a revolução foi televisionada



[Complexo comercial e residencial das Amoreiras, Tomás Taveira, 1985]





Ao passar dos anos nem por isso a intelligentsia - que podemos designar formalmente como a Ordem dos Arquitectos – deixa de persistir no esquecimento de uma obra que, em parte e nos seus momentos mais relevantes, (Chelas, Olaias, Valentim de Carvalho Cascais, etc. etc.), é essencial para a compreensão da história recente da arquitectura portuguesa.
Arrogância?, elitismo? – essoutra forma de provincianismo alimentado a croquete e envolto em roupas pretas sobre paredes brancas e máximo design minimal – pedantismo?, o que seja, parece que a História e a realidade, essa besta, não têm assento à mesa dos comensais bon chic bon genre que a escrevem, à história, nas dependências dos seus patéticos interesses.

Passaram trinta anos. Já digerimos Tomás Taveira e as Amoreiras?
Evidente. Até porque se o capitalismo tornou o modernismo o seu estilo soit-disant, ainda que ideologicamente antagónicos, muito mais fácil seria a apropriação de um sistema de signos que faz da comunicação a sua gramática essencial. A ideal para a velocidade do tardo-capitalismo.

Que a História, em Portugal, não seja, mais uma vez, escrita pelos ‘vencedores’.


i am a monument


[Learning From Las Vegas, Robert Venturi,Steven Izenou), Denise Scott Brown, 1977]



City’s mayor announces £490m plans backed by Qatari investment
A theme park recreating the wonders of ancient Rome could be built a few miles outside the city according to mayor Gianna Alemanno.
The announcement follows a visit to the city by the emir of Qatar Sheikh Hamad bin Khalifa al-Thani to discuss investment opportunities.
Alemanno told the Italian media: “We showed the emir several plans. The one that most caught his attention is the idea of a theme park on ancient Rome.”
Up to £490 million could be spent on the 300ha project, which it is hoped could attract up to 8 million visitors a year.
The park would allow tourists to watch battle re-enactments, spectate at a replica Colosseum and visit the thermal baths.
“We intend to find a location for it in the next few weeks,” said Alemmano.


bdonline.co.uk










Hoje encontramos no mercado numerosos produtos dos quais foram extirpadas as suas propriedades malignas: café sem cafeína, natas sem matéria gorda, cerveja sem álcool… E a lista continua: porque não uma cena de sexo virtual, uma sexualidade sem sexo, uma guerra sem guerra, como Colin Powell propôs na sua doutrina de guerra sem vítimas (do nosso lado, como é óbvio…), uma política sem política, tal como ela é redefinida actualmente, uma vez reduzida a uma arte da administração elaborada por especialistas, ou ainda – tal como a concebe hoje o multiculturalismo liberal e tolerante - a experiência do Outro, mas privado da sua Alteridade (esse Outro idealizado que dança de modo fascinante e propõe uma abordagem holista e vagamente ecológica da realidade, enquanto, nos factos, fenómenos como o das mulheres maltratadas permanecem invisíveis…)? A realidade virtual não faz mais do que generalizar este processo que consiste em oferecer um produto privado da sua substância, privado do seu núcleo real, de resistência material – tal como o café descafeinado com sabor e aroma de café mas que não é verdadeiro café, a realidade virtual é vivida como uma realidade sem o ser verdadeiramente.



[Bem-Vindo ao Deserto do Real, Slavoj Zizek, 2002]









[Robert Venturi, 1977]

Pontes sobre o Tejo


[Lisboa em vésperas do Terceiro Milénio, Luís Pavão, Assírio & Alvim, 2002]



Mas para que este tempo em declínio não nos escape,
Como aos que se julgam sábios, já vou ao teu encontro,
Até aos limites dos campos, onde as águas azuis
Circundam a minha amada terra natal e a ilha do rio.

Friedrich Holderlin, Elegias






Todas as cidades crescem de modo diverso e singular. Os acidentes e acasos da história e a vontade humana sobrepõem-se, nos tempos e nos lugares, e são a matéria ligante da edificação das cidades.
A explosão demográfica urbana no norte da Europa, no séc. XIX, não foi acompanhada pela contigência histórica portuguesa. Ainda hoje em Lisboa são visíveis os sinais, a um tempo, a necessidade de coincidir o passo histórico com as demais capitais europeias e dessa mesma distância que, de tempos a tempos, o poder político se propõe suprir.
Assim, Lisboa teve um crescimento diverso das grandes capitais europeias. A revolução industrial, por tardia e lenta em Portugal, não teve as consequências dramáticas como na Londres ou Paris de oitocentos. Daí, e ao contrário de Paris, não exiba as marcas monumentais do progresso em equipamentos urbanos nem em grandes boulevards, ou, distinta de Londres, no tecido urbano surjam as grandes extensões de construções de carácter social e de rendimento destinadas a atender à rápida transformação social e cultural por que atravessava.
O séc. XX do urbanismo lisboeta testemunha com rigor estes movimentos de desfasamento e aproximação aos modelos europeus de desenvolvimento urbano, quase sempre suportadas pelo esforço público e estatal, o único, aliás, capaz de produzir importantes operações de transformação no tecido urbano. A paisagem urbana lisboeta é a evidência dessas cesuras históricas que pretendiam orientar e planear o crescimento da cidade:das Avenidadas Novas de Ressano Garcia, no virar do século, ao plano de Alvalade de Duarte Pacheco; do Restelo das habitações para a burguesia adjacentes à Exposição do Mundo Português de 1940, sob autoridade do mesmo Duarte Pacheco – e a florestação de Monsanto, da mesma época – aos planos de Olivais Norte e Sul em tempos de incertezas e rápidas transformações sociais e políticas.

