a memória, a história, o esquecimento*


[Habitação Multifamiliar, Ourém, 2003-2005]


A ruína, que é a realidade arquitectónica exposta aos elementos, ao tempo, a pedra que se expõe na sua decrepitude, a ruína da presença e do presente. Ícones e fantasmas, imaginação e imagens, trabalho do futuro na devastação do presente, as casas e as cidades se transfiguram na incerteza. Possivelmente mais certa que a ideia de progresso, que já abandonámos, resta a ideia da ausência que lentamente se aproxima do fim da esperança.
E talvez a ruína seja o instrumento crítico mais preciso: a aparição do que, inelutavelmente, não se poderá esquecer. Como se as coisas se desligassem de si e do presente em favor do destino. Um espectáculo daquilo que já não é mais.

Caberá ao arquitecto reconhecer que a construção em que se empenha, as ligações que propõe, a realidade que inventa – que é ela própria uma outra realidade imprevista ao tempo da construção – não o é sem o território que lhe dá um nome. E que o seu trabalho não é mais que um sopro destinado ao esquecimento.



*Paul Ricoeur

saecula seculorum


[El Cielo Gira, Mercedes Álvarez, 2004]


Cega, a acção da memória pela mão, antecipa a visão das coisas mediadas pelo desenho. Um contorno, um rasto na página, um risco pista, um imagem ainda e já ruína. Uma da inscrição, uma entidade difusa, uma identidade vinculada às oscilações do tempo. E do espaço.
«E porque ficamos com tantas memórias?» Ruínas físicas numa paisagem que se eleva sobre as cidades que se escondem. Submersas, debaixo da terra e das memórias também já elididas, apenas reminiscências escavadas ao ritmo lento das estações.
Um sopro: lembrarmo-nos de qualquer coisa é lembrarmo-nos de nós mesmos? O curso da história, a memória com relação ao passado e como possibilidade de conduzir a lembrança. Pensar, filmar, a ruína como um tropismo da memória. Quando o mundo, as coisas, no seu definhar lento, subsistem pela memória que também definhará logo após a liquidação da lembrança. Morrer. Morrer duas vezes. Morrer várias vezes até a lembrança se extinguir na Terra. Um outro encontro do lugar das coisas com o tempo.
A passagem, a aparição mnemónica da lembrança, no instante de uma vida logo perecerá. Sobrarão as casas, lentas, e elas soçobrarão ao abandono. O intervalo, o entre, ainda não a representação de uma coisa ausente, mas a imagem como lembrança. Que se sucedem umas às outras.




Até que «de repente, uma noite, as igrejas ruíram todas juntas».
É esta a memória, imprevisível, das ruínas da tua passagem.

aprendendo com a estrada nacional


[A Rua da Estrada, Álvaro Domingues, 2010]

Um guia para os perplexos.

da recepção social e da representação cultural da figura do arquitecto em portugal nos últimos vinte e sete anos


[Origens, RTP, 1983]



[Mar de Paixão, TVI, 2010]


E lembrando a repercussão pública da divulgação dos vídeos caseiros do arquitecto Taveira, no apogeu da ideologia do sucesso de um Portugal moderno e europeu - representado nos reflexos glossy do Centro Comercial Amoreiras - em finais de 80 e inícios de 90, e o contributo do mesmo para a atracção e representação glamourosa - e equívoca - da profissão e da figura do arquitecto como modelo social. Da televisão. E do sucesso.

Mas, parafraseando Gil Scott-Heron, a arquitectura não será televisionada.

da riqueza e da pobreza das nações

Quem sabe, é a corporate architecture a que melhor guarda o arquitecto, preterido nesse desígnio da auto-representação do esplendor da corporação?, escusando-o de tornar visível, pela arquitectura, qualquer tipo de contradição social. A marca, a corporação, é uma entidade social totalitária, ou que o deseja sê-lo. Uma arquitectura do detalhe será a que melhor faz representar o desejo totalitário, globalitário.
Mesmo quando a marca se ergue a partir dessoutra marca, a do arquitecto, aqui chamado apenas para legitimar um design da aparência. Uma ideologia da emergência da imagem, destituída de qualquer outro símbolo que a auto-referencialidade, a auto-exclamação, o anúncio de um poder.
Demasiado pobre.

E depois há as reproduções atávicas. E feias. E num contexto, diria, equívoco, compósito de junkspace e de zonning anacrónico.
Ainda mais pobre.

[Edifício Atlantis, autor desconhecido]

disrupção

Uma teleologia da harmonia: continuidade.

este lugar não será mais o mesmo sem ti#2


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


Da ruína e construção, ainda no tráfico do corpo, são as cicatrizes, as fendas abertas na cidade. Qualquer intervenção no corpo, a cirurgia, é a violência da vontade – ou necessidade, não discuto – contra a carne. E daqui às metáforas e a uma linguagem cirúrgica para falar de cidades?
A imposição moderna é uma imposição higienista . E a contradição é evidente, nas imagens, da vontade da política e da arquitectura, contra o chão mais antigo que a incisão funcionalista. O cartaz da utopia arquitectónica, um bairro novo, aberto e plantado de palmeiras, financiado pelo «fundo de coesão» da União Europeia, sobre as ossadas dos romanos encontradas nos primeiros movimentos das máquinas: «uma limpeza étnica», como alguém em passagem diz.
Pode ser um filme sobre exílio: daqueles que na sua cidade ficam sem o seu lugar.

o elogio da sombra


[Kowloon Walled City, Hong Kong]

Esta penumbra é lenta e não dói
Jorge Luís Borges


Caminhamos e circulamos não cessamos de voltar: o risco da contemplação onde arquitectura e espaço tendem a tornar-se sinónimos é um alargamento excessivo da ideia de arquitectura até nos dissolvermos numa coreografia extensa, ao ponto de acabarmos por perceber a arquitectura em tudo; o risco de fazer transbordar a arquitectura de um conceito até se chegar à ideia totalizante, apesar de sedutora, da arquitectura como uma tecnologia do ser. Um muro instaura um espaço, um chão e um tecto e a luz a perscrutar organizam a arquitectura. E a luz e os homens encarregar-se-ão de inventar uma arquitectura sem arquitectos e cidades confundidas com o próprio espaço que ocupam.
Então o tempo tomará as pedras pela mão: imperfeitas, impermanentes, incompletas.


adenda: a Nancy dormiu em Chungking Mansions.

este lugar não será mais o mesmo sem ti


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


À arquitectura como corpo, ideia avançada pela História, reconhecer-se-á a necessidade da estruturação desse corpo. Cimento, ligamentos, películas, ossos, pilares, polietileno extrudido, organização das partes, aparência da beleza e ocultação do, genericamente, funcional – já um dia considerado o belo -, orgânica mecânica do erguer da arquitectura. Uma construção, uma disposição no tempo, uma vontade sobre a matéria-mundo.
Também uma cidade, como corpo, necessitará, porventura mais urgentemente, da disposição voluntária dos homens sobre a matéria. Ruas e casas, organizados na democracia do mercado segundo os critérios hediornos, urgentes, que, muitas das vezes, fazem subsistir a circunstância sobre a estrutura. Será do domínio da contingência a construção. O erguer das casas e organizá-las nas cidades.
A construção da arquitectura, um processo físico, um sistema de experiências mentais, que se prolonga no tempo e no lugar que antes da realidade prometida em projecto – a ilusão do arquitecto – provoca e desperta uma outra realidade. Porventura ainda caótica, desorganizada. Quase tão repelente quanto as entranhas do corpo a céu aberta, as entranhas de um edifício em construção. Apenas amadas por uns quantos, um mestre de obras feliz na resignação com que já se habituou a que o arquitecto lhe esconda o labor das mãos por paredes e revestimentos como a carne à volta da alma.
As metáforas talvez sejam infinitas, uma maneira imperfeita de dizer o que não se conseguirá, mas talvez como o cimento, uma fibra, José Luís Guarin filme as partes da sociedade, uma pequena sociedade, um bairro, as ligações e as disrupções, a vida, como, por metáfora, se constrói uma arquitectura. E de como ela é no meio das outras arquitecturas.

cataguases


[Residência de Francisco Peixoto, Óscar Niemeyer, 1940-1942]


