a pele do corpo




[Mashrabiya House, Senan Abdelqader, Telavive, 2004-2006]

Só por dizer da falência de toda a teoria quando a pele é o corpo.

o corpo da pele






[The Brick House, Caruso St. John, Londres, 2001–2005]

Só por dizer da falência de toda a teoria quando o corpo encontra a pele.

ethos político




É da acção da arquitectura a revelação – desocultação – do ‘espaço vazio’, teia invisível, que nos liga ao mundo. É aí que somos no mundo.
À manifestação minuciosa da nossa diferença, segue-se a distância percorrível, mais ou menos feliz, mais ou menos dolorosa, do que nos une.

E este movimento estético é em si mesmo político.

expectativa


[Hong Kong, Andreas Gursky, 2007]


«Interessa interpretar o tema LUGAR como um meta-conceito: Através da definição da sua condição conceptual no extremo. Todo e qualquer lugar é carregadamente caracterizado pela sua objectividade inalienável, por tudo aquilo que o eleva de espaço a Lugar. Para atravessar esta fronteira, escolhemos uma única característica definidora de Lugar, simultaneamente genérica e objectiva: A ideia de que, quando pertencemos a um Lugar, estamos presos nele (a ele), qualquer que ele seja. Que há um sistema de fascínios que nos detém (no) ao lugar.»

O Lugar como armadilha
, Rui Leão in ARTECAPITAL, 1.6.2007



O problema é aqui claro: a impossibilidade desta negação da dimensão antropológica do(s) lugar(es) e do(s) espaço(s). A objectivação assim avançada não é mais que uma tentativa de fixar o que na sua natureza não é passível de fixação. Falha nesta proposição um terceiro momento/movimento: o retorno, no território da arquitectura e do seu trabalho na produção do espaço, do que constitui esse lugar – sempre instável na reinvenção de si mesmo pela espacialidade no tempo – ao instante da invenção da arquitectura. A arquitectura que no processo do seu fazer-se se explicita na espacialidade que decorre do caminho do homem pelo tempo no espaço. A interminável reversibilidade do/no projecto.
Ao arquitecto caberá a recusa inicial de uma ideia universalista, universalizante, de um espaço infinito todo igual, ao qual, estática e autoritariamente, pretende juntar uma possibilidade, imóvel, do habitar que aspira a ser lugar. E é aqui a expectativa da abertura do mundo a cada um dos homens.

política estética




E talvez seja essa a fábula mais auto-satisfatória que os arquitectos foram produzindo a partir da modernidade: que a arquitectura é hiper-presente no quotidiano dos indivíduos e por isso a arquitectura é inescapável a qualquer um dos indivíduos. E por isso é, a arquitectura, uma «arte» social.
Recuando uns passos sobre esta fenda narcísica que ofusca os arquitectos até à fantasia, a consequente tentação da imposição de um gosto, repara-se que o gosto, é uma orientação quase pública quase política a que os arquitectos se socorrem a partir do domínio técnico da disciplina.  O gosto como equívoca pedagogia das massas.
Penso no espaço público, o espaço, também, da representação social, e observa-se naturalmente que essa representação deixa de ser democrática para ser exclusiva das classes economicamente dominantes. Ao invés de ser inclusivo, como pretenderá uma arquitectura verdadeiramente democrática, o espaço público torna-se refém de uma da luta de classes, de uma luta de gosto. Ou antes o campo de batalha da luta de classes mediada pela orientação e dominância do gosto. E esta verificação pode ser brutal para o discurso disciplinar corrente que outorga aos arquitectos a necessidade da «qualificação» do espaço público.
O problema do mercado, mesmo num discurso liberal old fashion como este que vos fala, é a fatal incapacidade da inclusão de quem não pode, por exclusão económica, evoluir para a condição de promotor. E falo de moradias unifamiliares, por exemplo, e não necessariamente dos condomínios design que o mercado agora, em moda, propõe.

