácio. É às portas do palácio que cava na vontade do conhecimento da verdade. Perante os homens todos, cidadãos que se reconhecem iguais, o poder, que é Édipo rei, ergue-se e cai. Longe dos deuses, entregues a si. Nessa solidão partilhada – no espaço público – a fatalidade humana é o homem descobrir-se abandonado a si próprio. E talvez por isso tenha descido a montanha e deixado a floresta e, na clareira, inventado as cidades.
O pudor apenas da morte. Uma maneira escolhida para morrer. Atrás de um muro, de uma porta fechada. Afastado de todos os homens.
Conhecer não nos torna felizes.

corredores


[Lote2, Angra do Heroísmo]

forma


[Lote2, Lote3, Lote4, Angra do Heroísmo, 2004-2008]

performa
performance
dansa [como queria Sophia]

estocástica

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora

cidade

city

cité


[cidade/citi/cité, Augusto de Campos, 1963]

nuits fauves


[Quando o Segundo Sol Chegar, Rui Moreira, 2010]

São realmente as cidades o lugar do desejo.


Oslo, Tokyo, Liverpool, Copenhagen

Lisboa.

o importante é chegar


[Maquinas de Guerra X Aparelhos de Captura, Nelson Brissac, via paisagens sentimentais]

As escolas de urbanismo e arquitectura entendiam a cidade como produto da curiosidade humana, no sentido de existir uma intencionalidade. O modernismo é essa ideia de que a cidade vai mudar o homem, o mundo, em função de uma configuração pensada. As cidades brasileiras são o oposto. As pessoas vão ao Brasil achando que vão encontrar Óscar Niemeyer ou Lúcio Costa como padrão urbano. Mas não. São cidades fruto de processos caóticos, construídas em 99 por cento dos casos não por arquitectos, mas por autoconstrutores. São fenómenos que não estavam inscritos no urbanismo brasileiro até aos anos 70. Tivemos que reinventar uma maneira de olhar a cidade. Elas não se encaixavam nos modelos modernos.


Nélson Brissac, in Público, 25.02.2010



Portas que se fecham,
Luzes que se acendem
Mãos que se despedem,
Olhares que prometem
Coisas que acontecem
porque têm que acontecer
Gente buscando casa,
Gente buscando gente,
Gente buscando nada,
Vejo cinco continentes
pisando a mesma calçada
O aglomerado constante
dessa massa que se agita
faz ainda mais bonita
minha cidade gigante
São Paulo dos doutores,
São Paulo dos marginais,
São Paulo dos feirantes,
dos intelectuais
São Paulo das marisposas,
São Paulo do operário,
do camelô, do vagabundo,
do society, da favela
Misturas que fazem dela
a maior terra do mundo
São Paulo, fim do dia
E a rotina continua
Gente empurrando gente
a cada palmo de rua
Aqui uma cotovelada,
mais adiante um empurrão
Uma mulher desesperada
gritando: "pega ladrão!"
É o farol que não abre
É a sinfonia das buzinas
É o jornaleiro que grita
no coral da sinfonia:
"Olha a manchete do dia!
Seqüestraram uma menina"
Mais adiante uma fechada,
Alguém entrou na contramão
E sempre que isso acontece,
Pode esperar que não passa
A gente assiste de graça
o festival do palavrão
Mas essa é a hora feliz,
Do regresso para o lar
Cada um mais apressado
No desejo de chegar
À mansão, no apartamento,
À casinha da viela
Ao barraco de zinco
pendurado na favela,
O pensamento é um só:
Chegar, chegar
Os contrastes são berrantes
Na multidão de sozinhos
Quem não viu não acredita
Chega a ser até bonita
a demanda dos caminhos
Enquanto um vai do subúrbio,
pra Central da Cantareira
Faz a viagem inteira
mal podendo respirar
O outro, carro importado,
Bela gata do lado,
Ar condicionado,
Som champanhe, caviar
Gente que vai de Galaxi, Opala, Corcel,
De Fusca, lambreta, bicicleta
Cada um vai como pode
Gente que vai de táxi, ônibus, lotação
Gente que vai a pé batendo sola no chão
Não que se tenha vontade,
Coisas da necessidade
De quem ficou sem nenhum,
Nem mesmo pra condução
Mas nada disso importa
O importante é chegar
Quando se tem na chegada
Um motivo pra sorrir
Triste é andar por andar
Ver tanta gente passar
E ter que continuar
Sem saber pra onde ir


