distúrbio de pânico


[OUTrial House, KWK PROMES, Polónia, 2005/2007]


Reserva insondável do projecto de arquitectura será crer-se o arquitecto como um apóstolo do futuro. Porque um projecto de arquitectura é um projecto tecnológico, dos meio e da expressão do fazer. Uma prescrição de possibilidades pela matéria, organizada pela «chosa mentale», intuitiva e inventiva e imaginária, da qual, na possibilidade desse possível fazer-se real, terá, necessariamente, consequências físicas na organização até do gesto mais íntimo de cada um. Um projecto de arquitectura é também um projecto político. Um projecto sem lugar ainda que não no espaço mental do arquitecto que, naturalmente, na loucura utópica tratará das possibilidades que a matéria e os recursos técnicos lhe oferecerão. Equilíbrio precário entre o desejo e o real.
Ainda que o belo como motivação, é pouco evidente hoje, nos discursos por aí anunciados, o desejo da beleza pela arquitectura. Ou antes, a beleza como palavra proibida num discurso tecno-científico, árido, a modo de se auto-legitimar. E já não nos parece clara uma ideia óbvia de beleza. Nem de como construí-la.
Moda da crise - moda como outra qualquer que mais logo se desfará num pouco de abundância que nos retome - sustentabilidade, auto-sustentabilidade, ecologia, green, tornam-se num estéril manifesto de uma ambição desmedida do presente debaixo do manto diáfano da sobrevivência futura. A vitória do populismo e da demagogia, muito bem comercializada em renders e representações de pedaços perdidos do paraíso que apenas se encontrarão, presumo e não quero ser catastrofista, nos discos rígidos dos hedonistas – hediornistas? - enfarpelados de futuristas.
Assim se vão plantando arbustos por tudo o que é cobertura, green roof assinalando uma preocupação com os amanhãs que hoje nos prometem um canto desafinado. Uma espécie de sobre-pós-hiper-modernismo, que, a custo da sobrevivência aflita, faz tábua rasa do passado, História, Técnica, Gestos, em honra da nova narrativa da salvação da humanidade: a ecologia. Uma narrativa política que, por eclipsar o passado, comprometida com uma promessa irreal de futuro, por se alimentar de meios indiscriminados e inadaptadas às diversas cirtcunstâncias, será ainda mais honerosa, consumirá ainda mais recursos. Uma arquitectura que disfarça a tensão do presente debaixo do tecto relvado que nem o mais inumano modernista alguma vez sonhou.
A vertigem do presente talvez seja não mais que o trauma do futuro.

excesso e crise#2


[Rien ne va Plus, Architecture in times of crisis ]


Des-.
Hiper-.
Desorientação. Desterritorialização. Desestruturação. Desilusão. Dessocialização.
Hipercapitalismo. Hiperindividualismo. Hipertécnica. Hiperconsumismo. Hiperperfomatividade. Hiperconcorrência.

Sem distanciamento possível ao tempo do agora ressumamo-nos à condição de adiantar prefixos aos nomes da modernidade. Incompleta?, inacabada?, ou já outro mundo?
Ou a sedução permanente do presente, a tensão do prazer no instante imediato, sobre o eclipse das teleologias modernas, propõe-nos construir arquitecturas sem território, como zapping impensado. Ou arquitecturas de espaço impensado – físico ou virtual?; se esta dialéctica ainda é verdadeira?. E, ainda que a arquitectura seja, tenha sido, sempre global, na recusa de uma ideia limitativamente funcional, é a sedução irremediável, o estímulo permanente, a imposição mercantil a que se submete, um dever do projecto?
Ou mais livres como nunca, mais sós como nunca antes, desamparados mas permanentemente ligados, a questão de território e das solidões multiplicadas na abundância do supermercado infinito, levanta-se como a questão do abrigo íntimo, onde o corpo deixou de ser a âncora do real, e da cidade, que poderá não ser mais que uma rede tentacular, partilha anónima de solidões individuais, de identidades enclausuradas inaptas a povoar o mistério das passages e incapazes de uma decisão sobre a polis.
Com as estruturas fixas do modernismo redentor extenuadas, trabalhamos a partir da subjectividade excrescente, da hipertrofia individual, da reconfiguração ansiosa e instável da esfera íntima e social. Que possibilidade para uma arquitectura real? Violentamente do real.
Já nada é evidente.


