tu és aquele que procuras


[Rei Édipo, Artistas Unidos, 2010]

E quando o homem desce da montanha, se perde na floresta, encontra a clareira, inventa as cidades. Abandona os deuses para além das nuvens e o destino que outra força irrazoável lhe impõe e reconhece-se como ser de vontade. Querer. Saber ou não saber, a primeira questão. A vontade do homem responde. O desejo é encontrar-se a si mesmo, enquanto se procura um indício de verdade.
E encontram-se os múltiplos e diversos desejos e vontades na cidade. Édipo, o rei que volta a cidade, a decisão da cidade, o destino comum e os destinos individuais, para o exterior do palácio. É às portas do palácio que cava na vontade do conhecimento da verdade. Perante os homens todos, cidadãos que se reconhecem iguais, o poder, que é Édipo rei, ergue-se e cai. Longe dos deuses, entregues a si. Nessa solidão partilhada – no espaço público – a fatalidade humana é o homem descobrir-se abandonado a si próprio. E talvez por isso tenha descido a montanha e deixado a floresta e, na clareira, inventado as cidades.
O pudor apenas da morte. Uma maneira escolhida para morrer. Atrás de um muro, de uma porta fechada. Afastado de todos os homens.
Conhecer não nos torna felizes.

corredores


[Lote2, Angra do Heroísmo]

forma


[Lote2, Lote3, Lote4, Angra do Heroísmo, 2004-2008]

performa
performance
dansa [como queria Sophia]

estocástica

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora

cidade

city

cité


[cidade/citi/cité, Augusto de Campos, 1963]

nuits fauves


[Quando o Segundo Sol Chegar, Rui Moreira, 2010]

São realmente as cidades o lugar do desejo.


Oslo, Tokyo, Liverpool, Copenhagen

Lisboa.

o importante é chegar


[Maquinas de Guerra X Aparelhos de Captura, Nelson Brissac, via paisagens sentimentais]

As escolas de urbanismo e arquitectura entendiam a cidade como produto da curiosidade humana, no sentido de existir uma intencionalidade. O modernismo é essa ideia de que a cidade vai mudar o homem, o mundo, em função de uma configuração pensada. As cidades brasileiras são o oposto. As pessoas vão ao Brasil achando que vão encontrar Óscar Niemeyer ou Lúcio Costa como padrão urbano. Mas não. São cidades fruto de processos caóticos, construídas em 99 por cento dos casos não por arquitectos, mas por autoconstrutores. São fenómenos que não estavam inscritos no urbanismo brasileiro até aos anos 70. Tivemos que reinventar uma maneira de olhar a cidade. Elas não se encaixavam nos modelos modernos.


Nélson Brissac, in Público, 25.02.2010



Portas que se fecham,
Luzes que se acendem
Mãos que se despedem,
Olhares que prometem
Coisas que acontecem
porque têm que acontecer
Gente buscando casa,
Gente buscando gente,
Gente buscando nada,
Vejo cinco continentes
pisando a mesma calçada
O aglomerado constante
dessa massa que se agita
faz ainda mais bonita
minha cidade gigante
São Paulo dos doutores,
São Paulo dos marginais,
São Paulo dos feirantes,
dos intelectuais
São Paulo das marisposas,
São Paulo do operário,
do camelô, do vagabundo,
do society, da favela
Misturas que fazem dela
a maior terra do mundo
São Paulo, fim do dia
E a rotina continua
Gente empurrando gente
a cada palmo de rua
Aqui uma cotovelada,
mais adiante um empurrão
Uma mulher desesperada
gritando: "pega ladrão!"
É o farol que não abre
É a sinfonia das buzinas
É o jornaleiro que grita
no coral da sinfonia:
"Olha a manchete do dia!
Seqüestraram uma menina"
Mais adiante uma fechada,
Alguém entrou na contramão
E sempre que isso acontece,
Pode esperar que não passa
A gente assiste de graça
o festival do palavrão
Mas essa é a hora feliz,
Do regresso para o lar
Cada um mais apressado
No desejo de chegar
À mansão, no apartamento,
À casinha da viela
Ao barraco de zinco
pendurado na favela,
O pensamento é um só:
Chegar, chegar
Os contrastes são berrantes
Na multidão de sozinhos
Quem não viu não acredita
Chega a ser até bonita
a demanda dos caminhos
Enquanto um vai do subúrbio,
pra Central da Cantareira
Faz a viagem inteira
mal podendo respirar
O outro, carro importado,
Bela gata do lado,
Ar condicionado,
Som champanhe, caviar
Gente que vai de Galaxi, Opala, Corcel,
De Fusca, lambreta, bicicleta
Cada um vai como pode
Gente que vai de táxi, ônibus, lotação
Gente que vai a pé batendo sola no chão
Não que se tenha vontade,
Coisas da necessidade
De quem ficou sem nenhum,
Nem mesmo pra condução
Mas nada disso importa
O importante é chegar
Quando se tem na chegada
Um motivo pra sorrir
Triste é andar por andar
Ver tanta gente passar
E ter que continuar
Sem saber pra onde ir


