viagem a portugal
![]() [Museu das Missões, Lucio Costa, S. Miguel, Brasil, 1940] Cedo fica claro que a questão, o projecto, é o da identidade. Lúcio Costa, em 1924,viaja a Portugal em busca do conhecimento das origens da arquitectura colonial. Ao mesmo tempo, Raul Lino, esboça o modelo da casa portuguesa e, espantado, reconhece a impossibilidade de referentes unívocos para uma arquitectura tão diversa mesmo, ou sobretudo, num território exíguo. A tensão permanente de Costa é entre a herança, da qual reconhce, também, a impossibilidade de encontro da raiz única e o futuro, comprometido com essa herança e com a radicalidade moderna. É, naturalmente, um projecto cultural. No sentido mais amplo, de continuidade, não de ruptura, de adequação aos novos programas da nova sociedade, dentro de um quadro cultural específico. E do Brasil, dessa tensão, Costa acha um certo desterro (sic.) nas suas origens. |
faraway, so close
![]() [Aguarela do colégio de freiras com passadiço em Diamantina, Lúcio Costa, 1924] Adivinhava-se-lhe o desconforto com os ecletismos e o mission style, ainda que polidos por erudição clássica e educação europeia. Ao espírito inquieto, que acreditava num espírito do tempo, que acreditava, sobretudo, na necessidade de uma arquitectura nacional. Porque a arquitectura é também uma questão de fé, essa linguagem nacional, não a queria insuflada de nacionalismos servis, mas antes, e de acordo com um país que se construía de novo e onde havia tudo por construir, uma arquitectura que servisse de esplendor do sonho brasileiro. Uma cidade nova em chão vazio. Em 1922 Lúcio Costa regressa de Diamantina e traz consigo uma hipotética síntese do que poderia ser essa linguagem nacional nova. A arquitectura civil luso-colonial. A versatilidade, adaptabilidade e aptidão tecnológica em qualquer circunstância sócio-histórica e cultural, a inteligência técnica. A simplicidade (sic.) de um arquitectura que considerava despojada dos artifícios do barroco e do ornamentalismo da arquitectura religiosa, que aliava à possibilidade técnológica da construção em concreto armado. E talvez tenha sido esse aporte de Lúcio Costa que levasse Le Corbusier a caracterizar a docilidade e gentileza – chamou os brasileiros de femininos – introduzidos no Palácio Capanema. A leveza que não interessava ao peso e gravidade corbusianas. E isto reconheceu-o ele, ele que dificilmente reconheceria alguma coisa fora de si, a propósito do Capanema – o primeiro edifício histórico totalmente de acordo com os cinco pontos da Carta de Atenas. Por outro lado, a arquitectura portuguesa, vernacular, como influência da via que aprofundou o europeíssimo modernismo International Style. A mesma via que, anos depois, por mão de Távora e da Escola do Porto, fez com que a arquitectura portuguesa tomasse seu, também, o movimento moderno. |
e a grandeza épica de um povo em formação/nos atrai, nos deslumbra e estimula*
![]() [Palácio Capanema, Rio de Janeiro, 1936/1945] Gustavo Capanema, Ministro da Educação, assistido por Carlos Drummond de Andrade, assessorado por Manoel Bandeira, junta Lúcio Costa que acha Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Cândido Portinari, Burle Marx et al, e estes sob tutela de Le Corbusier. Com um punhado de homens destes seria difícil não crer no homem, na redenção do homem amanhã, na salvação pelo progresso técnico. * Haiti, Caetano Veloso + Gilberto Gil, 1993 |
somos condenados a ser modernos?