adenda: «O que está a acontecer é a profanização espalhada pelas cidades. Subjectividades cada vez mais esvaziadas, formatadas, pré-fabricadas, etc...», José Gil

os redondos*


Entra-se num pátio anguloso e percebe-se que aquela parcela de edifício se contorceu para tornear a árvore. É ali, naquela sala da Faculdade de Arquitectura da UEM, em Maputo, que vai estar Pancho Guedes a conversar com quem veio para o ouvir. A sala encheu e até se improvisaram outras filas.
“Os redondos. Hoje vamos falar dos redondos.” Magro, hirto, de voz ténue e olhar brilhante. Segura o microfone de forma distraída e vai-se entusiasmando com o que mostra.
É evidente a relação entre os projectos do arquitecto e a construção local. A palhota central rodeada de outras onde se instalam visitas, família ou outras dependências da casa. Esta organização é transposta para os projectos de residências familiares que Pancho idealizou, e muitos realizou, acrescentada de varandas, muros, zonas de estacionamento, torres e outros pormenores.
Fluem desenhos feitos à mão, axonometrias, alçados, esquiços, maquetas. E histórias sobre as construções, as encomendas, as famílias, as funções, os amigos. Um desfiar também de advertências, de considerações, explicações. Confessa o seu prazer de inventar, de desenhar, de erguer maqueta, e de retornar e redesenhar, repintar, refazer…. Revela o cansaço da construção e o estorvo de terminar, de entregar.
Na sequência de imagens aparece um quadro. Uma pintura de Malagantana. Por fim o desenho do Centro Cultural de Matalane onde convivem os redondos de Pancho com os quadrados de Forjaz.
Malagantana levanta-se, e no seu andar lento e arredondado, sobe o estrado e fala da intimidade. Da impossibilidade da sua arte sem o arquitecto, da impossibilidade da arquitectura sem a arte.



Elisa Santos


*a pedido e a propósito de uma aula de Pancho Guedes na Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
fotografia, Mauro Pinto

amarcord


[Lote 4, Angra do Heroísmo, 2008]


Amarcord, foi o nome que o cliente lhe deu.

paredes zig-zag


[apartamento apê, Rio de Janeiro, 2010]


E num pequeno apartamento, zig-zag, mar largo, em frente ao Posto 8, entre Ipanema e Copacabana, em modo singelo de Marx, o primo, e da curva tropical, por puro capricho do arquitecto?

excesso e crise


[For The Love Of God, Damien Hirst, 2009]

A arquitectura será certamente um território de inscrição da diferença cultural. Torná-la porém refém do pêndulo das modas críticas será restringi-la naquilo que seja a sua essencialidade e na sua operatividade sobre o real. Dizer que nos últimos vinte anos o que de maior monta sucedeu no cerne disciplinar tenha sido a feminilização será excessivo, ainda que dizê-lo seja relevante. Mas talvez essa maior relevância releve do domínio cultural, mais largo, que do estritamente disciplinar.
Colocar a arquitectura no contexto interdisciplinar, referi-la de acordo com as mais pertinentes grelhas críticas, será também uma forma de, na sua produção e prática, explorar a competência crítica da própria arquitectura e torná-la pertinente à luz da realidade. Contudo, em vinte anos de aceleração veloz e travagem brusca, creio que seria justamente este o tema: o excesso e a crise.
Vinte anos de artificiosos formalismos - falo do mainstream e creio que o texto de Figueira também fala do mainstream - via o incremento da velocidade de circulação das imagens, com o beneplácito de uma crítica cada vez mais deslumbrada e a-crítica, e uma produção cada vez mais ensimesmada no desejo de forma que, somos arquitectos, não será outro desejo que o mesmo de Narciso e depois, o agora, na crise e na catástrofe, em que a crítica e a prática se dividem, inseguras e inquietas, nas respostas sobre a necessidade da profissão do arquitecto. Vinte anos de um estilo individual, individualista, excessivo, sobre os escombros de um estilo internacional, o cinismo sobre o fim do optimismo, ainda que, naturalmente, um movimento anterior a 1990. A década de noventa e o paroximo do optimismo vertiginoso, um fim da História e o triunfo da vontade capitalista em estruturas cada vez maiores e assépticas (e a democracia não conta). A História reaberta debaixo do sangue e do colapso bárbaro das Twin Towers. O estancar abrupto dos fluxos de capitais e a emergência de questões e de latitudes que não se comprazem nem se adequam às estruturas – arquitectónicas e mentais – do Ocidente em queda. Por aí, por aí.
Ainda para mais, e isto não é de somenos, os centros de produção teórica e prática já não serão os que reconhecemos nos nossos anos de formação.

ficção científica

Apenas construímos aquilo conhecemos.