[São Paulo, Fim do Dia, José Domingos]

hospitalidade


[Storm King Wall, Andy Goldsworthy, 1988]

I prefer the edge: the place where countries, communities, allegiances, affinities, and roots bump uncomfortably up against one another—where cosmopolitanism is not so much an identity as the normal condition of life. Such places once abounded. Well into the twentieth century there were many cities comprising multiple communities and languages—often mutually antagonistic, occasionally clashing, but somehow coexisting. Sarajevo was one, Alexandria another. Tangiers, Salonica, Odessa, Beirut, and Istanbul all qualified—as did smaller towns like Chernovitz and Uzhhorod.

Edge People
, Tony Judt



Dizer o limite e a margem como redefinição do cosmopolitismo: raiz, cidade, liberdade, não necessariamente termos antiéticos, não necessariamente a condenação à errância incessante.
Se o multiculturalismo abre falência pelo enclausuramento na diferença, se o transculturalismo como modelação permanente e activa e cooperativa de umas comunidades com as outras se rasga a golpe da irracionalidade, redefinamos os limites sem o cárcere ponto da situação. Essa topografia que se localiza e restringe fora do movimento livre das coisas e impede a verdadeira cidadania no mundo; impede a prontidão à recepção do estrangeiro; impede que sejamos estrangeiros na casa do outro.
É de crer que ao arquitecto assistam deveres de verificação permanente do limite. Não necessariamente fronteira, ou a desmultiplicação ininterrupta do ponto. O ponto, a abstracção absurda, a ilimitação organizada por infinitas partes, sem-limite, não serve para o pensamento arquitectónico. Por lhe ser intrínseca a ilimitação.

circunstancial


[lote 12, Angra do Heroísmo]


A circunstância como o lugar do encontro do desejo com o real.

o que as cidades mostram


[Instituto Missionário da Consolata, José Forjaz, Maputo, 2000]


E há a óbvia questão do tempo. Da cronologia do corpo, que percorre a rua à velocidade veloz dos negócios e da necessidade, e a necessidade da pausa e da suspensão do corpo até que o único ruído seja o do sangue.
É dos pátios que se parte para o povoamento das cidades. São as ruas que compõem na sua agitação o aparecimento do silêncio.

«às vezes vou à missa aqui»*


[Instituto Missionário da Consolata, José Forjaz, Maputo, 2000]

Poderia ser das condições da vida nas grandes cidades muito pobres, de como ainda le mur murant Paris rend Paris murmurant, nestas Paris contemporâneas globais.
Poderia ser dos pátios e das árvores e dos pátios à roda das árvores e das casas alegres que partilham a sua pobreza.
Poderia ser do céu e dos homens sentados na terra, que esperam a manhã que os homens (ainda) não trouxeram.
Poderia ser da sombra fresca sob da varanda alta e tímida e bonita sob o céu fulgor azul
Poderia ser do labor do arquitecto, perseverante de entre condição mais baixa dos homens a que são atirados por outros homens.
Poderia ser da exultação da cor da laranja com que se juntam as formas, numa pequena-grande modesta vaidade.
Poderia ser a humildade daquela pequena luz suficiente que desce do tecto oblíquo suficiente ao coração.

