![]() 1 Por mais voltas que lhe demos, a nossa cultura nunca deixará de ser platónica no sentido em que, para nós, conhecer significa recordar-se. E, portanto, toda a vida é um processo de reconstrução. Siza gosta de dizer que, em arquitectura, ninguém inventa nada. É uma outra forma de dizer o mesmo. 2 Não sei muito sobre História mas suspeito que nunca, como hoje, se falou tanto na diferença e nunca tudo foi tão igual. Até na arquitectura. Querer obsessivamente ‘marcar a diferença’ representa, em geral, o caminho mais curto para a repetição. 3 A diferença entre a boa arquitectura e a má ou assim-assim é que a boa arquitectura copia sem repetir e a ‘outra’ repete ao copiar. 4 Tudo começa nos olhos. Siza costuma falar na necessidade de aprender a olhar. E na importância de viajar. A arquitectura educa o olhar e educa-se no olhar. Só quando se olha muito e bem se começa a vislumbrar o essencial. Sempre Platão… 5 Recordo-me das visitas de Siza à igreja do Marco durante a construção. Mal chegava, olhava. Percorria a obra, sozinho, e olhava. Às vezes media com as mãos. Depois de olhar, pausadamente, e de medir com as mãos, reunia a equipa: colaboradores do gabinete, técnicos das especialidades, encarregado geral, fornecedores, dono da obra. 6 Ao longo do processo, Siza foi-se descosendo: ‘Fui visitar La Tourette’, ‘fui visitar o convento de Barragán’, ‘fui visitar a capela de Vence’, ‘fui visitar uma igreja no sul de Itália’. E quantas outras não terá visitado ao longo do processo e da vida! 7 ‘Numa delas – disse-me, mas já não me recordo em qual. Ou se não me disse, sonhei – entrei e ajoelhei-me. Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza. 8 Nunca me apercebi se alguma vez, ao entrar na ‘sua’ igreja, caiu de joelhos, por não poder fazer outra coisa. Estou convencido que se o fez, fê-lo discretamente. E se não o fez, foi por modéstia. 9 Poucos dias depois da inauguração (ou sagração, como preferem dizer os peso-pesados do sagrado) Siza entrou e começou a percorrer o espaço, como sempre fazia. Acendeu um cigarro. Com o primeiro fumo atravessado na garganta, saiu na direcção da porta e deitou o cigarro fora. ‘Esqueci-me que agora já não se pode fumar aqui!’ 10 Eu sorri. Não faço ideia do que lhe respondi, se é que respondi alguma coisa. Hoje, ao recordar o episódio, ocorre-me o poema ‘Irene entrando no céu’, de Manuel Bandeira: ‘Entra, Irene, você não precisa pedir licença’. 11 Siza nunca explicava tudo, o que, não raras vezes, era um grande incómodo porque obrigava a pensar. E não era por não saber. Ou seria. Eu julgo que ele não explicava tudo por respeitar a inteligência das pessoas. 12 A virtude do mestre é ditar o silêncio. Ditá-lo como se dita um texto a quem está a aprender a escrever. Com todas as pausas necessárias. Nuno Higino |
'Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza.
O estranho mundo de Theodore
É inevitável a empatia imediata com o mundo solitário de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix). Na volubilidade de um processo de divórcio, ensimesmado, voltado para si e para o seu mundo que rui, Theodore vagueia entre o trabalho como escritor, que providencia aos seus clientes eloquentes cartas que exprimem o amor e o afecto que eles mesmos são incapazes de pôr em palavras, durante o dia, e as noites ocupadas entre jogos de vídeo, redes socias e as memórias dolorosas da separação. Reduzido aos escombros de memórias e do vazio quotidiano, incapaz de estabelecer e aprofundar relações com com o ‘outro’, inevitavelmente Theodore sucumbe em indiferença a tudo o que o rodeia, com excepção de uma amiga de longa data e vizinha e a fugazes vislumbres aos que o rodeiam. E todos eles, iguais a si e entre si, em desencontro, desconhecimento e reclusão, reduzidos a peripatéticas digressões quotidianas de solidão e indiferença, não diferentes da sua. Onde o outro é ausente é também ausente o corpo e a carnalidade. Num mundo rarefeito de humanidade e sem corpo(s), onde um novo sistema operativo, que adquire emoção e intuição – uma impossibilidade técnica e tecnológica mas negligenciável para efeitos de narrativa – devagar toma conta e conduz os estados emocionais de Theodore. Sem surpresa, Samantha (o sistema operativo, na voz de Scarlett Johansson), é o estímulo ao prazer solitário, onde o sexo é um voraz placebo do vazio e da solidão, de gratificação imediata e sem qualquer vínculo humano. A questão coloca-se no significado do amor. Os gregos usavam quatro palavras para o dizer: storge (afecto natural, familiar); eros (desejo e amor romântico); phileo (amizade); ágape (dádiva completa ao outro). Her (Uma História de Amor) explora a hipótese do eros entre um homem e um dispositivo de inteligência artificial. O eros, a vertigem sentimental e emocional, que aqui não é mais do que apenas do que aquilo Theodore (e Samantha) narcisicamente sente(m), sem possibilidade de evoluir para a agape, esse amor incondicional e radical abertura ao outro, em toda a largueza humana. A impossibilidade do outro (e do amor), radicará na antropologia e na cultura deste mundo proposto por Spike Jonze. Do egoísmo e narcisismo subterrâneos, resultado dessa sociedade atomizada, em que qualquer vínculo ao outro é tão mais frágil quanto a lógica do prazer imediato se impõe. A sucessão híper-hedonista recusa a dificuldade do real e a complexidade inerente a qualquer relação humana. O prazer como estímulo de preenchimento do vazio existencial que, ao invés de, justamente, o preencher, cava ainda e cada vez mais esse vazio. Não é um filme sobre a solidão, mas propõe um mundo onde cada um de nós é desencontro, desconhecimento e reclusão. Her não configura, na aparência de uma fotografia de cores quentes e quase tácteis, a distopia de um mundo desumanizado e sob regulação totalitária, mas margulha-nos num universo onde cada indivíduo é um átomo isolado, à mercê do isolamento emocional, afectivo e humano. [Her (Uma História de Amor), Spike Jonze, 2013, 120'] publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura |
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