E a casa do emigrante, por exemplo. Que no ensaio de Graça Dias em subtexto sugere contraproposta à elite disciplinar (e urbana), e ao seu gosto. Um estudo de caso para o acto do projecto: o interpretar das auto-representações dos clientes/promotores; o entendimento de que o legado social da arquitectura é-o necessariamente, e numa democracia, a partir dessa auto-representação do cliente/promotor. E o paradoxo é agora este: como não tornar pernicioso esse gosto, legítimo, como articulá-lo na teia de relações que devém do espaço público urbano ou rural?
Sendo a arquitectura uma construção hostil, por via dos seus próprios meios de se tornar visível, cabe ao arquitecto, no projecto, o entendimento desta violência por inclusão ou ruptura? É já um assunto político. E naturalmente estético.


com a devida vénia ao Daniel

livre pelo espaço


[Kazuyo Sejima, Annie Leibovitz, 2009]


Já não interessa o modelo. Essa simplificação hábil da realidade, como uma realidade fragmentada, construída de acordo com o desejo de melhor a ensaiar. Talvez pela insuficiência do modelo cartesiano a partir do qual ainda persistimos em pensar o espaço, limita a invenção do próprio espaço. Uma espacialidade circunscrita à rigidez das coordenadas xyz e facilmente verificadas nos habituais modelos tridimensionais dos arquitectos. Uma rua, um homem que a atravessa, e esse movimento que, necessariamente a produção de uma espacialidade nova: este é o compromisso impossível dos modelos. E sempre a tentação mimética do que manipulamos com a realidade. De facto, o desejo pouca relevância tem na construção do real se não surgir do e no tempo. A estanquidade, a fixação, a cristalização, para além do isolamento das coisas nelas próprias, excluídas do mundo – que é ele próprio a sobreposição, justaposição, divergência, quiasma, convergência, de relações - é antiético da vida e, por consequência, da arquitectura. E é de crer que o quadro mental modernista poderá nem ser o único campo que promove a objectificação. Talvez o marketing capitalista, a reprodução do mundo como uma imensa wallpaper*, terá certamente a sua parte nestas razões.
O tempo então como matéria do instante do projecto. Como um pensamento das possibilidades que o espaço arquitectónico, na relação com o território – social, cultural, topográfico - esse movimento cooperante e co-produtor de novas e renovadas formas do espaço e do próprio habitar. E não recuso a ideia que seja justamente este movimento o lugar da (re)invenção do habitar. Se no habitar existe uma forma qualquer auto-reflexiva, creio ser pela relação contínua e continuada da transacção do indivíduo pelo mundo, do homem livre pelo espaço.

o tempo que dura


[Maison Carré, Alvar Aalto, 1956]

Querendo crer que a respiração de uma obra de arte resulta do movimento a que nos comprometemos na experiência em roda da sua essência, talvez esta ideia se esgote quando o mundo é uma casa. Não porque a casa não estabeleça relações de contiguidade activa com o seu contexto; que essa actividade resulte numa co-produção do espaço; que da colaboração casa mundo, pelo tempo, resulte a instabilidade espacial que o (pré)domínio cultural do modernismo ainda pretenda elidir. Não. Antes pela sua duração. E se se compreender a duração como a efemeridade das coisas que permanecem, compreende-se necessariamente uma extensão absolutamente diversa da duração da casa mundo e uma outra, a da obra de arte. Como processo, e penso o processo como o sistema contínuo das experiências mentais a partir de um objecto, as relações que se vão revelando e estabelecendo entre o sujeito e, e na, casa, será de uma outra espessura rítmica que diferirá da da obra de arte. E ainda não é uma questão de andamento. De disparidade entre um larghissimo ou um allegro ma non tropo. Será talvez o acaso da produção da própria espacialidade. Um acaso pensado, o da arte, quando ela própria se submete à decisão da arquitectura. Arquitectura, quando não recusa ser tornada objecto, quando não se recorda que isso, ser objecto – isolado, restringido nas relações das coisas umas com as outras – é uma maneira de morrer: a vindicação da aparência sobre a essência.
Que os dogmas mentais do modernismo sejam de difícil superação, - a inclinação a aceitar um tempo universal (e unívoco) como adequado a qualquer homem em qualquer circunstância, por exemplo – tal não poderá tornar a arquitectura (ainda) refém da ideia de um espaço infinitamente contínuo. Uma casa não será apenas um modelo de mundo mas mais, bastante mais, o próprio mundo. E aqui, re-aproximando-se à obra de arte, ambas, a arte e arquitectura, abandonam a condição de representação da realidade, para se transfigurarem elas próprias em realidade.
O paradoxo da arquitectura então será esse. O do tempo que dura. Sobrevivem as casas aos homens e à sua realidade. Sendo elas próprias a realidade. Para nós, homens, resta aprender que é «feliz todo aquele que tem os seus locais de duração». Mesmo que numa ruína, (que talvez não seja outra coisa que um novo encontro do seu espaço no tempo).