Aos homens, para lhes chegar, é pelo coração.
E pela arquitectura?

*da Elisa

caminhos de floresta


[River Po Line, Richard Long, 2001]

as estruturas elementares#2


[Ricola Storage Building, Hergog & de Meuron, 1987]

Será talvez excessivo excluir a VitraHaus de qualquer pensamento arquitectónico. Um abuso desculpável à luz da fadiga que a vertigem das imagens provoca. Evidentemente haverá uma razão espacial nas sobreposições das caixas arquetípicas – e não resultaria a mesma «complexidade» da sobreposição de formas puras? - , uma tentação tectónica na estrutura do objecto da qual, reconheço, resulta a invenção do espaço exterior – e aqui o problema é ser um exterior ainda ensimesmado no objecto.
Mas que estas triviais inquietações sejam suscitadas justamente a partir dessa perda de sentido, na objectivação excessiva e muda de uma arquitectura que se constrói apenas como artefacto, sem outra relação com o mundo que um infecundo estar-ali.
So, in a very strange way, we do not always know what we do.


p.s. E sobre imagens reparo que percorrendo a internet não descubro qualquer planta corte alçado da VitraHaus.

as estruturas elementares


[VitraHous, Hergog & de Meuron, 2010]

Admitir uma tipologia como leitmotiv de um projecto será uma razão. E tipologia como entendimento racional daquilo que poderá residir no inconsciente colectivo, no mar submerso que nos torna a todos comunicantes da mesma fala, ainda que com alguma incompreensão. Sendo os temas do arquétipo e o da manipulação cumulativa de caixas uma recorrência na obra dos suíços, estou em crer que o que resulta da Vitra Haus é não mais que a manipulação aleatória de images – sendo o arquétipo, ou a tipologia, muito mais fundo e simbólico que a bidimensionalidade das imagens - alimentadas pela ilusão de si mesmas numa arquitectura já desossada do espaço, sem corpo, sem carne. E todo o discurso à volta da «complexidade espacial» decorrente da «adição e sobreposição» das caixas umas sobre as outras e da escada espiral que as atravessa, se apresenta como fingimento de um discurso que aqui, já é todo ele do design e não da arquitectura. Talvez, talvez, se não tivessem abandonado o interesse inicial sobre a matéria.
Mas depois há outros, noutras latitudes supostamente indigentes, especulam sobre a identidade a partir do tijolo.

Little boxes on the hillside
Little boxes made of ticky tacky
Little boxes
Little boxes
Little boxes all the same
There's a green one and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same


And the people in the houses all go to the university
And they all get put in boxes, little boxes all the same
And there's doctors and there's lawyers
And business executives
And they're all made out of ticky tacky and they all look just the same
And they all play on the golf course and drink their martini dry
And they all have pretty children and the children go to school
And the children go to summer camp
And then to the university
And they all get put in boxes, and they all come out the same
And the boys go into business and marry and raise a family
And they all get put in boxes, little boxes all the same


There's a green one, and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same

[Little Boxes, Pete Seeger, 1962]