Modernismo iluminista: quando a indústria se fez rodear pelas vanguardas e inventou uma cidade.

via António

riscar o chão


[Beacon Events, Merce Cunningham Dance Company, 2008]


Aproxima-se o arquitecto do coreógrafo pela escrita no chão. Agrimensores da primeira experiência do espaço, a experiência do corpo. Desenhar os gestos, riscar a areia.
Era Merce Cunningham quem dançou como habitou.

distúrbio de pânico


[OUTrial House, KWK PROMES, Polónia, 2005/2007]


Reserva insondável do projecto de arquitectura será crer-se o arquitecto como um apóstolo do futuro. Porque um projecto de arquitectura é um projecto tecnológico, dos meio e da expressão do fazer. Uma prescrição de possibilidades pela matéria, organizada pela «chosa mentale», intuitiva e inventiva e imaginária, da qual, na possibilidade desse possível fazer-se real, terá, necessariamente, consequências físicas na organização até do gesto mais íntimo de cada um. Um projecto de arquitectura é também um projecto político. Um projecto sem lugar ainda que não no espaço mental do arquitecto que, naturalmente, na loucura utópica tratará das possibilidades que a matéria e os recursos técnicos lhe oferecerão. Equilíbrio precário entre o desejo e o real.
Ainda que o belo como motivação, é pouco evidente hoje, nos discursos por aí anunciados, o desejo da beleza pela arquitectura. Ou antes, a beleza como palavra proibida num discurso tecno-científico, árido, a modo de se auto-legitimar. E já não nos parece clara uma ideia óbvia de beleza. Nem de como construí-la.
Moda da crise - moda como outra qualquer que mais logo se desfará num pouco de abundância que nos retome - sustentabilidade, auto-sustentabilidade, ecologia, green, tornam-se num estéril manifesto de uma ambição desmedida do presente debaixo do manto diáfano da sobrevivência futura. A vitória do populismo e da demagogia, muito bem comercializada em renders e representações de pedaços perdidos do paraíso que apenas se encontrarão, presumo e não quero ser catastrofista, nos discos rígidos dos hedonistas – hediornistas? - enfarpelados de futuristas.
Assim se vão plantando arbustos por tudo o que é cobertura, green roof assinalando uma preocupação com os amanhãs que hoje nos prometem um canto desafinado. Uma espécie de sobre-pós-hiper-modernismo, que, a custo da sobrevivência aflita, faz tábua rasa do passado, História, Técnica, Gestos, em honra da nova narrativa da salvação da humanidade: a ecologia. Uma narrativa política que, por eclipsar o passado, comprometida com uma promessa irreal de futuro, por se alimentar de meios indiscriminados e inadaptadas às diversas cirtcunstâncias, será ainda mais honerosa, consumirá ainda mais recursos. Uma arquitectura que disfarça a tensão do presente debaixo do tecto relvado que nem o mais inumano modernista alguma vez sonhou.
A vertigem do presente talvez seja não mais que o trauma do futuro.

excesso e crise#2


[Rien ne va Plus, Architecture in times of crisis ]


Des-.
Hiper-.
Desorientação. Desterritorialização. Desestruturação. Desilusão. Dessocialização.
Hipercapitalismo. Hiperindividualismo. Hipertécnica. Hiperconsumismo. Hiperperfomatividade. Hiperconcorrência.

Sem distanciamento possível ao tempo do agora ressumamo-nos à condição de adiantar prefixos aos nomes da modernidade. Incompleta?, inacabada?, ou já outro mundo?
Ou a sedução permanente do presente, a tensão do prazer no instante imediato, sobre o eclipse das teleologias modernas, propõe-nos construir arquitecturas sem território, como zapping impensado. Ou arquitecturas de espaço impensado – físico ou virtual?; se esta dialéctica ainda é verdadeira?. E, ainda que a arquitectura seja, tenha sido, sempre global, na recusa de uma ideia limitativamente funcional, é a sedução irremediável, o estímulo permanente, a imposição mercantil a que se submete, um dever do projecto?
Ou mais livres como nunca, mais sós como nunca antes, desamparados mas permanentemente ligados, a questão de território e das solidões multiplicadas na abundância do supermercado infinito, levanta-se como a questão do abrigo íntimo, onde o corpo deixou de ser a âncora do real, e da cidade, que poderá não ser mais que uma rede tentacular, partilha anónima de solidões individuais, de identidades enclausuradas inaptas a povoar o mistério das passages e incapazes de uma decisão sobre a polis.
Com as estruturas fixas do modernismo redentor extenuadas, trabalhamos a partir da subjectividade excrescente, da hipertrofia individual, da reconfiguração ansiosa e instável da esfera íntima e social. Que possibilidade para uma arquitectura real? Violentamente do real.
Já nada é evidente.


adenda: «O que está a acontecer é a profanização espalhada pelas cidades. Subjectividades cada vez mais esvaziadas, formatadas, pré-fabricadas, etc...», José Gil

os redondos*


Entra-se num pátio anguloso e percebe-se que aquela parcela de edifício se contorceu para tornear a árvore. É ali, naquela sala da Faculdade de Arquitectura da UEM, em Maputo, que vai estar Pancho Guedes a conversar com quem veio para o ouvir. A sala encheu e até se improvisaram outras filas.
“Os redondos. Hoje vamos falar dos redondos.” Magro, hirto, de voz ténue e olhar brilhante. Segura o microfone de forma distraída e vai-se entusiasmando com o que mostra.
É evidente a relação entre os projectos do arquitecto e a construção local. A palhota central rodeada de outras onde se instalam visitas, família ou outras dependências da casa. Esta organização é transposta para os projectos de residências familiares que Pancho idealizou, e muitos realizou, acrescentada de varandas, muros, zonas de estacionamento, torres e outros pormenores.
Fluem desenhos feitos à mão, axonometrias, alçados, esquiços, maquetas. E histórias sobre as construções, as encomendas, as famílias, as funções, os amigos. Um desfiar também de advertências, de considerações, explicações. Confessa o seu prazer de inventar, de desenhar, de erguer maqueta, e de retornar e redesenhar, repintar, refazer…. Revela o cansaço da construção e o estorvo de terminar, de entregar.
Na sequência de imagens aparece um quadro. Uma pintura de Malagantana. Por fim o desenho do Centro Cultural de Matalane onde convivem os redondos de Pancho com os quadrados de Forjaz.
Malagantana levanta-se, e no seu andar lento e arredondado, sobe o estrado e fala da intimidade. Da impossibilidade da sua arte sem o arquitecto, da impossibilidade da arquitectura sem a arte.



Elisa Santos


*a pedido e a propósito de uma aula de Pancho Guedes na Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
fotografia, Mauro Pinto

amarcord


[Lote 4, Angra do Heroísmo, 2008]


Amarcord, foi o nome que o cliente lhe deu.

paredes zig-zag


[apartamento apê, Rio de Janeiro, 2010]


E num pequeno apartamento, zig-zag, mar largo, em frente ao Posto 8, entre Ipanema e Copacabana, em modo singelo de Marx, o primo, e da curva tropical, por puro capricho do arquitecto?

excesso e crise


[For The Love Of God, Damien Hirst, 2009]

