alguma coisa está fora da Ordem*


[Alfragide]


Muito se têm questionado os arquitectos sobre a actividade da Ordem que os representa. Mais ou menos solitárias, estas reflexões surgem periodicamente na imprensa coincidentes com momentos relevantes da vida social, económica e cultural da nossa comunidade. Sugerem-nos e confirmam-nos estas ocasiões o íntimo e inelutável vínculo da arquitectura com a sociedade em que actua. Daqui, ser a arquitectura uma actividade de alcance social. Daqui, ser o trabalho do arquitecto, mesmo que voluntariamente refugiado na mais profunda solidão, representativo dos movimentos sócio-culturais que atravessam o nosso país.
Mas estar em sociedade não significará ser refém dela. Creio, aliás, que é também da essência da arquitectura um olhar crítico sobre os múltiplos domínios em que age. Da economia ao ambiente, das paisagens às geografias humanas, do território e das cidades ao íntimo gesto doméstico, da história e da tradição ao quotidiano, numa dança permanente entre escalas, tipos e saberes, que confluirão, consciente e inconscientemente, no projecto de arquitectura. É desta instabilidade entre o real e o especulativo que a arquitectura poderá ser operativa, justamente como pensamento sobre real, como actividade cultural.
Vem isto a propósito da divulgação pública do estudo do Prof. Augusto Mateus. E seria profícuo pensar a intervenção da Ordem dos Arquitectos, naquilo que está consagrado na alínea a do Artigo 3º dos seus estatutos -«contribuir para a defesa e promoção da arquitectura e zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de arquitecto» - a partir deste estudo encomendado pelo Ministério da Cultura.
O campo de intervenção do arquitecto, que se tem alargado nos últimos anos, não deixa, naturalmente, de estar ligado à indústria da construção. É pela construção que a arquitectura torna sensível o que antes é uma ideia; é pela construção que a arquitectura regressa e opera no mundo; é pela construção que o trabalho do arquitecto ganha especial relevância, no encontro com o trabalho dos outros de quem depende o erguer da arquitectura.
Numa economia em que o grosso do investimento é dedicado à construção, aproximadamente 50%, em que este sector é responsável por 10% do emprego e com um peso de cerca de 5% no PIB, os números trazidos à luz pelo estudo do Prof. Mateus suscitam alguma perplexidade. No sector cultural, segundo o mesmo trabalho, a arquitectura representa 0,6% do emprego e 0,7% do valor acrescentado bruto. Porque entendemos que o património da OA deverá ser a defesa da arquitectura e não dos arquitectos, achamos surpreendente o silêncio a que a mesma se remete face a estes números. Ou talvez seja este silêncio ruidoso consequência da inoperância da OA para além dos limites da gestão burocrática do dia-a-dia.
À visibilidade que têm adquirido alguns nomes da arquitectura portuguesa não tem correspondido o necessário esforço da estrutura da OA em aproximar-se dos reais problemas que afectam a prática profissional: dos sub-humanos recibos verdes, campo fértil de mão-de-obra barata para grande parte dos escritórios, à titubeante reacção – quando deveria ter sido acção – relativamente às adjudicações directas da Parque Escolar. Há todo um campo de acção em que a actuação da OA tem sido, no mínimo, omissa ou insuficiente.
O ensimesmamento da OA não pode ser justificado pelo pouco domínio do público do discurso disciplinar, numa espécie de ciclo fechado e cada vez mais diminuto, que resulta na quase irrelevância da OA na sociedade. Mais uma vez a frieza dos números pode deixar-nos atónitos: somos mais de 16.000 arquitectos, membros da OA, sem que esta seja capaz de produzir um discurso público e social pouco mais que vago e indiferente.
Indiferença de dois sentidos: se a OA é relapsa em ler os sinais da sociedade, é ela própria incapaz de produzir sinais que identifiquem a arquitectura como uma actividade essencial ao ordenamento do território, à adequação das múltiplas actividades e funções humanas ao bem escasso e precioso da paisagem, à importância cultural e vantagem económica do trabalho do (e com) o arquitecto em qualquer escala da construção.
Com certeza muitas das respostas a estas questões necessitarão de reflexão profunda e grande parte delas radicarão na estrutural crise que o país atravessa, mas o mutismo por que se tem pautado a OA nem dá resposta à sua missão de defesa e divulgação da arquitectura e muito menos dá expressão àquilo que, em primeira análise, a fez constituir-se, ser uma organização de valor social.
Porque só há um princípio a que a realidade está condenada, que será o que queiramos que seja, pode ser que um dia os arquitectos queiram uma realidade diferente.



