Ou como inventar um pouco de espaço no som e na História e na geografia acidentada do tempo e da Terra, compartimentos onde possamos inventar a nossa própria história.
Resolvido o problema de Poincaré.
a organização colectiva de construções individuais
Temos, assim, uma visão de que os edifícios são o projecto de arquitectura e o resto é secundário, ignorando que o dono de obra poderá não escolher a estética como único critério, tendo mesmo a obrigação de seleccionar projectos segundo outros critérios.
[…]
Sei que é uma alteração profunda aos métodos que têm sido seguidos nos últimos anos, mas é tempo de acabar com a ditadura da estética, que parece ser, na lógica da arquitectura, o único critério para escolher os projectos, relegando para plano secundário os primeiros responsáveis pela segurança das construções e pela satisfação de um elevado número de exigências técnicas de interesse público.
[…]
Se, por absurdo, a Ordem dos Engenheiros reclamasse a aplicação, aos projectos de engenharia, dos princípios que a Ordem dos Arquitectos defende, também teríamos concursos públicos para contratar projectos de estruturas, segundo critérios de segurança contra os sismos, seguindo-se a selecção dos melhores projectos em eficiência energética, redes de instalações eléctricas e de comunicações, acústica e outras importantes áreas de engenharia.
Fernando Santo, Ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros in Publico, 12.04.2010

foto
Da contra-argumentação processual já o Tiago Mota Saraiva se encarregou, com justiça e clareza. Acresço apenas o pequeno incómodo de ler as declarações de um ex-responsável pela Ordem dos Engenheiros usar de um desprezo tão leviano como irresponsável, tanto para o ofício de que faz profissão, como, gravíssimo, a própria qualidade da democracia, sobre a transparência dos métodos de contratação pública.
Retirado de qualquer leitura corporativista, que decerto Santo também não partilhará, subsiste uma ideia de arquitectura, da utilidade da arquitectura, da necessidade da arquitectura, do propalado papel social da arquitectura.
Além de decadente, pior, parece-nos inculta e ignorante. E isto é tão mais grave quanto se tratam de declarações de alguém que se bateu para que aos engenheiros pudessem ser assacados actos próprios e – exclusivos – da profissão do arquitecto. Ou talvez por isso, não surja surpresa.
A incultura revela-a o desprezo que Santo faz da arquitectura,como actividade implicada directamente com a qualidade de vida dos indivíduos, nas cidades e na paisagem, ao isolar a actividade do arquitecto sobrepondo-a à do engenheiro, das diversas engenharias. E esta é uma incultura que releva daquilo que tem sido a prática corrente dos últimos 36 anos. Se outro exemplo não existisse, temos um primeiro-ministro, engenheiro técnico civil, que usou do expediente permitido pelo famoso 73/73 para ele próprio «assinar» alguns projectos de arquitectura.
Se o arquitecto se confronta , e duramente, com a visibilidade física do produto do seu trabalho, num equilíbrio precário entre a sua vontade e as consequências do mesmo sobre a sociedade e o quotidiano dos indivíduos, - a arte social? – Santo omite que sejam essas atribuições do engenheiro. Talvez o catastrófico estado da nossa paisagem se avolume, sendo que é de escassa responsabilidade da arquitectura o estado da arte do território e das cidades portuguesas.