A arquitectura será certamente um território de inscrição da diferença cultural. Torná-la porém refém do pêndulo das modas críticas será restringi-la naquilo que seja a sua essencialidade e na sua operatividade sobre o real. Dizer que nos últimos vinte anos o que de maior monta sucedeu no cerne disciplinar tenha sido a feminilização será excessivo, ainda que dizê-lo seja relevante. Mas talvez essa maior relevância releve do domínio cultural, mais largo, que do estritamente disciplinar.
Colocar a arquitectura no contexto interdisciplinar, referi-la de acordo com as mais pertinentes grelhas críticas, será também uma forma de, na sua produção e prática, explorar a competência crítica da própria arquitectura e torná-la pertinente à luz da realidade. Contudo, em vinte anos de aceleração veloz e travagem brusca, creio que seria justamente este o tema: o excesso e a crise.
Vinte anos de artificiosos formalismos - falo do mainstream e creio que o texto de Figueira também fala do mainstream - via o incremento da velocidade de circulação das imagens, com o beneplácito de uma crítica cada vez mais deslumbrada e a-crítica, e uma produção cada vez mais ensimesmada no desejo de forma que, somos arquitectos, não será outro desejo que o mesmo de Narciso e depois, o agora, na crise e na catástrofe, em que a crítica e a prática se dividem, inseguras e inquietas, nas respostas sobre a necessidade da profissão do arquitecto. Vinte anos de um estilo individual, individualista, excessivo, sobre os escombros de um estilo internacional, o cinismo sobre o fim do optimismo, ainda que, naturalmente, um movimento anterior a 1990. A década de noventa e o paroximo do optimismo vertiginoso, um fim da História e o triunfo da vontade capitalista em estruturas cada vez maiores e assépticas (e a democracia não conta). A História reaberta debaixo do sangue e do colapso bárbaro das Twin Towers. O estancar abrupto dos fluxos de capitais e a emergência de questões e de latitudes que não se comprazem nem se adequam às estruturas – arquitectónicas e mentais – do Ocidente em queda. Por aí, por aí.
Ainda para mais, e isto não é de somenos, os centros de produção teórica e prática já não serão os que reconhecemos nos nossos anos de formação.

ficção científica

Apenas construímos aquilo conhecemos.

a posição do missionário



Admito que seja da usura do nome ou até das lentes cínicas com nos vamos defendendo por aí. Tomar a razão da arquitectura pelo seu próprio desejo. E pelo desejo do arquitecto que deseja a arquitectura para sua individual salvação.
Não existem fontes funcionalistas para a arquitectura, ou desconfiamos delas. Recusámos a ideia estreita do progresso social erguido pelo betão aço vidro. A profecia modernista jaz nos escombros de Pruitt-Igoe. O higienismo e a eficácia e a propagação da luz de uma civilização internacional deixaram de ser a motivação, soçobraram às infinitas latitudes individuais, órfãos de uma Ilustração que hoje se reveste na promessa fascista de uma vida eterna e asséptica – com menos encargos para os Estados e mais dividendos para a indústria da «saúde». Da História já nos lembramos pouco e só o fazemos por um punhado de imagens sinapses na rede. O social é o terminal, num o ecran infinitamente portátil.
E isto tudo são pretextos.
Romantismo maior será o de ainda, hoje, afirmar-se como da arquitectura isto tudo que lhe reconhecemos, pela História e pela Teoria. E agora, depois do séc.XX, quase tudo nos parece perecível, falível, insatisfatório, redundante. Que foram as promessas da História, ou prescrições que a necessidade do século foi destacando a cada tempo. Que foram, sem o sabermos, pretextos que abriram caminho para que hoje se possa afirmar a arquitectura como objecto único da vontade.
E isto tudo são pretextos.
Se tudo são pretextos, tudo é-o na realidade. Um princípio da realidade: trabalhar com a realidade será a única maneira de trabalhar para a realidade, se o desejo é o de a transformar e alargar. E acreditando que a arquitectura é também uma maneira do conhecimento, uma via para a compreensão das coisas, um jeito da representação do real, uma profecia do futuro e uma voz do passado, é ir acreditando que através dela o arquitecto, o homem, um dia a si próprio poderá chegar a compreender-se. E a redenção, já não a colectiva, que a redenção é sempre no murmúrio do coração, sabemos, pela arquitectura, não mais que uma maneira de procurar, de cavar, na liberdade.

O resto não era romantismo. Talvez apenas ingenuidade e uma anacrónica crença – muito moderna – como tendo a arquitectura a missão redentora e a civilização dos povos como fim último.

Há o perigo de cada um deixado à sua loucura. É um risco. Mas é para isso que servem as cidades. Se servirem para alguma coisa, tornar todas as loucuras em acordo.


para o Pedro

ilusão


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]


Escapar à beleza das imagens que nos escapam em Fata Morgana é a tentativa seguinte. Pungentes, na contemplação do deserto e das cidades, pujantes, no que de inexplicável e maior foge ao entendimento. E talvez o deserto seja a contemplação mais verdadeira de nós mesmos. Diante do infinito, a consciência clara da nossa finitude. É essa consciência que nos convoca ao rigor dos limites.
Fata Morgana, a ilusão óptica, da térmica, o fio limite do horizonte, ou a ilusão do limite. O céu que se com-funde com a terra, ao longe. A natureza do limite, a ilusão da sua manifestação, a miragem do conhecimento da origem ou finalidade ou realidade.
Depois o homem – feito e refeito pelos deuses. Variações narrativas mitológicas da mesma imperfeição humana, corrupta e que corrompe a Terra. Depois a fome, a guerra, as cidades, os destroços humanos que os humanos destroçam. A distopia são destroços no deserto.
Depois uma promessa, o milagre e a abundância. Uma miragem a partir dos despojos do deserto do real.

numa esquina, em istambul


[Brukner Apartmanı, İhsan Bilgin 1999]

Não existe talvez condição mais nómada que a do amor. Aquela que se exila no trajecto constante entre o desejo e o desejado. E este pode ser um país. Ou uma casa. O amor, então, como a condição transitiva do encontro.
Uma casa encontro, uma casa passagem, se passagem pode constitui lugar. Ou um lugar constituído por efémeros, mas não menos intensos, pedaços de tempo que a memória carregará pelo futuro. Então os objectos que se juntam desses encontros fortuitos guardam-se. E num assomo de inocência, através deles resgata-se o passado fugaz e a perda.
A maior inocência seja a partilha da obsessão do passado remido na tentação desesperada de o fixar em fixos objectos desse tempo memória no presente. Daí em diante, sempre presente. Sempre perdido.


adenda: Istambul, estranha forma de vida

a natureza mais velha do que os tempos*


[Coração de Gelo, Werner Herzog, 1976] 


Há sempre a paisagem no início. A narrativa de Herzog é esta. A paisagem anterior ao homem. A territorialidade como abismo sensível, plano longo fixo, entre o tangível e o ininteligível. O Homem - a História - como intervalo, suspensão, brevidade entre o Génesis e o Apocalipse.
A paisagem é uma erupção, uma torrente, origem de tudo e ruína de tudo. Brutal, porque primordial e final, território de precipitação contínua pela inocência das coisas. Ou antes, o lugar das coisas antes de lhes tocarmos, como visão exacta e ao mesmo tempo sensível do lugar que lhes cabem no mundo. O sublime, a paisagem colossal, sempre inacessível, na sua completude, à câmara de Herzog. O esforço e empenho e engenho humanos são-no sobre a profundidade de campo de um espaço que isola a humanidade. O território em que humanidade se dissolve em toda a extensão da criação.



*
Mas eis o dia! Esperei-o e o vejo vir,
E do que vi o sagrado é testemunha.
A natureza mais velha do que os tempos
E acima dos deuses do Ocidente e do Oriente,
Desperta num estrépito de armas.
E do Éter até o fundo dos abismos
Segundo firme lei, nascido como outrora, do caos sagrado


sente o entusiasmo.
O criador de tudo renova-se.



