um lugar no mundo#3

Rasurar o mapa e mergulhar na multidão. Cidade, City, Downtown, Baixa, Rio de Janeiro, Londres, Nova Iorque, Lisboa. Interpela-nos a multiplicidade, sei-o clichet, mas é a diversidade. Wall Street funde-se confunde-se com a main street, as lojas da 5ª Avenida com as da Almirante Reis, Luanda e o Golfo da Guiné – via Salvador e a História contada em português – com as tribos da floresta impenetrável. E falou-se sábado à noite dessa possibilidade única, e Histórica, de um reconhecimento do mundo, em português, pela miscigenação: cada um é um, no seu estatuto ontológico, dito nomeado em português do verbo ser e do estar, e por ser e por estar se uma hipótese provável e possível para uma nova filosofia pós-heideggeriana?


Rasurar o mapa do conhecimento, todas as possibilidades são maiores no não conhecer: um edifício baptizado Oscar Niemeyer que, com certeza, se o souber, o abjurará, no seu monumentalismo para-fascista, longe do desejo imenso da liberdade da elegante e infinita curva niemeyriana; Le Corbusier aqui, daqui, detestava a Baía da Guanabara, como detestava Manhattan, como não contava com o indivíduo e a sua irrazoabilidade, na infinita utopia cartesiana – Le Corbusier terá saído de 30 dias daqui a pensar noutra techné que não a da razão; Oscar Niemeyer emulado em brise-soleil repetitivos e burocráticos, como perplexidade diante do estatuto da obra arquitectónica na era da reprodução técnica; calcário importado no embasamento do clube dos empresário, a ostentação do poder sobre o solo antigo de granito; homens graves de fato vincado e gravata italiana, a calcular o optimismo do Brasil BRIC, um mulato de terno tropicalmente aprumado, descamisados cobertos de camisolas do Flamengo, mulheres bonitas e tristes; a boca do metro dentro de um mercado de produtos hip-hop, tanto quanto uma t-shirt do Barcelona FC ao som ruidoso de Beyoncé; edifícios do capitalismo concreto, monumentais monólitos na era i’m a whore Phillip Johnson Sony Building, igrejas coloniais, blibliotecas reais – D. João VI fez embarcar os livros e o prazer e a loucura; viadutos barreira amplificadores do ruído ensurdecedor das máquinas portuárias.

Rasurar o mapa é nem sequer desejar ter mapa. Um passo em frente, outro errado, da larga Av. Presidente Vargas – um ditador adorado? – ao lado a favela. Rasurar o mapa é o melhor. E construir um caminho como os construtores das favelas: recolher reconhecer roubar a matéria e as sobras das cidades e da vida, sem projecto, logo sem um tempo de um fim.

Rasurar o mapa: vibração distorção.

intimidade


[Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Lúcio Costa, 1956/1968]

Reconhecer a dócil curva da intimidade sob o pesado betão silencioso e optimista da modernidade.

FÁBRICA DO POEMA

In memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitectura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa
palavra por palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das
britas
e leite de pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por
fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do
vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera
sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos
moucos, assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas,
oxímoros sumido no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o
recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até à escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
que a palavra "recalcado" é uma
expressão
por demais definida, de sintomatologia
cerrada:
assim numa operação de supressão
mágica      vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão chave é:
sob que máscara retornará?


(Algaravias)

[ FÁBRICA DO POEMA, Wally Salomão]

um lugar no mundo#2

i.
The world is NOT flat: talvez não tenha Friedman conhecimento de outras hipóteses de mundo que não o da linearidade veloz das trocas que convergem aos milhões de ecrans globais. O morro, por exemplo, antítese da hipótese planificada/planificadora de desígnio ilusoriamente previsto.
O mundo plano, a recusa das categorias da precariedade, do improviso, do imprevisto, do inusitado, poderá até servir como crítica às alcatifas esterilizadas dos escritórios multinacionais de Nova Iorque, aos armazéns estandardizados de Paris, aos franchisings assépticos de Lisboa, não contemplará a insubmissão com que o outro mundo, fora da rede e de outro plano com outro desígnio que não apenas o da rede. Outro mundo, insubmisso e tumultuoso, além da linearidade que se nos apresenta como um paradoxo de Zenão, ou da previsível instabilidade quieta da rede.
Por uma técnica do bem-estar (material), o mundo plano recusa o alarme e a surpresa e abraça a obediência, compromete-se num traiçoeiro desvio moral que oblitera a condição do viver e do não viver, do continuar vivo e do não continuar vivo, como não decisões que recusam forçar o movimento das coisas reais.

ii.
Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem.

[Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares]


E se essa técnica outra da construção for o amontoar das formas e dos recursos naturais e técnicos e humanos, por uma lei que os políticos e os planeadores e os urbanistas e os arquitectos desconhecem, sem outra lógica de a da necessidade, da recolha violenta do que sobra desses elementos anteriores, de um desejo de comunidade?
Altar e sabedoria não dita, não escrita proscrita da condição precária que é a dos homens, das construções e das cidades.

iii.

[Café Benfica, R. Siqueira Campos, Copacabana, Rio de Janeiro]

A liberdade como técnica da reorganização do mundo terá o preço necessário de uma re-conquista do real rua a rua porta a porta. Erros, recuos, dúvidas no endereço das coisas dos outros, equívocas direcções, cruzamentos indecididos, mapas imprimidos massificados que nos não servem ao nosso desconhecimento, uma esquina do mundo abre ao espanto. O mundo novo, um mundo novo, depois de despidos que somos do cinismo das coisas (re)conhecidas, será uma capacidade já esquecida de interpelar a História.
É possível que a insurreição da novidade seja uma outra re-significação do que antes, à mercê de frágeis e intangíveis construções mentais, fosse o pasto de uma realidade irreal, provavelmente constituída de pedaços de desejo e de música. E talvez seja possível que a razão que nos cabe seja a tentação da construção de uma História que ultrapasse a da natureza sem história que apenas se repete: uma tentativa histórica de encontrar ruas novas desconhecidas escolhidas decididas a partir de coordenadas frágeis e, sempre, outra vez, de desejo.
Como um estado de infantil surpresa, outro olhar novo quando olhamos para o que todos olham, o suficiente à reordenação do mundo.

um lugar no mundo


[R. São Clemente com a R. Dona Mariana, Rio de Janeiro]

Não é a húbris da The Economist, é antes disso a mistura: da natureza insubmissa com as construções; as escalas múltiplas dessas construções, que reverberam os contrastes maciços da geografia; os sucedâneos gloriosamente falhados de um Niemeyer omnipresente; o cheiro de florestas dentro da cidade; eras de esplendor na pequena moradia de um bairro de moradias e edifícios à la carte (de Atenas) e ilusões de um neo-brutalismo britânico na marca de algum concreto mais cru; tudo em ‘vias de’, longe do remanso aparentemente tranquilo com que o capitalismo hard coisificou, igualitarizou, plastificou, turistificou as nossas cidades da velha Europa.
Ainda não é a cidade. Uma esquina, apenas.

do sul e outros hemisférios


sem lenço e sem documento