lei dos solos: random acts of senseless violence

[Montijo]
aumentar


Este investidor privado garante que a sua construção privilegiará a qualidade. Será preciso esperar para confirmar, mas há algo neste projecto que pode fazer lembrar Madrid, mais especificamente a galeria de arte CaixaForum, no Paseo del Prado, e a sua fachada verde, e aplacar a oposição daqueles que elegem a arquitectura dos shoppings como inimiga de estimação. Isto porque uma das marcas distintivas deste empreendimento comercial serão as paredes exteriores ajardinadas, uma opção que tem tanto de ecológica e funcional como de decorativa.
Os autores do projecto de intervenção urbana acreditam que o revestimento da fachada e da cobertura com plantas contribuirá para diminuir o impacto visual do novo espaço comercial, que ocupará uma área de 14 mil metros quadrados e ajudará a enquadrar o edifício na paisagem.
"Pretende-se que a cobertura do edifício seja também acessível ao público, ou seja, através de caminhos pedonais poder-se-á atravessar a encosta dos Capuchos [bairro habitacional] e aceder à parte superior do mesmo, funcionando esta área como miradouro para a zona do parque urbano", explicam os projectistas.
Sobre a irrelevância disciplinar destas palavras, não se oferece dizer muito para além disto mesmo: irrelevantes. Talvez até, e relevante para o discurso arquitectónico, seja o facto destas palavras – que relevam de uma mais ampla narrativa da pseudo-sustentabilidade – serem mergulhadas numa inconsciente ideologia de ilusão capitalista que, zeitgeist de abertura de século, patrocina o ambientalismo e a sustentabilidade e a ecologia como bem consumível, e em que a arquitectura a-crítica (se há arquitectura a-crítica?) torna signo ou logótipo em si mesma, como vertiginosa proposta de consumo voraz. Uma utopia depois da utopia. [cf. Fredric Jameson] Será uma questão de moda, ou de alívio das más consciências – ocidentais - mas talvez fosse importante os arquitectos, a arquitectura, reservar alguma distância à tralha mediática que se derrama de ecran em ecran. Provavelmente isto que digo será “conservador”, pouco empenhado num utópico imparável progresso científico que, de momento, assume a condição de redimir o planeta dos excessos humanos. Anti-moderno? Sim, e considerarmos o moderno um projecto de crença radical e optimista no homem e nas suas finitas capacidades de representar o mundo em tecnologia, e se considerarmos a modernidade como território último e único da possibilidade do pensável.
Não sendo, portanto, um problema disciplinar, embora se sirva da arquitectura para se expor, este discurso é político. Apenas traduzido em arquitectura por arquitectos ou cínicos ou distantes de qualquer preocupação decisivamente arquitectónica e, por consequência, com o habitar e, evidentemente, com o lugar, que até se poderá chamar Terra. E no centro da política está a polis.
O que é aterrador verificar neste texto é a completa falência da política: Parece ser essa a opinião do presidente da câmara municipal da cidade do Lis, Raul Castro (PS), para quem "o que está em cima da mesa é a opção entre deixar morrer ou dar vida ao centro da cidade". Para além de uma infantil sociologia das cidades e do comércio, comércio tradicional vs. grandes superfícies, lançar o ónus da responsabilidade política para as mãos de empreendedores – ia dizer predadores – privados é abdicar da manutenção da coisa pública e do bem comum. O que, num discurso (aparentemente) liberal, que poderá fazer algum sentido como crença na mão invisível do mercado na administração e decisão do que é o bem comum, revela-se um paradoxo porque, na sua essência, o discurso liberal é, justamente a articulação do bem comum com os interesses individuais, conflituosos, de modo a que estes não sejam geradores de violência social e cada indivíduo possa prosseguir com a sua vida como bem entenda. Temos portanto o abdicar e soçobrar da política diante da sua própria falência e da falência do regime que este tipo de políticas foi construindo, e diante da força de interesses particulares, pouco interessados noutro fim que o lucro, mas que, ainda assim e para dissimularem os seus propósitos se encobrem com uma diáfana narrativa ecológica. Verde, como a relva postiça das coberturas prometidas, irresponsável, como o discurso político sustentado na ignorância. «e o ajardinamento das fachadas? patrick blanc no pinhal, a 600 euros/m2 (em manutenção é melhor não pensar - em madrid já tiveram de refazer 2 vezes), mas aposto que fornecido por aquela empresa manhosa do porto. leiria vai ficar moderna!» E um olhar o exemplo de Leiria é percorrer todos os indicadores da irresponsabilidade política e urbanística das últimas décadas. Estádio de futebol ou centros comerciais, sempre a tentação da grandiosidade irreal, estéril à vida de cada um, perniciosa e funesta para o bem comum e destruidora da cidade.
Construir a cidade como ruína da democracia liberal, a cidade refém dos movimentos particulares que se movem sem a razão do interesse público é a morte do espaço público, da democracia e da liberdade. Os impreparados e incultos autarcas que vamos elegendo representam-nos na perfeição na nossa falha narcísica colectiva. São tempos difícies, estes, para um liberal em Portugal.