[Hyperion, Hölderlin]

esquecimento contínuo


[Movijovem Youth Hostel, Paulo Street + Hugo Guerreiro, Penhas da Saúde]

Há qualquer coisa de histriónico sobre o aparentemente silencioso manto de neve branca. Uma topologia da globalização não implicará, necessariamente, a citação directa às imagens prevalecentes. Até porque as imagens que maior velocidade de circulação adquirem são, regra geral, as que o poder deseja que circulem. Logo aqui, a aventura da citação, ou a citação como método ou instrumento de projecto, prescrever-se-á de maneira cautelosa e muito prudente. Isto, claro, se houver alguma pretensão crítica, (repito: haverá arquitectura que o não seja?). Citar imagens será não mais que imitar outras representações do mundo ou, mais ainda antes disso, a simulação pela arquitectura de um outro modo de representação das coisas, a fotografia – com o consequente equívoco daquilo que e o como uma e outra, arquitectura e fotografia, pretendem.
Terá pouco a ver com uma citação mais profunda que residirá e decorrerá da memória e da permanente volubilidade da(s) memória(s) a cada contexto. A memória que se confronta com a História e, ou, o esquecimento.

tu és aquele que procuras


[Rei Édipo, Artistas Unidos, 2010]

E quando o homem desce da montanha, se perde na floresta, encontra a clareira, inventa as cidades. Abandona os deuses para além das nuvens e o destino que outra força irrazoável lhe impõe e reconhece-se como ser de vontade. Querer. Saber ou não saber, a primeira questão. A vontade do homem responde. O desejo é encontrar-se a si mesmo, enquanto se procura um indício de verdade.
E encontram-se os múltiplos e diversos desejos e vontades na cidade. Édipo, o rei que volta a cidade, a decisão da cidade, o destino comum e os destinos individuais, para o exterior do palácio. É às portas do palácio que cava na vontade do conhecimento da verdade. Perante os homens todos, cidadãos que se reconhecem iguais, o poder, que é Édipo rei, ergue-se e cai. Longe dos deuses, entregues a si. Nessa solidão partilhada – no espaço público – a fatalidade humana é o homem descobrir-se abandonado a si próprio. E talvez por isso tenha descido a montanha e deixado a floresta e, na clareira, inventado as cidades.
O pudor apenas da morte. Uma maneira escolhida para morrer. Atrás de um muro, de uma porta fechada. Afastado de todos os homens.
Conhecer não nos torna felizes.

corredores


[Lote2, Angra do Heroísmo]

forma


[Lote2, Lote3, Lote4, Angra do Heroísmo, 2004-2008]

performa
performance
dansa [como queria Sophia]

estocástica

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora

cidade

city

cité


[cidade/citi/cité, Augusto de Campos, 1963]

nuits fauves


[Quando o Segundo Sol Chegar, Rui Moreira, 2010]

São realmente as cidades o lugar do desejo.


Oslo, Tokyo, Liverpool, Copenhagen

Lisboa.

o importante é chegar


[Maquinas de Guerra X Aparelhos de Captura, Nelson Brissac, via paisagens sentimentais]

As escolas de urbanismo e arquitectura entendiam a cidade como produto da curiosidade humana, no sentido de existir uma intencionalidade. O modernismo é essa ideia de que a cidade vai mudar o homem, o mundo, em função de uma configuração pensada. As cidades brasileiras são o oposto. As pessoas vão ao Brasil achando que vão encontrar Óscar Niemeyer ou Lúcio Costa como padrão urbano. Mas não. São cidades fruto de processos caóticos, construídas em 99 por cento dos casos não por arquitectos, mas por autoconstrutores. São fenómenos que não estavam inscritos no urbanismo brasileiro até aos anos 70. Tivemos que reinventar uma maneira de olhar a cidade. Elas não se encaixavam nos modelos modernos.


Nélson Brissac, in Público, 25.02.2010



Portas que se fecham,
Luzes que se acendem
Mãos que se despedem,
Olhares que prometem
Coisas que acontecem
porque têm que acontecer
Gente buscando casa,
Gente buscando gente,
Gente buscando nada,
Vejo cinco continentes
pisando a mesma calçada
O aglomerado constante
dessa massa que se agita
faz ainda mais bonita
minha cidade gigante
São Paulo dos doutores,
São Paulo dos marginais,
São Paulo dos feirantes,
dos intelectuais
São Paulo das marisposas,
São Paulo do operário,
do camelô, do vagabundo,
do society, da favela
Misturas que fazem dela
a maior terra do mundo
São Paulo, fim do dia
E a rotina continua
Gente empurrando gente
a cada palmo de rua
Aqui uma cotovelada,
mais adiante um empurrão
Uma mulher desesperada
gritando: "pega ladrão!"
É o farol que não abre
É a sinfonia das buzinas
É o jornaleiro que grita
no coral da sinfonia:
"Olha a manchete do dia!
Seqüestraram uma menina"
Mais adiante uma fechada,
Alguém entrou na contramão
E sempre que isso acontece,
Pode esperar que não passa
A gente assiste de graça
o festival do palavrão
Mas essa é a hora feliz,
Do regresso para o lar
Cada um mais apressado
No desejo de chegar
À mansão, no apartamento,
À casinha da viela
Ao barraco de zinco
pendurado na favela,
O pensamento é um só:
Chegar, chegar
Os contrastes são berrantes
Na multidão de sozinhos
Quem não viu não acredita
Chega a ser até bonita
a demanda dos caminhos
Enquanto um vai do subúrbio,
pra Central da Cantareira
Faz a viagem inteira
mal podendo respirar
O outro, carro importado,
Bela gata do lado,
Ar condicionado,
Som champanhe, caviar
Gente que vai de Galaxi, Opala, Corcel,
De Fusca, lambreta, bicicleta
Cada um vai como pode
Gente que vai de táxi, ônibus, lotação
Gente que vai a pé batendo sola no chão
Não que se tenha vontade,
Coisas da necessidade
De quem ficou sem nenhum,
Nem mesmo pra condução
Mas nada disso importa
O importante é chegar
Quando se tem na chegada
Um motivo pra sorrir
Triste é andar por andar
Ver tanta gente passar
E ter que continuar
Sem saber pra onde ir


[São Paulo, Fim do Dia, José Domingos]

hospitalidade


[Storm King Wall, Andy Goldsworthy, 1988]

I prefer the edge: the place where countries, communities, allegiances, affinities, and roots bump uncomfortably up against one another—where cosmopolitanism is not so much an identity as the normal condition of life. Such places once abounded. Well into the twentieth century there were many cities comprising multiple communities and languages—often mutually antagonistic, occasionally clashing, but somehow coexisting. Sarajevo was one, Alexandria another. Tangiers, Salonica, Odessa, Beirut, and Istanbul all qualified—as did smaller towns like Chernovitz and Uzhhorod.

Edge People
, Tony Judt



Dizer o limite e a margem como redefinição do cosmopolitismo: raiz, cidade, liberdade, não necessariamente termos antiéticos, não necessariamente a condenação à errância incessante.
Se o multiculturalismo abre falência pelo enclausuramento na diferença, se o transculturalismo como modelação permanente e activa e cooperativa de umas comunidades com as outras se rasga a golpe da irracionalidade, redefinamos os limites sem o cárcere ponto da situação. Essa topografia que se localiza e restringe fora do movimento livre das coisas e impede a verdadeira cidadania no mundo; impede a prontidão à recepção do estrangeiro; impede que sejamos estrangeiros na casa do outro.
É de crer que ao arquitecto assistam deveres de verificação permanente do limite. Não necessariamente fronteira, ou a desmultiplicação ininterrupta do ponto. O ponto, a abstracção absurda, a ilimitação organizada por infinitas partes, sem-limite, não serve para o pensamento arquitectónico. Por lhe ser intrínseca a ilimitação.

circunstancial


[lote 12, Angra do Heroísmo]


A circunstância como o lugar do encontro do desejo com o real.

o que as cidades mostram


[Instituto Missionário da Consolata, José Forjaz, Maputo, 2000]


E há a óbvia questão do tempo. Da cronologia do corpo, que percorre a rua à velocidade veloz dos negócios e da necessidade, e a necessidade da pausa e da suspensão do corpo até que o único ruído seja o do sangue.
É dos pátios que se parte para o povoamento das cidades. São as ruas que compõem na sua agitação o aparecimento do silêncio.

«às vezes vou à missa aqui»*


[Instituto Missionário da Consolata, José Forjaz, Maputo, 2000]

Poderia ser das condições da vida nas grandes cidades muito pobres, de como ainda le mur murant Paris rend Paris murmurant, nestas Paris contemporâneas globais.
Poderia ser dos pátios e das árvores e dos pátios à roda das árvores e das casas alegres que partilham a sua pobreza.
Poderia ser do céu e dos homens sentados na terra, que esperam a manhã que os homens (ainda) não trouxeram.
Poderia ser da sombra fresca sob da varanda alta e tímida e bonita sob o céu fulgor azul
Poderia ser do labor do arquitecto, perseverante de entre condição mais baixa dos homens a que são atirados por outros homens.
Poderia ser da exultação da cor da laranja com que se juntam as formas, numa pequena-grande modesta vaidade.
Poderia ser a humildade daquela pequena luz suficiente que desce do tecto oblíquo suficiente ao coração.