a posição do missionário



Admito que seja da usura do nome ou até das lentes cínicas com nos vamos defendendo por aí. Tomar a razão da arquitectura pelo seu próprio desejo. E pelo desejo do arquitecto que deseja a arquitectura para sua individual salvação.
Não existem fontes funcionalistas para a arquitectura, ou desconfiamos delas. Recusámos a ideia estreita do progresso social erguido pelo betão aço vidro. A profecia modernista jaz nos escombros de Pruitt-Igoe. O higienismo e a eficácia e a propagação da luz de uma civilização internacional deixaram de ser a motivação, soçobraram às infinitas latitudes individuais, órfãos de uma Ilustração que hoje se reveste na promessa fascista de uma vida eterna e asséptica – com menos encargos para os Estados e mais dividendos para a indústria da «saúde». Da História já nos lembramos pouco e só o fazemos por um punhado de imagens sinapses na rede. O social é o terminal, num o ecran infinitamente portátil.
E isto tudo são pretextos.
Romantismo maior será o de ainda, hoje, afirmar-se como da arquitectura isto tudo que lhe reconhecemos, pela História e pela Teoria. E agora, depois do séc.XX, quase tudo nos parece perecível, falível, insatisfatório, redundante. Que foram as promessas da História, ou prescrições que a necessidade do século foi destacando a cada tempo. Que foram, sem o sabermos, pretextos que abriram caminho para que hoje se possa afirmar a arquitectura como objecto único da vontade.
E isto tudo são pretextos.
Se tudo são pretextos, tudo é-o na realidade. Um princípio da realidade: trabalhar com a realidade será a única maneira de trabalhar para a realidade, se o desejo é o de a transformar e alargar. E acreditando que a arquitectura é também uma maneira do conhecimento, uma via para a compreensão das coisas, um jeito da representação do real, uma profecia do futuro e uma voz do passado, é ir acreditando que através dela o arquitecto, o homem, um dia a si próprio poderá chegar a compreender-se. E a redenção, já não a colectiva, que a redenção é sempre no murmúrio do coração, sabemos, pela arquitectura, não mais que uma maneira de procurar, de cavar, na liberdade.

O resto não era romantismo. Talvez apenas ingenuidade e uma anacrónica crença – muito moderna – como tendo a arquitectura a missão redentora e a civilização dos povos como fim último.

Há o perigo de cada um deixado à sua loucura. É um risco. Mas é para isso que servem as cidades. Se servirem para alguma coisa, tornar todas as loucuras em acordo.


para o Pedro

ilusão


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]


Escapar à beleza das imagens que nos escapam em Fata Morgana é a tentativa seguinte. Pungentes, na contemplação do deserto e das cidades, pujantes, no que de inexplicável e maior foge ao entendimento. E talvez o deserto seja a contemplação mais verdadeira de nós mesmos. Diante do infinito, a consciência clara da nossa finitude. É essa consciência que nos convoca ao rigor dos limites.
Fata Morgana, a ilusão óptica, da térmica, o fio limite do horizonte, ou a ilusão do limite. O céu que se com-funde com a terra, ao longe. A natureza do limite, a ilusão da sua manifestação, a miragem do conhecimento da origem ou finalidade ou realidade.
Depois o homem – feito e refeito pelos deuses. Variações narrativas mitológicas da mesma imperfeição humana, corrupta e que corrompe a Terra. Depois a fome, a guerra, as cidades, os destroços humanos que os humanos destroçam. A distopia são destroços no deserto.
Depois uma promessa, o milagre e a abundância. Uma miragem a partir dos despojos do deserto do real.

numa esquina, em istambul


[Brukner Apartmanı, İhsan Bilgin 1999]

Não existe talvez condição mais nómada que a do amor. Aquela que se exila no trajecto constante entre o desejo e o desejado. E este pode ser um país. Ou uma casa. O amor, então, como a condição transitiva do encontro.
Uma casa encontro, uma casa passagem, se passagem pode constitui lugar. Ou um lugar constituído por efémeros, mas não menos intensos, pedaços de tempo que a memória carregará pelo futuro. Então os objectos que se juntam desses encontros fortuitos guardam-se. E num assomo de inocência, através deles resgata-se o passado fugaz e a perda.
A maior inocência seja a partilha da obsessão do passado remido na tentação desesperada de o fixar em fixos objectos desse tempo memória no presente. Daí em diante, sempre presente. Sempre perdido.


adenda: Istambul, estranha forma de vida

a natureza mais velha do que os tempos*


[Coração de Gelo, Werner Herzog, 1976] 