cool down*


[I'ts time for green banking, Sean Connery promove Crédit Agricole, 2010]


Argumentar que o ambientalismo seja a primeira preocupação da relação de cada um com o outro não será uma via errada para compreender no desenho da arquitectura muitas das preocupações essenciais que ocupam o pensamento contemporâneo. Uma aposta moral, evidentemente. E que muitas das vezes não esconderá algum oportunismo que um certo zeitgeist – mediático, científico, cultural, político – alimenta para, em sentido inverso, legitimar o próprio desenho e a arquitectura a partir dessa disposição proposta pelo ar dos tempos. Mas não serei cínico e vou admitir, fugindo de um reaccionarismo à Watkin, que há, de facto, justas tentativas de pensar a arquitectura, em contextos de terras da abundância, sem recorrer ao aparato pirotécnico de que a prática teórica e a teoria prática está eivada.E confesso agora que por momentos, um parêntesis neste final de parágrafo, recorrendo ao esforço da memória para rememorar alguns exemplos de arquitecturas excluídos desse cinismo, e confesso que me encontro sempre diante da resposta de Souto Moura: «Agora apareceu esta coisa da sustentabilidade… Acho pretensioso dizer-se que um edifício é sustentável… Acho que é o mínimo que se pede…» - perdoando o inusitado uso das reticências que o transcritor da entrevista terá atribuído ao discurso de Souto Moura.
Estando, portanto, do lado dos que pensam a arquitectura como propósito de entendimento cultural do mundo, contar com a razão prática do mundo, admitamos Kant, é um imperativo categórico de qualquer projecto de arquitectura. Naturalmente a sustentabilidade viável da massa humana à superfície do planeta que lhe concede os recursos à viabilidade é, sempre, um dos preceitos de um bom projecto de arquitectura. Teorizar sobre a inteligência dos edifícios, tendencialmente a partir de aparatos tecnológicos ainda mais dispendiosos aos recursos, é admitir a demissão da arquitectura da adequação justa às contingências da construção, afirmá-la como pueril no seu narcísico jogo de formas mais ou menos acrobáticas e erguer o techno-ambientalismo como categoria estética primeira.
A ameaça quase totalitária desses discursos exaltados, e ilustrados por renders de edifícios cobertos com «relva (ou lá o que era)», arbustos, verdete, ou qualquer outro foguetório sintético esverdeado, que reproduzam em si a natureza artificial fantasiada do território em que intervêm, é ser exactamente uma intervenção antiética da própria acção da arquitectura e do construir a arquitectura. Se pensarmos que a arquitectura é um desejo de trazer à visibilidade aquilo que aos olhos humanos ainda o não é. E que a prossecução desse desejo é também uma forma de violência sobre a Terra e a cultura. E sugere-me isto, estas declarações de Glenn Howells e do seu idílio plastificado: «Designed to "knit" into the landscape so that even the petrol station cannot be seen from the road.». Como um pequeno alívio da consciência burguesa - ocidental? - face a essa violência que a arquitectura – a civilização – implica. Por natureza. E por natureza, recusando subscrever um discurso elementar, uma espécie de aristotelismo simplório, que proponha o belo como o que é justo, deverá a arquitectura no seu pensar-se, isto é, sobretudo, no instante do projecto, compreender a sua natureza paradoxal de ser uma construção que compreende também destruição. E sobre este esforço crítico da arquitectura e a agitação indecisa em que esta se encontra - entre um optimismo ilusório e um pessimismo anémico, ou um progressismo fictício e um reaccionarismo ruinoso e fingido, ou a imbecilidade sofisticada e o medo arcaico - , Lebbeus Woods, a partir das fotomontagens de Daniel Meridor, propõe a clareza de um compromisso que é o compromisso que radica precisamente na origem da arquitectura: «The mission of architecture, these designs suggest, cannot dispense with the aesthetic, for it is inseparable from the ethical, the way we choose to with live with all other things.».

Mas outra direcção me suscita este comentário. Os ciclos e as modas, e o pensar do lugar de Augé, vencido – na verdade nunca convenceu - , agora, quase duas décadas depois. Justamente, a estação de serviço, como os aeroportos, as grandes superfícies comerciais, a velocidade, os intervalos da vida, o entre, o parêntesis do anonimato nestes lugares, a suspensão do indivíduo na «surmodernité» do espaço flutuante e no excesso das sociedades ocidentais. Agora ao arquitecto solicitam-se bombas de gasolina como «a rural oasis». Provavelmente, outro modo do «non-lieux».