Aos homens, para lhes chegar, é pelo coração.
E pela arquitectura?

*da Elisa

caminhos de floresta


[River Po Line, Richard Long, 2001]

as estruturas elementares#2


[Ricola Storage Building, Hergog & de Meuron, 1987]

Será talvez excessivo excluir a VitraHaus de qualquer pensamento arquitectónico. Um abuso desculpável à luz da fadiga que a vertigem das imagens provoca. Evidentemente haverá uma razão espacial nas sobreposições das caixas arquetípicas – e não resultaria a mesma «complexidade» da sobreposição de formas puras? - , uma tentação tectónica na estrutura do objecto da qual, reconheço, resulta a invenção do espaço exterior – e aqui o problema é ser um exterior ainda ensimesmado no objecto.
Mas que estas triviais inquietações sejam suscitadas justamente a partir dessa perda de sentido, na objectivação excessiva e muda de uma arquitectura que se constrói apenas como artefacto, sem outra relação com o mundo que um infecundo estar-ali.
So, in a very strange way, we do not always know what we do.


p.s. E sobre imagens reparo que percorrendo a internet não descubro qualquer planta corte alçado da VitraHaus.

as estruturas elementares


[VitraHous, Hergog & de Meuron, 2010]

Admitir uma tipologia como leitmotiv de um projecto será uma razão. E tipologia como entendimento racional daquilo que poderá residir no inconsciente colectivo, no mar submerso que nos torna a todos comunicantes da mesma fala, ainda que com alguma incompreensão. Sendo os temas do arquétipo e o da manipulação cumulativa de caixas uma recorrência na obra dos suíços, estou em crer que o que resulta da Vitra Haus é não mais que a manipulação aleatória de images – sendo o arquétipo, ou a tipologia, muito mais fundo e simbólico que a bidimensionalidade das imagens - alimentadas pela ilusão de si mesmas numa arquitectura já desossada do espaço, sem corpo, sem carne. E todo o discurso à volta da «complexidade espacial» decorrente da «adição e sobreposição» das caixas umas sobre as outras e da escada espiral que as atravessa, se apresenta como fingimento de um discurso que aqui, já é todo ele do design e não da arquitectura. Talvez, talvez, se não tivessem abandonado o interesse inicial sobre a matéria.
Mas depois há outros, noutras latitudes supostamente indigentes, especulam sobre a identidade a partir do tijolo.

Little boxes on the hillside
Little boxes made of ticky tacky
Little boxes
Little boxes
Little boxes all the same
There's a green one and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same


And the people in the houses all go to the university
And they all get put in boxes, little boxes all the same
And there's doctors and there's lawyers
And business executives
And they're all made out of ticky tacky and they all look just the same
And they all play on the golf course and drink their martini dry
And they all have pretty children and the children go to school
And the children go to summer camp
And then to the university
And they all get put in boxes, and they all come out the same
And the boys go into business and marry and raise a family
And they all get put in boxes, little boxes all the same


There's a green one, and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same

[Little Boxes, Pete Seeger, 1962]

lei dos solos: random acts of senseless violence

[Montijo]
aumentar


Este investidor privado garante que a sua construção privilegiará a qualidade. Será preciso esperar para confirmar, mas há algo neste projecto que pode fazer lembrar Madrid, mais especificamente a galeria de arte CaixaForum, no Paseo del Prado, e a sua fachada verde, e aplacar a oposição daqueles que elegem a arquitectura dos shoppings como inimiga de estimação. Isto porque uma das marcas distintivas deste empreendimento comercial serão as paredes exteriores ajardinadas, uma opção que tem tanto de ecológica e funcional como de decorativa.
Os autores do projecto de intervenção urbana acreditam que o revestimento da fachada e da cobertura com plantas contribuirá para diminuir o impacto visual do novo espaço comercial, que ocupará uma área de 14 mil metros quadrados e ajudará a enquadrar o edifício na paisagem.
"Pretende-se que a cobertura do edifício seja também acessível ao público, ou seja, através de caminhos pedonais poder-se-á atravessar a encosta dos Capuchos [bairro habitacional] e aceder à parte superior do mesmo, funcionando esta área como miradouro para a zona do parque urbano", explicam os projectistas.
Sobre a irrelevância disciplinar destas palavras, não se oferece dizer muito para além disto mesmo: irrelevantes. Talvez até, e relevante para o discurso arquitectónico, seja o facto destas palavras – que relevam de uma mais ampla narrativa da pseudo-sustentabilidade – serem mergulhadas numa inconsciente ideologia de ilusão capitalista que, zeitgeist de abertura de século, patrocina o ambientalismo e a sustentabilidade e a ecologia como bem consumível, e em que a arquitectura a-crítica (se há arquitectura a-crítica?) torna signo ou logótipo em si mesma, como vertiginosa proposta de consumo voraz. Uma utopia depois da utopia. [cf. Fredric Jameson] Será uma questão de moda, ou de alívio das más consciências – ocidentais - mas talvez fosse importante os arquitectos, a arquitectura, reservar alguma distância à tralha mediática que se derrama de ecran em ecran. Provavelmente isto que digo será “conservador”, pouco empenhado num utópico imparável progresso científico que, de momento, assume a condição de redimir o planeta dos excessos humanos. Anti-moderno? Sim, e considerarmos o moderno um projecto de crença radical e optimista no homem e nas suas finitas capacidades de representar o mundo em tecnologia, e se considerarmos a modernidade como território último e único da possibilidade do pensável.
Não sendo, portanto, um problema disciplinar, embora se sirva da arquitectura para se expor, este discurso é político. Apenas traduzido em arquitectura por arquitectos ou cínicos ou distantes de qualquer preocupação decisivamente arquitectónica e, por consequência, com o habitar e, evidentemente, com o lugar, que até se poderá chamar Terra. E no centro da política está a polis.
O que é aterrador verificar neste texto é a completa falência da política: Parece ser essa a opinião do presidente da câmara municipal da cidade do Lis, Raul Castro (PS), para quem "o que está em cima da mesa é a opção entre deixar morrer ou dar vida ao centro da cidade". Para além de uma infantil sociologia das cidades e do comércio, comércio tradicional vs. grandes superfícies, lançar o ónus da responsabilidade política para as mãos de empreendedores – ia dizer predadores – privados é abdicar da manutenção da coisa pública e do bem comum. O que, num discurso (aparentemente) liberal, que poderá fazer algum sentido como crença na mão invisível do mercado na administração e decisão do que é o bem comum, revela-se um paradoxo porque, na sua essência, o discurso liberal é, justamente a articulação do bem comum com os interesses individuais, conflituosos, de modo a que estes não sejam geradores de violência social e cada indivíduo possa prosseguir com a sua vida como bem entenda. Temos portanto o abdicar e soçobrar da política diante da sua própria falência e da falência do regime que este tipo de políticas foi construindo, e diante da força de interesses particulares, pouco interessados noutro fim que o lucro, mas que, ainda assim e para dissimularem os seus propósitos se encobrem com uma diáfana narrativa ecológica. Verde, como a relva postiça das coberturas prometidas, irresponsável, como o discurso político sustentado na ignorância. «e o ajardinamento das fachadas? patrick blanc no pinhal, a 600 euros/m2 (em manutenção é melhor não pensar - em madrid já tiveram de refazer 2 vezes), mas aposto que fornecido por aquela empresa manhosa do porto. leiria vai ficar moderna!» E um olhar o exemplo de Leiria é percorrer todos os indicadores da irresponsabilidade política e urbanística das últimas décadas. Estádio de futebol ou centros comerciais, sempre a tentação da grandiosidade irreal, estéril à vida de cada um, perniciosa e funesta para o bem comum e destruidora da cidade.
Construir a cidade como ruína da democracia liberal, a cidade refém dos movimentos particulares que se movem sem a razão do interesse público é a morte do espaço público, da democracia e da liberdade. Os impreparados e incultos autarcas que vamos elegendo representam-nos na perfeição na nossa falha narcísica colectiva. São tempos difícies, estes, para um liberal em Portugal.

krysis


[Uccellacci e uccellini, Pier Paolo Pasolini, 1966]

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza

Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem

Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito

A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reunem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada

É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nosssa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra

Situada no tempo
Para habitação da eternidade

Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco

Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa

Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria


[A Casa de Deus (está assente no chão); Sophia de Mello Breyner Andresen, Páscoa de 1990 ]


Ouvir dizer, como disse o Pe. Tolentino Mendonça, da arte e da fé cristã como duas feridas abertas no coração do homem impõe-me a ideia do limite. A ideia do homem que não se basta a si mesmo, não se apazigua com o que vai conhecendo, sendo já, ou ainda, o conhecimento uma ideia de extensão da sua própria finitude. Haver um derrube da ideia da linguagem como ideia do mundo é a pretensão arriscada da poesia, do entendimento das coisas, e traduzir as coisas em nomes (ou pedras) será o como, pelo trabalho, poderá fazer o homem estender ou alargar a sua limitação.
Da fé, evidente, não se sustenta na ideia de gnose. Fé pressupõe um querer (irracional), um desejo (arcaico), do absoluto. Da arte, enredada no concreto da matéria e das ideias, pressupõe-se a visibilidade e a tentação desse absoluto através da escassez que nos é imposta pela carne. «Entre o Absoluto e a Irrelevância.»
Pensar a arquitectura como obra de arte não será inédito, e não me inclinando para esta ideia, se esta ideia se aquietar na objectivação da arquitectura, poder ser, e sê-lo-á certamente mais operativa, se for uma ideia poietica aquela que aproxima a arquitectura à obra de arte. Portanto, uma aproximação no seu fazer-se - roubem-se os poetas, tornemo-nos reféns de Valéry: o «nome de tudo que se relaciona com a criação». O ser-no-mundo, activo e imperativo; um trabalho definido nas palavras de Bresson: «rendez visible ce qui, sans vous, ne pourrait être vu.»
Esta ideia é, na verdade, a que poderá atribuir algum sentido artístico à arquitectura. Um conhecimento que acumulado e sempre cumulativo para além do simples (não tão simples) conhecimento da mecânica da construção. O conhecimento dos limites do espaço, organizados por muros e fendas nos muros e tectos e chão, por um olhar fixo num horizonte maior que as tribulações quotidianas e a comodidade do presente.
A arquitectura, por definição (também) construção, recusa a ideia de puro conhecimento, se for este filiado na ideia de uma epistemologia pura. Inventar, definir, erguer limites e hierarquizá-los, desenhar na areia do tempo as linhas das quais se levantam os espaços convoca a ideia de technê. A aproximação, seu fazer-se, pela verificação das ideias e do conhecimento no mundo, da possibilidade da arquitectura como um conhecimento. Um muro, uma limitação, inquietação permanentemente à procura de se expandir. Seja esse movimento, ainda que ténue ou irrelevante, no (des)concerto do Universo, o lugar d’A casa de Deus [que] está na terra onde os homens estão.



para a Rita B.

a pele do corpo




[Mashrabiya House, Senan Abdelqader, Telavive, 2004-2006]

Só por dizer da falência de toda a teoria quando a pele é o corpo.

o corpo da pele






[The Brick House, Caruso St. John, Londres, 2001–2005]

Só por dizer da falência de toda a teoria quando o corpo encontra a pele.

ethos político




É da acção da arquitectura a revelação – desocultação – do ‘espaço vazio’, teia invisível, que nos liga ao mundo. É aí que somos no mundo.
À manifestação minuciosa da nossa diferença, segue-se a distância percorrível, mais ou menos feliz, mais ou menos dolorosa, do que nos une.

E este movimento estético é em si mesmo político.

expectativa


[Hong Kong, Andreas Gursky, 2007]


«Interessa interpretar o tema LUGAR como um meta-conceito: Através da definição da sua condição conceptual no extremo. Todo e qualquer lugar é carregadamente caracterizado pela sua objectividade inalienável, por tudo aquilo que o eleva de espaço a Lugar. Para atravessar esta fronteira, escolhemos uma única característica definidora de Lugar, simultaneamente genérica e objectiva: A ideia de que, quando pertencemos a um Lugar, estamos presos nele (a ele), qualquer que ele seja. Que há um sistema de fascínios que nos detém (no) ao lugar.»

O Lugar como armadilha
, Rui Leão in ARTECAPITAL, 1.6.2007



O problema é aqui claro: a impossibilidade desta negação da dimensão antropológica do(s) lugar(es) e do(s) espaço(s). A objectivação assim avançada não é mais que uma tentativa de fixar o que na sua natureza não é passível de fixação. Falha nesta proposição um terceiro momento/movimento: o retorno, no território da arquitectura e do seu trabalho na produção do espaço, do que constitui esse lugar – sempre instável na reinvenção de si mesmo pela espacialidade no tempo – ao instante da invenção da arquitectura. A arquitectura que no processo do seu fazer-se se explicita na espacialidade que decorre do caminho do homem pelo tempo no espaço. A interminável reversibilidade do/no projecto.
Ao arquitecto caberá a recusa inicial de uma ideia universalista, universalizante, de um espaço infinito todo igual, ao qual, estática e autoritariamente, pretende juntar uma possibilidade, imóvel, do habitar que aspira a ser lugar. E é aqui a expectativa da abertura do mundo a cada um dos homens.

política estética




E talvez seja essa a fábula mais auto-satisfatória que os arquitectos foram produzindo a partir da modernidade: que a arquitectura é hiper-presente no quotidiano dos indivíduos e por isso a arquitectura é inescapável a qualquer um dos indivíduos. E por isso é, a arquitectura, uma «arte» social.
Recuando uns passos sobre esta fenda narcísica que ofusca os arquitectos até à fantasia, a consequente tentação da imposição de um gosto, repara-se que o gosto, é uma orientação quase pública quase política a que os arquitectos se socorrem a partir do domínio técnico da disciplina.  O gosto como equívoca pedagogia das massas.
Penso no espaço público, o espaço, também, da representação social, e observa-se naturalmente que essa representação deixa de ser democrática para ser exclusiva das classes economicamente dominantes. Ao invés de ser inclusivo, como pretenderá uma arquitectura verdadeiramente democrática, o espaço público torna-se refém de uma da luta de classes, de uma luta de gosto. Ou antes o campo de batalha da luta de classes mediada pela orientação e dominância do gosto. E esta verificação pode ser brutal para o discurso disciplinar corrente que outorga aos arquitectos a necessidade da «qualificação» do espaço público.
O problema do mercado, mesmo num discurso liberal old fashion como este que vos fala, é a fatal incapacidade da inclusão de quem não pode, por exclusão económica, evoluir para a condição de promotor. E falo de moradias unifamiliares, por exemplo, e não necessariamente dos condomínios design que o mercado agora, em moda, propõe.

E a casa do emigrante, por exemplo. Que no ensaio de Graça Dias em subtexto sugere contraproposta à elite disciplinar (e urbana), e ao seu gosto. Um estudo de caso para o acto do projecto: o interpretar das auto-representações dos clientes/promotores; o entendimento de que o legado social da arquitectura é-o necessariamente, e numa democracia, a partir dessa auto-representação do cliente/promotor. E o paradoxo é agora este: como não tornar pernicioso esse gosto, legítimo, como articulá-lo na teia de relações que devém do espaço público urbano ou rural?
Sendo a arquitectura uma construção hostil, por via dos seus próprios meios de se tornar visível, cabe ao arquitecto, no projecto, o entendimento desta violência por inclusão ou ruptura? É já um assunto político. E naturalmente estético.


com a devida vénia ao Daniel

livre pelo espaço


[Kazuyo Sejima, Annie Leibovitz, 2009]