![]() [Praça de Espanha, Roma] Vincent Scully abre a sua história do movimento moderno com a Praça de Espanha, em Roma. O último instante histórico em que verifica ausência de qualquer elemento moderno. Uma epopeia de optimismo e crença na razão e democracia que se desmorona na adenda de 1974, que termina com a Casa de Nantucket, de Robert Venturi. Sendo uma incursão por uma arquitectura da democracia, da emancipação do indivíduo, do precário balanço entre a continuidade - do desejo do indivíduo pelo espaço contínuo - e a fragmentação, que desordena essa continuidade - e no imprevisto que esse desejo do sujeito, atomizado, suscita. O que no barroco era uma liberdade ilusória e fabricada pela arquitectura, com apoteose no lugar do poder, na solidão da casa de Venturi encerra-se, de certa forma, naquilo a que estamos condenados, depois de todos os ismos: somos ainda modernos. Somos, cada vez mais, sozinhos. Não por acaso, de Nantucket larga Ahab, com ira, à caça da baleia branca. ![]() [Nantucket House, Robert Venturi, 1972] para O Ouriquense. |
a natureza das cidades
![]() [Parque do Flamengo, Burle Marx, 1965] Qualquer coisa de determinista nesta palavra, de utilitarista, de dialéctica que restringe a complexidade do mundo a um punhado de conceitos objectivos, que me inibe de utilizá-la, à palavra produção, para nomear a capacidade humana de intervenção no espaço, sendo esse espaço o território, pela humanização e pela arquitectura, tornado paisagem. O espaço não é redutível à objectificação, não é uma coisa de fabricação e manipulação mais ou menos virtuosa, mas mais uma experiência. Mesmo que Lefebvre a produção do espaço seja a espacialização, é uma espacialização social, insuficiente à complexidade e integridade da experiência do espaço. Não crendo já em paraísos perdidos, o fulgor com que o parque de Burle Marx nos diz que isto é uma cidade, que cidade é que é, que lugar é este no mundo, na orla da Guanabara, é uma coincidência entre um Éden perdido e a construção humana, naturalmente imperfeita. E atravessada por uma auto-estrada. |
103
![]() [Brasília, René Burri] Depois de subir ao monumento, o homem regressa à terra mais homem. É também isso que devemos a Niemeyer. |
temas & debates
![]() [THX1138, George Lucas, 1971] Para ser mais preciso: evanescência. Onde tudo tende à invisibilidade: a estrutura escondida; a parede reduzida à epiderme; os vãos falhos na qualidade – ontológica – de instituição consciente de um interior com um exterior; a força da matéria cede perante a ilusão de contrariar a gravidade; a diversidade dos sítios subsumida nas superfícies infinitamente pintadas à cor branca; a proporção subjugada a uma afectada composição – outro equívoco, a composição - subordinada à primazia do visual com a erosão dos restantes sentidos; um corpo, ou partes de um corpo, sem juntas, que oblitera inconscientemente o corpo humano; o tráfico da integridade – integração das relações com os lugares e com o corpo e daí se permitirem deduzir e instituir as relações da arquitectura com o mundo, a apreensão da forma, íntegra, desse mundo interior/exterior, pelo homem - por simples ou complexas representações desse mundo que se propõe; a frívola e esquizofrénica tentativa de instalar estabilidade num entorno instável, (paredes, tectos, pavimentos, todos iguais, indiferenciados, inarticulados, em superfícies uniformes sem princípio nem fim nem as juntas mecânicas que a matéria e a tecnologia impõem). Onde tudo tende à invisibilidade, o ápice da abstracção, é a indefinição, inconsciente, da arquitectura. A recusa em tomar partido num mundo, todos os dias, um pouco menos conhecido. |
ar condicionado