[Ordem dos Engenheiros, Aires Mateus & Associados]
Ao expôr os seus argumentos, num pressuroso liberalismo a la carte de interesse interesseiro, quando apela à vontade individual do promotor, Santo escorrega na armadilha do mais egoista corporativismo, quando ele mesmo se propõe negligenciar o que é do domínio da arquitectura e o que é do domínio da engenharia, na gula de assambarcar encomendas e trabalho numa época em que as mesmas escasseiam. O exercício é simples: ridicularizando o que é da arquitectura – a «estética», no seu texto – atribuindo-lhe meras competências decorativas, Santo recolhe para a engenharia a seriedade de coisas tão graves como a manutenção da sobrevivência: o imperativo da segurança. Ao brincar, com certeza involuntariamente, com esse horizonte da mortalidade, Santo coloca a engenharia na vanguarda da sobrevivência da espécie, num twist freudiano, que colhe sempre e atrai vastas audiências. E aqui talvez esqueça Santo que, justamente, a arquitectura é uma profissão que há uns poucos de anos alguém a teorizou como de firmitas, utilitas e venustas.
A lógica de Santo até parece ser interessante não fossem os factos uma irremdiável prova da ignorância de Santo. Um exemplo: o que são – ou eram – os programas Polis senão o consumir de milhões de euros do erário público a consertar o que foi estragado nas últimas três ou quatro décadas nas nossas cidades? Dinheiro que não temos para coser aquilo que a ânsia especulativa, quer do estado quer de privados, construiu ao longo de décadas de incúria.
Nas linhas assinadas por Santo são omitidos séculos de História de uma profissão, o respeito dos arquitectos, o amor pelas cidades, o interesse comum, por troca de uma contingente e egoista demagogia de apelo à classe.
Paradigmático.
Imperdoável.
[…]
Sei que é uma alteração profunda aos métodos que têm sido seguidos nos últimos anos, mas é tempo de acabar com a ditadura da estética, que parece ser, na lógica da arquitectura, o único critério para escolher os projectos, relegando para plano secundário os primeiros responsáveis pela segurança das construções e pela satisfação de um elevado número de exigências técnicas de interesse público.
[…]
Se, por absurdo, a Ordem dos Engenheiros reclamasse a aplicação, aos projectos de engenharia, dos princípios que a Ordem dos Arquitectos defende, também teríamos concursos públicos para contratar projectos de estruturas, segundo critérios de segurança contra os sismos, seguindo-se a selecção dos melhores projectos em eficiência energética, redes de instalações eléctricas e de comunicações, acústica e outras importantes áreas de engenharia.
Fernando Santo, Ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros in Publico, 12.04.2010

foto
Da contra-argumentação processual já o Tiago Mota Saraiva se encarregou, com justiça e clareza. Acresço apenas o pequeno incómodo de ler as declarações de um ex-responsável pela Ordem dos Engenheiros usar de um desprezo tão leviano como irresponsável, tanto para o ofício de que faz profissão, como, gravíssimo, a própria qualidade da democracia, sobre a transparência dos métodos de contratação pública.
Retirado de qualquer leitura corporativista, que decerto Santo também não partilhará, subsiste uma ideia de arquitectura, da utilidade da arquitectura, da necessidade da arquitectura, do propalado papel social da arquitectura.
Além de decadente, pior, parece-nos inculta e ignorante. E isto é tão mais grave quanto se tratam de declarações de alguém que se bateu para que aos engenheiros pudessem ser assacados actos próprios e – exclusivos – da profissão do arquitecto. Ou talvez por isso, não surja surpresa.
A incultura revela-a o desprezo que Santo faz da arquitectura,como actividade implicada directamente com a qualidade de vida dos indivíduos, nas cidades e na paisagem, ao isolar a actividade do arquitecto sobrepondo-a à do engenheiro, das diversas engenharias. E esta é uma incultura que releva daquilo que tem sido a prática corrente dos últimos 36 anos. Se outro exemplo não existisse, temos um primeiro-ministro, engenheiro técnico civil, que usou do expediente permitido pelo famoso 73/73 para ele próprio «assinar» alguns projectos de arquitectura.
Se o arquitecto se confronta , e duramente, com a visibilidade física do produto do seu trabalho, num equilíbrio precário entre a sua vontade e as consequências do mesmo sobre a sociedade e o quotidiano dos indivíduos, - a arte social? – Santo omite que sejam essas atribuições do engenheiro. Talvez o catastrófico estado da nossa paisagem se avolume, sendo que é de escassa responsabilidade da arquitectura o estado da arte do território e das cidades portuguesas.