*Caetano Veloso

um recuo do mundo


[Lote 12, Angra do Heroísmo, 2008]

Sendo que o inverso é também da arquitectura: nomear, como significar, é trabalho do construir.

a memória, a história, o esquecimento*


[Habitação Multifamiliar, Ourém, 2003-2005]


A ruína, que é a realidade arquitectónica exposta aos elementos, ao tempo, a pedra que se expõe na sua decrepitude, a ruína da presença e do presente. Ícones e fantasmas, imaginação e imagens, trabalho do futuro na devastação do presente, as casas e as cidades se transfiguram na incerteza. Possivelmente mais certa que a ideia de progresso, que já abandonámos, resta a ideia da ausência que lentamente se aproxima do fim da esperança.
E talvez a ruína seja o instrumento crítico mais preciso: a aparição do que, inelutavelmente, não se poderá esquecer. Como se as coisas se desligassem de si e do presente em favor do destino. Um espectáculo daquilo que já não é mais.

Caberá ao arquitecto reconhecer que a construção em que se empenha, as ligações que propõe, a realidade que inventa – que é ela própria uma outra realidade imprevista ao tempo da construção – não o é sem o território que lhe dá um nome. E que o seu trabalho não é mais que um sopro destinado ao esquecimento.



*Paul Ricoeur

saecula seculorum


[El Cielo Gira, Mercedes Álvarez, 2004]


Cega, a acção da memória pela mão, antecipa a visão das coisas mediadas pelo desenho. Um contorno, um rasto na página, um risco pista, um imagem ainda e já ruína. Uma da inscrição, uma entidade difusa, uma identidade vinculada às oscilações do tempo. E do espaço.
«E porque ficamos com tantas memórias?» Ruínas físicas numa paisagem que se eleva sobre as cidades que se escondem. Submersas, debaixo da terra e das memórias também já elididas, apenas reminiscências escavadas ao ritmo lento das estações.
Um sopro: lembrarmo-nos de qualquer coisa é lembrarmo-nos de nós mesmos? O curso da história, a memória com relação ao passado e como possibilidade de conduzir a lembrança. Pensar, filmar, a ruína como um tropismo da memória. Quando o mundo, as coisas, no seu definhar lento, subsistem pela memória que também definhará logo após a liquidação da lembrança. Morrer. Morrer duas vezes. Morrer várias vezes até a lembrança se extinguir na Terra. Um outro encontro do lugar das coisas com o tempo.
A passagem, a aparição mnemónica da lembrança, no instante de uma vida logo perecerá. Sobrarão as casas, lentas, e elas soçobrarão ao abandono. O intervalo, o entre, ainda não a representação de uma coisa ausente, mas a imagem como lembrança. Que se sucedem umas às outras.




Até que «de repente, uma noite, as igrejas ruíram todas juntas».
É esta a memória, imprevisível, das ruínas da tua passagem.

aprendendo com a estrada nacional


[A Rua da Estrada, Álvaro Domingues, 2010]

Um guia para os perplexos.

da recepção social e da representação cultural da figura do arquitecto em portugal nos últimos vinte e sete anos


[Origens, RTP, 1983]



[Mar de Paixão, TVI, 2010]


E lembrando a repercussão pública da divulgação dos vídeos caseiros do arquitecto Taveira, no apogeu da ideologia do sucesso de um Portugal moderno e europeu - representado nos reflexos glossy do Centro Comercial Amoreiras - em finais de 80 e inícios de 90, e o contributo do mesmo para a atracção e representação glamourosa - e equívoca - da profissão e da figura do arquitecto como modelo social. Da televisão. E do sucesso.