![]() [Vitra, Daniel Libeskind, São Paulo, 2010/...] Uma síntese tecnológica – via sustentabilidade – será sempre um olhar redutor sobre a arquitectura. Para mais em tempo em que essa sustentabilidade se apõe, com grande força, como a grande narrativa, no medo do presente, de redenção no futuro. De certa forma a sustentabilidade é aquilo que Heidegger enunciava como o pensamento que calcula. O pensamento que administra a tecnologia. Um pensamento necessário, mas longe do alcance do pensamento que medita, que Heidegger acreditava em perda pelo homem contemporâneo. Com um paralelismo pedestre posso dizer destes tipos de pensamento como uma diferença entre as engenharias e a arquitectura. Não é reclamada a presença do engenheiro no estaleiro. Há hoje teconologias que permitem essa ausência sem comprometer o rigor da obra. Ao arquitecto pede-se que abandone o projecto, no exacto momento do início da execução da obra, quando o projecto é posto em obra. A presença em obra. A sustentabilidade é a eficácia desse pensamento que calcula. Mas o risco é permanecermos reféns deste pensamento, de certa forma um pensamento da necessidade e não das causas e essências. Como que um recurso alarmista, uma tecnologia do pensamento que calcula, o mesmo pensamento que descobriu as tecnologias que hoje põem em risco a sobrevivência da espécie. A sustentabilidade é essa via da urgência. De certa forma é uma perda. A perda que Heidegger assinalava como a nossa cada vez maior incapacidade de pensar. Ainda que pertinentes, este tipo de críticas, encerram em si o perigo de conduzir a arquitectura ao beco sem saída; um método de cálculo da eficiência ambiental, julgando-a, à arquitectura, não pelo que de conhecimento e humanidade acrescenta à própria humanidade, mas apenas pela eficiência tecnológica. A forma de Libeskind não ajuda nada. E a grande falha nem será a dos recursos que uma obra destas consumirá. Mas mais a irrelevância do paralelepípedo de vidro torcido debaixo do sol dos trópicos. Sem invenção para além da patrocinada por muitos dólares emergentes. Sem qualquer imposição crítica ao mundo que esse paralelepípedo inventa. Apenas a repetição da repetição da repetição da repetição de coisas tantas vezes vistas. Uma distopia das imagens. Um dos valores das sociedades que a elas anseiam aceder como padrão da contemporaneidade. |
opinião pública
![]() [Sforzinda, Filarete, 1464] Não que o escrutínio da opinião pública seja essencial ou decisivo, mas é relevantíssimo para qualquer prática artística, científica ou política. Quer por da sociedade decorrer alguma da legitimidade moral que sustenta essas práticas, quer pelos efeitos dessas práticas no seio da comunidade. Se tudo correr bem, do acordar ao deitar, somos rodeados por arquitectura. Porque também uma prática social, por ocupar cada vez mais indivíduos no seu cada vez mais complexo processo de produção, por consumir recursos cada vez mais vastos, muitos deles património comum, a sua acção é sensível a qualquer indivíduo. A arquitectura adquire maior visibilidade, literalmente, por ser inescapável. Ainda para mais numa época em que a arquitectura se torna refém de sistemas (pouco) éticos, (ainda menos) estéticos, que se representam na aparência da democracia mediática, é de todo o interesse dos arquitectos ouvirem não apenas os pares e/ou privilegiados clientes, mas uma, ainda que frágil e esparsa, opinião pública. Foi assim que li O elogio de um arquitecto, de Carlos do Carmo Carapinha. Por não provir de alguém da corporação, por apresentar argumentos eruditos e ilustrados no conhecimento genérico da História recente da disciplina e, sobretudo, por o texto encerrar os paradoxos com que a disciplina se debate ao tentar-se explicar à sociedade. E não me refiro ao erro inicial de atribuir à arte (pintura, escultura) o estatuto supérfluo [luxos?] que faria as delícias da, também ela muito discutível, tese freudiana que deduz a produção artística de uma pueril sublimação do indivíduo sob efeitos do mal-estar na civilização. Convém assinalar que em estopa de fundo do texto está uma clara confusão entre o que é arquitectura e construção. É que se a arquitectura é, também, construção, o contrário nem sempre é verdade. Muito poucas vezes, até. São palavras do autor que o confirma quando invoca o percurso por Telheiras (ou Massamá); ou quando observa, ao longe, a arquitectura de certos dormitórios das zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, certamente inspirados na arquitectura do Leste Europeu (triste, deprimente, monocórdica, condenada a uma decadência indigente), por sua vez filha (bastarda?) do modernismo do Sr. Corbusier ou do Sr. Gropius; ou