[Ordem dos Engenheiros, Aires Mateus & Associados]
Ao expôr os seus argumentos, num pressuroso liberalismo a la carte de interesse interesseiro, quando apela à vontade individual do promotor, Santo escorrega na armadilha do mais egoista corporativismo, quando ele mesmo se propõe negligenciar o que é do domínio da arquitectura e o que é do domínio da engenharia, na gula de assambarcar encomendas e trabalho numa época em que as mesmas escasseiam. O exercício é simples: ridicularizando o que é da arquitectura – a «estética», no seu texto – atribuindo-lhe meras competências decorativas, Santo recolhe para a engenharia a seriedade de coisas tão graves como a manutenção da sobrevivência: o imperativo da segurança. Ao brincar, com certeza involuntariamente, com esse horizonte da mortalidade, Santo coloca a engenharia na vanguarda da sobrevivência da espécie, num twist freudiano, que colhe sempre e atrai vastas audiências. E aqui talvez esqueça Santo que, justamente, a arquitectura é uma profissão que há uns poucos de anos alguém a teorizou como de firmitas, utilitas e venustas.
A lógica de Santo até parece ser interessante não fossem os factos uma irremdiável prova da ignorância de Santo. Um exemplo: o que são – ou eram – os programas Polis senão o consumir de milhões de euros do erário público a consertar o que foi estragado nas últimas três ou quatro décadas nas nossas cidades? Dinheiro que não temos para coser aquilo que a ânsia especulativa, quer do estado quer de privados, construiu ao longo de décadas de incúria.
Nas linhas assinadas por Santo são omitidos séculos de História de uma profissão, o respeito dos arquitectos, o amor pelas cidades, o interesse comum, por troca de uma contingente e egoista demagogia de apelo à classe.
Paradigmático.
Imperdoável.
a fragilidade do caos
Sprawling on the fringes of the city
In geometric order
An insulated border
In-between the bright lights
And the far unlit unknown
Growing up it all seems so one-sided
Opinions all provided
The future pre-decided
Detached and subdivided
In the mass production zone
[Subdivisions, Susanna & The Magical Orchestra, 2009]
Um aparente acidente sonoro por um incidente da vontade. Ainda penso que a música de Morten Qvenild e Susanna Karolina Wallumroed trata do espaço. De qualquer coisa que, do silêncio, seria improvável. Que não é suposto existir. Mas que, breve, em breve, regressa ao silêncio, entre o infinitamente grande e ínfimo invisível. Uma topografia da improbabilidade.
Um pouco como as cidades. Frágeis e imponderáveis.
alguma coisa está fora da Ordem*

[Alfragide]
Muito se têm questionado os arquitectos sobre a actividade da Ordem que os representa. Mais ou menos solitárias, estas reflexões surgem periodicamente na imprensa coincidentes com momentos relevantes da vida social, económica e cultural da nossa comunidade. Sugerem-nos e confirmam-nos estas ocasiões o íntimo e inelutável vínculo da arquitectura com a sociedade em que actua. Daqui, ser a arquitectura uma actividade de alcance social. Daqui, ser o trabalho do arquitecto, mesmo que voluntariamente refugiado na mais profunda solidão, representativo dos movimentos sócio-culturais que atravessam o nosso país.
Mas estar em sociedade não significará ser refém dela. Creio, aliás, que é também da essência da arquitectura um olhar crítico sobre os múltiplos domínios em que age. Da economia ao ambiente, das paisagens às geografias humanas, do território e das cidades ao íntimo gesto doméstico, da história e da tradição ao quotidiano, numa dança permanente entre escalas, tipos e saberes, que confluirão, consciente e inconscientemente, no projecto de arquitectura. É desta instabilidade entre o real e o especulativo que a arquitectura poderá ser operativa, justamente como pensamento sobre real, como actividade cultural.