*Cool It: The Skeptical Environmentalist's Guide to Global Warming, Bjørn Lomborg, 2007

um artefacto


[Lote 2, S. Mateus da Calheta, Angra do Heroísmo, 2006.2008]

Uma hipótese, a arquitectura tanja o amor na exigência da presença da matéria. O que não queira dizer, de todo em todo, a exclusão do que, aos olhos, seja invisível. É provavelmente esse desejo do visível, de um corpo, que torne a arquitectura um acto amoroso. Ou um artefacto do amor.

um princípio


[Museu Judaico, Daniel Libeskind]

Verifico o pensável anterior às coisas dito como vazio. E verifico-o nas diversas narrativas da criação, o plano da ausência absoluta, como a única possibilidade de se dizer o que está antes de se ser. Ou antes do ser se pensar em si mesmo. O impensável, logo, o indizível dito vazio. É uma possibilidade que verifico serem essas narrativas originais o pensar do que passa a ter lugar. O instante fatal, criador, fogo ou verbo único e original, que torna as coisas num lugar, necessariamente num tempo, depois de ainda elas não terem lugar nem, naturalmente, tempo. No antes, no absoluto vazio, nenhum lugar, ainda que apenas para situar alguma coisa, poderá, justamente, ter lugar.
Localização é a condição para que as coisas existam; localização é a relação das coisas umas com as outras. A organização do mundo: a topogonia: o instante da evidência. A primeira interrogação: onde? Como acreditar que «instituir um território é equivalente à fundação de um mundo» ex nihilo?
Com consequência, as coisas reconduzem-se e reconduzem-nos à efemeridade. Supomos um momento em que as coisas, tal como as conhecemos, ainda não existiam.
Isto é uma possibilidade para a arquitectura. Se a excluirmos da vontade de dominância que tem o lugar no humano, demasiado humano.

liberdade e método




Creio que não tenho contacto com o folclore. As tradições, que servem de vínculo comum entre todos, têm mais a ver com o clima, com os condicionamentos práticos, com a qualidade das tragédias e comédias que nos tocaram viver. Não faço arquitectura marcadamente finlandesa e, genericamente, não vejo contraposição alguma entre o finlandês e o internacional. A Finlândia faz parte da Europa.

Alvar Aalto


É sempre um dilema, e um inquietante desconforto, querer atribuir uma génese nacional a uma obra, obra de arte ou arquitectura, para além da contingência do natural. Quase de imediato se ergue um fio político que, ainda que se mantenha longínquo, não deixa de trazer algum embaraço. Ainda que recorramos, e pretende-se, a um discurso intrinsecamente disciplinar.
A ideia de nação é já de si oscilante. E conflituosa. O conceito que evoluiu e que nos chega hoje, aqui em Portugal, como categorização de uma entidade, fixa nas suas fronteiras, (quase) rígida na sua cultura, monolítica na sua política, constitutiva de uma identidade, legitimadora de um poder e é já de si uma construção do(s) poder(es) sucessivo(s). E conflituosa, se é deste objecto enclausurado que se pretende avançar pelo(s) mundo(s). E ser-se cosmopolita não será necessariamente ser-se sem raiz.

E o alcance da afirmação de Aalto será tanto mais relevante quanto, tendo sido proferida por altura que lhe eram desferidos ataques pela ortodoxia do moderno – os «dandys das grandes metrópoles» apóstolos do «purismo inumano» -, desoculta na arquitectura uma essencial articulação da contingência, como método, e a adequação, justa e bela, ao «homem vulgar e corrente, ali onde ele é o centro, com a sua tragédia e a sua comédia», como objecto. Qualquer prática disciplinar que inventarie uma caracterização nacionalista, e que o faça como horizonte ideológico, pesa sobre a arquitectura como uma sentença de morte: seja a arquitectura uma hierarquização dos limites não poderá ela própria ser limitada no seu fazer-se por impulsos de outra ordem que não os do «homem vulgar e corrente, ali onde ele é o centro, com a sua tragédia e a sua comédia». E sabemos bem dessa tentação do cárcere.

lugares arcaicos


[Crematório, Berlim, Axel Schultes, Charlotte Frank, 2001]