quando observa os blocos habitacionais em Brasília, inspirados pela «ideologia» do planeamento urbano, forjada na Carta de Atenas de 1933. Não que não paire o espectro destes arquitectos sobre as paisagens que o texto descreve: ecos distantes e distorcidos; adaptações incultas; citações equivocadas; imagens deslumbradas; mas sobretudo o ‘espírito do tempo’, o científico, que decide a maioria das opções culturais do último século, espírito do qual a arquitectura foi, em determinada circunstância, a modernista, uma poderosa força propagandista - mas ainda que muitos os deméritos, insuficiências e inadequações dos modernos, pelo menos propôs-se devolver, pela arquitectura, e pela primeira vez na História, a felicidade a todos os indivíduos. Provavelmente estas paisagens terão pouco do contributo dos arquitectos e quando isso suceda, não esqueçamos, é um contributo escrutinado pelo poder político, via autarquias, por exemplo, logo, e pelo menos desde 1974, em Portugal, para me reportar directamente à realidade que o texto reclama, legitimado pelo regime democrático. Correndo o riso de apresentar um argumento que possa se lido à luz de um mero e egoísta interesse corporativo, e desconhecendo o rigor dos números, creio andar à roda dos 10% o volume de construção, em Portugal, que tenha, de facto, feito uso de arquitectos. Não será, portanto, essencialmente da culpa dos arquitectos ou da arquitectura o caos em que se encontra as nossas cidades. Nesta atmosfera, justificável, de desconfiança em que foi lavrado o texto, mais desconfiança me levanta o exemplo de boa prática de que o Carlos do Carmo Carapinha se socorre para nos apresentar uma possível redenção dos arquitectos e da arquitectura. Não porque seja João Maria Trindade, ou a arquitectura de João Maria Trindade, mas porque é esta uma prática que recusa a divergência [cito o Pedro Machado Costa] de uma genealogia que tem trazido, em muito, a arquitectura aos impasses indiciados no texto. Grosseiramente, o que distinguirá o trabalho de João Maria Trindade do de Falcão Campos, do dos Aires Mateus, do de Inês Lobo, do de Bak Gordon, do de Gonçalo Byrne, do de Carrilho da Graça, (e das réplicas, ressonâncias, ecos, distorções, citações, espalhadas pelo território em temerosas paredes brancas clean), apenas para irmos directamente à realidade, a produção portuguesa hediorna, que o post induz? Não que estes não sejam nomes que não tragam novas luzes, ou indícios, ao problema da arquitectura. Não que não sejam arquitectos que reflictam ponderada e sofisticadamente sobre os temas que, livre e legitimamente, escolhem. A dúvida é se esses temas serão, ao fim de contas, os mais relevantes para responderem com mais precisão e força às questões que Carlos do Carmo Carapinha sugere. Não discuto as afinidades electivas, legítimas, repito, dos arquitectos acima referidos. O que discuto é a capacidade dessas arquitecturas apresentarem e representarem outro mundo que o do design autoritário e asséptico, desligado de significados e articulações à realidade, numa autoreferência infinita à cada vez mais ensimesmada arquitectura que reverencia indulgentemente os nomes modernos que o texto fustiga. Eis o paradoxo. Desconheço a obra de Auberon Waugh, tão pouco de que pressupostos se lança para lançar essa boutade. Arrisco até que se inscreva numa tradição que Scruton e o mais mediático e superficial de Botton reivindicam: a de uma nostalgia que recusa, por medo ou insegurança ou cautela ou parcimónia, enfrentar a galáxia de problemas que se levantam sobre as cidades e as arquitecturas, para lá do refúgio acolhedor e melancólico do country side. Em todo o caso, não se recusa, tanto aos nostálgicos, como aos arquitectos aqui ditos, pelo menos, a tentação da beleza. Ainda que insuficiente e consequente de valores tíbios. |
foreign legion

Jardim de Alá, Rio de Janeiro
Atender à toponímia é achar uma síntese de um lugar. História, Geografia, crenças, mitos, uma realidade mais ou menos opaca, lenta, de acordo com a linguagem, usos e desusos, de uma comunidade. Como arqueologia, desocultar significados em ruas e travessas e passos que muitos outros antes gastaram.