Mas, parafraseando Gil Scott-Heron, a arquitectura não será televisionada.

da riqueza e da pobreza das nações

Quem sabe, é a corporate architecture a que melhor guarda o arquitecto, preterido nesse desígnio da auto-representação do esplendor da corporação?, escusando-o de tornar visível, pela arquitectura, qualquer tipo de contradição social. A marca, a corporação, é uma entidade social totalitária, ou que o deseja sê-lo. Uma arquitectura do detalhe será a que melhor faz representar o desejo totalitário, globalitário.
Mesmo quando a marca se ergue a partir dessoutra marca, a do arquitecto, aqui chamado apenas para legitimar um design da aparência. Uma ideologia da emergência da imagem, destituída de qualquer outro símbolo que a auto-referencialidade, a auto-exclamação, o anúncio de um poder.
Demasiado pobre.

E depois há as reproduções atávicas. E feias. E num contexto, diria, equívoco, compósito de junkspace e de zonning anacrónico.
Ainda mais pobre.

[Edifício Atlantis, autor desconhecido]

disrupção

Uma teleologia da harmonia: continuidade.

este lugar não será mais o mesmo sem ti#2


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


Da ruína e construção, ainda no tráfico do corpo, são as cicatrizes, as fendas abertas na cidade. Qualquer intervenção no corpo, a cirurgia, é a violência da vontade – ou necessidade, não discuto – contra a carne. E daqui às metáforas e a uma linguagem cirúrgica para falar de cidades?
A imposição moderna é uma imposição higienista . E a contradição é evidente, nas imagens, da vontade da política e da arquitectura, contra o chão mais antigo que a incisão funcionalista. O cartaz da utopia arquitectónica, um bairro novo, aberto e plantado de palmeiras, financiado pelo «fundo de coesão» da União Europeia, sobre as ossadas dos romanos encontradas nos primeiros movimentos das máquinas: «uma limpeza étnica», como alguém em passagem diz.
Pode ser um filme sobre exílio: daqueles que na sua cidade ficam sem o seu lugar.

o elogio da sombra


[Kowloon Walled City, Hong Kong]

Esta penumbra é lenta e não dói
Jorge Luís Borges


Caminhamos e circulamos não cessamos de voltar: o risco da contemplação onde arquitectura e espaço tendem a tornar-se sinónimos é um alargamento excessivo da ideia de arquitectura até nos dissolvermos numa coreografia extensa, ao ponto de acabarmos por perceber a arquitectura em tudo; o risco de fazer transbordar a arquitectura de um conceito até se chegar à ideia totalizante, apesar de sedutora, da arquitectura como uma tecnologia do ser. Um muro instaura um espaço, um chão e um tecto e a luz a perscrutar organizam a arquitectura. E a luz e os homens encarregar-se-ão de inventar uma arquitectura sem arquitectos e cidades confundidas com o próprio espaço que ocupam.
Então o tempo tomará as pedras pela mão: imperfeitas, impermanentes, incompletas.


adenda: a Nancy dormiu em Chungking Mansions.

este lugar não será mais o mesmo sem ti


[En Construccion, José Luis Guerin, 2001]


À arquitectura como corpo, ideia avançada pela História, reconhecer-se-á a necessidade da estruturação desse corpo. Cimento, ligamentos, películas, ossos, pilares, polietileno extrudido, organização das partes, aparência da beleza e ocultação do, genericamente, funcional – já um dia considerado o belo -, orgânica mecânica do erguer da arquitectura. Uma construção, uma disposição no tempo, uma vontade sobre a matéria-mundo.
Também uma cidade, como corpo, necessitará, porventura mais urgentemente, da disposição voluntária dos homens sobre a matéria. Ruas e casas, organizados na democracia do mercado segundo os critérios hediornos, urgentes, que, muitas das vezes, fazem subsistir a circunstância sobre a estrutura. Será do domínio da contingência a construção. O erguer das casas e organizá-las nas cidades.
A construção da arquitectura, um processo físico, um sistema de experiências mentais, que se prolonga no tempo e no lugar que antes da realidade prometida em projecto – a ilusão do arquitecto – provoca e desperta uma outra realidade. Porventura ainda caótica, desorganizada. Quase tão repelente quanto as entranhas do corpo a céu aberta, as entranhas de um edifício em construção. Apenas amadas por uns quantos, um mestre de obras feliz na resignação com que já se habituou a que o arquitecto lhe esconda o labor das mãos por paredes e revestimentos como a carne à volta da alma.
As metáforas talvez sejam infinitas, uma maneira imperfeita de dizer o que não se conseguirá, mas talvez como o cimento, uma fibra, José Luís Guarin filme as partes da sociedade, uma pequena sociedade, um bairro, as ligações e as disrupções, a vida, como, por metáfora, se constrói uma arquitectura. E de como ela é no meio das outras arquitecturas.