Vem isto a propósito da divulgação pública do estudo do Prof. Augusto Mateus. E seria profícuo pensar a intervenção da Ordem dos Arquitectos, naquilo que está consagrado na alínea a do Artigo 3º dos seus estatutos -«contribuir para a defesa e promoção da arquitectura e zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de arquitecto» - a partir deste estudo encomendado pelo Ministério da Cultura.
O campo de intervenção do arquitecto, que se tem alargado nos últimos anos, não deixa, naturalmente, de estar ligado à indústria da construção. É pela construção que a arquitectura torna sensível o que antes é uma ideia; é pela construção que a arquitectura regressa e opera no mundo; é pela construção que o trabalho do arquitecto ganha especial relevância, no encontro com o trabalho dos outros de quem depende o erguer da arquitectura.
Numa economia em que o grosso do investimento é dedicado à construção, aproximadamente 50%, em que este sector é responsável por 10% do emprego e com um peso de cerca de 5% no PIB, os números trazidos à luz pelo estudo do Prof. Mateus suscitam alguma perplexidade. No sector cultural, segundo o mesmo trabalho, a arquitectura representa 0,6% do emprego e 0,7% do valor acrescentado bruto. Porque entendemos que o património da OA deverá ser a defesa da arquitectura e não dos arquitectos, achamos surpreendente o silêncio a que a mesma se remete face a estes números. Ou talvez seja este silêncio ruidoso consequência da inoperância da OA para além dos limites da gestão burocrática do dia-a-dia.
À visibilidade que têm adquirido alguns nomes da arquitectura portuguesa não tem correspondido o necessário esforço da estrutura da OA em aproximar-se dos reais problemas que afectam a prática profissional: dos sub-humanos recibos verdes, campo fértil de mão-de-obra barata para grande parte dos escritórios, à titubeante reacção – quando deveria ter sido acção – relativamente às adjudicações directas da Parque Escolar. Há todo um campo de acção em que a actuação da OA tem sido, no mínimo, omissa ou insuficiente.
O ensimesmamento da OA não pode ser justificado pelo pouco domínio do público do discurso disciplinar, numa espécie de ciclo fechado e cada vez mais diminuto, que resulta na quase irrelevância da OA na sociedade. Mais uma vez a frieza dos números pode deixar-nos atónitos: somos mais de 16.000 arquitectos, membros da OA, sem que esta seja capaz de produzir um discurso público e social pouco mais que vago e indiferente.
Indiferença de dois sentidos: se a OA é relapsa em ler os sinais da sociedade, é ela própria incapaz de produzir sinais que identifiquem a arquitectura como uma actividade essencial ao ordenamento do território, à adequação das múltiplas actividades e funções humanas ao bem escasso e precioso da paisagem, à importância cultural e vantagem económica do trabalho do (e com) o arquitecto em qualquer escala da construção.
Com certeza muitas das respostas a estas questões necessitarão de reflexão profunda e grande parte delas radicarão na estrutural crise que o país atravessa, mas o mutismo por que se tem pautado a OA nem dá resposta à sua missão de defesa e divulgação da arquitectura e muito menos dá expressão àquilo que, em primeira análise, a fez constituir-se, ser uma organização de valor social.
Porque só há um princípio a que a realidade está condenada, que será o que queiramos que seja, pode ser que um dia os arquitectos queiram uma realidade diferente.
*Caetano Veloso
um recuo do mundo