Ainda que pareçam manifestamente exageradas as notícias da obsolescência e morte da cidade tradicional, assente num sistema de relações de ruas, praças e quarteirões, de espaços abertos e fechados, públicos e privados, e da escala da necessidade do corpo humano, hoje, numa propalada e, de certa forma equívoca, condição urbana global, a cidade genérica, os instrumentos tradicionais do planeamento – e podemos já considerar também tradicionais as próprias categorias urbanas de Le Corbusier: habitação, trabalho, lazer, circulação – são necessariamente motivo de reflexão por parte dos intervenientes na construção das cidades. Para evitar quer a evidente ditadura do mercado, quer as múltiplas e contraditórias opções individualistas, que possam aproveitar as brechas no edifício do bem comum da polis, importa, com abrangência e apoio em múltiplos saberes, pensar a condição urbana como uma das circunstâncias da contemporaneidade. Por esta razão, importa revisitar Lisboa em vésperas do Terceiro Milénio (Assírio & Alvim, 2002) do fotógrafo Luís Pavão.
O último grande momento da planificação da cidade de Lisboa remonta à preparação da Expo98 em que se pretendeu, e com algum sucesso, recuperar e juntar à cidade, um território ocupado por estruturas industriais desactivadas ou desfasadas quer do tempo, quer do lugar. A época era de alguma euforia económica e social sob uma atmosfera de optimismo irrestrito no futuro, emanado na percepção da, finalmente, integração do país e da sociedade portuguesa no concerto das nações mais desenvolvidas da Europa.
Não exclusivamente focado nesse bocado da cidade de Lisboa, a colecção de fotografias de Luís Pavão evoca uma Lisboa modernizada segundo o compasso do desenvolvimento e progresso europeus. Uma Lisboa dotada de equipamentos e estruturas sociais, urbanas e culturais – escolas, universidades, novas redes viárias, parques e jardins, conjuntos habitacionais renovados - numa cidade que se afirma decididamente cosmopolita e aberta sem as feridas necessariamente abertas num processo de veloz transição para uma sociedade pós-industrial.
Não assumindo uma expressão crítica mas nem por isso meramente ilustrativa, importa neste conjunto de fotografias a visão da cidade onde se acumulam significados e paisagens numa época que, à distância de pouco mais de dez anos, nos parece já remota ou mesmo antagónica à experiência do contexto que atravessamos.
Mas importa mais, agora neste tempo difamado pelo medo e pela angústia da(s) crise(s), convocar o passado e a História, tanto pessoais como colectivos, reactivá-los no interior da construção de uma memória, não como refúgio nostálgico em tempos turbulentos, mas que nos permita uma experiência das cidades e dos lugares despojadas quer do optimismo artificioso com que muitas vezes a sociedade de consumo nos conduz, quer do pessimismo que deturpa qualquer possibilidade de um viver completo, individual e comunitário, do presente e do futuro.
Evocando G.K. Chesterton, «o optimista achava que todas as coisas eram boas, excepto o pessimista, e que o pessimista achava que tudo era mau, excepto ele próprio», «a única maneira de sair disto parece amar» incondicionalmente o real, os lugares e as cidades para que possamos viver, transformar e construir as cidades e o real.






Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.






Com devido agradecimento ao David e S. 


E a R, pela colaboração..




exposição na orla


[Martin Parr, South American Beaches, 2007]













o deserto do real


[Slavoj Žižek, 10.06.2010]





O preço da imperfeição é a margem da erótica em arquitectura. Pode ser. E, na economia da produção, desejar, alcançar a imperfeição, o rasto e o traço da acção humana é, por paradoxo, mais honeroso que pretender uma artificiosa - minimalista, kitsch -  perfeição. Verdade.

Os tempos são da dissimulação, quando não supressão, do humano: as casas, ‘caixas’, ‘pele’, ‘corpo’, a metáfora carnal e animal da arquitectura, a ‘house within a house’, a contradição e recuo do espaço público inundado pela domesticidade e banalização da vida privada e quotidiana tornada ‘acontecimento’ espectacularizável, matéria da ‘desterritorialização’, a mercantilização de tudo, do corpo, da alma, da arquitectura, na engenharia da globalização e da comunicação. São os tempos da ‘política da climatização’, da padronização e uniformização (e erradicação) da(s) cultura(s), a sanitarização da vida, como via do ‘alargamento dos mercados’. Com cooperação activa da arquitectura.