krysis


[Uccellacci e uccellini, Pier Paolo Pasolini, 1966]

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza

Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem

Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito

A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reunem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada

É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nosssa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra

Situada no tempo
Para habitação da eternidade

Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco

Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa

Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria


[A Casa de Deus (está assente no chão); Sophia de Mello Breyner Andresen, Páscoa de 1990 ]


Ouvir dizer, como disse o Pe. Tolentino Mendonça, da arte e da fé cristã como duas feridas abertas no coração do homem impõe-me a ideia do limite. A ideia do homem que não se basta a si mesmo, não se apazigua com o que vai conhecendo, sendo já, ou ainda, o conhecimento uma ideia de extensão da sua própria finitude. Haver um derrube da ideia da linguagem como ideia do mundo é a pretensão arriscada da poesia, do entendimento das coisas, e traduzir as coisas em nomes (ou pedras) será o como, pelo trabalho, poderá fazer o homem estender ou alargar a sua limitação.
Da fé, evidente, não se sustenta na ideia de gnose. Fé pressupõe um querer (irracional), um desejo (arcaico), do absoluto. Da arte, enredada no concreto da matéria e das ideias, pressupõe-se a visibilidade e a tentação desse absoluto através da escassez que nos é imposta pela carne. «Entre o Absoluto e a Irrelevância.»
Pensar a arquitectura como obra de arte não será inédito, e não me inclinando para esta ideia, se esta ideia se aquietar na objectivação da arquitectura, poder ser, e sê-lo-á certamente mais operativa, se for uma ideia poietica aquela que aproxima a arquitectura à obra de arte. Portanto, uma aproximação no seu fazer-se - roubem-se os poetas, tornemo-nos reféns de Valéry: o «nome de tudo que se relaciona com a criação». O ser-no-mundo, activo e imperativo; um trabalho definido nas palavras de Bresson: «rendez visible ce qui, sans vous, ne pourrait être vu.»
Esta ideia é, na verdade, a que poderá atribuir algum sentido artístico à arquitectura. Um conhecimento que acumulado e sempre cumulativo para além do simples (não tão simples) conhecimento da mecânica da construção. O conhecimento dos limites do espaço, organizados por muros e fendas nos muros e tectos e chão, por um olhar fixo num horizonte maior que as tribulações quotidianas e a comodidade do presente.
A arquitectura, por definição (também) construção, recusa a ideia de puro conhecimento, se for este filiado na ideia de uma epistemologia pura. Inventar, definir, erguer limites e hierarquizá-los, desenhar na areia do tempo as linhas das quais se levantam os espaços convoca a ideia de technê. A aproximação, seu fazer-se, pela verificação das ideias e do conhecimento no mundo, da possibilidade da arquitectura como um conhecimento. Um muro, uma limitação, inquietação permanentemente à procura de se expandir. Seja esse movimento, ainda que ténue ou irrelevante, no (des)concerto do Universo, o lugar d’A casa de Deus [que] está na terra onde os homens estão.



para a Rita B.

a pele do corpo




[Mashrabiya House, Senan Abdelqader, Telavive, 2004-2006]

Só por dizer da falência de toda a teoria quando a pele é o corpo.

o corpo da pele






[The Brick House, Caruso St. John, Londres, 2001–2005]

Só por dizer da falência de toda a teoria quando o corpo encontra a pele.

ethos político




É da acção da arquitectura a revelação – desocultação – do ‘espaço vazio’, teia invisível, que nos liga ao mundo. É aí que somos no mundo.
À manifestação minuciosa da nossa diferença, segue-se a distância percorrível, mais ou menos feliz, mais ou menos dolorosa, do que nos une.