[Lote 12, Angra do Heroísmo, 2008]
Sendo que o inverso é também da arquitectura: nomear, como significar, é trabalho do construir.
a memória, a história, o esquecimento*

[Habitação Multifamiliar, Ourém, 2003-2005]
A ruína, que é a realidade arquitectónica exposta aos elementos, ao tempo, a pedra que se expõe na sua decrepitude, a ruína da presença e do presente. Ícones e fantasmas, imaginação e imagens, trabalho do futuro na devastação do presente, as casas e as cidades se transfiguram na incerteza. Possivelmente mais certa que a ideia de progresso, que já abandonámos, resta a ideia da ausência que lentamente se aproxima do fim da esperança.
E talvez a ruína seja o instrumento crítico mais preciso: a aparição do que, inelutavelmente, não se poderá esquecer. Como se as coisas se desligassem de si e do presente em favor do destino. Um espectáculo daquilo que já não é mais.
Caberá ao arquitecto reconhecer que a construção em que se empenha, as ligações que propõe, a realidade que inventa – que é ela própria uma outra realidade imprevista ao tempo da construção – não o é sem o território que lhe dá um nome. E que o seu trabalho não é mais que um sopro destinado ao esquecimento.
*Paul Ricoeur
saecula seculorum

[El Cielo Gira, Mercedes Álvarez, 2004]
Cega, a acção da memória pela mão, antecipa a visão das coisas mediadas pelo desenho. Um contorno, um rasto na página, um risco pista, um imagem ainda e já ruína. Uma da inscrição, uma entidade difusa, uma identidade vinculada às oscilações do tempo. E do espaço.
«E porque ficamos com tantas memórias?» Ruínas físicas numa paisagem que se eleva sobre as cidades que se escondem. Submersas, debaixo da terra e das memórias também já elididas, apenas reminiscências escavadas ao ritmo lento das estações.
Um sopro: lembrarmo-nos de qualquer coisa é lembrarmo-nos de nós mesmos? O curso da história, a memória com relação ao passado e como possibilidade de conduzir a lembrança. Pensar, filmar, a ruína como um tropismo da memória. Quando o mundo, as coisas, no seu definhar lento, subsistem pela memória que também definhará logo após a liquidação da lembrança. Morrer. Morrer duas vezes. Morrer várias vezes até a lembrança se extinguir na Terra. Um outro encontro do lugar das coisas com o tempo.
A passagem, a aparição mnemónica da lembrança, no instante de uma vida logo perecerá. Sobrarão as casas, lentas, e elas soçobrarão ao abandono. O intervalo, o entre, ainda não a representação de uma coisa ausente, mas a imagem como lembrança. Que se sucedem umas às outras.
Até que «de repente, uma noite, as igrejas ruíram todas juntas».
É esta a memória, imprevisível, das ruínas da tua passagem.
da recepção social e da representação cultural da figura do arquitecto em portugal nos últimos vinte e sete anos
[Origens, RTP, 1983]
[Mar de Paixão, TVI, 2010]
E lembrando a repercussão pública da divulgação dos vídeos caseiros do arquitecto Taveira, no apogeu da ideologia do sucesso de um Portugal moderno e europeu - representado nos reflexos glossy do Centro Comercial Amoreiras - em finais de 80 e inícios de 90, e o contributo do mesmo para a atracção e representação glamourosa - e equívoca - da profissão e da figura do arquitecto como modelo social. Da televisão. E do sucesso.
Mas, parafraseando Gil Scott-Heron, a arquitectura não será televisionada.
da riqueza e da pobreza das nações
Quem sabe, é a corporate architecture a que melhor guarda o arquitecto, preterido nesse desígnio da auto-representação do esplendor da corporação?, escusando-o de tornar visível, pela arquitectura, qualquer tipo de contradição social. A marca, a corporação, é uma entidade social totalitária, ou que o deseja sê-lo. Uma arquitectura do detalhe será a que melhor faz representar o desejo totalitário, globalitário.
Mesmo quando a marca se ergue a partir dessoutra marca, a do arquitecto, aqui chamado apenas para legitimar um design da aparência. Uma ideologia da emergência da imagem, destituída de qualquer outro símbolo que a auto-referencialidade, a auto-exclamação, o anúncio de um poder.
Demasiado pobre.
E depois há as reproduções atávicas. E feias. E num contexto, diria, equívoco, compósito de junkspace e de zonning anacrónico.
Ainda mais pobre.

[Edifício Atlantis, autor desconhecido]
Mesmo quando a marca se ergue a partir dessoutra marca, a do arquitecto, aqui chamado apenas para legitimar um design da aparência. Uma ideologia da emergência da imagem, destituída de qualquer outro símbolo que a auto-referencialidade, a auto-exclamação, o anúncio de um poder.
Demasiado pobre.
E depois há as reproduções atávicas. E feias. E num contexto, diria, equívoco, compósito de junkspace e de zonning anacrónico.
Ainda mais pobre.

[Edifício Atlantis, autor desconhecido]
este lugar não será mais o mesmo sem ti#2