cataguases


[Residência de Francisco Peixoto, Óscar Niemeyer, 1940-1942]


Modernismo iluminista: quando a indústria se fez rodear pelas vanguardas e inventou uma cidade.

via António

riscar o chão


[Beacon Events, Merce Cunningham Dance Company, 2008]


Aproxima-se o arquitecto do coreógrafo pela escrita no chão. Agrimensores da primeira experiência do espaço, a experiência do corpo. Desenhar os gestos, riscar a areia.
Era Merce Cunningham quem dançou como habitou.

distúrbio de pânico


[OUTrial House, KWK PROMES, Polónia, 2005/2007]


Reserva insondável do projecto de arquitectura será crer-se o arquitecto como um apóstolo do futuro. Porque um projecto de arquitectura é um projecto tecnológico, dos meio e da expressão do fazer. Uma prescrição de possibilidades pela matéria, organizada pela «chosa mentale», intuitiva e inventiva e imaginária, da qual, na possibilidade desse possível fazer-se real, terá, necessariamente, consequências físicas na organização até do gesto mais íntimo de cada um. Um projecto de arquitectura é também um projecto político. Um projecto sem lugar ainda que não no espaço mental do arquitecto que, naturalmente, na loucura utópica tratará das possibilidades que a matéria e os recursos técnicos lhe oferecerão. Equilíbrio precário entre o desejo e o real.
Ainda que o belo como motivação, é pouco evidente hoje, nos discursos por aí anunciados, o desejo da beleza pela arquitectura. Ou antes, a beleza como palavra proibida num discurso tecno-científico, árido, a modo de se auto-legitimar. E já não nos parece clara uma ideia óbvia de beleza. Nem de como construí-la.
Moda da crise - moda como outra qualquer que mais logo se desfará num pouco de abundância que nos retome - sustentabilidade, auto-sustentabilidade, ecologia, green, tornam-se num estéril manifesto de uma ambição desmedida do presente debaixo do manto diáfano da sobrevivência futura. A vitória do populismo e da demagogia, muito bem comercializada em renders e representações de pedaços perdidos do paraíso que apenas se encontrarão, presumo e não quero ser catastrofista, nos discos rígidos dos hedonistas – hediornistas? - enfarpelados de futuristas.
Assim se vão plantando arbustos por tudo o que é cobertura, green roof assinalando uma preocupação com os amanhãs que hoje nos prometem um canto desafinado. Uma espécie de sobre-pós-hiper-modernismo, que, a custo da sobrevivência aflita, faz tábua rasa do passado, História, Técnica, Gestos, em honra da nova narrativa da salvação da humanidade: a ecologia. Uma narrativa política que, por eclipsar o passado, comprometida com uma promessa irreal de futuro, por se alimentar de meios indiscriminados e inadaptadas às diversas cirtcunstâncias, será ainda mais honerosa, consumirá ainda mais recursos. Uma arquitectura que disfarça a tensão do presente debaixo do tecto relvado que nem o mais inumano modernista alguma vez sonhou.
A vertigem do presente talvez seja não mais que o trauma do futuro.

excesso e crise#2


[Rien ne va Plus, Architecture in times of crisis ]


Des-.
Hiper-.
Desorientação. Desterritorialização. Desestruturação. Desilusão. Dessocialização.
Hipercapitalismo. Hiperindividualismo. Hipertécnica. Hiperconsumismo. Hiperperfomatividade. Hiperconcorrência.

