És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa, um jardim fechado, uma fonte selada.*

O jardim não é, pois, a pequena forma de paisagem, ele tem o seu esquema simbólico próprio. Na perspectiva do otium, ele não é a redução, à escala humana, da generosa Natureza, não mais do que uma metábole ou sinédoque pela qual ela se apresentaria. Muito pelo contrário, é através de uma separação dela que ele se constitui – e quase em sentido oposto.

Anne Cauquelin, A Invenção da Paisagem




Admitamos a tese de Cauquelin – a paisagem como equivalente construído, cultural, da natureza, e esta compreensível apenas através da primeira; a paisagem como acúmulo de construções e formas, a cada passo mais ancestrais** - para, de certa forma, admitirmos os elementos construídos da paisagem como mimese dos elementos naturais. E para o que segue importa apenas esta relação de reciprocidade que nos permite, pela paisagem, aceder à essência, à cultura, à antropologia, da acção humana sobre a Terra.

Nos claustros dos mosteiros medievais os jardins, hortus conclusos, como representação simbólica da fonte da vida, dos quatro caminhos e quatro quadrantes, da perpétua virgindade de Maria, interpretavam também a natureza e tornando-a sensível ao longo do limite dos muros dos mosteiros - tanto que o próprio S. Bento institui o jardim conventual na sua regra. Um modo também de resguardo do homem diante da natureza. Ainda desprovido de meios tecnológicos para a dominar com o poder e força como vem a suceder em hoje.

A natureza construída, mimetizada, projectada, diríamos hoje, como protecção e refúgio da assustadora e incompreensível poder dos elementos. Um ícone que transcende a relação sensível do medo da natureza terrível e indomável, expressão do amor pelo Mistério, respeito pela Criação e por todas as obras do Criador, visíveis e invisíveis, além das realidades sensíveis e inteligíveis, a transfiguração da visão do mundo. O facto concreto do medo da natureza obrigaria à delimitação do seu poder dentro dos limites dos muros, dentro dos quais o homem seria então soberano. Ou servo da gleba em permanente tributo e respeito ao suserano seu Criador. Depois dos muros, o desconhecido, o medo, a paisagem natural intacta, dominariam a superfície da Terra e tudo o que ela sustenta.

O desenvolvimento técnico e da tecnologia a partir da modernidade, acelerado na Revolução Industrial, a industrialização, a vertigem contemporânea das sociedades de consumo, associados aos factores demográficos exercem pressão cada vez mais intensa sobre a Terra e os recursos que esta oferece. A natureza é paulatinamente dominada. A natureza recua progressivamente diante conhecimento(?) e poder tecnológico adquirido pelo homem. O homem durante toda a História dominado, ergue-se orgulhosamente em dono e senhor do mundo natural. O progresso(?) material da humanidade com correspondente imediato na depredação dos bens naturais. (E de nada serve esta História quando no debate público e político hodierno prevalecem hegemonicamente as modernas concepções de «crescimento», «bem-estar», «progresso», etc., sustentadas em empobrecedoras noções materiais e de acumulação material.)

As formas artificiais da paisagem depositadas e amontoadas ao correr dos séculos – paisagem palimpsesto? – são, evidentemente, obras e formas de cultura. Subjazem-lhes grupos e comunidades e sociedades que agem e são coagidos pelas diversas culturas que tanto estão nas suas origens quanto nas tradições que os mantêm vivos e unidos. Tradição (com maiúscula) como expressão inteligível dessa ocupação e dominância sensível da natureza natural. A vizinhança, a conflitualidade, a violência, a solidariedade, a construção, a destruição, são evidências das relações que cada comunidade e sociedade estabelece tanto entre si e os indivíduos que a compõem como comunidades e sociedades estrangeiras. E claro, esta é uma questão do espaço. E de lugares.




[Le diable probablement, Robert Bresson, 1977]

A dominância do homem sobre a Terra e as consequências da extracção cada vez mais violenta e voraz dos recursos naturais, a má-consciência dessa acção humana e o alívio politicamente correcto dessa má-consciência, fez recuar a natureza natural para reservas ecológicas e paisagens protegidas(?). Inverte-se a situação de há poucos séculos atrás e é agora a paisagem natural que necessita de protecção à acção humana. Limita-se o elemento natural da paisagem mas não a incapacidade do homem moderno se limitar a si mesmo. E o elemento natural da paisagem é, na contemporânea sociedade de consumo, um parque temático. Mais um, ao qual se pode aceder pela via do consumo.


Todas estas questões se expõem no conflito e martírio por que passam os Guarani-Kaiowás. Um genocídio lento – e este é apenas o exemplo mais mediático e do momento de um holocausto silencioso por que passam centenas de comunidades indígenas – que é uma guerra de recursos e um conflito de territórios.
Para estancar a mortandade, governos sucessivos, imbuídos com certeza do espírito humanista da civilização das luzes e do progresso, legislaram a criação de reservas onde estas comunidades mais frágeis (civilizacionalmente? tecnologicamente?) pudessem prosseguir os seus viveres nos seus lugares. Atira-se homens e culturas - aqui tratados como mais um elemento selvagem e primitivo do estado natural a preservar – para territórios cada vez mais exíguos e estanques, para lugares que impossibilitam a existência e subsistência, e tão pouco a dignidade, destes homens e destas culturas.









[Índio Awa-Guaja]

Se o horror mais evidente é o do sangue que ensopa a mata, a obediência a uma perversa hierarquia que coloca estes homens ao mesmo nível dos animais não é menos revelador das sombras desta civilização da razão. Como se estes homens fossem mais um e de igual valor elemento lado a lado à fauna e à flora. Como se o Homem (com maiúscula) fosse coisificável como mero elemento natural – que também é mas não só.
Delimita-se a paisagem natural e a paisagem artificial - vale uma oca menos que o Burj Khalifa? – e o Homem que lhe dá origem, nuns acanhados hectares sobrantes que limpam a consciência civilizada. Lança-se humanidade para os restos do território civilizado pela soberba. Despojos cada vez mais diminutos da cultura do consumo. Parques temáticos onde um dia pagaremos para nos vermos a nós mesmos.






*Cântico dos Cânticos, 4,12


**Desprezemos o radicalismo moderno de Cauquelin que admite a invenção da paisagem apenas a partir da invenção da perspectiva e das estruturas de percepção que a tornaram possível: a paisagem antiga seria não mais que um pedaço da natureza provisora de bens e sujeita à economia. A possibilidade da paisagem ter-se-ia então aberto pelo desdém bizantino da representação artística dos elementos naturais da paisagem. Se para os latinos a paisagem (e o jardim) seria um mero rasgo na natureza, da mesma essência, sem originar outra espécie de paisagem, em Bizâncio, a invenção do ícone por oposição à estreiteza daquilo que a imagem represente (eidolon), a teia de relações metafísicas entre o sensível e o ideal consequente, o renovado estatuto da imagem, possibilitam, enfim, a paisagem. Ela própria ícone de Natureza. É a perspectiva que cumpre a função retórica da paisagem artificial e torna os objectos visíveis no espaço. A fundação da paisagem na realidade sensível exige então um enquadramento: a janela/quadro; os elementos naturais (chão, céu, água fogo).