Provavelmente a impressão de uma realidade excessiva decorre do reconhecimento, inquietante, do espaço como globalização. Agora, aqui, à frente, ligo-me instantaneamente a qualquer parte, espaço, do mundo, sem na realidade a ele me ligar pelo corpo. O que experimentamos dos lugares é agora desconectado da sua espacialidade. A economia do espaço dissolve-se no aqui, no agora, na imaterialidade dos objectos e numa equívoca espacialidade global – globalizante – que soçobra às expectativas reais do corpo.
Se uma antropologia do espaço deverá compreender o corpo como categoria constitutiva do indivíduo – e houve uma que categorizou os não-lugares e a erosão da realidade pela velocidade e pela impossibilidade da atenção necessária aos objectos a partir dessa velocidade que seria um entre lugares - , muito mais a arquitectura terá necessariamente de ser erguida a partir dele.
Uma realidade ilusória – chamaram-lhe simulacro – toma conta do pensamento arquitectónico: um pensamento que se exime a pensar o espaço para além da utilidade prática – absolutista – da sua mensura: um pensamento em perda da experiência irracional, simbólica, deslocada e desafectada da própria experiência do lugar. Realidade excessiva, practicabilidade como imperativo, arquitectos inventamos espaços destituídos de sentido.
À assoberbada tentação da racionalidade poderá a arquitectura ser a tarefa, justa, do pensar holístico do lugar. No espaço.

uma casa para Bartleby


Mudou o mundo o dia 11 de Setembro de 2001. Tinham sido destruídos dois edifícios altos, dos mais altos do mundo, do poder. E perguntámo-nos como teria sido possível a barbárie no portal da civilização. Perguntámo-nos o que fazer, no meio do fogo, do ódio, da angústia, do terror, da violência, do sangue, do betão partido, da incredulidade. O mundo mudou nesse dia. Provavelmente a vida mudou para umas centenas de pessoas. Mas o mundo não mudou nesse dia. Continuou o que é, na cadência da interminável violência, vingança, ressentimento. E talvez a pergunta acertada fosse – seja – antes o que não fazer. Pelo menos, desde que Adão foi expulso, com Eva, do jardim.

Uma hipótese a considerar é a história da arquitectura como a história da violência. Ou uma história de violência. Um abrigo é sempre uma defesa. Um ataque é sempre uma agressão no espaço. Projectar tem sido conotado, pelo menos nos discursos recentes mais mediatizados, como estratégia. Erigir um muro é exercitar o controlo sobre um território. Os homens, as instituições representam e revelam o poder pela altura dos muros que erguem. As Torres Gémeas eram muito altas. Eram o meio, media do poder do Império. A violência ocorre quando a nossa percepção da ordem do mundo é ferida ao limite da incompreensão. O encadeamento do real é abruptamente interrompido.
Também das origens da arquitectura se desconhece a razão. Apenas um desejo, já racionalizado de firmitas, utilitas, venustas. Uma e outra, arquitectura e violência, modos de vulnerabilidade e de poder. E do desejo.
Os V2 sobre Londres são a interrupção do habitar ou o ataque ao World Trade Center é uma crítica de arquitectura mas são, antes, operações, tentações, de dominância.

A inacção, que não se confunde com inércia, interromperá, na melhor das hipóteses, a lógica circular do desejo de poder, do alcance do poder que os outros detêm ou pretendem sobre um território ou um indivíduo. A inacção pode ser a recusa civilizada em alimentar a cadeia humana da conquista agressiva dos limites do outro. Ou talvez uma desesperada, última, tentativa em defesa de um limite, de um corpo, de uma casa, de um território, de uma cultura. Mas é uma conjectura frágil. Fenece frente ao milagre quotidiano do mundo. Por mais cinismo que se use. E pressupondo o cinismo como o acto defensivo, resguardo inconsciente de quem o pratica, fechamento da fronteira do eu com o mundo.

Para uma casa para Bartleby já Virilio terá feito a arqueologia: monólitos encerrados, vigilância implacável do horizonte, ruínas de cimento sobre a praia do mundo. O cerceamento voluntário à intrusão da luz e a escolha da recusa do clarão com que o real às vezes irrompe abrupto no quotidiano. Casa fantasma da memória do que é e do que, pela força da negação, não se permitirá ser. E também a rejeição do fulgor dos nomes. Nem a destruição nem a arquitectura escapam ilesas à violência da linguagem.  
Ah Bartleby! Ah Humanity!