[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]
Da ruína e construção, ainda no tráfico do corpo, são as cicatrizes, as fendas abertas na cidade. Qualquer intervenção no corpo, a cirurgia, é a violência da vontade – ou necessidade, não discuto – contra a carne. E daqui às metáforas e a uma linguagem cirúrgica para falar de cidades?
A imposição moderna é uma imposição higienista . E a contradição é evidente, nas imagens, da vontade da política e da arquitectura, contra o chão mais antigo que a incisão funcionalista. O cartaz da utopia arquitectónica, um bairro novo, aberto e plantado de palmeiras, financiado pelo «fundo de coesão» da União Europeia, sobre as ossadas dos romanos encontradas nos primeiros movimentos das máquinas: «uma limpeza étnica», como alguém em passagem diz.
Pode ser um filme sobre exílio: daqueles que na sua cidade ficam sem o seu lugar.
o elogio da sombra
[Kowloon Walled City, Hong Kong]
Esta penumbra é lenta e não dói
Jorge Luís Borges
Caminhamos e circulamos não cessamos de voltar: o risco da contemplação onde arquitectura e espaço tendem a tornar-se sinónimos é um alargamento excessivo da ideia de arquitectura até nos dissolvermos numa coreografia extensa, ao ponto de acabarmos por perceber a arquitectura em tudo; o risco de fazer transbordar a arquitectura de um conceito até se chegar à ideia totalizante, apesar de sedutora, da arquitectura como uma tecnologia do ser. Um muro instaura um espaço, um chão e um tecto e a luz a perscrutar organizam a arquitectura. E a luz e os homens encarregar-se-ão de inventar uma arquitectura sem arquitectos e cidades confundidas com o próprio espaço que ocupam.
Então o tempo tomará as pedras pela mão: imperfeitas, impermanentes, incompletas.
adenda: a Nancy dormiu em Chungking Mansions.
este lugar não será mais o mesmo sem ti
[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]
À arquitectura como corpo, ideia avançada pela História, reconhecer-se-á a necessidade da estruturação desse corpo. Cimento, ligamentos, películas, ossos, pilares, polietileno extrudido, organização das partes, aparência da beleza e ocultação do, genericamente, funcional – já um dia considerado o belo -, orgânica mecânica do erguer da arquitectura. Uma construção, uma disposição no tempo, uma vontade sobre a matéria-mundo.
Também uma cidade, como corpo, necessitará, porventura mais urgentemente, da disposição voluntária dos homens sobre a matéria. Ruas e casas, organizados na democracia do mercado segundo os critérios hediornos, urgentes, que, muitas das vezes, fazem subsistir a circunstância sobre a estrutura. Será do domínio da contingência a construção. O erguer das casas e organizá-las nas cidades.
A construção da arquitectura, um processo físico, um sistema de experiências mentais, que se prolonga no tempo e no lugar que antes da realidade prometida em projecto – a ilusão do arquitecto – provoca e desperta uma outra realidade. Porventura ainda caótica, desorganizada. Quase tão repelente quanto as entranhas do corpo a céu aberta, as entranhas de um edifício em construção. Apenas amadas por uns quantos, um mestre de obras feliz na resignação com que já se habituou a que o arquitecto lhe esconda o labor das mãos por paredes e revestimentos como a carne à volta da alma.
As metáforas talvez sejam infinitas, uma maneira imperfeita de dizer o que não se conseguirá, mas talvez como o cimento, uma fibra, José Luís Guarin filme as partes da sociedade, uma pequena sociedade, um bairro, as ligações e as disrupções, a vida, como, por metáfora, se constrói uma arquitectura. E de como ela é no meio das outras arquitecturas.
cataguases

[Residência de Francisco Peixoto, Óscar Niemeyer, 1940-1942]
Modernismo iluminista: quando a indústria se fez rodear pelas vanguardas e inventou uma cidade.
via António
riscar o chão

[Beacon Events, Merce Cunningham Dance Company, 2008]
Aproxima-se o arquitecto do coreógrafo pela escrita no chão. Agrimensores da primeira experiência do espaço, a experiência do corpo. Desenhar os gestos, riscar a areia.
Era Merce Cunningham quem dançou como habitou.
distúrbio de pânico

[OUTrial House, KWK PROMES, Polónia, 2005/2007]
Reserva insondável do projecto de arquitectura será crer-se o arquitecto como um apóstolo do futuro. Porque um projecto de arquitectura é um projecto tecnológico, dos meio e da expressão do fazer. Uma prescrição de possibilidades pela matéria, organizada pela «chosa mentale», intuitiva e inventiva e imaginária, da qual, na possibilidade desse possível fazer-se real, terá, necessariamente, consequências físicas na organização até do gesto mais íntimo de cada um. Um projecto de arquitectura é também um projecto político. Um projecto sem lugar ainda que não no espaço mental do arquitecto que, naturalmente, na loucura utópica tratará das possibilidades que a matéria e os recursos técnicos lhe oferecerão. Equilíbrio precário entre o desejo e o real.
Ainda que o belo como motivação, é pouco evidente hoje, nos discursos por aí anunciados, o desejo da beleza pela arquitectura. Ou antes, a beleza como palavra proibida num discurso tecno-científico, árido, a modo de se auto-legitimar. E já não nos parece clara uma ideia óbvia de beleza. Nem de como construí-la.
Moda da crise - moda como outra qualquer que mais logo se desfará num pouco de abundância que nos retome - sustentabilidade, auto-sustentabilidade, ecologia, green, tornam-se num estéril manifesto de uma ambição desmedida do presente debaixo do manto diáfano da sobrevivência futura. A vitória do populismo e da demagogia, muito bem comercializada em renders e representações de pedaços perdidos do paraíso que apenas se encontrarão, presumo e não quero ser catastrofista, nos discos rígidos dos hedonistas – hediornistas? - enfarpelados de futuristas.
Assim se vão plantando arbustos por tudo o que é cobertura, green roof assinalando uma preocupação com os amanhãs que hoje nos prometem um canto desafinado. Uma espécie de sobre-pós-hiper-modernismo, que, a custo da sobrevivência aflita, faz tábua rasa do passado, História, Técnica, Gestos, em honra da nova narrativa da salvação da humanidade: a ecologia. Uma narrativa política que, por eclipsar o passado, comprometida com uma promessa irreal de futuro, por se alimentar de meios indiscriminados e inadaptadas às diversas cirtcunstâncias, será ainda mais honerosa, consumirá ainda mais recursos. Uma arquitectura que disfarça a tensão do presente debaixo do tecto relvado que nem o mais inumano modernista alguma vez sonhou.
A vertigem do presente talvez seja não mais que o trauma do futuro.
excesso e crise#2