[São Paulo, Fim do Dia, José Domingos]

hospitalidade


[Storm King Wall, Andy Goldsworthy, 1988]

I prefer the edge: the place where countries, communities, allegiances, affinities, and roots bump uncomfortably up against one another—where cosmopolitanism is not so much an identity as the normal condition of life. Such places once abounded. Well into the twentieth century there were many cities comprising multiple communities and languages—often mutually antagonistic, occasionally clashing, but somehow coexisting. Sarajevo was one, Alexandria another. Tangiers, Salonica, Odessa, Beirut, and Istanbul all qualified—as did smaller towns like Chernovitz and Uzhhorod.

Edge People
, Tony Judt



Dizer o limite e a margem como redefinição do cosmopolitismo: raiz, cidade, liberdade, não necessariamente termos antiéticos, não necessariamente a condenação à errância incessante.
Se o multiculturalismo abre falência pelo enclausuramento na diferença, se o transculturalismo como modelação permanente e activa e cooperativa de umas comunidades com as outras se rasga a golpe da irracionalidade, redefinamos os limites sem o cárcere ponto da situação. Essa topografia que se localiza e restringe fora do movimento livre das coisas e impede a verdadeira cidadania no mundo; impede a prontidão à recepção do estrangeiro; impede que sejamos estrangeiros na casa do outro.
É de crer que ao arquitecto assistam deveres de verificação permanente do limite. Não necessariamente fronteira, ou a desmultiplicação ininterrupta do ponto. O ponto, a abstracção absurda, a ilimitação organizada por infinitas partes, sem-limite, não serve para o pensamento arquitectónico. Por lhe ser intrínseca a ilimitação.

circunstancial


[lote 12, Angra do Heroísmo]


A circunstância como o lugar do encontro do desejo com o real.

o que as cidades mostram


[Instituto Missionário da Consolata, José Forjaz, Maputo, 2000]


E há a óbvia questão do tempo. Da cronologia do corpo, que percorre a rua à velocidade veloz dos negócios e da necessidade, e a necessidade da pausa e da suspensão do corpo até que o único ruído seja o do sangue.
É dos pátios que se parte para o povoamento das cidades. São as ruas que compõem na sua agitação o aparecimento do silêncio.

«às vezes vou à missa aqui»*


[Instituto Missionário da Consolata, José Forjaz, Maputo, 2000]

Poderia ser das condições da vida nas grandes cidades muito pobres, de como ainda le mur murant Paris rend Paris murmurant, nestas Paris contemporâneas globais.
Poderia ser dos pátios e das árvores e dos pátios à roda das árvores e das casas alegres que partilham a sua pobreza.
Poderia ser do céu e dos homens sentados na terra, que esperam a manhã que os homens (ainda) não trouxeram.
Poderia ser da sombra fresca sob da varanda alta e tímida e bonita sob o céu fulgor azul
Poderia ser do labor do arquitecto, perseverante de entre condição mais baixa dos homens a que são atirados por outros homens.
Poderia ser da exultação da cor da laranja com que se juntam as formas, numa pequena-grande modesta vaidade.
Poderia ser a humildade daquela pequena luz suficiente que desce do tecto oblíquo suficiente ao coração.

Aos homens, para lhes chegar, é pelo coração.
E pela arquitectura?

*da Elisa

caminhos de floresta


[River Po Line, Richard Long, 2001]

as estruturas elementares#2


[Ricola Storage Building, Hergog & de Meuron, 1987]

Será talvez excessivo excluir a VitraHaus de qualquer pensamento arquitectónico. Um abuso desculpável à luz da fadiga que a vertigem das imagens provoca. Evidentemente haverá uma razão espacial nas sobreposições das caixas arquetípicas – e não resultaria a mesma «complexidade» da sobreposição de formas puras? - , uma tentação tectónica na estrutura do objecto da qual, reconheço, resulta a invenção do espaço exterior – e aqui o problema é ser um exterior ainda ensimesmado no objecto.
Mas que estas triviais inquietações sejam suscitadas justamente a partir dessa perda de sentido, na objectivação excessiva e muda de uma arquitectura que se constrói apenas como artefacto, sem outra relação com o mundo que um infecundo estar-ali.
So, in a very strange way, we do not always know what we do.


p.s. E sobre imagens reparo que percorrendo a internet não descubro qualquer planta corte alçado da VitraHaus.