Ocorreu-me isto a passar por aqui e por aqui.

como numa cidade já não sabiam para onde ir.*


[Los Angeles, Andreas Gursky, 1988]


Se isto é uma crítica ou a crítica da razão cínica à era em que entrámos? Uma cidade sem fim? O tempo todo igual sob os escombros da cidade-fachada contínua? Errância indeterminada? Eternos viajantes desdobrados nas sombras e nos reflexos do vidro polido e vertical dos arranha-céus da representação social? Dissolução do individual dentro da construção e da arquitectura toda igual?
Já nos não serve o espaço euclidiano. A sua infinitude horizontal, o seu recorte no horizonte, é no espaço. O mundo plano expande-se pelo globo e a sua determinação é a do tempo. O espaço do corpo desagrega-se no instantâneo encadeado da paisagem electrónica. Os espaço é transitório e instável.
E Gursky revela as luzes da superfície, as luminárias da desorientação. Porque é na infra-estrutura, na cablagem encadeada e infinda, que as cidades se ligam e apressam a vertigem do tempo do humano. Enquanto se esquece a catástrofe iminente.


*Clarice Lispector

a cidade dos homens


[A Cidade, Teatro da Cornucópia, 2010]

Tenho horror à cidade.
um velho


De triviais nem nos apercebemos. Passamos por elas sem dar conta.
Pôr uns quantos homens a viver no mesmo sítio, em paz. Numa paz possível entre homens que se fixam, agregam, num e a um espaço. E trocam coisas entre si. Alimento por artefactos, artefactos por tempo. E com esta possibilidade cada um pôde inventar o desejo. Dissemelhante do outro homem vizinho.
Os espíritos serenaram, as monstruosidades que se escondiam e tomavam conta das montanhas e dos mares, transfiguraram-se em formas humanas. Os deuses eram agora émulos do próprio homem que tinha acabado de se descobrir a si mesmo – e no entanto ainda havia uns outros, cativos do deserto, que abdicavam de todos os deuses e de si próprios, por um deus único sem nome, loucura maior.
Não seria mais necessário percorrer paisagens, palmilhar territórios estranhos, arriscar a vida, em busca de sustento. A subsistência estaria facilitada se uns quantos se juntassem e, cada um deles, executasse a tarefa que melhor lhe servisse as inclinações do talento e da vontade. Que descoberta.
E riam-se de si próprios. Acomodavam-se anfiteatros e faziam à noite a mímica cómica e a música dos gestos do dia. Riam-se dos homens e dos deuses, tão amáveis que ao ridículo se prestavam. E pensavam-se a si, cada indivíduo único, ao pensar o outro. E imaginaram modos de viver com os outros. E pensavam-se justos e belos.
Organizaram-se, até. Uma organização possível, imperfeita, naturalmente, aperfeiçoando-se, claro, de geração em geração. E alguém tinha que se encarregar da conciliação e racionalização de múltiplos desejos diversos, muitas vezes contraditórios, até antagónicos. Alguém teria que expedir um pouco de organização. Seria o caos, se ninguém mandasse. Uma anarquia. E era um posto de importância na vida de todos. Pouca terra para tanta gente. Uma loucura. É preciso adquirir o poder.Guardar o poder, a seguir - autocracias, tiranias, violência, conivências interessadas, o poder. Isto, se um deles, o mais forte ou arguto, o conquistasse e preservasse. E pensou-se em discutir os assuntos comuns. E reuniam-se todos os homens numa assembleia. Democracia?

Estranha proposta, esta. Habitarmos juntos sobre o mesmo monte. E seremos tantos que depois será necessário que ocupemos o vale. E usaremos o rio para avançar um pouco mais pelo mundo. Tão extravagante fantasia que nos torna estranhos do outro que circula ao lado, que o não conhecemos mas que dele necessitamos. Incrível concepção, esta. E vem o arquitecto tirar as medidas ao chão para o melhor poder repartir.
Somos mortais. Construímo-las imperfeitas e sempre inacabadas. À medida de cada homem vão-se erguendo as cidades. Sobre muitas delas já não há notícia. Nada ficou nem das casas nem dos seus cidadãos.
Hipóteses sobre a origem da cidade: seja o fim da necessidade ou a origem do desejo.

a vida e a morte nas cidades


[Le Diable, Probablement, Robert Bresson, 1977]