Eventualmente a História, dos testemunhos escritos, não bastará. Nem a Geografia –recorrente prefixo dos caminhos - dos acidentes naturais e humanos. Ainda menos a Filologia e a interpretação objectiva dos étimos. Talvez isso tudo isso e o entendimento do nome de uma rua ou praça como transmissão do valores inerentes a uma comunidade. Uma memória, claro. Ao atravessar de Ipanema ao Leblon, passar pelo Jardim de Alá, sobre o canal, um europeu treinado em pedras antigas e muitas já gastas e sem significado reconhecível, pensará em exílios e comunidades expatriadas, libaneses e sírios vindos para o Novo Mundo em fuga ou em demanda, e a demarcação simbólica e identitária das diferenças e das crenças. Mas talvez a História seja matéria mais prosaica. Saber que o Jardim de Alá é a memória de uma outra deusa - de carne -, Marlene Dietrich que, no deserto berbere, recolhia segredos do amante, depois dos espanto inicial, é o reconhecimento de uma outra liberdade. Da que se constrói onde antes, há pouco mais de oitenta anos, não existia o elemento humano (urbano). Uma maneira da liberdade, a deste nomear, que ainda custa a entender. |
história contra-factual#2
![]() [Bombardeamento e incêndio na Catedral de Reims, 19 Setembro 1914] Dizer que se não tivesse ocorrido o Renascimento, o preciso instante em que o arquitecto passou a ser um cavalheiro ao deixar talhar a pedra com as mãos, pode querer dizer que não passaríamos aqui. A abstracção aguda, absurda, que começou ao deixar, o arquitecto, de estar na/em obra. Tão absurda como querer conduzir a arquitectura à invisibilidade: o reflexo do tudo que pode ser tudo e, no fim, é o nada. |
novo mundo#2
![]() Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime E dançamos com uma graça cujo segredo Nem eu mesmo sei Entre a delícia e a desgraça Entre o monstruoso e o sublime [Americanos, Caetano Veloso, 1992] Uma das hipóteses que coloco após a semana de «guerra» que o Rio de Janeiro viveu, é a da ineficácia da arquitectura em instruir respostas às formas de espaço e território e paisagem e sociedade que se ergueram fora do alcance da disciplina. Estas, obliteradas pelo cânone escolar, académico, científico, teórico e prático, (que adquiriu contornos de esquizofreniacom a actualização ao segundo via web), quero dizer, a falta de adesão da arquitectura à realidade. E a esta questão, algures uma académica me respondeu com Koolhaas, o espaço fluído por ele teorizado, fora do alcance do que os modernistas poderiam ter pensado, e a cidade espontânea e genérica, por exemplo. Naturalmente que esta resposta não satisfaz. Talvez estes modelos sirvam ao desiderato contemporâneo da originalidade e novidade. E a citação a Koolhaas fará até sentido a partir do ponto de vista de quem afere o mundo pela capacidade de consumo de cada indivíduo, et pour cause, uma resposta conhecedora da mecânica da sociedade hiper-mediatizada e que daí extrai as vantagens à sua própria divulgação. Mas as dúvidas maiores sugerem-me se tais respostas sirvam, de facto, à avassaladora condição urbana planetária. Como se a arquitectura, por medo ou arrogância, entrincheirada na academia e em premissas obsoletas, se esquecesse do seu original propósito: construir um belo abrigo para o Homem. E nesta hipótese de demissão da arquitectura, a partir da experiência do Rio de Janeiro em semana de «guerra», repito (e o termo é equívoco, claro), reconhece-se uma ténue luz que decorre directamente da política. Aquilo que a disciplina se recusa a pensar, a política, via Beltrame, tenta propor: respostas integradas, ainda que frágeis, a uma cidade livre, em que todo o cidadão o é por direito democrático e com todos os direitos de dignidade consequentes. Talvez fosse uma ideia a arquitectura desaprender para voltar a aprender, citando Clarice. Esquecer os padrões do bom gosto que originam casas iguais na 5ª Av., no Boulevard de Saint Germain, em Belgravia, no Leblon ou na Quinta Patiño. Erradicar o preconceito escolástico que reduz à indigência o que é inventado pelo vigor e vontade de quem é excluído das baias do bom gosto educado e que conduz a arquitectura ao ensimesmamento e que reduz à condição, pobre, de objecto aquilo que vai, esquizofrenicamente, produzindo. |
novo mundo