Há sempre a paisagem no início. A narrativa de Herzog é esta. A paisagem anterior ao homem. A territorialidade como abismo sensível, plano longo fixo, entre o tangível e o ininteligível. O Homem - a História - como intervalo, suspensão, brevidade entre o Génesis e o Apocalipse.
A paisagem é uma erupção, uma torrente, origem de tudo e ruína de tudo. Brutal, porque primordial e final, território de precipitação contínua pela inocência das coisas. Ou antes, o lugar das coisas antes de lhes tocarmos, como visão exacta e ao mesmo tempo sensível do lugar que lhes cabem no mundo. O sublime, a paisagem colossal, sempre inacessível, na sua completude, à câmara de Herzog. O esforço e empenho e engenho humanos são-no sobre a profundidade de campo de um espaço que isola a humanidade. O território em que humanidade se dissolve em toda a extensão da criação.



*
Mas eis o dia! Esperei-o e o vejo vir,
E do que vi o sagrado é testemunha.
A natureza mais velha do que os tempos
E acima dos deuses do Ocidente e do Oriente,
Desperta num estrépito de armas.
E do Éter até o fundo dos abismos
Segundo firme lei, nascido como outrora, do caos sagrado


sente o entusiasmo.
O criador de tudo renova-se.



[Hyperion, Hölderlin]

esquecimento contínuo


[Movijovem Youth Hostel, Paulo Street + Hugo Guerreiro, Penhas da Saúde]

Há qualquer coisa de histriónico sobre o aparentemente silencioso manto de neve branca. Uma topologia da globalização não implicará, necessariamente, a citação directa às imagens prevalecentes. Até porque as imagens que maior velocidade de circulação adquirem são, regra geral, as que o poder deseja que circulem. Logo aqui, a aventura da citação, ou a citação como método ou instrumento de projecto, prescrever-se-á de maneira cautelosa e muito prudente. Isto, claro, se houver alguma pretensão crítica, (repito: haverá arquitectura que o não seja?). Citar imagens será não mais que imitar outras representações do mundo ou, mais ainda antes disso, a simulação pela arquitectura de um outro modo de representação das coisas, a fotografia – com o consequente equívoco daquilo que e o como uma e outra, arquitectura e fotografia, pretendem.
Terá pouco a ver com uma citação mais profunda que residirá e decorrerá da memória e da permanente volubilidade da(s) memória(s) a cada contexto. A memória que se confronta com a História e, ou, o esquecimento.

tu és aquele que procuras


[Rei Édipo, Artistas Unidos, 2010]

E quando o homem desce da montanha, se perde na floresta, encontra a clareira, inventa as cidades. Abandona os deuses para além das nuvens e o destino que outra força irrazoável lhe impõe e reconhece-se como ser de vontade. Querer. Saber ou não saber, a primeira questão. A vontade do homem responde. O desejo é encontrar-se a si mesmo, enquanto se procura um indício de verdade.
E encontram-se os múltiplos e diversos desejos e vontades na cidade. Édipo, o rei que volta a cidade, a decisão da cidade, o destino comum e os destinos individuais, para o exterior do palácio. É às portas do palácio que cava na vontade do conhecimento da verdade. Perante os homens todos, cidadãos que se reconhecem iguais, o poder, que é Édipo rei, ergue-se e cai. Longe dos deuses, entregues a si. Nessa solidão partilhada – no espaço público – a fatalidade humana é o homem descobrir-se abandonado a si próprio. E talvez por isso tenha descido a montanha e deixado a floresta e, na clareira, inventado as cidades.
O pudor apenas da morte. Uma maneira escolhida para morrer. Atrás de um muro, de uma porta fechada. Afastado de todos os homens.
Conhecer não nos torna felizes.

corredores


[Lote2, Angra do Heroísmo]

forma


[Lote2, Lote3, Lote4, Angra do Heroísmo, 2004-2008]

performa
performance
dansa [como queria Sophia]

estocástica

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora

cidade

city

cité


[cidade/citi/cité, Augusto de Campos, 1963]

nuits fauves


[Quando o Segundo Sol Chegar, Rui Moreira, 2010]

São realmente as cidades o lugar do desejo.


Oslo, Tokyo, Liverpool, Copenhagen

Lisboa.

o importante é chegar


[Maquinas de Guerra X Aparelhos de Captura, Nelson Brissac, via paisagens sentimentais]

As escolas de urbanismo e arquitectura entendiam a cidade como produto da curiosidade humana, no sentido de existir uma intencionalidade. O modernismo é essa ideia de que a cidade vai mudar o homem, o mundo, em função de uma configuração pensada. As cidades brasileiras são o oposto. As pessoas vão ao Brasil achando que vão encontrar Óscar Niemeyer ou Lúcio Costa como padrão urbano. Mas não. São cidades fruto de processos caóticos, construídas em 99 por cento dos casos não por arquitectos, mas por autoconstrutores. São fenómenos que não estavam inscritos no urbanismo brasileiro até aos anos 70. Tivemos que reinventar uma maneira de olhar a cidade. Elas não se encaixavam nos modelos modernos.