Já não interessa o modelo. Essa simplificação hábil da realidade, como uma realidade fragmentada, construída de acordo com o desejo de melhor a ensaiar. Talvez pela insuficiência do modelo cartesiano a partir do qual ainda persistimos em pensar o espaço, limita a invenção do próprio espaço. Uma espacialidade circunscrita à rigidez das coordenadas xyz e facilmente verificadas nos habituais modelos tridimensionais dos arquitectos. Uma rua, um homem que a atravessa, e esse movimento que, necessariamente a produção de uma espacialidade nova: este é o compromisso impossível dos modelos. E sempre a tentação mimética do que manipulamos com a realidade. De facto, o desejo pouca relevância tem na construção do real se não surgir do e no tempo. A estanquidade, a fixação, a cristalização, para além do isolamento das coisas nelas próprias, excluídas do mundo – que é ele próprio a sobreposição, justaposição, divergência, quiasma, convergência, de relações - é antiético da vida e, por consequência, da arquitectura. E é de crer que o quadro mental modernista poderá nem ser o único campo que promove a objectificação. Talvez o marketing capitalista, a reprodução do mundo como uma imensa wallpaper*, terá certamente a sua parte nestas razões.
O tempo então como matéria do instante do projecto. Como um pensamento das possibilidades que o espaço arquitectónico, na relação com o território – social, cultural, topográfico - esse movimento cooperante e co-produtor de novas e renovadas formas do espaço e do próprio habitar. E não recuso a ideia que seja justamente este movimento o lugar da (re)invenção do habitar. Se no habitar existe uma forma qualquer auto-reflexiva, creio ser pela relação contínua e continuada da transacção do indivíduo pelo mundo, do homem livre pelo espaço.

o tempo que dura


[Maison Carré, Alvar Aalto, 1956]

Querendo crer que a respiração de uma obra de arte resulta do movimento a que nos comprometemos na experiência em roda da sua essência, talvez esta ideia se esgote quando o mundo é uma casa. Não porque a casa não estabeleça relações de contiguidade activa com o seu contexto; que essa actividade resulte numa co-produção do espaço; que da colaboração casa mundo, pelo tempo, resulte a instabilidade espacial que o (pré)domínio cultural do modernismo ainda pretenda elidir. Não. Antes pela sua duração. E se se compreender a duração como a efemeridade das coisas que permanecem, compreende-se necessariamente uma extensão absolutamente diversa da duração da casa mundo e uma outra, a da obra de arte. Como processo, e penso o processo como o sistema contínuo das experiências mentais a partir de um objecto, as relações que se vão revelando e estabelecendo entre o sujeito e, e na, casa, será de uma outra espessura rítmica que diferirá da da obra de arte. E ainda não é uma questão de andamento. De disparidade entre um larghissimo ou um allegro ma non tropo. Será talvez o acaso da produção da própria espacialidade. Um acaso pensado, o da arte, quando ela própria se submete à decisão da arquitectura. Arquitectura, quando não recusa ser tornada objecto, quando não se recorda que isso, ser objecto – isolado, restringido nas relações das coisas umas com as outras – é uma maneira de morrer: a vindicação da aparência sobre a essência.
Que os dogmas mentais do modernismo sejam de difícil superação, - a inclinação a aceitar um tempo universal (e unívoco) como adequado a qualquer homem em qualquer circunstância, por exemplo – tal não poderá tornar a arquitectura (ainda) refém da ideia de um espaço infinitamente contínuo. Uma casa não será apenas um modelo de mundo mas mais, bastante mais, o próprio mundo. E aqui, re-aproximando-se à obra de arte, ambas, a arte e arquitectura, abandonam a condição de representação da realidade, para se transfigurarem elas próprias em realidade.
O paradoxo da arquitectura então será esse. O do tempo que dura. Sobrevivem as casas aos homens e à sua realidade. Sendo elas próprias a realidade. Para nós, homens, resta aprender que é «feliz todo aquele que tem os seus locais de duração». Mesmo que numa ruína, (que talvez não seja outra coisa que um novo encontro do seu espaço no tempo).

cool down*


[I'ts time for green banking, Sean Connery promove Crédit Agricole, 2010]


Argumentar que o ambientalismo seja a primeira preocupação da relação de cada um com o outro não será uma via errada para compreender no desenho da arquitectura muitas das preocupações essenciais que ocupam o pensamento contemporâneo. Uma aposta moral, evidentemente. E que muitas das vezes não esconderá algum oportunismo que um certo zeitgeist – mediático, científico, cultural, político – alimenta para, em sentido inverso, legitimar o próprio desenho e a arquitectura a partir dessa disposição proposta pelo ar dos tempos. Mas não serei cínico e vou admitir, fugindo de um reaccionarismo à Watkin, que há, de facto, justas tentativas de pensar a arquitectura, em contextos de terras da abundância, sem recorrer ao aparato pirotécnico de que a prática teórica e a teoria prática está eivada.E confesso agora que por momentos, um parêntesis neste final de parágrafo, recorrendo ao esforço da memória para rememorar alguns exemplos de arquitecturas excluídos desse cinismo, e confesso que me encontro sempre diante da resposta de Souto Moura: «Agora apareceu esta coisa da sustentabilidade… Acho pretensioso dizer-se que um edifício é sustentável… Acho que é o mínimo que se pede…» - perdoando o inusitado uso das reticências que o transcritor da entrevista terá atribuído ao discurso de Souto Moura.
Estando, portanto, do lado dos que pensam a arquitectura como propósito de entendimento cultural do mundo, contar com a razão prática do mundo, admitamos Kant, é um imperativo categórico de qualquer projecto de arquitectura. Naturalmente a sustentabilidade viável da massa humana à superfície do planeta que lhe concede os recursos à viabilidade é, sempre, um dos preceitos de um bom projecto de arquitectura. Teorizar sobre a inteligência dos edifícios, tendencialmente a partir de aparatos tecnológicos ainda mais dispendiosos aos recursos, é admitir a demissão da arquitectura da adequação justa às contingências da construção, afirmá-la como pueril no seu narcísico jogo de formas mais ou menos acrobáticas e erguer o techno-ambientalismo como categoria estética primeira.
A ameaça quase totalitária desses discursos exaltados, e ilustrados por renders de edifícios cobertos com «relva (ou lá o que era)», arbustos, verdete, ou qualquer outro foguetório sintético esverdeado, que reproduzam em si a natureza artificial fantasiada do território em que intervêm, é ser exactamente uma intervenção antiética da própria acção da arquitectura e do construir a arquitectura. Se pensarmos que a arquitectura é um desejo de trazer à visibilidade aquilo que aos olhos humanos ainda o não é. E que a prossecução desse desejo é também uma forma de violência sobre a Terra e a cultura. E sugere-me isto, estas declarações de Glenn Howells e do seu idílio plastificado: «Designed to "knit" into the landscape so that even the petrol station cannot be seen from the road.». Como um pequeno alívio da consciência burguesa - ocidental? - face a essa violência que a arquitectura – a civilização – implica. Por natureza. E por natureza, recusando subscrever um discurso elementar, uma espécie de aristotelismo simplório, que proponha o belo como o que é justo, deverá a arquitectura no seu pensar-se, isto é, sobretudo, no instante do projecto, compreender a sua natureza paradoxal de ser uma construção que compreende também destruição. E sobre este esforço crítico da arquitectura e a agitação indecisa em que esta se encontra - entre um optimismo ilusório e um pessimismo anémico, ou um progressismo fictício e um reaccionarismo ruinoso e fingido, ou a imbecilidade sofisticada e o medo arcaico - , Lebbeus Woods, a partir das fotomontagens de Daniel Meridor, propõe a clareza de um compromisso que é o compromisso que radica precisamente na origem da arquitectura: «The mission of architecture, these designs suggest, cannot dispense with the aesthetic, for it is inseparable from the ethical, the way we choose to with live with all other things.».

Mas outra direcção me suscita este comentário. Os ciclos e as modas, e o pensar do lugar de Augé, vencido – na verdade nunca convenceu - , agora, quase duas décadas depois. Justamente, a estação de serviço, como os aeroportos, as grandes superfícies comerciais, a velocidade, os intervalos da vida, o entre, o parêntesis do anonimato nestes lugares, a suspensão do indivíduo na «surmodernité» do espaço flutuante e no excesso das sociedades ocidentais. Agora ao arquitecto solicitam-se bombas de gasolina como «a rural oasis». Provavelmente, outro modo do «non-lieux».