![]() [Hotel Marina Leblon, Rio de Janeiro] Sendo essencialmente moderno, ainda que pré-moderno, o nascimento das cidades do Novo Mundo, pergunto-me se o catecismo modernista, que ainda é matriz do espírito do arquitecto e do urbanista, não terá guiado as sociedades mais à infelicidade que à felicidade. Hoje, sei-o, é possível ser-se feliz numa favela. Não discuto se essa felicidade é muro erguido de medo e prisão, sê-lo-á certamente aos olhos do sujeito de pressupostos burgueses da sociedade do bem-estar. Mas depois questiono a verdade e autenticidade dessa liberdade caucionada pelo consumo. É que, no fundo, essa liberdade está a construir as cidades todas iguais pelo denominador comum da disneylandização turística da cidade global. Lado a lado com a outra parte, excluída, os novos sans-coulottes do capitalismo global. Do capitalismo fora da euforia nineties que o supunha apenas possível dentro de um quadro liberal-democrático. |
a boa vida#2
![]() Quando os homens da lei tomaram os morros do Complexo do Alemão, no Rio, e expuseram aos olhos da multidão cá embaixo como os bandidos vivem lá em cima, algumas coisas chamaram a atenção: a falta de resistência, a Bandeira Nacional tremulando como símbolo de conquista e, principalmente, a morada dos traficantes. Polegar se amoitava em três andares, com sancas de gesso iluminadas, piso ladrilhado, TVs de plasma e até piscina na cobertura (ali, mais conhecida como laje). Pezão tinha ar-condicionado e mandara pintar na parede um retrato do astro teen Justin Bieber. Gão possuía área de churrasco e chafariz em forma de golfinho esguichando água para dentro da piscina com um "G" desenhado no azulejo. Não demorou um nada para batizarem os mocós do crime de "mansões" e "imóveis de luxo" com "vista privilegiada". Um erro, senão um preconceito que já nem nos damos conta, avalia a antropóloga Mariana Cavalcanti, professora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas. "Não há motivo para tanta surpresa. Os traficantes são socializados na cultura do consumo, como todos nós", diz Mariana, que é doutora pela Universidade de Chicago e se dedica a pesquisar espaço urbano e moradia, em particular na história e no cotidiano das favelas cariocas. Suas palavras a seguir mostram que, morro acima, termos como "tragédia" e "ofensa" vão muito além de sua mera ligação com "pobreza" e "tráfico". Nome aos bois "Mansão e imóvel de luxo não são termos adequados para descrever as casas dos traficantes. O que define uma mansão? É o espaço? A localização? O valor de mercado? Sob nenhum desses critérios aquelas casas podem ser consideradas 'de luxo'. Não entendo a surpresa das pessoas com as banheiras de hidromassagem, as piscinas, as TVs, o quadro do artista pop juvenil na parede encontrados ali. Ora, são os valores da nossa sociedade, do capitalismo, que os tornam objetos de desejo. Os traficantes são socializados nessa cultura do consumo, como todos nós. A opção pelo tráfico também se dá pelo status (ser temido, reconhecido e assim por diante), mas se dá primordialmente pela possibilidade de ter bens de consumo. Então por que a surpresa? As pessoas, em particular a classe média da zona sul e da Barra, ficam incomodadas com a pouca nitidez da diferença entre 'nós' e 'eles', com o compartilhamento do imaginário de consumo. Entrar no mundo opaco da favela e encontrar um espelho das suas aspirações parece desestabilizar a certeza tão consolidada e cultivada de que os traficantes em particular e os moradores de favelas em geral são 'os outros'. Nem tudo é barraco "Achar que morador de favela vive em barraco é uma ideia datada. Historicamente, os migrantes chegavam aos morros e, de fato, alugavam um barraco de madeira, de um cômodo, que era melhorado ao longo dos anos. Como disse um morador uma vez, casa na favela nunca fica pronta. Mas, hoje, há muitas casas acabadas por dentro e por fora, decoradas com capricho, com uma série de preocupações estéticas e afetivas que refletem investimentos materiais e subjetivos. Ainda há os blocos aparentes e a falta de reboco, mas, na última década, vi pouco chão batido. A maioria tem piso. Claro que os pobres ainda vivem em condições precárias, há toda sorte de problemas arquitetônicos, a circulação de ar, a entrada de luz e outros aspectos básicos ainda deixam a desejar. Contudo, a tendência é que essas casas se tornem cada vez mais parecidas, em termos de acabamento, com as da cidade dita formal. A metamorfose de um barraco em uma casa não apenas transforma a forma e a qualidade da moradia. É uma transformação que abre a promessa de um futuro melhor - em parte, devido à própria experiência de acúmulo de capital na forma de uma casa que participa de um mercado imobiliário dinâmico, ainda que limitado pelos traficantes e pelos estereótipos relacionados