
[Rua Duque Estrada, Rio de Janeiro, 2011]
A lei das garagens, além de desvalorizar as residências construídas antes dela, encareceu a construção de novos prédios. Reforçou a tendência da cidade a mover-se em direção a áreas não ocupadas. O capital imobiliário alavancou esta tendência que converte o novo bairro de fronteira barata para a construção em uma área de rápida e acentuada valorização imobiliária. O caso da Barra da Tijuca é exemplar: foi concebida e justificada como a forma de, mediante a oferta de solos edificáveis, reduzir o preço dos imóveis no Rio. Hoje, algumas de sua subzonas estão entre as mais valorizadas da cidade. O distante Recreio dos Bandeirantes tem seus preços em voragem ascencional. As construções legais na Barra são atentas ao auto em suas últimas consequências. Prevêem cada auto como um “membro” da família, com sua respectiva garagem. Ao mesmo tempo, a cidade do auto se combina com a cidade dos pobres. A edificação na Barra é síncrona com a multiplicação das favelas: dos 4.600 favelados em 1980, em 1997 já seriam 17 mil em 31 favelas cadastradas. Nelas também se multiplicam autos estacionados, quase sempre em segunda ou enésima mão.
[O Rio de todos os Brasis, Carlos Lessa, 2005] 7. Portanto, a Rocinha sempre foi de toda a gente, quanto a empregados baratos e droga fácil. Mas na hora de dormir na favela, no barraco, com chuva, de voltar de ônibus no engarrafamento, de subir a ladeira em mototáxis guiados por quase-crianças sem capacete, de contar os tostões para pôr as crianças na escola, manter as crianças na escola, manter as crianças fora do tráfico, fazer entrar as crianças no asfalto, nessa hora, a Rocinha é só de quem lá mora, e não sei se são 100 ou 400 mil. É da dona Elisa, do Guilherme, do Lucas, da Miriam, da Sheila, do Tico, do Aurélio, do Martins e de todos os que lá comemoram aniversário apesar de tudo. Como todos os que não lá moram, de uma forma ou de outra, eu só lá vou comer bolo. [A Rocinha não é nossa, Alexandra Lucas Coelho, Público, 19.11.2011] |
O que está hoje em causa no território do Rio de Janeiro é um movimento que, sob a alçada ideológica da cidade global, releva menos dos factores que caracterizam a condição da cidade global, mas mais da acção de forças mais arcaicas que se abrigarão à sombra da glamourosa lógica da cidade global.
O que caracterizará a condição da cidade global, segundo as teses recorrentes, são as dinâmicas decorrentes da circulação de fluxos de capitais e a preponderância do capital financeiro na dinâmica da cidade; uma economia de serviços que sobrevém, cada vez mais, à economia industrial herdada dos modelos pós-II Guerra Mundial; a consequência destas forças sobre a construção da cidade e da luta pelo espaço a partir de dispositivos tecnológicos avançados que, em princípio, responderiam à procura destes sectores de uma “economia tecnológica”. A cidade global será aquela que regionalmente é o nó das múltiplas redes locais e forma um hub de conexão com as correntes mercantis globais. Oferece um conjunto significativos de sedes de grande empresas multinacionais, uma economia essencialmente de serviços, espaços e centros de convenções, aeroportos com ligações inter-continentais, redes de hotéis de marca global. O poder de atracção destas cidades reside na capacidade de articulação das economias regionais com os fluxos globais. Barcelona é só o mais célebre exemplo e aquele que hoje, na própria cidade de Barcelona, é veementemente discutido. As razões do esgotamento deste modelo em Barcelona não são ainda referência ao resto do mundo que, ainda hoje, persiste em tomar a capital da Catalunha como cidade-modelo-sucesso.
Sendo o Rio de Janeiro uma cidade de ressonância global, capaz de atrair pela sua vocação turística, grandes massas de turistas e viajantes, o sucesso das candidaturas do Brasil à organização da Copa do Mundo de 2014 e do Rio a sede das Olimpíadas de 2016, vêm expor à saciedade a voragem do capital imobiliário, sob o diáfano manto da inscrição, via estes eventos, do Rio de Janeiro nessa suposta rede de cidades globais.
Acontece que a teorização da cidade global refere-se essencialmente a cidades do Hemisfério Norte, de longa tradição cosmopolita – Londres, Nova Iorque, Tóquio, Paris, Berlim, Amesterdão, et al – que, de acordo com o desenvolvimento do pós-guerra, se tornaram sociedades pós-industriais transformando-se em sociedades tecnológicas. Também porque se inserem em regiões dinâmicas, tornam-se referências nesse suposto «arquipélago» global de cidades.
O Rio de Janeiro constrói-se de exclusões acentuadas, de sub-territórios abandonados pelo Estado, com todo o tipo de violência que advém da ausência da Lei, de uma sociedade que ainda ostenta cicatrizes mal saradas da herança colonial e, sobretudo, da escravocracia. O poder do imobiliário na produção do espaço é deixado ao acaso que nunca é acaso do mero interesse do lucro (privado) em detrimento do bem comum (público). Por relapso, desleixo ou cumplicidade, do poder político.
Assistiremos então a um Rio de Janeiro que fará coabitar o mais glamouroso esplendor do comércio global – que esse comércio se encarrega de tornar glamouroso através de uma indústria do desejo - com territórios, cada vez mais distantes da Zona Sul, ocupados pelos excluídos desse fluxo gobal do desejo (material).
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