[Rien ne va Plus, Architecture in times of crisis ]
Des-.
Hiper-.
Desorientação. Desterritorialização. Desestruturação. Desilusão. Dessocialização.
Hipercapitalismo. Hiperindividualismo. Hipertécnica. Hiperconsumismo. Hiperperfomatividade. Hiperconcorrência.
Sem distanciamento possível ao tempo do agora ressumamo-nos à condição de adiantar prefixos aos nomes da modernidade. Incompleta?, inacabada?, ou já outro mundo?
Ou a sedução permanente do presente, a tensão do prazer no instante imediato, sobre o eclipse das teleologias modernas, propõe-nos construir arquitecturas sem território, como zapping impensado. Ou arquitecturas de espaço impensado – físico ou virtual?; se esta dialéctica ainda é verdadeira?. E, ainda que a arquitectura seja, tenha sido, sempre global, na recusa de uma ideia limitativamente funcional, é a sedução irremediável, o estímulo permanente, a imposição mercantil a que se submete, um dever do projecto?
Ou mais livres como nunca, mais sós como nunca antes, desamparados mas permanentemente ligados, a questão de território e das solidões multiplicadas na abundância do supermercado infinito, levanta-se como a questão do abrigo íntimo, onde o corpo deixou de ser a âncora do real, e da cidade, que poderá não ser mais que uma rede tentacular, partilha anónima de solidões individuais, de identidades enclausuradas inaptas a povoar o mistério das passages e incapazes de uma decisão sobre a polis.
Com as estruturas fixas do modernismo redentor extenuadas, trabalhamos a partir da subjectividade excrescente, da hipertrofia individual, da reconfiguração ansiosa e instável da esfera íntima e social. Que possibilidade para uma arquitectura real? Violentamente do real.
Já nada é evidente.
adenda: «O que está a acontecer é a profanização espalhada pelas cidades. Subjectividades cada vez mais esvaziadas, formatadas, pré-fabricadas, etc...», José Gil
os redondos*

Entra-se num pátio anguloso e percebe-se que aquela parcela de edifício se contorceu para tornear a árvore. É ali, naquela sala da Faculdade de Arquitectura da UEM, em Maputo, que vai estar Pancho Guedes a conversar com quem veio para o ouvir. A sala encheu e até se improvisaram outras filas.
“Os redondos. Hoje vamos falar dos redondos.” Magro, hirto, de voz ténue e olhar brilhante. Segura o microfone de forma distraída e vai-se entusiasmando com o que mostra.
É evidente a relação entre os projectos do arquitecto e a construção local. A palhota central rodeada de outras onde se instalam visitas, família ou outras dependências da casa. Esta organização é transposta para os projectos de residências familiares que Pancho idealizou, e muitos realizou, acrescentada de varandas, muros, zonas de estacionamento, torres e outros pormenores.
Fluem desenhos feitos à mão, axonometrias, alçados, esquiços, maquetas. E histórias sobre as construções, as encomendas, as famílias, as funções, os amigos. Um desfiar também de advertências, de considerações, explicações. Confessa o seu prazer de inventar, de desenhar, de erguer maqueta, e de retornar e redesenhar, repintar, refazer…. Revela o cansaço da construção e o estorvo de terminar, de entregar.
Na sequência de imagens aparece um quadro. Uma pintura de Malagantana. Por fim o desenho do Centro Cultural de Matalane onde convivem os redondos de Pancho com os quadrados de Forjaz.
Malagantana levanta-se, e no seu andar lento e arredondado, sobe o estrado e fala da intimidade. Da impossibilidade da sua arte sem o arquitecto, da impossibilidade da arquitectura sem a arte.

Elisa Santos
*a pedido e a propósito de uma aula de Pancho Guedes na Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
fotografia, Mauro Pinto
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