à favela. Disfarce "A mídia noticiou que é possível que alguns traficantes tenham fugido ‘disfarçados de moradores’. Isso é uma ofensa inenarrável aos moradores e reafirma estereótipos terríveis relacionados a raça, classe e lugar de moradia. No asfalto nós sabemos diferenciar o cidadão que paga imposto do que sonega? O honesto do corrupto, ou do que pratica violência doméstica? Então, por que no morro os traficantes, moradores locais que são, seriam identificados tão facilmente? Além disso, essa ideia tende a reforçar outra, essa sim mais perversa, que é a velha ladainha de que os moradores de favela são coniventes com o tráfico. A quantidade de ligações ao disque-denúncia faz esse estereótipo cair por terra. E é bom que o faça, pois, assim como classificar os acontecimentos recentes de ‘guerra’, a ideia de que os moradores são coniventes tende a legitimar incursões policiais truculentas e a sedimentar os preconceitos de quem associa pobre a bandido. Nos anos 80 e 90 o tráfico era uma atividade muito mais lucrativa do que é hoje. E menos institucionalizada, também. Os chefes eram crias da favela e mantinham relações de respeito com os moradores - coisa que os jovens que os sucederam já não mantêm. Os moradores tinham menos oportunidades de ascensão social naquela época, ou seja, a desigualdade entre o traficante e o morador comum diminuiu, seja porque o tráfico se tornou menos lucrativo, seja porque os moradores passaram a ter mais poder aquisitivo e mais oportunidades de formação e qualificação profissional. Notais fiscais "O episódio da moradora que voltou para casa e soube que a sua TV LCD, ganha num sorteio, tinha sido metralhada por um policial, mesmo ela tendo deixado à vista a nota fiscal do aparelho, é simplesmente trágico. Porém, não surpreende. Perdi a conta de quantas vezes, nas minhas pesquisas, entrei na casa das pessoas e elas faziam questão de me mostrar as notas fiscais dos eletrodomésticos que tinham a sua volta. Os recibos ficavam sempre à mão, para que fossem facilmente localizáveis na hora em que a polícia chegasse. Esse fato é sintomático da relação difícil e recheada de desconfianças que, infelizmente, não são infundadas. Claro que nem todo policial é ladrão de eletrodoméstico de trabalhador, mas também não podemos afirmar que não há precedentes para esses cuidados dos moradores. Mágico de Oz "Já as crianças se banhando na piscina dos traficantes é a imagem mais comovente de todo o evento. Nela, sim, há uma vitalidade que poderia ser descrita em termos de uma possível libertação - ainda que por uma tarde na piscina. Lembra quando a bruxa morre em O Mágico de Oz? Todos cantam e dançam alegremente? Está um calor absurdo no Rio, e não existem clubes para esses meninos no Complexo do Alemão. Mas me incomoda que essa imagem bonita seja usada para cantar a vitória da ocupação. Os desafios ainda são muitos, as denúncias de violações de direitos humanos aumentam a cada dia, ainda há muitos traficantes soltos, outras facções, as milícias... A vitória cantada antecipadamente e a metáfora da guerra são nocivas. Tiram a atenção dos inúmeros desafios que são urgentes ali e no resto da cidade." [Um espelho no morro, Christian Carvalho Cruz, in O Estado de São Paulo, 5.12.2010] |
apenas uma breve consideração sobre a natureza dos objectos
![]() [Terminal de Cruzeiros de Lisboa, João Luís Carrilho da Graça, 2010/...] Se uma das funções da arquitectura é tornar visível (o que sem ela não seria possível ver-se), ela fá-lo pelo vagar, ente cena e obscena, através das subtilezas das luz e da obscuridade. Não exactamente como num teatro, ainda que com o drama partilhe alguns dos materiais e a urgência do tornar-se visível para dar a ver. Alguém hoje, depois de uma furtiva viagem a Lisboa, propunha, lado-a-lado, o Carrilho da Graça que trazia na bagagem e Isay Weinfeld. Pode ser. Não apontar para nenhuma direcção é uma legítima opção, no mar-rede de direcções possíveis. Como também o é, obscenamente, querer deixar de dar a ver para, com alguma ansiedade e/ou vaidade, desejar apenas ser-se visto. Mas aí talvez já não estejamos a falar de arquitectura. Talvez de objectos. Apenas. |
4’33’’ à espera de godot, não mais que isso