P.S. O terceiro espaço, Homi Bhabba:

Poderá ser uma questão de visibilidade. Ou uma questão de espaço. Ou é tudo isto uma questão cultural. Mas uma espécie de pânico invade esta Europa, adormecida pelos anos da prosperidade pós-guerra e que agora acorda, do sonho da paz perpétua para um pesadelo em que se vê incapaz de lidar com a diferença que foi acolhendo.
Ou poderá ser a ilusão do mundo binário. Da distinção radical do nós e do outro. Da incapacidade do relativismo em assimilar diversos contextos ao negar a necessidade de conflito, ou dos limites do universalismo para ler o mundo a partir de outros contextos.
De certa forma, falhámos porque fugimos ao conflito. Esquecemo-nos detraduzir, como requer W. Benjamin nas Illuminations. A tradução, que convoca a representação e a reprodução, dado que toda a cultura é actividade significante e simbólica, logo, ligando-se, de alguma maneira, todas as culturas umas às outras. Uma forma de imitação algo equívoca, mas operativa na fabricação de um outro modo cultural. A origem é sempre aberta a tradução, que é sempre incapaz de albergar a essência do original. Mas isto não é uma perda: é a origem de um outro novo.
De hibridismo, fala-nos Homi Bhabba. Da hipótese de um terceiro espaço. Não de um modo de reconhecimento de duas origens díspares, mas de um território onde o diferente poderá emergir. E o diferente é diferente do diverso – e é o entendimento desta diferença a fissura do nosso liberalismo dogmaticamente relativista.
A identificação - como analogia psicanalítica ao processo de identificação com o outro sujeito – é ela própria ambivalente, justamente pela intervenção desse outro. É aqui que se reconhece na proposta do hibridismo o potencial gerador do novo, do diferente, do irreconhecível, de um novo modo de representação.





métodos construtivos


[One Week, Buster Keaton, 1920]





















delirious New York


[Manhatta, Paul Strand, 1921]






Si analizamos el desarrollo del cine y el vídeo inmediatamente vemos lo profundamente diferentes que son: el cine ha evolucionado básicamente de la fotografía, es esencialmente una sucesión de fotografías, mientras que el vídeo procede de la tecnología del audio; una cámara de vídeo está mucho más cerca de un micrófono abierto que de una cámara de cine.



Bill Viola







This is the city and I am one of the citizens, 
Whatever interests the rest interests me, politics, wars, markets, 
newspapers, schools, 
The mayor and councils, banks, tariffs, steamships, factories, 
stocks, stores, real estate and personal estate. 


Song of Myself, Walt Whitman

flatland

O processo de abstracção do real segue cada vez mais agudo e silencioso.
A indústria financeira (o mais alto grau de abstração do real), comanda a marcha, com benepácito e colaboração da política e da arquitectura, que desesperadamente necessitam da ‘abertura dos mercados’ – pela manutenção de uma ideia de progresso que tranquilize eleitorados dos 'mercados tradicionais' e a manutenção do statu quo, a primeira; por nada mais haver a construir nos lugares destes eleitorados, para além de umas vagas e demagógicas ideias e casas ‘sustentáveis’ e ‘ecológicas’que prolongam a fantasia de uma ideia de progresso, a última.
Sob o diáfano manto da democracia expropria-se o espaço privado e de subsistência através de mecanismos que na aparência o torna público e democrático mas que, objectivo último, o concentra na mão do império do dinheiro. Que monopoliza o espaço (público e privado) e a vida.



Lagos, Nigéria



Lagos, capitale économique du Nigeria. Ici, le pétrole est roi, les dollars sont brassés par millions. Le pays est le 11e exportateur mondial d’or noir. Shell, Exxon, Chevron, Total, Agip se pressent en contrebas, dans le delta du Niger, où il affleure la terre. Les dégâts de cette surexploitation sont multiples : détournement de pétrole, corruption des fonctionnaires locaux, pollution des sols, rébellion des populations dans des mouvements armés.

À Lagos, il est une catégorie de victimes dont on ne parle jamais : les expulsés, les délogés, les sans-toits. Ceux qui ont été poussés dehors par l’explosion du prix des terrains. Poussés dehors, en somme, par les expatriés, les nouveaux riches et leur niveau de vie.




Les délogés de Lagos, 6Mois







Vila Autódromo, Rio de Janeiro, Brasil



It was supposed to be a triumphant moment for Brazil.
Gearing up for the 2016 Olympic Games to be held here, officials celebrated plans for a futuristic “Olympic Park,” replete with a waterside park and athlete villages, promoting it as “a new piece of the city.”


There was just one problem: the 4,000 people who already live in that part of Rio de Janeiro, in a decades-old squatter settlement that the city wants to tear down. Refusing to go quietly and taking their fight to the courts and the streets, they have been a thorn in the side of the government for months.


“The authorities think progress is demolishing our community just so they can host the Olympics for a few weeks,” said Cenira dos Santos, 44, who owns a home in the settlement, which is known as Vila Autódromo. “But we’ve shocked them by resisting.”



Slum Dwellers Are Defying Brazil’s Grand Design for Olympics, New York Times