Sem distanciamento possível ao tempo do agora ressumamo-nos à condição de adiantar prefixos aos nomes da modernidade. Incompleta?, inacabada?, ou já outro mundo?
Ou a sedução permanente do presente, a tensão do prazer no instante imediato, sobre o eclipse das teleologias modernas, propõe-nos construir arquitecturas sem território, como zapping impensado. Ou arquitecturas de espaço impensado – físico ou virtual?; se esta dialéctica ainda é verdadeira?. E, ainda que a arquitectura seja, tenha sido, sempre global, na recusa de uma ideia limitativamente funcional, é a sedução irremediável, o estímulo permanente, a imposição mercantil a que se submete, um dever do projecto?
Ou mais livres como nunca, mais sós como nunca antes, desamparados mas permanentemente ligados, a questão de território e das solidões multiplicadas na abundância do supermercado infinito, levanta-se como a questão do abrigo íntimo, onde o corpo deixou de ser a âncora do real, e da cidade, que poderá não ser mais que uma rede tentacular, partilha anónima de solidões individuais, de identidades enclausuradas inaptas a povoar o mistério das passages e incapazes de uma decisão sobre a polis.
Com as estruturas fixas do modernismo redentor extenuadas, trabalhamos a partir da subjectividade excrescente, da hipertrofia individual, da reconfiguração ansiosa e instável da esfera íntima e social. Que possibilidade para uma arquitectura real? Violentamente do real.
Já nada é evidente.


adenda: «O que está a acontecer é a profanização espalhada pelas cidades. Subjectividades cada vez mais esvaziadas, formatadas, pré-fabricadas, etc...», José Gil

os redondos*


Entra-se num pátio anguloso e percebe-se que aquela parcela de edifício se contorceu para tornear a árvore. É ali, naquela sala da Faculdade de Arquitectura da UEM, em Maputo, que vai estar Pancho Guedes a conversar com quem veio para o ouvir. A sala encheu e até se improvisaram outras filas.
“Os redondos. Hoje vamos falar dos redondos.” Magro, hirto, de voz ténue e olhar brilhante. Segura o microfone de forma distraída e vai-se entusiasmando com o que mostra.
É evidente a relação entre os projectos do arquitecto e a construção local. A palhota central rodeada de outras onde se instalam visitas, família ou outras dependências da casa. Esta organização é transposta para os projectos de residências familiares que Pancho idealizou, e muitos realizou, acrescentada de varandas, muros, zonas de estacionamento, torres e outros pormenores.
Fluem desenhos feitos à mão, axonometrias, alçados, esquiços, maquetas. E histórias sobre as construções, as encomendas, as famílias, as funções, os amigos. Um desfiar também de advertências, de considerações, explicações. Confessa o seu prazer de inventar, de desenhar, de erguer maqueta, e de retornar e redesenhar, repintar, refazer…. Revela o cansaço da construção e o estorvo de terminar, de entregar.
Na sequência de imagens aparece um quadro. Uma pintura de Malagantana. Por fim o desenho do Centro Cultural de Matalane onde convivem os redondos de Pancho com os quadrados de Forjaz.
Malagantana levanta-se, e no seu andar lento e arredondado, sobe o estrado e fala da intimidade. Da impossibilidade da sua arte sem o arquitecto, da impossibilidade da arquitectura sem a arte.



Elisa Santos


*a pedido e a propósito de uma aula de Pancho Guedes na Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
fotografia, Mauro Pinto

amarcord


[Lote 4, Angra do Heroísmo, 2008]


Amarcord, foi o nome que o cliente lhe deu.

paredes zig-zag


[apartamento apê, Rio de Janeiro, 2010]


E num pequeno apartamento, zig-zag, mar largo, em frente ao Posto 8, entre Ipanema e Copacabana, em modo singelo de Marx, o primo, e da curva tropical, por puro capricho do arquitecto?

excesso e crise


[For The Love Of God, Damien Hirst, 2009]