![]() [Casa Dogon, Mali] Responde-se a si mesma, essa longa marcha lenga-lenga que prossegues - e estás bem acompanhado por toda a tradição moderna e pós-moderna, diga-se: a auto-proclamada vitória final da razão e da mecânica funcionalista, genericamente, o pensamento que guia ainda a produção arquitectónica, e a tábua rasa. E é nessa exacta linha, do confronto com os limites da razão e com o método positivista, onde se levantam as maiores perplexidades dessa vontade revolucionária. Até porque a História que nos é contada diverge dos factos, valendo-se da percepção induzida às massas por aquilo que alguém chamou da semicultura destas amplas democracias. Bem entendido, recusa-se aqui um regresso ao passado trágico das multidões ignaras a trabalhar de sol a sol para senhores ou pela escassa sobrevivência. Mas andaremos assim tão distantes da indigência quanto a hiper-modernidade nos faz crer? E é o outro passado, o edénico, obstinado em surgir em todas as reflexões de todos os que se propõem desocultar um sentido para a prática da construção mais que construção. Tome a forma de especulação erudita ou de devaneio ensandecido, de Vitrúvio a Le Corbusier, averiguar a natureza da cabana primitiva ocupou os espíritos mais agudos do ofício, e nem todos com a fineza de um Proust. E não é inocente a travagem repentina desta marcha em Le Corbusier, a acreditar que a História é uma marcha imparável. A razão que nos governa com determinação desde Newton tem proporcionado à espécie magníficos avanços técnicos e materiais mas não tem caucionado respostas satisfatórias a ansiedades mais profundas. E não é lirismo nem superstição dizer-se que as questões que se levantarão a Koolhaas ao adormecer serão, provavelmente, as mesmas pelas quais Vitrúvio terá passado noites em claro. Exactamente as mesmas que deram origem ao mito, à religião, à filosofia, à arte. E aqui ainda andamos perplexos. As mesmas por que se queimam tantos cigarros. Esqueça-se o ambiente sócio-histórico de cada um dos estilos, esqueçam-se as disputas e as querelles, se vem primeiro a ideia se primeiro a forma, se a madeira se a pedra, se a pirâmide se a caverna e as belas prosas que nos chegaram, sabemos que um estilo é uma paciente elaboração da teia de relações que articula o homem com o que o rodeia. Sim, o cosmos, e não apenas o contextualismo (crítico), que permite ao Homem situar-se num Universo desconhecido. A ciência tem-nos trazido notícias, quase diárias, do recuo do desconhecimento, mas ela própria sente-se incapaz de verificar as causas primeiras, mesmo com todo o dispositivo tecnológico à disposição. Recorro à noção de abrigo, ou antes, a um possível significado de abrigo, que poderá, por hipótese transcender cada um de nós para se situar no plano simbólico e de facto, da manutenção da espécie: no abrigo descansamos, preparamos o alimento, procriamos. E tendo a achar que o significado do abrigo e da arquitectura se atravessa neste plano, do símbolo e do mistério existencial, mais largo que a boutade da máquina de habitar. E ainda que a máquina de habitar tenha produzido belas obras, e ainda que possamos, num esforço hermenêutico que contrarie o cerne do aforisma e da intenção do autor, atribuir uma função simbólica que se evidencie também no form follows function, a realidade é que o abrigo produzido sob a estrita prescrição do funcionalismo pura e simplesmente foi recusado pela ansiedade com que se estende a vida perante outras realidades mais largas que o trivial quotidiano. O exemplos são muitos e um deles é a própria Ville Savoye, logo abandonada pelos donos aos animais e transformada em estábulo para ressuscitar, após a II Guerra como casa-museu. Não valerá a pena aprofundar muito sobre a Casa Farnsworth e o penoso processo que opôs a cliente (e amiga) de Mies ao arquitecto de uma casa que o não chegou a ser. Serão experiências radicais e necessárias. Assinalam uma época, qualquer que seja, mas trazem mais de provocação que de conclusão, evidentemente. O abrigo, e a arquitectura como primeiro abrigo, (certo, somos pós-freudianos, sabemos do líquido amniótico), convoca o arquitecto à exigência de pensar, em projecto, em todas as relações que transcendem o indivíduo e a praticabilidade quotidiana da arquitectura. São essas relações que, mais ou menos evidentes, mais ou menos mensuráveis (intuição?), apelam incessantemente à procura da origem (do princípio e da causa). Relações que o racionalismo não poderia responder. (Mas mais, o racionalismo, ao eliminá-lo, ainda levanta o problema estético.) Mas concordo que visto dessa maneira apresentes um panorama retroactivo do fim da História. Temo que ela ainda não tenha terminado. Esta arrogância da razão são 4’33’’ à espera de Godot. Não mais que isso. adenda: Qualquer coisa como isso. |
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