*Cool It: The Skeptical Environmentalist's Guide to Global Warming, Bjørn Lomborg, 2007

um artefacto


[Lote 2, S. Mateus da Calheta, Angra do Heroísmo, 2006.2008]

Uma hipótese, a arquitectura tanja o amor na exigência da presença da matéria. O que não queira dizer, de todo em todo, a exclusão do que, aos olhos, seja invisível. É provavelmente esse desejo do visível, de um corpo, que torne a arquitectura um acto amoroso. Ou um artefacto do amor.

um princípio


[Museu Judaico, Daniel Libeskind]

Verifico o pensável anterior às coisas dito como vazio. E verifico-o nas diversas narrativas da criação, o plano da ausência absoluta, como a única possibilidade de se dizer o que está antes de se ser. Ou antes do ser se pensar em si mesmo. O impensável, logo, o indizível dito vazio. É uma possibilidade que verifico serem essas narrativas originais o pensar do que passa a ter lugar. O instante fatal, criador, fogo ou verbo único e original, que torna as coisas num lugar, necessariamente num tempo, depois de ainda elas não terem lugar nem, naturalmente, tempo. No antes, no absoluto vazio, nenhum lugar, ainda que apenas para situar alguma coisa, poderá, justamente, ter lugar.
Localização é a condição para que as coisas existam; localização é a relação das coisas umas com as outras. A organização do mundo: a topogonia: o instante da evidência. A primeira interrogação: onde? Como acreditar que «instituir um território é equivalente à fundação de um mundo» ex nihilo?
Com consequência, as coisas reconduzem-se e reconduzem-nos à efemeridade. Supomos um momento em que as coisas, tal como as conhecemos, ainda não existiam.
Isto é uma possibilidade para a arquitectura. Se a excluirmos da vontade de dominância que tem o lugar no humano, demasiado humano.

liberdade e método




Creio que não tenho contacto com o folclore. As tradições, que servem de vínculo comum entre todos, têm mais a ver com o clima, com os condicionamentos práticos, com a qualidade das tragédias e comédias que nos tocaram viver. Não faço arquitectura marcadamente finlandesa e, genericamente, não vejo contraposição alguma entre o finlandês e o internacional. A Finlândia faz parte da Europa.

Alvar Aalto


É sempre um dilema, e um inquietante desconforto, querer atribuir uma génese nacional a uma obra, obra de arte ou arquitectura, para além da contingência do natural. Quase de imediato se ergue um fio político que, ainda que se mantenha longínquo, não deixa de trazer algum embaraço. Ainda que recorramos, e pretende-se, a um discurso intrinsecamente disciplinar.
A ideia de nação é já de si oscilante. E conflituosa. O conceito que evoluiu e que nos chega hoje, aqui em Portugal, como categorização de uma entidade, fixa nas suas fronteiras, (quase) rígida na sua cultura, monolítica na sua política, constitutiva de uma identidade, legitimadora de um poder e é já de si uma construção do(s) poder(es) sucessivo(s). E conflituosa, se é deste objecto enclausurado que se pretende avançar pelo(s) mundo(s). E ser-se cosmopolita não será necessariamente ser-se sem raiz.

E o alcance da afirmação de Aalto será tanto mais relevante quanto, tendo sido proferida por altura que lhe eram desferidos ataques pela ortodoxia do moderno – os «dandys das grandes metrópoles» apóstolos do «purismo inumano» -, desoculta na arquitectura uma essencial articulação da contingência, como método, e a adequação, justa e bela, ao «homem vulgar e corrente, ali onde ele é o centro, com a sua tragédia e a sua comédia», como objecto. Qualquer prática disciplinar que inventarie uma caracterização nacionalista, e que o faça como horizonte ideológico, pesa sobre a arquitectura como uma sentença de morte: seja a arquitectura uma hierarquização dos limites não poderá ela própria ser limitada no seu fazer-se por impulsos de outra ordem que não os do «homem vulgar e corrente, ali onde ele é o centro, com a sua tragédia e a sua comédia». E sabemos bem dessa tentação do cárcere.

lugares arcaicos


[Crematório, Berlim, Axel Schultes, Charlotte Frank, 2001]

Provavelmente a impressão de uma realidade excessiva decorre do reconhecimento, inquietante, do espaço como globalização. Agora, aqui, à frente, ligo-me instantaneamente a qualquer parte, espaço, do mundo, sem na realidade a ele me ligar pelo corpo. O que experimentamos dos lugares é agora desconectado da sua espacialidade. A economia do espaço dissolve-se no aqui, no agora, na imaterialidade dos objectos e numa equívoca espacialidade global – globalizante – que soçobra às expectativas reais do corpo.
Se uma antropologia do espaço deverá compreender o corpo como categoria constitutiva do indivíduo – e houve uma que categorizou os não-lugares e a erosão da realidade pela velocidade e pela impossibilidade da atenção necessária aos objectos a partir dessa velocidade que seria um entre lugares - , muito mais a arquitectura terá necessariamente de ser erguida a partir dele.
Uma realidade ilusória – chamaram-lhe simulacro – toma conta do pensamento arquitectónico: um pensamento que se exime a pensar o espaço para além da utilidade prática – absolutista – da sua mensura: um pensamento em perda da experiência irracional, simbólica, deslocada e desafectada da própria experiência do lugar. Realidade excessiva, practicabilidade como imperativo, arquitectos inventamos espaços destituídos de sentido.
À assoberbada tentação da racionalidade poderá a arquitectura ser a tarefa, justa, do pensar holístico do lugar. No espaço.

uma casa para Bartleby


Mudou o mundo o dia 11 de Setembro de 2001. Tinham sido destruídos dois edifícios altos, dos mais altos do mundo, do poder. E perguntámo-nos como teria sido possível a barbárie no portal da civilização. Perguntámo-nos o que fazer, no meio do fogo, do ódio, da angústia, do terror, da violência, do sangue, do betão partido, da incredulidade. O mundo mudou nesse dia. Provavelmente a vida mudou para umas centenas de pessoas. Mas o mundo não mudou nesse dia. Continuou o que é, na cadência da interminável violência, vingança, ressentimento. E talvez a pergunta acertada fosse – seja – antes o que não fazer. Pelo menos, desde que Adão foi expulso, com Eva, do jardim.

Uma hipótese a considerar é a história da arquitectura como a história da violência. Ou uma história de violência. Um abrigo é sempre uma defesa. Um ataque é sempre uma agressão no espaço. Projectar tem sido conotado, pelo menos nos discursos recentes mais mediatizados, como estratégia. Erigir um muro é exercitar o controlo sobre um território. Os homens, as instituições representam e revelam o poder pela altura dos muros que erguem. As Torres Gémeas eram muito altas. Eram o meio, media do poder do Império. A violência ocorre quando a nossa percepção da ordem do mundo é ferida ao limite da incompreensão. O encadeamento do real é abruptamente interrompido.
Também das origens da arquitectura se desconhece a razão. Apenas um desejo, já racionalizado de firmitas, utilitas, venustas. Uma e outra, arquitectura e violência, modos de vulnerabilidade e de poder. E do desejo.
Os V2 sobre Londres são a interrupção do habitar ou o ataque ao World Trade Center é uma crítica de arquitectura mas são, antes, operações, tentações, de dominância.

A inacção, que não se confunde com inércia, interromperá, na melhor das hipóteses, a lógica circular do desejo de poder, do alcance do poder que os outros detêm ou pretendem sobre um território ou um indivíduo. A inacção pode ser a recusa civilizada em alimentar a cadeia humana da conquista agressiva dos limites do outro. Ou talvez uma desesperada, última, tentativa em defesa de um limite, de um corpo, de uma casa, de um território, de uma cultura. Mas é uma conjectura frágil. Fenece frente ao milagre quotidiano do mundo. Por mais cinismo que se use. E pressupondo o cinismo como o acto defensivo, resguardo inconsciente de quem o pratica, fechamento da fronteira do eu com o mundo.

Para uma casa para Bartleby já Virilio terá feito a arqueologia: monólitos encerrados, vigilância implacável do horizonte, ruínas de cimento sobre a praia do mundo. O cerceamento voluntário à intrusão da luz e a escolha da recusa do clarão com que o real às vezes irrompe abrupto no quotidiano. Casa fantasma da memória do que é e do que, pela força da negação, não se permitirá ser. E também a rejeição do fulgor dos nomes. Nem a destruição nem a arquitectura escapam ilesas à violência da linguagem.  
Ah Bartleby! Ah Humanity!

Ocorreu-me isto a passar por aqui e por aqui.