Abrir a porta, avançar pelo quarto, não é andar para diante por uma rua de uma cidade. Dois lugares do habitar, de habitar diverso, de mundos de possibilidades distintas. Ainda que por entre casas inquietas e igrejas desassossegadas e cidades desorganizadas, a maior interrogação: «cada vez mais habitada e cada vez menos habitável». A Terra. É esse o desespero deste filme.
elispse:
Charles investiga por entre os clochards da beira do Sena aqueles que sabem ou não caminhar. Pelo desgaste da sola das alpercatas, empirismo simples que, como voz entre o espanto e a certeza, lhe permite afirmar: tu, sabes caminhar.
Há qualquer coisa de crístico no caminho de Charles: os vagabundos tanto como discípulos ou detritos vivos da sociedade; a preocupação do seu círculo íntimo perante o futuro de Charles – futuro que Charles nega, na indiferença sobre o presente, a vida e o real. É preciso tudo destruir, avisa um jovem militante empertigado, para tudo re-construir. E Charles não acredita. Talvez tenha chegado tarde à revolução. Talvez ainda não tenha chegado a deus.
elipse:
Caminhar. Como quem procura, como quem marcha, como quem escolhe, como quem prescinde de mapas, como quem chega, como quem quer chegar.
Os corpos, nas casas, nunca são corpos, a câmara nunca verdadeiramente os filma. E Bresson repete-se nas mãos. As mãos que abrem portas. As mãos que lavam lágrimas. As mãos que dão abraços. As mãos que disparam o revolver. O corpo são sempre bocados do corpo. Verdadeiramente só o corpo intacto de Charles, nu, na água.
elipse:
Charles, flâneur parisiense, na aleatoriedade da indiferença. Nós, um pouco de todos, no autocarro onde todos nos interrogamos sobre o real que todos construímos. O diabo, provavelmente, explica, resignado, um de nós, sobre quem faz girar a História. Evidentemente que esta resposta não satisfaz Charles.
O pesadelo nuclear, a psicanálise, deus, Marx, a droga, os filmes, a morte, o indivíduo dissolvido na alienação da sociedade industrial.
elipse:
Charles caminha pela cidade como quem caminha sobre as águas. Sabe que vai morrer. Escolhe exactamente como e onde vai morrer. Uma bala é suficiente, mas não chega. Aponta no mapa do metro, por baixo da superfície da cidade, onde quer morrer. Uma cidade como a via dolorosa. A via dolorosa está congestionada.
elipse:
uma cidade, mesmo no pessimismo apocalíptico de Bresson, é o melhor lugar para se viver. E morrer.
elipse: 

x, y, z

Mas, nos tempos seguintes, houve tremores de terra e inundações extraordinárias e, no espaço de um dia e uma noite nefastos, todos os vossos combatentes foram tragados duma só vez pela terra, e a Ilha Atlântida também desapareceu mergulhando nas águas. É por isso que ainda hoje esse mar é impraticável e inexplorável, pois a navegação é dificultada pelos baixios lodosos que a ilha formou quando se afundou.

Timeu, Platão


É antigo o pavor sublime do que se não compreende.
Depois Descartes inventou um modo de domínio do tempo e do espaço. E os arquitectos desenharam uma grelha, coordenadas racionais sobre a superfície da terra. Uma ilusão da razão universal que se derrama indiscriminadamente sobre a superfície da terra e a domina. Um horizonte optimista para encontrar um lugar do mundo. Estável e perene; todos os lugares familiares a qualquer estrangeiro. O fim da viagem e do desconhecido: a severidade cartesiana abriga a consciência do inesperado. O mundo fixou-se plano.


[Dirty Harry,Don Siegel, 1971]

Optimista e equívoca a consciência que nas escarpas da costa oeste riscou uma grelha no chão e dela erguer uma cidade. Em cima de uma fissura da terra construi-se um paradoxo. E não discutimos da sua beleza: a imaginação serve a necessidade de razão mesmo na contradição.
Mas o mundo é uma construção humana, imperfeita e inacabada. Na arquitectura como na vida, nada se completa exaustivamente. Nem uma ideia. Há o lugar da latência e das coisas por vir. A retícula é um constrangimento comovente.