Nélson Brissac, in Público, 25.02.2010



Portas que se fecham,
Luzes que se acendem
Mãos que se despedem,
Olhares que prometem
Coisas que acontecem
porque têm que acontecer
Gente buscando casa,
Gente buscando gente,
Gente buscando nada,
Vejo cinco continentes
pisando a mesma calçada
O aglomerado constante
dessa massa que se agita
faz ainda mais bonita
minha cidade gigante
São Paulo dos doutores,
São Paulo dos marginais,
São Paulo dos feirantes,
dos intelectuais
São Paulo das marisposas,
São Paulo do operário,
do camelô, do vagabundo,
do society, da favela
Misturas que fazem dela
a maior terra do mundo
São Paulo, fim do dia
E a rotina continua
Gente empurrando gente
a cada palmo de rua
Aqui uma cotovelada,
mais adiante um empurrão
Uma mulher desesperada
gritando: "pega ladrão!"
É o farol que não abre
É a sinfonia das buzinas
É o jornaleiro que grita
no coral da sinfonia:
"Olha a manchete do dia!
Seqüestraram uma menina"
Mais adiante uma fechada,
Alguém entrou na contramão
E sempre que isso acontece,
Pode esperar que não passa
A gente assiste de graça
o festival do palavrão
Mas essa é a hora feliz,
Do regresso para o lar
Cada um mais apressado
No desejo de chegar
À mansão, no apartamento,
À casinha da viela
Ao barraco de zinco
pendurado na favela,
O pensamento é um só:
Chegar, chegar
Os contrastes são berrantes
Na multidão de sozinhos
Quem não viu não acredita
Chega a ser até bonita
a demanda dos caminhos
Enquanto um vai do subúrbio,
pra Central da Cantareira
Faz a viagem inteira
mal podendo respirar
O outro, carro importado,
Bela gata do lado,
Ar condicionado,
Som champanhe, caviar
Gente que vai de Galaxi, Opala, Corcel,
De Fusca, lambreta, bicicleta
Cada um vai como pode
Gente que vai de táxi, ônibus, lotação
Gente que vai a pé batendo sola no chão
Não que se tenha vontade,
Coisas da necessidade
De quem ficou sem nenhum,
Nem mesmo pra condução
Mas nada disso importa
O importante é chegar
Quando se tem na chegada
Um motivo pra sorrir
Triste é andar por andar
Ver tanta gente passar
E ter que continuar
Sem saber pra onde ir


[São Paulo, Fim do Dia, José Domingos]

hospitalidade


[Storm King Wall, Andy Goldsworthy, 1988]

I prefer the edge: the place where countries, communities, allegiances, affinities, and roots bump uncomfortably up against one another—where cosmopolitanism is not so much an identity as the normal condition of life. Such places once abounded. Well into the twentieth century there were many cities comprising multiple communities and languages—often mutually antagonistic, occasionally clashing, but somehow coexisting. Sarajevo was one, Alexandria another. Tangiers, Salonica, Odessa, Beirut, and Istanbul all qualified—as did smaller towns like Chernovitz and Uzhhorod.

Edge People
, Tony Judt



Dizer o limite e a margem como redefinição do cosmopolitismo: raiz, cidade, liberdade, não necessariamente termos antiéticos, não necessariamente a condenação à errância incessante.
Se o multiculturalismo abre falência pelo enclausuramento na diferença, se o transculturalismo como modelação permanente e activa e cooperativa de umas comunidades com as outras se rasga a golpe da irracionalidade, redefinamos os limites sem o cárcere ponto da situação. Essa topografia que se localiza e restringe fora do movimento livre das coisas e impede a verdadeira cidadania no mundo; impede a prontidão à recepção do estrangeiro; impede que sejamos estrangeiros na casa do outro.
É de crer que ao arquitecto assistam deveres de verificação permanente do limite. Não necessariamente fronteira, ou a desmultiplicação ininterrupta do ponto. O ponto, a abstracção absurda, a ilimitação organizada por infinitas partes, sem-limite, não serve para o pensamento arquitectónico. Por lhe ser intrínseca a ilimitação.

circunstancial


[lote 12, Angra do Heroísmo]


A circunstância como o lugar do encontro do desejo com o real.