A arquitectura será certamente um território de inscrição da diferença cultural. Torná-la porém refém do pêndulo das modas críticas será restringi-la naquilo que seja a sua essencialidade e na sua operatividade sobre o real. Dizer que nos últimos vinte anos o que de maior monta sucedeu no cerne disciplinar tenha sido a feminilização será excessivo, ainda que dizê-lo seja relevante. Mas talvez essa maior relevância releve do domínio cultural, mais largo, que do estritamente disciplinar.
Colocar a arquitectura no contexto interdisciplinar, referi-la de acordo com as mais pertinentes grelhas críticas, será também uma forma de, na sua produção e prática, explorar a competência crítica da própria arquitectura e torná-la pertinente à luz da realidade. Contudo, em vinte anos de aceleração veloz e travagem brusca, creio que seria justamente este o tema: o excesso e a crise.
Vinte anos de artificiosos formalismos - falo do mainstream e creio que o texto de Figueira também fala do mainstream - via o incremento da velocidade de circulação das imagens, com o beneplácito de uma crítica cada vez mais deslumbrada e a-crítica, e uma produção cada vez mais ensimesmada no desejo de forma que, somos arquitectos, não será outro desejo que o mesmo de Narciso e depois, o agora, na crise e na catástrofe, em que a crítica e a prática se dividem, inseguras e inquietas, nas respostas sobre a necessidade da profissão do arquitecto. Vinte anos de um estilo individual, individualista, excessivo, sobre os escombros de um estilo internacional, o cinismo sobre o fim do optimismo, ainda que, naturalmente, um movimento anterior a 1990. A década de noventa e o paroximo do optimismo vertiginoso, um fim da História e o triunfo da vontade capitalista em estruturas cada vez maiores e assépticas (e a democracia não conta). A História reaberta debaixo do sangue e do colapso bárbaro das Twin Towers. O estancar abrupto dos fluxos de capitais e a emergência de questões e de latitudes que não se comprazem nem se adequam às estruturas – arquitectónicas e mentais – do Ocidente em queda. Por aí, por aí.
Ainda para mais, e isto não é de somenos, os centros de produção teórica e prática já não serão os que reconhecemos nos nossos anos de formação.

ficção científica

Apenas construímos aquilo conhecemos.

a posição do missionário



Admito que seja da usura do nome ou até das lentes cínicas com nos vamos defendendo por aí. Tomar a razão da arquitectura pelo seu próprio desejo. E pelo desejo do arquitecto que deseja a arquitectura para sua individual salvação.
Não existem fontes funcionalistas para a arquitectura, ou desconfiamos delas. Recusámos a ideia estreita do progresso social erguido pelo betão aço vidro. A profecia modernista jaz nos escombros de Pruitt-Igoe. O higienismo e a eficácia e a propagação da luz de uma civilização internacional deixaram de ser a motivação, soçobraram às infinitas latitudes individuais, órfãos de uma Ilustração que hoje se reveste na promessa fascista de uma vida eterna e asséptica – com menos encargos para os Estados e mais dividendos para a indústria da «saúde». Da História já nos lembramos pouco e só o fazemos por um punhado de imagens sinapses na rede. O social é o terminal, num o ecran infinitamente portátil.
E isto tudo são pretextos.
Romantismo maior será o de ainda, hoje, afirmar-se como da arquitectura isto tudo que lhe reconhecemos, pela História e pela Teoria. E agora, depois do séc.XX, quase tudo nos parece perecível, falível, insatisfatório, redundante. Que foram as promessas da História, ou prescrições que a necessidade do século foi destacando a cada tempo. Que foram, sem o sabermos, pretextos que abriram caminho para que hoje se possa afirmar a arquitectura como objecto único da vontade.
E isto tudo são pretextos.
Se tudo são pretextos, tudo é-o na realidade. Um princípio da realidade: trabalhar com a realidade será a única maneira de trabalhar para a realidade, se o desejo é o de a transformar e alargar. E acreditando que a arquitectura é também uma maneira do conhecimento, uma via para a compreensão das coisas, um jeito da representação do real, uma profecia do futuro e uma voz do passado, é ir acreditando que através dela o arquitecto, o homem, um dia a si próprio poderá chegar a compreender-se. E a redenção, já não a colectiva, que a redenção é sempre no murmúrio do coração, sabemos, pela arquitectura, não mais que uma maneira de procurar, de cavar, na liberdade.

O resto não era romantismo. Talvez apenas ingenuidade e uma anacrónica crença – muito moderna – como tendo a arquitectura a missão redentora e a civilização dos povos como fim último.