não é a terra que mata, são as casas


[Lisbon earthquake, circa 1755]

e só depois das casas a Terra se torna Mundo.
A Terra está para além da perspectiva do(s) mundo(s), é a pré-existência ao ser-no-mundo, sujeito construtor do(s) mundo(s). O ser-no-mundo necessita de abrigo às potentíssimas e desconhecidas forças da Terra. Constrói as casas que tornam a Terra inteligível através da matéria. A Terra, mais que o natural, ou o cenário palco, dos homens, das casas, da arte e da política, algo que ultrapassa a perspectiva humana, mas sendo pela acção humana iluminada.
Habita-nos o inconsciente a luta genésica Homem Natureza. Escapa-nos ao entendimento a força sublime que irrompe sem previsão. A devastação atribui-se ao desconhecido terrífico. A religião chamou-lhe mal, como um mito primário. Malagridas e voltaires. Depois a razão. Fomos expulsos do jardim pela pulsão do auto-conhecimento, como expulsámos deus pelas luzes encantatórias e ilusórias da razão: o terror é o que desconhecemos. E na terrífica ignorância nomeamos o mal e a culpa no que não entendemos. Mas não é o movimento das placas tectónicas que traz a morte.
A violência dos continentes que se mexem e chocam é ignorada na fabricação das casas. A energia libertada pelo abrupto agitar do chão faz sucumbir a construção humana. A arquitectura destroçada é soterrada nos escombros do medo, incapaz de se dizer perante a grande catástrofe sempre iminente e da qual se esqueceu no seu quotidiano ser, resumida ao tempo mais próximo e à função mais urgente; a política revela-se incapaz – menos eficaz ainda no território do despotismo.
Como o templo de Heidegger, que convoca a si tudo o que o rodeia e que pela cultura adquire o seu sentido, as fissuras nos muros devêm das fracturas da terra e do esquecimento dos homens. A arquitectura não supera a morte, a devastação inclemente, ainda que dela possa inventar algo de novo.

fulguração


[Steven Holl]

A palavra composição é propriamente terrível. Dá para tanta morte...

Na realidade, não creio que haja texto fantástico, mas processos estéticos de descrever um mundo que evolui por delírio...

Maria Gabriela Llansol


Com efeito, a representação do mundo de Maria Gabriela Llansol é o voltar os olhos para a invenção do mundo. Antes da necessidade de qualquer ciência descritiva do real é o real que inventamos, necessariamente pelos nomes, a que esse rigoroso real nos convoca. O acto primeiro é nomear. A ciência ou a religião ou a política só depois da estética. E a estética, como matéria que não se explica pelo gosto ou pelo prazer ou pelo olhar desatento com que nos aproximamos ou afastamos dos objectos. Dizer antes, pelo olhar com que os objectos nos surpreendem. O mundo é à velocidade do olhar. O seu tempo é o do desejo e o seu espaço é entre as coisas.
Seja o texto realista ou a racional função das coisas que se elevam pelo seu cintilar matemático, o campo de batalha é a membrana que a um tempo nos suspende e nos junta ao mundo. A khora, a estética da khora, do entre, do intersticial, do lugar orla do físico, do informe e do indeterminado – estética a que apela Llansol, ia dizer, se Llansol nos não devolvesse à possibilidade ilimitada da(s) estética(s) – lançada contra a lógica da não-contradição dos filósofos, como a origem. Uma origem de equívocos, a princípio, de ambiguidade, que a cada instante vai criando a sua própria verdade, desfeita no instante seguinte pelo fulgor do nome imediato. E o fulgor é aquela ideia que parte do futuro.
O edifício do formalismo kantiano, o juízo do gosto e o juízo final, é abatido pela vontade da construção do real sem a condenação a priori de um sentido lógico. O texto como as cidades como a vida, desenrolar incompleto das coisas, micro-narrativas interminadas, cidades abertas, rigorosa ordem-estética de cada fragmento, cada singularidade reinventada, cada edifício orgânico. O texto, melhor, a construção do texto regressa à ordem da arquitectura.
O eterno devir do mundo é a construção. As filosofias regem-se pelo ritmo da elevação dos muros e pelo som que faz o gesto ainda mais humano de os abrirmos. Os nomes eclodem da exigência unívoca e libertam-se em permanentemente renovados fios que os ligam entre si e os objectos. E é aí, nessa teia hiper-real, sempre construída, por vontade e por acaso, que o real emerge sempre novo sempre oscilante.
Os edifícios, as cidades, sobrevivem-nos. O que é novo será ruína. O corpo que transportamos perecerá sob as pedras que levantámos. Como construir uma casa?, como construir uma vida?

tudo o que sou capaz*


[Ângelo de Sousa]

É do domínio da contingência o avanço pelo espaço. As formas movem-se pela síncope insólita da realidade. Ou da realidade insólita.
Sageza é a invenção à justa medida da realidade.

*Tudo o que sou capaz, Jorge Silva Melo, 2009