E este movimento estético é em si mesmo político.

expectativa


[Hong Kong, Andreas Gursky, 2007]


«Interessa interpretar o tema LUGAR como um meta-conceito: Através da definição da sua condição conceptual no extremo. Todo e qualquer lugar é carregadamente caracterizado pela sua objectividade inalienável, por tudo aquilo que o eleva de espaço a Lugar. Para atravessar esta fronteira, escolhemos uma única característica definidora de Lugar, simultaneamente genérica e objectiva: A ideia de que, quando pertencemos a um Lugar, estamos presos nele (a ele), qualquer que ele seja. Que há um sistema de fascínios que nos detém (no) ao lugar.»

O Lugar como armadilha
, Rui Leão in ARTECAPITAL, 1.6.2007



O problema é aqui claro: a impossibilidade desta negação da dimensão antropológica do(s) lugar(es) e do(s) espaço(s). A objectivação assim avançada não é mais que uma tentativa de fixar o que na sua natureza não é passível de fixação. Falha nesta proposição um terceiro momento/movimento: o retorno, no território da arquitectura e do seu trabalho na produção do espaço, do que constitui esse lugar – sempre instável na reinvenção de si mesmo pela espacialidade no tempo – ao instante da invenção da arquitectura. A arquitectura que no processo do seu fazer-se se explicita na espacialidade que decorre do caminho do homem pelo tempo no espaço. A interminável reversibilidade do/no projecto.
Ao arquitecto caberá a recusa inicial de uma ideia universalista, universalizante, de um espaço infinito todo igual, ao qual, estática e autoritariamente, pretende juntar uma possibilidade, imóvel, do habitar que aspira a ser lugar. E é aqui a expectativa da abertura do mundo a cada um dos homens.

política estética




E talvez seja essa a fábula mais auto-satisfatória que os arquitectos foram produzindo a partir da modernidade: que a arquitectura é hiper-presente no quotidiano dos indivíduos e por isso a arquitectura é inescapável a qualquer um dos indivíduos. E por isso é, a arquitectura, uma «arte» social.
Recuando uns passos sobre esta fenda narcísica que ofusca os arquitectos até à fantasia, a consequente tentação da imposição de um gosto, repara-se que o gosto, é uma orientação quase pública quase política a que os arquitectos se socorrem a partir do domínio técnico da disciplina.  O gosto como equívoca pedagogia das massas.
Penso no espaço público, o espaço, também, da representação social, e observa-se naturalmente que essa representação deixa de ser democrática para ser exclusiva das classes economicamente dominantes. Ao invés de ser inclusivo, como pretenderá uma arquitectura verdadeiramente democrática, o espaço público torna-se refém de uma da luta de classes, de uma luta de gosto. Ou antes o campo de batalha da luta de classes mediada pela orientação e dominância do gosto. E esta verificação pode ser brutal para o discurso disciplinar corrente que outorga aos arquitectos a necessidade da «qualificação» do espaço público.
O problema do mercado, mesmo num discurso liberal old fashion como este que vos fala, é a fatal incapacidade da inclusão de quem não pode, por exclusão económica, evoluir para a condição de promotor. E falo de moradias unifamiliares, por exemplo, e não necessariamente dos condomínios design que o mercado agora, em moda, propõe.

E a casa do emigrante, por exemplo. Que no ensaio de Graça Dias em subtexto sugere contraproposta à elite disciplinar (e urbana), e ao seu gosto. Um estudo de caso para o acto do projecto: o interpretar das auto-representações dos clientes/promotores; o entendimento de que o legado social da arquitectura é-o necessariamente, e numa democracia, a partir dessa auto-representação do cliente/promotor. E o paradoxo é agora este: como não tornar pernicioso esse gosto, legítimo, como articulá-lo na teia de relações que devém do espaço público urbano ou rural?
Sendo a arquitectura uma construção hostil, por via dos seus próprios meios de se tornar visível, cabe ao arquitecto, no projecto, o entendimento desta violência por inclusão ou ruptura? É já um assunto político. E naturalmente estético.


com a devida vénia ao Daniel