Há o perigo de cada um deixado à sua loucura. É um risco. Mas é para isso que servem as cidades. Se servirem para alguma coisa, tornar todas as loucuras em acordo.


para o Pedro

ilusão


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]


Escapar à beleza das imagens que nos escapam em Fata Morgana é a tentativa seguinte. Pungentes, na contemplação do deserto e das cidades, pujantes, no que de inexplicável e maior foge ao entendimento. E talvez o deserto seja a contemplação mais verdadeira de nós mesmos. Diante do infinito, a consciência clara da nossa finitude. É essa consciência que nos convoca ao rigor dos limites.
Fata Morgana, a ilusão óptica, da térmica, o fio limite do horizonte, ou a ilusão do limite. O céu que se com-funde com a terra, ao longe. A natureza do limite, a ilusão da sua manifestação, a miragem do conhecimento da origem ou finalidade ou realidade.
Depois o homem – feito e refeito pelos deuses. Variações narrativas mitológicas da mesma imperfeição humana, corrupta e que corrompe a Terra. Depois a fome, a guerra, as cidades, os destroços humanos que os humanos destroçam. A distopia são destroços no deserto.
Depois uma promessa, o milagre e a abundância. Uma miragem a partir dos despojos do deserto do real.

numa esquina, em istambul


[Brukner Apartmanı, İhsan Bilgin 1999]

Não existe talvez condição mais nómada que a do amor. Aquela que se exila no trajecto constante entre o desejo e o desejado. E este pode ser um país. Ou uma casa. O amor, então, como a condição transitiva do encontro.
Uma casa encontro, uma casa passagem, se passagem pode constitui lugar. Ou um lugar constituído por efémeros, mas não menos intensos, pedaços de tempo que a memória carregará pelo futuro. Então os objectos que se juntam desses encontros fortuitos guardam-se. E num assomo de inocência, através deles resgata-se o passado fugaz e a perda.
A maior inocência seja a partilha da obsessão do passado remido na tentação desesperada de o fixar em fixos objectos desse tempo memória no presente. Daí em diante, sempre presente. Sempre perdido.


adenda: Istambul, estranha forma de vida

a natureza mais velha do que os tempos*


[Coração de Gelo, Werner Herzog, 1976] 


Há sempre a paisagem no início. A narrativa de Herzog é esta. A paisagem anterior ao homem. A territorialidade como abismo sensível, plano longo fixo, entre o tangível e o ininteligível. O Homem - a História - como intervalo, suspensão, brevidade entre o Génesis e o Apocalipse.
A paisagem é uma erupção, uma torrente, origem de tudo e ruína de tudo. Brutal, porque primordial e final, território de precipitação contínua pela inocência das coisas. Ou antes, o lugar das coisas antes de lhes tocarmos, como visão exacta e ao mesmo tempo sensível do lugar que lhes cabem no mundo. O sublime, a paisagem colossal, sempre inacessível, na sua completude, à câmara de Herzog. O esforço e empenho e engenho humanos são-no sobre a profundidade de campo de um espaço que isola a humanidade. O território em que humanidade se dissolve em toda a extensão da criação.



*
Mas eis o dia! Esperei-o e o vejo vir,
E do que vi o sagrado é testemunha.
A natureza mais velha do que os tempos
E acima dos deuses do Ocidente e do Oriente,
Desperta num estrépito de armas.
E do Éter até o fundo dos abismos
Segundo firme lei, nascido como outrora, do caos sagrado


sente o entusiasmo.
O criador de tudo renova-se.



[Hyperion, Hölderlin]

esquecimento contínuo


[Movijovem Youth Hostel, Paulo Street + Hugo Guerreiro, Penhas da Saúde]

Há qualquer coisa de histriónico sobre o aparentemente silencioso manto de neve branca. Uma topologia da globalização não implicará, necessariamente, a citação directa às imagens prevalecentes. Até porque as imagens que maior velocidade de circulação adquirem são, regra geral, as que o poder deseja que circulem. Logo aqui, a aventura da citação, ou a citação como método ou instrumento de projecto, prescrever-se-á de maneira cautelosa e muito prudente. Isto, claro, se houver alguma pretensão crítica, (repito: haverá arquitectura que o não seja?). Citar imagens será não mais que imitar outras representações do mundo ou, mais ainda antes disso, a simulação pela arquitectura de um outro modo de representação das coisas, a fotografia – com o consequente equívoco daquilo que e o como uma e outra, arquitectura e fotografia, pretendem.
Terá pouco a ver com uma citação mais profunda que residirá e decorrerá da memória e da permanente volubilidade da(s) memória(s) a cada contexto. A memória que se confronta com a História e, ou, o esquecimento.